terça-feira, 11 de setembro de 2007

Quando os homens também choram



Eu vi os tipos agarrados a chorar e tive vontade de chorar. Berravam o hino, como se disso dependesse a sua vida e a do seu país. Viam-se as bocas bem abertas, as mãos bem firmes no pescoço do companheiro do lado e as vozes roucas embargadas pela emoção de ser português e estar ali, naquela hora a empunhar orgulhosamente o “Nobre povo nação valente” perante o mundo. Mas eu vi apenas o que me deixaram ver. Eram os nossos primeiros representantes na Taça do Mundo de Râguebi, que se preparavam para jogar. O jogo, esse, não o vi, simplesmente porque o canal público, para o qual todos contribuímos alarvemente, achou que a modalidade não tinha qualquer interesse público(?), bom pelo menos não tanto como a cobertura ininterrupta do caso Madelaine baseada em fontes próximas da polícia e do casal, o concurso Herança de Verão onde uns tipos gamam a massa dos outros ou aquela novela portuguesa representada por actores brasileiros. Continuava com a imagem daqueles matulões chorando convulsivamente e não pude deixar de me sentir orgulhoso ao ver o orgulho que os tipos tinham do país. Mas apesar do sinal de patriotismo, o país parece que não reparou neles. Afinal porque vale a pena reparar nuns tipos que vão lá só para perder por menos de 50 pontos com a Escócia? Afinal somos um país regido pela excelência, onde tudo é soberbo, onde apenas interessa a vitória, estamos habituados a sermos os primeiros em tudo. Será assim desprezível assistir à luta de jogadores para não perder por muitos; nós só conseguimos ver alguém a ganhar por muitos! Talvez por isso o quarto lugar no mundial de atletismo de Naide Gomes ser uma desilusão. “Então e a medalha miúda? Tu não consegues fazer melhor do que seres a quarta melhor do mundo? …que miséria…”. Mas voltemos ao Râguebi e à única selecção amadora entre as 20 melhores do mundo. Aos tipos que se reúnem depois do trabalho para se embrulhar na lama, que perdem fins de semana para jogar em estádios com 20 espectadores, que jogam lesionados para que se consiga chegar lá,…à taça do mundo, para que o país se pudesse orgulhar deles, do seu esforço, da sua dor e da sua voz a cantar o hino. Mas a busca da audiência desenfreada, fez com que o esforço destes atletas, passasse à margem do país. E perdeu-se a oportunidade de dar a conhecer o jogo de Râguebi, um jogo onde se cultiva o espírito de superação colectiva, onde existe um confronto duro mas leal, onde os jogadores não chamam nomes ao árbitro, onde o adversário vencido saúda no final o vencedor, um jogo em que cada metro de terreno é ganho através de muita luta, dor e dentes partidos. Será que ninguém vê utilidade pública aqui? Utilidade de educar para a superação, para o esforço, para o “ir à luta”. Não é isto que o país precisa de ver? Não. Porque a maior parte da malta encara o facto de sermos os últimos da Europa como uma sina, um facto inalterável. Aqueles matulões que choraram a ouvir o hino, apesar de saberem que têm poucas hipóteses de vencer, vão à luta, dão encontrões, agarram as pernas dos adversários, espetam-se de cabeça no meio da molhada.
Já eu tinha começado a escrever esta crónica e, por pura e inusitada coincidência, um amigo enviou-me em email, a comparação desse momento sublime e enérgico dos jogadores de râguebi gritando o hino, com o momento apático e flácido dos jogadores da selecção de futebol a entoarem entre dentes a nossa portuguesa. É uma constatação paradigmática: Os que têm toda a gente a torcer e a cantar com eles, os que são vistos na TV, os que ganham balúrdios para darem uns pontapés na chicha ou não cantam o hino ou cantam-no baixinho; aqueles que não ganham um chavo, que ninguém sabe o nome deles, que para os ver tem de se pagar a mensalidade da sport tv, os que apesar de saberem que vão levar umas cotoveladas e placagens, choram como crianças com orgulho e felicidade de serem portugueses.
Tenho de arranjar maneira de ver os restantes jogos da selecção de râguebi, para poder cantar com eles aos berros o hino de Portugal, mas sobretudo para poder chorar com eles, por saber que alguém não baixou os braços antes de conseguir colocar dentro de um rectângulo aquela bola oval.

domingo, 9 de setembro de 2007

Flexi...deslizando


“Boa pai! Mequedonal! Mequedonal! Mequedonal! Um pai que leva os seus rebentos ao Mcdonalds, sabe que a comida é o que menos interessa, senão eles teriam essa expressão de júbilo, sempre que lhes dissesse que iríamos comer uns grelhados à tasca do Isaías. Eles anseiam sobretudo por colocar a mão dentro do pacote do Happy Meal em busca do brinquedo em forma de andróide ou princesa, aquele que adoram quando o vêem, e no dia seguinte já está na boca do cão. Passam assim a curta refeição a tentar perceber como funciona o andróide em forma de bicho, acabando sempre com a dúvida “Ó pai vê aí nas instruções se o dragão manda fogo pela boca ou pelo rabo!?”. Desta vez fui verdadeiramente destemido e levei-os em plena hora e dia de ponta. Comemos lá fora, facto que acelerou ainda mais o processo de fast-aspiração alimentar, uma vez que o parque infantil, estava ali demasiado próximo e apelativo. Deixámo-los ir e ficámos a observar o pandemónio. Naquele reduzido parque labiríntico, estariam uns 30 cachopos (se eram 15 pareciam 30) a correr desalmadamente para cima e para baixo, como se os carros inamovíveis se preparassem para arrancar a toda a velocidade e os deixassem apeados. Dentro do parque, lá no primeiro andar, ouvia-se um grito de miúdo vindo da escuridão tentando afugentar os que conseguiam subir as escadas. Aqueles que superavam o medo, lá mandavam um encontrão na fera e passavam para etapa seguinte, a dos carros suspensos. Dentro de um dos carros vislumbrava-se uma criança grande, talvez grande demais para alguém a tirar de lá à força. Uma rapariga pede para o mastodonte desocupar o lugar e ele lá desocupa contrariado. Desce com toda a sua massa corporal pelo escorrega e atropela um miúdo que se preparava para subir. Uma outra criança cai das escadas cá em baixo. Parece que o tipo dos gritos de monstro não gostou que o tivessem empurrado e empurrou o mais pequeno, quando este estava quase lá em cima.
Dizia-me o meu amigo João que também estava ali com os filhos “Já viste que com a idade destes miúdos, nós brincávamos nos olivais, e eles agora estão enclausurados aqui nesta caixa de plástico todos divertidos?”. Ao ouvir aquelas palavras e ao ver aquele enxame desorientado de cachopos, descobri as grandes virtudes que um espaço daqueles poderá encerrar em termos de formação das novas gerações. De facto, a sociedade portuguesa caminha para um sistema destes; um sistema fechado de exíguos labirintos, carrinhos minorcas e descidas de escorregas que terminam junto de novas e sinuosas subidas. A caixa labiríntica cheia de concorrência, representa a escola ideal como preparação para o panorama competitivo nacional. O panorama dos milhares de jovens em busca do estreito caminho para os poucos empregos, num mundo do salve-se quem puder, se necessário por cima do tipo que manda berros. É também disso que trata a flexisegurança, aquela invenção da malta ter 50 empregos ao longo da vida e dos patrões poderem despedir os empregados se embirrarem com a cor da camisa ou com os pêlos do nariz.
Cá em baixo estavam os outros 25 a jogar à apanhada, mas nenhum percebia quem é que apanhava quem. Tocavam uns nos outros, sem ordem ou coerência e fugiam uns dos outros,…sem ordem e coerência. Corriam era muito. Todos corriam, para todos os lados e o tipo de lá de cima continuava aos berros. No meio das perseguições viam-se uns quantos encontrões e tropeções. Os que se punham mais rápido em pé, subiam mais rápido pelas escadas e enfrentavam de forma mais consistente a besta dos berros. Como lá em cima só haverá lugar para 4, aquele que acaba de entrar, tem de arranjar estratégia de pôr um dos 4 a escorregar. Ou manda um berro maior do que o afugentador acompanhado por um estalo, ou consegue com falinhas mansas convencer o matulão a desocupar a cadeira do veículo, ou se desenvencilha de qualquer forma dos outros 2, que se encontram escondidos nos recônditos do labirinto. Caso não consiga pôr nenhum dos outros a andar, cabe-lhe o caminho do escorrega, ou seja, o da própria flexi-segurança.
Esta é a verdadeira escola. A escola do desenrasca; do mais espertalhuco; do matulão; do tipo dos berros, do que toca antes nos outros, do que manda melhores encontrões. De forma sábia, o sistema de ensino caminha no sentido desta aglomeração. Despacham-se os professores e fazem-se turmas de 35 alunos, para eles começarem a perceber a densidade humana que encontrarão na disputa do primeiro emprego e…seguintes. Abrem-se mais cursos, para que aumentem os indivíduos que jogam à apanhada cá em baixo e os poucos que conseguem lá chegar acima, ao pé do tipo dos berros, têm de ser mesmo os mais fortes, os mais rápidos e os mais desenrascados. Os outros, irão continuar a jogar todos contentinhos à apanhada , esperando que haja uma alma caridosa que cale de uma vez por todas o tipo dos berros, que já ninguém o pode ouvir…

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Aparições



Eu sei que não deveria escrever sobre a princesa de Gales. Mas escrevo porque já não tenho pachorra para ler mais nada escrito, nem ouvir mais nada falado, nem ver mais nenhuma imagem da rapariga. Estou a ser perseguido, diariamente, pela sombra da moça e começo a não gostar. Aliás nem ela deveria gostar de tanta barbaridade que se lê, ouve e vê sobre as suas preferências. Liguei o rádio do carro e…”faz hoje 10 anos que a princesa Diana…” apaguei o rádio. Comprei o jornal “Diana : Acidente ou assassinato?”. Mudei o campo de visão e lá estão elas, as revistais sociais repletas de descobertas e novas revelações: “os amores de Diana”; “Diana estava grávida mas não era do Dodi” ; “o príncipe era mau na cama e gostava de outra”; “perseguida pelos papparazi até à morte”; “traição do mordomo”. É de um tipo dar em doido. Mas o que é que eu tenho a ver com a princesa de Gales? O que é que nos interessa saber se era feliz ou triste ou triste e feliz; se comia bem ou mal ou mal e bem; se tinha amantes ou não tinha amantes ou os amantes é que a tinham a ela. Venera-se a divindade da princesa que morreu e lê-se em pulgas a última traição que cometeu, os desequilíbrios emocionais que tinha, a amargura em que vivia, as perseguições de que era alvo. Há qualquer coisa que não bate a bota com a perdi gota. A malta cria e alimenta a imagem da santa criatura, mas rejubila cada vez que dizem que a imaculada princesa até punha os palitos ao seu amado e esbelto príncipe. “Ó vizinha, coitadinha da Diana. Tão boa rapariga, ajudava os doentes, pobres e desfavorecido, e tinha de morrer assim de forma tão estúpida! Sabe….parece que ela e o príncipe, aquilo não andava bem; encornanços e coisas assim, sabe? Até dizem que engravidou de um tipo, mas gostava de outro que se pirou. Mas, ai, era tão linda, coitadinha que Deus a tenha!”.
Tenho de confessar a minha ignorância perante os feitos relevantes da princesa de Gales. Parece que deu visibilidade a causas humanitárias como a campanha contra as minas terrestres e a luta no combate à Sida. Mas quando ouço falar em causas humanitárias lembro-me dos médicos sem fronteiras e dos milhares de voluntários por esse mundo fora, que prescindem de mordomias reais para ajudar a tornar quotidianos de miséria um pouco menos miseráveis. E dez anos depois de muitos desses beneméritos morrerem, muitas das vezes atingidos por balas perdidas,… continua-se a dissecar a vida sexual da princesa do povo. A bem dizer, eles dispensariam essas relevantes coberturas jornalísticas sobre a tonalidade da sua roupa interior.
Agora estou mais interessado em dissecar outra Diana. A Diana Chaves, a nossa versão portuguesa de Diana, a mais solicitada pelos paparazzi nacionais. São anúncios de roupa interior, namoros com Cristiano Ronaldo, novelas bem produzidas , silicone nas mamas, tudo o que o povo gosta. É certo que ainda faltam umas infidelidades pelo meio e relatos de depressões, mas com o tempo lá inventarão qualquer coisa para a moça. Mas o que mais me surpreendeu foram as aparições (?). Não da Nossa Senhora de Fátima, mas da Diana nas discotecas. Até se diz que por cada aparição recebe um generoso Cachet. Só para aparecer; não fazer nada, nem servir à mesa, nem fazer malabarismo com bolas a arder, nem cantar umas musiquinhas, nem revelar segredos escaldantes, nada. Aparece a divindade, todos os homenzarrões se babam, para depois… toma lá a cheta e vai-te embora para outra discoteca, fazer mais uns milagres de veneração masculina.
Estou preocupado com a história da aparição, porque se a moda pega, haverá logo um espertalhão a dizer que viu uma aparição da Diana ,…a de Gales, por cima da casa dele, nos subúrbios de Paris, e que a entrada no seu quintal custará apenas 5 euros para o visitante, com desconto especial para crianças e idosos. Depois a malta pode acender umas velas ali entre o canteiro das rosas e a ameixieira, esperando que ela surja entre o nevoeiro e revele o seu segredo mais bem guardado: Qual o nome do imbecil que lhe fez o último retrato.

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

Trabalhar para o bronze


Foi com um optimismo renovado que encarei este ano as férias na praia. No sentido de ultrapassar a minha aparente incompatibilidade com a rotina balnear, decidi procurar de forma mais empenhada os prazeres que a praia me poderia oferecer, e lá fui cheio de confiança. Quando o despertador tocou às 7 e meia da matina e me sentei no bordo da cama a tirar a remela do olho, pus-me a pensar: Mas eu não estou de férias? Então,… porque raio estou aqui e não ali deitado com a cabeça no travesseiro? Mas era o espírito negativista a ver se me mandava a baixo, ao qual eu teria de resistir com o pensamento: Que bom que é aproveitar estes dias ao máximo! Fui todo contente abanar os cachopos. Depois de muito abanão, lá acordaram contrariados. Ao presenciar a sonolência infantil questionei-me sobre quem teria pregado esta partida a todas as famílias que vão de férias à praia. Primeiro dizem que o sol faz bem, está carregado de vitamina D, de cálcio, as crianças até crescem mais 5 cm, mas depois descobre-se que faz mal à pele e não podemos apanhar com ele às horas em que deveríamos estar a chegar à praia. Então em que é que ficamos? Faz bem ou faz mal? O sol faz bem com conta, peso e medida dizem os especialistas. Será que a medida dos benefícios dos raios solares tem relação com a medida das olheiras com que um gajo fica depois de 15 dias a levantar às 7 da matina? Não me poderia desviar da minha missão de alto astral e, depois de todos os afazeres de preparação, lá fomos com os inúmeros sacos, toalhas e brinquedos, conseguindo a fantástica “performance” de chegar à praia às nove e cinco. Os poucos que conseguiram uma marca similar, estavam ali como nós, enroladinhos nas toalhas, porque as propriedades medicinais do sol tardavam em surgir por entre a neblina. Ao menos assim também não fazia mal. Afinal o sol parecia querer irromper pelas nuvens e vamos lá despir as camisolas e espalhar o factor 40 pela epiderme, cuja enorme viscosidade, funciona como a melhor forma de atrair grãos de areia, que ficam ali colados na primeira incursão que se faz pelo areal, qual croquete em busca do seu pão ralado. Assim é que não há maneira do sol fazer mal: antes manda-se a argamassa depois reboca-se com o areal. Chegamos assim ao enigma supremo da praia: as virtudes do Banho de Sol. Já observei atentamente toda aquela malta de papo para o ar, quais girassóis em busca do melhor ângulo de incidência dos raios ultravioletas, ali parados, horas a fio, sem qualquer movimento, à espera de não sei bem o quê. Um tipo barra-se com factor 40 para o sol não queimar, e depois mete-se ali…ao sol para se queimar(?). Muitos usarão a expressão trabalhar para o bronze, como justificativo estético. Existe de facto um empenho quase profissional do pessoal do bronze. Mas o frete do trabalho é depois compensado pela aparência mais apelativa com que se fica nos 15 dias seguintes, com a vantagem de todo o pessoal do emprego poder dizer: - Com essa cor, estou a ver que tiveste umas brutas férias à beira mar! Um tipo exibe as férias sem ser necessário dizer nada. Agora o outro infeliz que vai dar uma volta pela Escandinávia, passando por Praga, Bucareste, Viena, Berna, Paris e termina pálido a comer uns torrões em Alicante, é brindado pelos companheiros com comentários entre dentes: - Coitado do António, a avaliar pelo aspecto esbranquiçado, vê-se que nem teve massa para gozar uns belos dias na praia!
Decidi que iria fazer como eles e pus-me ali ao sol a ver o que acontecia. Ao fim de 5 minutos já me sentia na fritura a aloirar. Suava pelo sol na fronha e suava por estar ali sem fazer nada e sem saber bem porquê. Como eu admirava aquela rapaziada que se mantinha ali firme e inerte a bronzear, incólumes a bolas na testa, a areia na cara, ao homem da língua da sogra. Eu não entendia tamanha tortura, mas tentava ficar ali como eles… - Ó pai anda ao banho! Gritava o meu filho impaciente. - Espera um bocado que agora estou aqui a apanhar um bronze!...fez-se silêncio…Estás aí a apanhar o quê? Perguntava-me o sábio petiz com uma expressão de quem poderia completar com um: É aquilo que se apanha comós gambozinos? …Não sabia responder à pertinente questão do meu filho e lá fui à água arrefecer. Parece que a água do mar das praias do norte tem mais iodo para quem… conseguir lá entrar. Temos de interiorizar a imagem do sueco que sai da sauna para os lagos gelados, para que consigamos entrar naquelas gélidas e petrificantes águas. Depois do ultrasónico-mergulho voltamos para a fritura, mas desta vez para ler o jornal, durante 5 minutos, antes do seguinte: -Ó pai anda jogar raquetes! A grande vantagem dos filhos pequenos é que não nos deixam entregues apenas à variação entre a fritura e o (abrupto) arrefecimento marítimo. Mesmo que nos apeteça ler um livro durante a fritura, existe sempre um castelo, um túnel ou uma pista de carros para construir na areia.
Acabei este ano a praia com a amarga sensação, de não ter ainda descoberto a fundo as virtudes dos banhos de sol e rotinas balneares. Mas não pensem que desisti. Apesar de estar no conforto do meu lar a recuperar das minhas férias na praia, tenho sempre a possibilidade de colocar a cadeira de encosto ali bem virada para os raios solares, que pode ser que me dê um dia a tal vontade de trabalhar para o bronze.

segunda-feira, 30 de julho de 2007

O triângulo perfeito

Já tinha interiorizado que iria para férias sem levar na memória qualquer tipo de lembrança desagradável, mas a imagem do tipo persegue-me para onde quer que vá. No entanto, decidi que desta vez não iria bater tanto no desgraçado, coitado, que está sempre a ouvir apupos de todas as esquinas, becos, ruas, drogarias, escolas, hospitais,…Aquele som do Buuuuu, não lhe larga os tímpanos e a carroçaria do seu Hiper-Mega-Ego blindado. Mas se um apupo incomoda muita gente, ao nosso primeiro-ministro incomoda muito mais. Penso que o indivíduo que apupa tem uma especial predilecção por quem gosta menos de ser apupado. Desenvolve um sistema olfactivo de detecção do “medo de apupo” e ataca repetidamente em som estridente, até a vítima fazer aquela cara de indignação e dizer que não entende nada daquilo, que deve ser para os tipos que estão do outro lado da rua. Quando eu pensava que já não era possível, finalmente o Primeiro Ministro teve um rasgo de inteligência e pensou: Se não podes vencer os apupos,…pira-te deles! E assim foi. Depois da monumental vaia durante a escolha das 7 maravilhas de Portugal, cuja intensidade e duração mediu meças com a imponência do mosteiro dos Jerónimos, decidiu entrar num período de quarentena de apupos. Assim, começou por inaugurar uma ponte sem aquela minoria de desordeiros e destabilizadores nas suas costas, pagos para estarem ali a gritar impropérios perfeitamente descabidos. Só os ministros, apoiantes de gravata e barreiras policiais estariam presentes. Foi um sossego; a sua voz ecoava doce e cristalina, sem a interferência de um Bu, um Filho da…; um Vai p’ra casa ladrão.
Depois foi àquela escola, dar conta do plano tecnológico, em férias(?). Mas, a esse pormenor, que descartava a rebeldia dos rapazolas malcriados e dos Professores ainda mais desordeiros, juntou uns alunos bem educadinhos, de forma totalmente espontânea e nada planeada. Chegou assim, triunfante à sala de aula virtual, acompanhado pela sua ministra e mais directa concorrente para o concurso do mais apupado, sem ouvir um único Apupo(?); a mais ténue vaia; o mais singelo “chega seu traste!”. Nada, só sorrisos, sobretudo do tipo que ia atrás, o tal que vendeu as máquinas ao ministério. O maldito e escarafunchador repórter tinha logo de perguntar ao aluno que estava ali sentado na carteira, de que tratava aquela aula, em tempo de férias, ao que ele respondeu qualquer coisa do género: “Não sei de nada disto! Disseram aos meus pais para eu vir aqui fazer uns sorrisos e eu vim; até pensei que era para tirarem fotografias para uma revista ou um casting para as Chiquititas!”. Quando o desordeiro do jornalista perguntou ao governante porque tinham pago ao miúdo para sorrir e fingir que estava ali atento à matéria, o governante foi totalmente imprevisível e disse que aquela organização não era nada com ele que não sabia de nada, mas que ia ver o que se passava. O tipo não pára de nos surpreender. Depois deu em percorrer a sala, metendo conversa com os miúdos, revelando o seu enorme potencial pedagógico e jeito intrínseco para lidar com a rapaziada. Então? Como te chamas? Agora diz-me lá ó Ruben se não achas que estas aulas virtuais são muito mais engraçadas do que as outras onde não se carrega em qualquer botão? Pois achas, vês?! É mais fácil não é? Olha até eu sei como isto se faz! É só pegar no rato e fazer a correspondência entre esta figura e a palavra que a representa! Estava a ver esta aula frutuosa e deu-me a nostalgia dos tempos em que ensinava o meu filho, aos 3 anos, a fazer aquelas difíceis correspondências com o marcador “carioca” . E por falar em nostalgia, a jornalista pergunta de novo ao Primeiro-Ministro se este não sente saudades dos quadros a giz e dos professores a ensinar, ao que ele responde prontamente: O futuro está p’rá frente! Já viu um professor desenhar com um giz, um triângulo tão perfeito quanto este que o computador faz? Não, pois não? Depois de calar o apupo da jornalista, pôs-se a pensar: Tão perfeito como o triângulo do ecrã, só as minhas respostas na ponta da língua, a minha capacidade de liderança e a civilização que eu irei criar, de preferência sem apupos e jornalistas por perto.

terça-feira, 10 de julho de 2007

Ajunta!...Ajunta!



Um professor sem a laringe foi considerado apto pela junta médica para dar aulas de Filosofia numa escola secundária. Se começássemos assim uma conversa com um amigo receberíamos logo a resposta “Seu brincalhão…, estás sempre na reinação” . Se eu acrescentasse que, depois do cancro e da remoção da laringe, o professor não foi apenas a uma junta médica, mas a várias e todas elas o consideraram apto para leccionar, o meu amigo não poderia deixar de responder acompanhado por um ar jocoso “Epá deixa-te lá disso, existem petas bem pregadas, mas com esse exagero ninguém acredita em ti!”. Só quando lhe puxamos pelos colarinhos e lhe dizemos com a nossa melhor colocação de voz … “É VERDADE!!!” é que ele nos começa a levar a sério. Eu acreditei logo à primeira, porque já conhecia as capacidades desses implacáveis personagens. Há uns anos, ao acompanhar a minha mãe, paraplégica, professora de Educação Física, que se preparava para pedir redução ao fim de muitos anos a dar aulas em cadeira de rodas, tomei consciência da extrema amabilidade como foi recebida: “a senhora é mesmo paraplégica?...” com uma cara de que faltaria ali acrescentar “…ou foi alugar essa cadeira de rodas ali nos chineses só para nos enganar?”. À minha mãe também apetecia responder “Não; sabe, é que eu tenho um gosto especial por actividades radicais com veículos rolantes. Há indivíduos que curtem o Skate, outros curtem as biclas e eu curto as cadeiras de rodas, dá para fazer mais manobras”.
Não sei como é feita a selecção dos tipos da junta médica, mas deve ser das provas mais duras que existem. Começam logo por incutir nos candidatos a máxima “O tipo que está à tua frente mente de forma descarada e não merece clemência”. Se ao fim de todos os inquéritos e atestados se descobrir que o tipo afinal não está a mentir, então troca-se pela outra máxima “o tipo que está à tua frente não mente de forma descarada e tu vais ajudá-lo a encontrar e a desenvolver o seu outro lado” . Um professor que não consegue falar, pode perfeitamente desenvolver outras capacidades como a comunicação telepática, através de ondas magnéticas, como forma de potenciar as aprendizagens dos seus alunos. Se os alunos não percebem patavina, terá de se esforçar mais um bocado e encontrar outras formas de comunicação; talvez através da mímica filosófica(?) . Mas quando eu penso nas provas de selecção do candidato a inquiridor da junta médica, existe uma imagem que não me sai da cabeça: a do jogador de Râguebi. Para além da cara de mau que tem de fazer para o seu opositor e do pescoço musculado que assusta qualquer criancinha ao pequeno almoço, tem de assumir a postura do “Aqui ninguém passa! Nem que seja o Papa, o Xanana ou a princesa das Astúrias. Vai tudo ao chão! ” E é assim que o verdadeiro avaliador da junta deverá agir. Sem compaixão; com dureza; pronto para aplicar a placagem no momento certo. Não importa que seja cego, surdo, mudo, paraplégico, esquizofrénico. Ou estão a mentir e são agarrados; ou não estão a mentir e…são agarrados na mesma, apenas com a diferença de lhes fazerem uma festinha no couro cabeludo depois de os mandar ao chão. - Vá, agora que já percebeste que não passas daqui, vai lá para o teu cantinho e não voltes a tentar a gracinha! A ideia base subjacente ao avaliador é a de que o indivíduo que está ali a pedir reforma antecipada ou redução de serviço é sempre a do malandro que se quer escapulir com a bola nas mãos (na versão desportiva); do malandro que se quer escapulir sem pagar a conta na discoteca (na versão nocturna); do malandro do bezerro que se quer escapulir da pega de caras (na versão tauromáquica). Em qualquer delas o denominador comum é “Malandro que se quer escapulir” dito em tom agressivo e despoletador de um sentimento de repulsa que convém manter, para aplicar o golpe sem arrependimentos. A própria designação “A junta” tem uma carga colectiva inerente a todos os exemplos dados. Quer os jogadores de Râguebi, quer os seguranças da discoteca, quer os aspirantes a forcados utilizam uma expressão em tudo similar que visa a união do grupo em torno no mesmo objectivo bloqueador e que diz “Ajunta, ajunta, q’é pró malandro não fugir!”
E lá vai mais um malandro à junta médica da caixa de aposentações. - Está aqui a dizer que o senhor, depois do acidente de viação, ficou sem ver, sem falar, sem andar e sem um braço. É verdade? Ainda mexe o dedo indicador? Vá-se lá embora malandro, e ponha esse dedinho a trabalhar que há muitas coisas úteis que pode fazer com ele…

quarta-feira, 4 de julho de 2007

A bola é quadrada


Passeava os meus filhos pelas ruas de uma localidade no norte do país em busca de alguma diversão que extrapolasse os cansativos escorregas, baloiços, cavalinhos com molas e afins. Ouvimos um ruído vindo de longe que parecia um jogo de futebol. Num campo pelado ali ao pé jogavam duas equipas de Juvenis. Ao aproximar-me do local, ia pensando que os miúdos iriam gostar de ver a rapaziada ali a divertir-se aos pontapés na chicha em alegre confraternização. Assim que chegámos, uma das equipas sofre um golo. Fo***! Car***! a culpa é tua seu filho da P***! Minha o ca***! A culpa é do ca*** do guarda-redes!...No meio daqueles pornográficos diálogos infanto-juvenis, a minha filha perguntou-me de forma ingénua: Oh pai, o que é que os meninos estão a dizer? Poderia ter mentido e dizer que aquilo era um léxico próprio do futebol; uma linguagem técnica para dizer “põe a bola no meio campo e vamos lá jogar”;…mas saiu-me a verdade: Asneiredo! O que os meninos estão a dizer é asneira, filha! Mas…estão todos a dizer a mesma coisa!? Voltava à carga. O que vou dizer à miúda? Pensei ao olhar para aquele cenário. Todos os jogadores, mas todos sem excepção estavam aos berros obscenos uns com os outros, levantando os braços e arregalando os olhos de fúria. Será que lhes tiraram a play station? Ou que lhes roubaram o álbum dos “d’zrt”? ou então que lhes partiram o telemóvel de terceira geração? Não. Apenas sofreram um golo. Continuei a ver o jogo, mesmo sabendo que estaria a sujeitar os meus rebentos a um espectáculo deprimente com possíveis consequências nefastas na sua formação. Mas estava curioso para saber no que aquilo poderia dar. A bola vai a meio campo e lá começam eles, pontapé na bola, pontapé no pelado, pontapé na canela, pontapé na gramática. O “mister” de uma das equipas coça as partes baixas ao mesmo tempo que grita: Ó Zé mexe-te fo***! Vai ao homem, vai ao homem! Cospe no chão, vira-se para os atletas no banco e desabafa “Cum Ca*** aquele gajo não joga nada!”. Entre dois berros e duas cuspidelas fuma um cigarro. Um dos seus atletas manda um empurrão no adversário o árbitro marca falta. O quê? Ó sôr árbitro,…você precisa de óculos! No meio de toda aquela asneirada, saía-lhe esporadicamente um “João, abre o jogo, olha o ponta de lança!” Esta parte do diálogo era só p’ra enganar; um cliché para dar ar que percebe alguma coisa daquela coisa. A sua equipa está a ganhar e ele diz por gestos para o guarda-redes queimar tempo. Tocam no guarda-redes ao de leve e ele cai no chão contorcendo-se de dores. O massagista entra; o mister sorri para o seu banco e levanta o polegar. O guarda-redes levanta-se combalido mas já está aos saltos e a correr. A bola vai para o banco, o mister pega-lhe vem um jogador adversário puxa-lhe a bola ele não lha dá; o jogador empurra-o e manda-lhe um pontapé. Vem o árbitro e o polícia acalmar os ânimos. O mister diz: apanho-te lá fora seu ca***ão! A minha filha continuava a insistir: ó pai, aqueles senhores são um bocado malcriados, não achas? Eu já não achava nada…estava mudo e atónito. Afinal só queria ver um jogo de juvenis com os meus filhos e estava a assistir a uma espécie de batalha campal. Para minha maior admiração, a batalha não era apenas travada dentro do campo. Um “Fo***” saiu mesmo ali ao pé de mim. Era um pai revoltado por não passarem a bola ao filho. Lancei o meu ouvido pela assistência e lá vinham mais “Ca***s” , “Ca***ões”; “se tocas no meu menino eu “fo***-te todo”; “manda uma caveirada nesse ordinário que tem a mania que joga à bola”. Eram os pais das crianças(?). As mesmas que se estariam a divertir a jogar à bola e os progenitores exprimiam o seu contentamento com pequenas asneiritas sem importância. As crianças continuavam à canelada, à cotovelada, à cabeçada…nas cabeças dos outros, e de vez em quando um pontapé na bola. Passava naquele momento um angariador de verbas para o “futebol da pequenada” dizia ele. Tinha um miúdo ao colo segurando uma caixa onde os espectadores contribuíam para que o futebol das camadas jovens se desenvolvesse. Eu não tinha dinheiro comigo, logo não contribui. Ainda bem. Se tivesse posto moedas naquele mealheiro da “formação” ainda hoje me estaria a penitenciar. Punha dinheiro na caixinha para que as crianças formassem melhor o seu vocabulário rudimentar e desenvolvessem técnicas mais eficazes de deixar os adversários no chão agarrados às canelas. No meio de todo aquele espectáculo deprimente, tive pena do pobre do árbitro e respectivos fiscais de linha que, mesmo perante o cenário deplorável e insultos repetidos, conseguiam manter uma pose de quem estaria a arbitrar a final da liga dos campeões. Mas apesar de algo chocado, deu para ficar com uma perspectiva melhor dos jogos da super-liga. Os momentos em que o jogador se dirige para o árbitro e a câmara regista em slow motion a mandíbula para cima e para baixo percebendo-se que sai algo do género “seeeeuuuu caaaraaa de caaaa*****””, tem a devida sequência do excelente trabalho que é desenvolvido nas “camadas jovens”. É um processo de coerência a longo prazo. Nos infantis aprendem a dizer fo***, para quando chegarem aos seniores conseguirem articular três palavras “fo***-te seu ca***ão”.
Termino este meu testemunho com a basilar frase do Professor António Sérgio: “O Futebol Reproduz e Amplia as Taras Sociais.”