quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

O olho da senhora Yang


Não podia escrever uma crónica de natal sem fazer uma referência especial à loja Lin Pin Yang. Os leitores estarão decerto desapontados por nesta quadra não falar do espírito natalício, de Jesus Cristo, do bacalhau com couves, da árvore cheia de bolas e estrelinhas, do senhor que entra pela chaminé, do discurso do Primeiro- Ministro, mas só me ocorre a importância que a loja Lin Pin Yang teve no meu Natal.
Estávamos nós no momento mais emocionante do dia, aquele em vimos as nossas crianças transformarem-se em rasgadores compulsivos de papel de embrulho, quando, dentro daquela prenda volumosa, saiu um Robot, o tal que o miúdo tão empenhadamente pediu nos seus gatafunhos pouco decifráveis ao pai natal. E o pai natal mandou o Robot… sem pilhas. O problema foi quando o cachopo percebeu que aquele objecto preto e prateado, estava também inerte e sem acção; sem luzinhas a acender, ou armas a disparar; sem caminhar e dizer frases em inglês “I kill them all”. Tive de perder algum tempo a explicar à criança que faltavam as pilhas, que o pai natal, com a correria esvoaçante das renas, esqueceu-se daqueles energéticos objectos cilíndricos. E o alarve do robot, não era nada meiguinho. Só para dar uns passos, disparar uns tiros e dizer umas patacoadas, exigia 6 pilhas metidas no dorso. Não havia comando de televisão ou rádio despertador onde eu pudesse desencantar tão elevado número de pilhas e com isso acalmar os ânimos do miúdo. “Mas já viste que tens ali aqueles carrinhos da Hot weels muito giros, ou o puzzle dos piratas, ou aquele homem aranha com braços que se desencaixam?” ao que ele compreensivamente respondia “então e as pilhas?”. Tive que lhe explicar, de forma um pouco mais rude que, de entre as minhas virtudes, ainda não tinha adquirido o dom de transformar filhoses em pilhas alcalinas e a coisa ficou por ali, com a promessa de que no dia seguinte trataria disso. Esqueci-me porém, que no dia seguinte era feriado; já o meu filho não se esqueceu do funcionamento do seu robot. Onde iria eu, no dia de Natal , desencantar as malfadadas pilhas? Na loja Lin Pin Yang. Lá entrei, em busca da redenção do pai natal e fui logo recebido com um efusivo “Bom dia”. Os tipos não percebem patavina do que a malta diz, mas dão-nos logo aquela sensação de que sabem o fundamental: o cumprimento inicial e o valor em euros que nos pedem no final. Depois de algum tempo e de alguma mímica, a menina lá percebeu que, quando eu pedia pilhas para introduzir no orifício do robot, não estava a ofender a sua intimidade. Lá me encaminhou até às ditas e me perguntou no seu “poltuguês” achinesado se “quelia alcalina ou nolmal?” . “Dê-me as mais baratas!” respondi. “Mas pala calo com comando , alcalinas, no nolmal!”; “Não minha senhora o meu é mais robot”, recebi do outro lado a resposta “alcalina! Robot, alcalina!”. Já me viram isto? Então não basta ao alarve abotoar-se a 6 pilhas no dorso, e ainda exige que sejam alcalinas? Lá pedi contrariado as alcalinas e perguntei à senhora onde ficava a secção das chaves de fendas (sim, porque para além das pilhas tinha de arranjar a ferramenta para desaparafusar o dorso do robot). Mais uma ginástica mímica para ela perceber o que era uma chave de fendas e me indicar a zona “lá atlás”. Não sei se sou eu o único que tenho essa sensação, mas quando vamos para a secção mais “lá atrás” de uma loja de chineses, sentimo-nos gatunos em potência. A senhora está sempre com olho em nós e o irmão da senhora vigia-nos pelas inúmeras câmaras que pairam sobre as prateleiras, à espera de nos apanharem a meter no bolso uma chave inglesa ou um escopro. Mas eu não me podia queixar, afinal foram os tipos que me salvaram de ser mais um dia atazanado pela ansiedade do pequenote em ver o robot a produzir acção. Depois de agradecer à senhora Yang, vinha para casa, a pensar na quantidade de massa que os tipos ganharam a vender pilhas alcalinas as centenas de pais na ânsia de dar vida aos brinquedos dos filhos. O miúdo ficou contente e eu também. Afinal o robot, para além de levantar o braço e caminhar, dizia em inglês as suas acções; era didáctico e justificava a quantidade de pilhas que me obrigou a comprar(?).
Depois do almoço, lá fui tomar a minha bica. O café estava fechado; todos os cafés estavam fechados. Meti-me no carro e fui em busca de algum que satisfizesse o meu desejo pós-repasto. Quando estava quase a desistir, lá apareceu um café aberto. Consegui furar até ao balcão apinhado de gente e, ao pedir a minha bica, fiquei sempre com a sensação de que iria ouvir um “Senhol, quele cheia ou cultinha?”.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Do Magrebe até Olhão

Uns pobres marroquinos tiveram o azar de atracar o seu barquito nas praias portuguesas e foi a confusão geral. A polícia recolheu logo os louros da mega operação para capturar aqueles malandros ilegais e as televisões montaram arraiais para ver se conseguiriam entrevistar os invasores, ou à falta de melhor, filmar a opulência do seu enorme barco de madeira. A histérica cobertura que foi dada ao caso, prende-se com um sub-reptício contentamento das nossas autoridades, por finalmente os africanos se deixarem de atracar em Espanha e apontarem o seu astrolábio em direcção à costa algarvia. Era sinal que os tipos davam valor ao que era bom. Mas o desapontamento não tardou em chegar com as declarações do intérprete do grupo. Então não é que o indivíduo dizia que o barco tinha como destino Cadiz? Pois é, afinal aqueles poucos Marroquinos que pensávamos terem escolhido um país próspero para atracarem, vieram parar a Olhão por falta de olho do capitão do barcote.
Existiram contudo, alguns aspectos que me deixaram algo baralhado. Um deles, a declaração de um responsável dos Serviços de Estrangeiros e Fronteiras, que, ao explicar a deslocação da embarcação com as correntes marítimas para a costa portuguesa, disse que “podia ter dado origem a uma grande tragédia…”. Mas haverá maior tragédia do que vir parar a Olhão em vez de Cadiz? Outra das questões que me custa a entender, foi a notícia de que irão ser levados a tribunal e receber ordem de expulsão dentro de 60 dias. É preciso galo. Não bastava aos tipos terem a infelicidade trocar Espanha pelo Algarve, de terem tido o enorme azar de serem apanhados pelos poucos polícias que temos a vigiar a costa, e ainda vão ter de gramar mais 60 longos dias aqui? O aparato era de todo desnecessário se a razão fundamental fosse apenas expulsão dos indivíduos em direcção ao Atlas marroquino. Ao perceberem o engano, eles tratariam de se auto-expulsar de forma espontânea. Consta até, que no primeiro momento em que ouviram falar português, além de espancarem o responsável pela desorientação, correram em direcção ao barco gritando em uníssono: Cadiz, Cadiz! Como tal não seria necessária esta medida de coacção. Se não queriam que eles fossem para Cadiz, então, com algum jeitinho, se os guardas que procederam à detenção lhes tivessem dito que nós tínhamos o Sócrates, a Maria de Lourdes e o Mário Lino à frente disto, eles até para o deserto voltariam a nado se necessário fosse.
Mas os 60 dias que foram dados para a expulsão, escondem a vontade latente de se falar no caso junto aos nossos parceiros europeus. Até agora os promotores da imagem de Portugal só se tinham lembrado do que de melhor o país tem: desportistas e fadistas. Mas não se lembraram dos marroquinos. E que melhor propaganda se pode fazer ao país do que ter sido a escolha para ser um local pelo qual vale a pena arriscar a vida dentro de um barquito de madeira? “Mas nós queremos ir para Cadiz!” Diziam os pobres coitados. “Alguém percebe o que eles estão a dizer em Tuaregue?”... “Ombre, si fior precisio nosotros também hablamos epanhol para fiquiarem aqui algun tiempo!... Bale?”
Depois apareceu o nosso Primeiro Ministro, descansando os portugueses com o facto deste ter sido um caso isolado, mas congeminando na melhor maneira de avariar mais uns quantos GPS nas embarcações africanas, no sentido de trocarem as Canárias por Tavira.
A grande dificuldade que as autoridades estão agora a ter, é a de manter enclausurados os marroquinos ilegais. Parece que os guardas prisionais já não conseguem ouvir mais a palavra “Cadiz”. No sentido de acalmar os ânimos, foi já disponibilizada uma viatura para eles poderem fugir rumo a Espanha. Quando lhes disseram que o tanque estava vazio e quanto tinham de despender para encherem o depósito de gasóleo, ouviu-se a resposta pronta: Afinal o que são 60 dias aqui neste belo país?

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Pai - Amigo


Estava a relação paternal tão descansada e eis que surgem os Pedopsiquiatras. Antigamente o pai dizia ao filho: “vai lá brincar com os teus amigos, mas estás aqui em casa às sete horas para ires ao banho e jantar”. Agora o pai diz ao filho “António, anda aqui brincar comigo até à hora de jantar, que eu sou um pai porreiro pá!” . Esta foi uma das grandes artimanhas que os tais pedopsiquiatras arranjaram para nos lixar a vida. Escondido nos livros, nas entrevistas, nas conferências, nas consultas, aí está ele para nos atazanar: o conceito do Pai-Amigo. E este conceito foi criado para atribuir ao pai, um papel que deveria ser do filho do vizinho do lado. Já ouvi pais dizerem orgulhosamente: “A nossa relação vai muito para além da simples filiação; eu sou o melhor amigo do meu filho!”. Alguma coisa está errada. Não era suposto o pai ser o melhor amigo do filho. Então é com ele que o miúdo vai comentar a magnitude dos seios da colega de turma? ou que bebeu uma ginginha às escondidas? Ou que jogou à batalha naval nas aulas de Matemática? Será com o pai que ele treina o seu léxico de asneiredo?... Não e ainda bem. O papel do pai é ser pai e não amigo. Aliás, ser pai é muito mais difícil do que ser amigo. O pai, para além de brincar de vez em quando, de aconselhar, também é aquele que dá um tabefe ao filho se este faltar ao respeito a alguém,….epá disseste tabefe?...nunca podes dizer tabefe,…nem sequer pensar nisso,…olha que os pedopsiquiatras andam por aí…
Tenho de confessar que eu próprio fui enredado por esta teia do pai-amigo. Também eu sinto por vezes, a pairar sobre as minhas acções educativas, os conselhos abalizados dos especialistas. E o pai bué da fixe é aquele que brinca muito. “Ó pai anda aqui fazer um puzzle da cinderela!”; “ó pai anda aqui brincar aos carrinhos!”; “ó pai anda montar uma casa na árvore!”;”ó pai vem andar de bicicleta!”; “ó pai faz-me lá um arco comós índios!”; “ó pai leva-nos ali ao parque da teia!”. E nós ali presos na teia da pedo-pedagogia. “Agora chega filhos, o pai está cansado”,…shiuuuu,…olha que o pedopsiquiatra anda por aí e ainda te diz que um “pai nunca está cansado de ser …pai amigo”. O pai vai-se sentar no sofá para ver um pouco de televisão “Ó pai agora vamos ver o dvd da pequena sereia, nessa televisão onde tu ias ver o futebol!”… “Sabes o que é que eu faço ao dvd da pequena sereia, sabes?”...Shiuuuuu,…lembra-te dos conselhos do doutor Alcides, “um pai nunca perde o controlo”… “Eu quero é que o doutor Alcides vá com o dvd da pequena sereia até à… Conchichina!”. Estas são as palavras do pai que já está um pouco farto de ser tão amigo.
Uma das variantes do Pai-amigo é o Pai-Ambrósio. O Pai-Ambrósio é o tipo que vai buscar o filho à escola e o leva às aulas no Instituto de línguas; depois vai buscar o filho ao Instituto de línguas e vai levá-lo às aulas de piano; depois vai buscar o filho ao piano e leva-o às aulas de natação. Tudo porque a criança precisa de ser estimulada o mais rápido possível, para aprender o mais rápido possível, para dar cabo dos pais o mais rápido possível. Podíamos também substituir o “estimular” pelo “ocupar”, que não é pedopsiquiatricamente tão correcto, mas na realidade há que ocupar a criança com aulas, muitas aulas, senão ainda sobra tempo para os pais terem de se chatear muito com ela em casa. Basicamente, o Pai-Ambrósio transformou em sentido literal, a abstracta função do pai “conduzir” a formação dos filhos.
Depois do pai ser Amigo e Ambrósio durante todo o dia, o miúdo diz “Ó Ambrósio,…ainda me apetece algo…”. Se ao Ambrósio não lhe apetecer dar algo,…o cachopo reclama e manda uns murros na mesa. Sim, porque agora um psicólogo até inventou um “Livro de Reclamações” para as crianças dizerem das suas ansiedades. Ao passar por uma livraria, abri-o um pouco a medo, e lá vinham expostas as inúmeras reclamações dos filhos(?). Numa página li qualquer coisa do género “o meu pai quando se zanga fica muito feio”. E não é que o doutor respondia à óbvia constatação do miúdo com uma frase do tipo “Sabes, tens razão,…”, entre um pai zangado e o Yeti, a diferença está apenas na pelagem. No nosso tempo, um filho que abrisse a boca para reclamar “Mas porque é que tenho de me sentar na mesa de jantar a…” já tinha apanhado uma galheta antes de chegar às “horas”.
Naquele dia o pai chega a casa cansado e diz ao filho que não lhe apetece brincar, nem contar histórias, nem fazer puzzles, nem pensar no Doutor Alcides. A criança reclama: “ Vens brincar e é já!”. O pai admirado responde “Mas tu pensas que estás a falar com o teu amigo ou quê?...”

domingo, 11 de novembro de 2007

Dia dos bolinhos

Decidi retomar com os meus filhos a tradição do dia dos Bolinhos. Lembro-me do gozo que me dava sair com a minha irmã a tocar nas campainhas da vizinhança, esperando que alguém nos abrisse a porta para podermos gritar: “Boliiiinhos!”. Depois da uma extenuante manhã, sentávamo-nos na cozinha e espalhávamos em dois tabuleiros distintos o fruto da nossa recolha. Comparávamos rebuçados, broas, nozes, chupas e bolachas Maria que nos davam os mais forretas, para depois metermos o dente na massa e apanhar uma barrigada daquelas.
Quando no dia anterior, preparava os miúdos para esse dia, eles começaram logo por perguntar: “Mas porque é que no Halloween nós vamos pedir bolinhos?” Expliquei “Filhos, o Halloween não tem nada a ver com os bolinhos,…” fui interrompido… “Posso levar o fato de vampiro?”…prossegui “Mas os bolinhos são uma tradição nossa e…” fui novamente interrompido “eu cá vou de bruxa e com uma vassoura para bater nas portas!”… “Filhos, sabem que essas tradições não são…” mais um assalto “Eu vou levar a abóbora metida na cabeça e pregar um cagaço quando nos abrirem a porta!”…. perdi a pachorra “Chega! Não há Halloween! Halloween é na América ! Bolinhos em Portugal!...Perceberam!”. Senti nas suas caras um enorme desapontamento. Com uma voz trémula questionaram: “Então e as máscaras? os disfarces que vendem no Modelo? Os dentes de vampiro? Os sustos? As cobras e as aranhas?” . Percebi, que prescindiriam de bom grado dos bolinhos, se pudessem vestir capas negras e pregar sustos às pessoas. “O Halloween é mais uma invenção para os pais gastarem dinheiro!” Desabafei. Ao menos podiam arranjar um nome que a malta percebesse. Voltei à carga “Amanhã vamos tocar às campainhas e cada um leva um saco de pano para guardar as guloseimas que nos vão dar”. A ideia das guloseimas lá acalmou um pouco a frustração de não haver Halloween e consegui contar a minha experiência infantil sem ser muito interrompido.
No dia seguinte, lá fomos de porta em porta em busca dos bolinhos. Depois de instruir os miúdos da forma cantada como teriam de entoar “boliiiinhos” ,fomos à luta. A primeira casa foi logo a da avó, para criar uma primeira experiência positiva. Os avós são sempre generosos e vá de receber uma oferta de relevo para começar bem a colecta. Partimos em seguida para a aventura: os vizinhos da avó. A tarefa é facilitada porque alguns já conhecemos, outros apenas de vista. Tocadela, daqui, tocadela dali e vizinhos…nada. Mas o moral não esmorecia. Os sacos estavam bem abertos e a voz bem preparada para o grito. Ao afastarmo-nos da 5ª porta, lá ouvimos um ranger e…”boliiiiiinhos!” Conseguimos a primeira oferta em território alheio: umas belas nozes! Agradecemos e recebemos um reforço na equipa. Juntou-se o Salvador e a sua Tia que, tal como eu, queria transmitir ao rapaz a saga dos bolinhos. “Ó pai olha esta casa tem as persianas abertas! Aqui vamos ter sorte!” Tocaram na campainha, no batente, na porta e…nada. Vimos a vizinha seguinte a entrar em casa e gritámos em uníssono “Boliiiiinhos!” antes de qualquer possibilidade de fuga. Lá vieram uma quantas broas de mel para dentro dos sacos. Depois dessas broas passámos por um período de abstinência mais ou menos prolongado. Em 9 casas não obtivemos qualquer resposta. Comecei a notar algum esmorecimento nas hostes mas “Um caçador de bolinhos nunca baixa os braços, quanto muito levanta os braços para espreitar para o interior do saco!”. Depois desse período de trevas, as crianças tocaram a uma campainha ainda algo descrentes. Veio uma senhora, espreitou um pouco a medo pela pequena abertura da porta e …. “Boliiiiinhos!” . O susto foi grande, mas teria de compreender que há já algum tempo as crianças não gritavam. Ainda denotando algum receio deu uma moedita a cada um dos petizes. A minha filha mais velha declinou educadamente a oferta. Eu tinha ouvido dizer que o dia dos bolinhos se tinha rendido ao vil metal, e em vez de broas os miúdos arriscavam-se a trincar uma moeda de 20 cêntimos. Quando a senhora viu a sua oferta ser rejeitada, percebeu que não se tratava de uma qualquer esquisitice, mas que estávamos ali de forma genuína à cata das guloseimas. Fez um sorriso e libertou-se do receio. “Esperem um pouco que venho já!”. Depois de lá ter ido dentro e, antes de despejar rebuçados nos sacos impacientemente abertos, colocou uma das mãos na cara de cada criança e perguntou: “como te chamas querido?...”. Olhei para a senhora e encontrei aquilo que procurava no dia dos bolinhos. A lembrança daquela senhora de cabelos brancos que morava numa rua perpendicular à da minha mãe e onde eu e a minha irmã, encontrávamos sempre as melhores broas. E só as mereceríamos depois de sentirmos a palma da sua enrugada mão na nossa cara e um carinhoso “Tomem lá meus queridos!”. Ali não havia necessidade de desligar a campainha ou esconder-se atrás das cortinas. Havia prazer, um prazer enorme em dar, igual ao que nós tínhamos em receber. E como as broas eram saborosas….
Estava eu a meditar na minha infância e na senhora simpática das melhores broas do bairro, quando o meu filho mais novo me puxou pelas calças e perguntou: “Pai, achas que para o ano posso vir pedir bolinhos mascarado de Homem-Aranha?”

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

A Percentagem da Média Europeia



Preciso de desabafar. Mas não me basta desabafar com o pessoal cá de casa. A magnitude da minha indignação não desaparece com uma simples queixa à esposa ou aos filhos, até porque eles começavam logo a gritar: Queixinhas! E pai que se preze não pode correr esse risco. Decidi assim, exteriorizar a minha mágoa e submeter os leitores ao meu manifesto de revolta sobre o rumo que o ensino em Portugal está a levar. E eu pergunto em jeito de catarse: Como é possível tanta IMBECILIDADE? …Ahhhhh,….pronto,… já me sinto um pouco mais aliviado. Desculpem, mas tinha este sentimento a dar cabo do meu intestino grosso. Não sei bem porquê, mas quando penso nas medidas recentes para dar cabo do que resta do ensino, só me vem à cabeça…o intestino grosso(?). Sou professor há 16 anos e, quando comecei a dar aulas, estava convencido que o meu papel seria precisamente dar boas aulas aos meus alunos. Agora vêm-me dizer que o meu papel passará pela elaboração de resmas de papel cheias de percentagens. A minha visão do ensino, onde o professor se empenha para educar os seus alunos, para lhes ensinar matérias e valores humanos, está caduca. Agora a malta só quer saber de percentagens. Tudo começou porque a nossa percentagem de abandono escolar era muito superior à da média da união europeia. Já contaram as vezes em que se ouve a “média da União Europeia”? E à “média” aparece sempre adjacente a “percentagem” e a este termo também aparece sempre um tipo de gravata a dizer “temos de mudar estes valores!”. Que valores?...os das percentagens em relação à média. Temos de apostar de uma vez por todas na “Formação”, dizem os entendidos. E eu fiquei a pensar: Ora bem, formação, educação, exigência, disciplina, competência,…Não!...percentagens! Medida de fundo? A transformação de objectivos educacionais em números. Assim, as escolas mais brilhantes para se candidatarem ao título de ”Escola Mais Dentro da Percentagem da Média da União Europeia” devem atingir percentagens de sucesso na ordem dos 95%. Mas e se, por um acaso, a turma for assim muito fraquinha…Não Podem!...e se na turma existirem muitos alunos que se estão marimbando para as aulas …Não Podem!...e se na turma, existirem no teste de Português respostas do tipo “ Sofia de Mello Quê?...Sofia só conhesso a gaja da padaria que tem umas gandas trancas!”…Não Podem, e pronto! Com o “Pronto” aparecem todos os planos de recuperação para esses alunos que têm grandes dificuldades em manter atenção à aula, porque ali ao lado, no café, estão os amigos a beber uns finos e a fumar umas coisas que fazem um gajo rir. Mas se por sua vez, estes planos de recuperação não resultarem, elaboram-se novos planos de recuperação, até que o aluno consiga recuperar(?)…nem que seja da ressaca da noite anterior. O termo recuperação suscita-me algumas dúvidas. Recuperar pressupõe o acto de reaver algo que já se adquiriu. Mas se os tipos não sabem, nunca souberam, nem querem saber, vão readquirir o quê?. Mas agora descobri o que os entendidos queriam dizer. A recuperação no ensino moderno funciona da seguinte maneira: “Ó Vasco descobre aí quanto é a raiz quadrada de 58!”….(isto é o Vasco a pensar)….Hã? responde o Vasco. “Temos de fazer um plano de recuperação para ti Vasco.”… “Dá-me lá então um exemplo de 2 números cuja soma dê 58!”....(Vasco pensa novamente)…”Hã?” “Pronto, agora que já te fiz uns planos de recuperação, esta vais resolver: Qual é o número que aparece após ao 58?”... Ó profe, “após” quer dizer o quê? …Ó Vasquinho (isto é o profe a “recuperar” a infância perdida do Vasco),…ficamos pela conta de somar do 5 + 8, está bem? E o Vasco viu recuperado o seu conhecimento do 1º ano durante a frequência do 10º ano. “Muito bem Vasco, conseguiste chegar ao número 13 sem calculadora (parece que já a querem incluir no ensino básico, que isto de fazer contas dá muito trabalho). Estou mesmo a ver o futuro patrão do Vasco na empresa de caixilharia, a fazer-lhe planos de recuperação depois do rapaz ter montado 20 janelas um pouco desniveladas. “Vamos lá Vasco, lixa lá mais 10 caixilhos que um dia chegas lá!” Agora com o novo estatuto do aluno parece que o Vasco nem tem de ir às aulas para recuperar. Isto é que é exigência! “Patrão, hoje não me está a apetecer ir montar janelas!...e se calhar amanhã também não, vou dar um giro com a Vanessa!”..Ao que o patrão responderá: “Ó Vasquinho…, vai lá, mas olha que vou ter que te fazer um exame de recuperação!”
E temos assim milhares de Vascos como este, que conseguem cumprir a escolaridade obrigatória (parece que vai ser até ao 12º) sem saber quem era Camões e sem saber que para se ter algo tem de existir esforço. Se até o Cristiano Ronaldo sabe que “Se não se mexer, não rende”? O contra-senso disto tudo, é que nunca a sociedade exigiu tanto de nós enquanto profissionais; e nunca a escola exigiu tão pouco dos seus alunos enquanto futuros profissionais.
Desculpem, mas tenho de fazer outra catarse a ver se consigo aliviar novamente a tensão: “A todos os Pseudo-pedagogos que estão a conseguir transformar o ensino neste conteúdo inerte, cheio de permissividade e facilitismo, o meu mais profundo e intenso DESPREZO! ”… A vantagem de libertarmos assim, em jeito rude, as nossas energias negativas, reside no facto de nos manter mais calmos na espera paciente pelo dia, em que alguém consiga pôr em prática um plano de recuperação do próprio ensino.

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Ouvi dizer...


Sempre tive vontade de escrever uma crónica baseada no boato. Afinal se todos os dias vemos informação sustentada em boatos, porque não poderei também eu, explorar o meu próprio boato. Infelizmente, associou-se ao boato uma imagem depreciativa, uma espécie de falsidade expressa na frase “Isso são só boatos, foi tudo inventado para denegrir a imagem do homem! Então não se vê logo que não é pedófilo?…; que os rapazolas que saíram de casa dele em tronco nu, eram entregadores da Pizza Hut?”. Mas o boato ou rumor como lhe queiram chamar, não tem de ser necessariamente falso. É apenas uma notícia não confirmada. Pode ser ou não falsa. Pois bem, estava eu a ver televisão na horizontal e, ao fim de 10 minutos, já estava como sempre fico depois de ver televisão na horizontal: a dormir profundamente. Tinha começado a sonhar com informações não confirmadas, mas eram boas informações. Às tantas comecei a ouvir o som estridente da televisão embrenhado no âmago dos meus boatos mentais. A minha mulher tinha aumentado o som para ouvir um debate sobre a pobreza. Como os meus sonhos em forma de boato estavam a correr às mil maravilhas (estava a sonhar com um tipo a sussurrar: “ouvi dizer que o deficit vai acabar…), não houve som estridente ou pobreza que pusesse fim a este saboroso e enriquecedor rumor. A partir daí, se me mantivesse a dormir, só criaria boas notícias não confirmadas. Entre o boato e o debate, de longe o primeiro. Ainda levei uma cotovelada acompanhada de um “não queres ouvir?”, mas deixei-me estar a roncar, preferia esperar para …ouvir dizer na manhã seguinte.
Na manhã seguinte, ouvi dizer (ora aqui está o boato!) que a determinada altura, no tal debate, que não ouvi e como tal não posso confirmar, um tipo disse acerca da pobreza, que um dos sinais para se saber se o indivíduo é pobre, é o facto de não ter computador em casa(?). Pode ter jipes, os dois filhos a estudar em escolas particulares, cães a comer ração da Eukanuba, mas se não tem computador…é pobre! Parece que… (outro boato encoberto pelo “parece”) os tipos da Caritas e outras obras sociais ainda tentaram demover o senhor contando-lhe das sopas dos pobres e ajudas domiciliárias, mas o senhor continuava na sua ideia de que “sem computador um tipo está a uma passo de se lançar da ponte Dom Luís com um tijolo agarrado aos pés” . Decidi inventar o meu próprio boato, e parece que o senhor disse para o representante da Caritas: “Mas antes de dar a sopa ao mendigo perguntou-lhe se ele tinha computador em casa? É que se tem, não come sopa!” Aliás, como grande obra de fundo, Ouvi dizer que está já em marcha a distribuição de computadores (onde já ouvi isto?) por todos os sem abrigo das ruas de Lisboa, no sentido de fazer com que deixem de ser …pobres. Então e a sopita?...Tem computador?...Não come!...Não tem computador?...Então tome lá a canjinha! Parece que no tal debate também se disse que os pobres, para manter o status, quando tinham algum dinheiro estoiravam-no em tudo menos em bens essenciais. Compravam para se sentirem menos pobres. Ouvi dizer que num casebre no meio da serra do Caldeirão, o filho perguntou ao pai: “Oh pai! É hoje que temos arroz para o jantar?...ao que o pai responde: “Meu estafermo!...Não vês que antes desses luxos alimentares temos de comprar um LCD para pôr ali à frente daquela janela que não tem vidro, que é para ver se tapamos as corrente de ar, pá?!”. Depois de tomar conhecimento destas informações não confirmadas sobre a pobreza extrema em Portugal, cheguei à escola e um amigo contou-me que tinha visto uma reportagem na televisão sobre uns miúdos no Gana que são vendidos pelos pais aos pescadores locais, para serem mantidos em regime de total escravidão, trabalhando 14 horas por dia. Comem uma refeição diária e, para além de pescarem desalmadamente, têm como função ir desprender redes no fundo do lago infestado de crocodilos, a uma velocidade que lhes permita sair de lá com todos os membros. Estava eu a ouvir falar da pobreza em Portugal,…dos pobres que compram roupa de marca para manterem o Status e de repente dou por mim a ouvir falar de outros pobres que vendem os filhos de 4 anos por 30 euros para serem comidos por crocodilos. Ouvi dizer que o tal senhor do debate, se apressou a ir à estação de informação que publicou essa notícia das crianças pobres ou das pobres crianças do Gana e em tom frenético lhes perguntou: E digam-me lá!....os miúdos?...Têm computador?....

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

A senhora do elevador



Aquele elevador está num sítio isolado. Existe outro ali bem perto e mais arejado, mas optei por aquele, porque fica mais perto do estacionamento. Saí do carro à pressa e entrei de rompante no hall de espera do elevador. Deparei-me com uma senhora encostada à porta sem desviar o olhar da mesma nem por um segundo. Achei estranho, mas lá fiquei, com ela, à espera do ascensor . Ao observar com mais atenção notei que, aquele encosto do nariz à porta de metal, transportava uma certa tensão, aliás uma excessiva tensão para estar apenas relacionada com pressa de subir. Pressionei mais uma vez no botão de chamada e, para aliviar a tensão da senhora, disse umas fúteis palavras do tipo “parece que não quer nada connosco”, ao que a senhora (sem retirar os olhos da porta de aço) e com cara de poucos amigos disse a bufar “poooça não há paciência!”. Continuei a achar estranho, mas calei-me. Será que alguma amiga lhe tinha dito que a campanha de saldos terminava dentro de minutos? ou que estaria ali o Cristiano Ronaldo a dar autógrafos? Aquela impaciência e tensão transportava afinal de contas uma sensação de medo. Medo do indivíduo que entrou ali de forma inesperada e abrupta, sem lhe dar tempo de reagir. Ficou enclausurada entre a porta e o peito de um desconhecido, que poderia muito bem ser um violador,… ou pior: um violador e assassino;… ou ainda pior: um violador , assassino e adjunto de secretário de estado. Apeteceu-lhe fugir mas era tarde; e o elevador tardava em chegar, para que ela visse terminado o seu calvário mais rápido. A porta abriu e entrou de forma fulminante para o cantinho do cubículo. Queria aliviar o sofrimento da senhora com um diálogo enriquecedor sobre as condições meteorológicas ou a crise no Médio Oriente, mas fiquei com a plena convicção, que à primeira palavra que emitisse, apanhava logo com a carteira da senhora nas ventas e um pontapé nas partes baixas seguido de um “Socorro!...Gatuno!”. Mantivemo-nos ali num sepulcral e incomodativo silêncio, durante os intermináveis segundos que a subida demorou. Cada um no seu canto da masmorra, esperando pela libertação. Ao sentir-me um homicida depravado, vieram-me à memória, as minhas férias de infância passadas numa aldeia de Trás-os-Montes, onde todas as pessoas se falavam, mesmo sem se conhecerem. Dizia-se “Bom dia!” quando nos cruzávamos com desconhecidos na rua, no campo ou na mercearia , apesar do dia por vezes não estar lá grande coisa. Mas também o sorriso largo não era dispensado para acompanhar o generoso “Bom dia!” . Estava eu entretido com as minhas memórias de sorriso largo e lá estava a senhora com ar carrancudo, pronta para me lançar o spray paralisante nos olhos, ao primeiro movimento suspeito que esboçasse. Mas aquele desconforto serviu para me fazer pensar no absurdo dos tempos urbanos. Dos tempos em que ninguém fala com ninguém, mesmo quando partilha um exíguo elevador; em que todos têm na cabeça a última notícia do jovem que degolou a namorada ou a criança que foi raptada; dos tempos de olhar apavorado por cima do ombro quando se retiram as notas no Multibanco; em que não se deixam as janelas abertas por causa dos ladrões; dos tempos em que não se tem tempo. Estava eu a pensar nos tempos modernos e lembrei-me da púcara(?). A púcara que encontrávamos junto à fonte que trazia água da serra do Marão e que estava ali, para matar a sede a tipos como nós, que por ali passavam durante as caminhadas. De vez em quando, encontrávamos o dono daquelas terras e…do púcaro, que nos presenteava com uma cavaqueira de quem não vê alguém há muito. Alguém que pode escutar os seus desabafos sobre as dificuldades dos cultivos, a frescura da água da montanha ou a sacana da cabra que ainda não voltou do pastoreio.
Finalmente, a porta do elevador abriu e a senhora fugiu disparada para longe das mãos do eventual violador, rumo à libertação. Ao confrontar-me com o seu óbvio alívio, pensei o que teria acontecido se lhe tivesse lançado um efusivo “Bom dia!”. Talvez tivesse a marca da sua sacola estampada na minha testa…