sábado, 19 de julho de 2008

Comichões

Não sei quem disse que um homem só materializa a sua existência depois de plantar uma árvore, fazer um filho e escrever um livro. Depois de ter plantado algumas árvores, de ter contribuido para a produção de duas magníficas crianças, decidi compilar algumas das minhas crónicas e editar um livro de devaneios. Curiosamente, depois de me olhar várias vezes ao espelho, tentar imitar a voz de um másculo tenor ou de ter espreitado para o interior das calças, não notei grandes alterações existenciais, que corroborassem a teoria de que agora é que sou um homem a valer. Depois de pensar muito, sem grandes respostas, ...mas querem ver que é por causa do trabalho para os conseguir? Nããã... Pensando no trabalho, é curioso como esse três vértices da existência humana o têm incluido na sua génese. O trabalho para se fazer um filho é pouco (e até dá algum gozo), mas o trabalho para o criar é muito; no caso da árvore, existe um certo equilíbrio de esforço: Dá trabalho a plantar e dá trabalho depois de plantar (com as regas e as podas). No caso do livro, a relação apresenta-se algo inversa à da procriação, dando trabalho antes de editar e nenhum trabalho depois da coisa estar feita. Bom mas sem chegar a qualquer tipo de conclusão, a não ser que a existência dependerá de obras bastante mais magnânimes do que estas, aqui deixo a capa do meu livro e o seu prefácio....

A comichão é tramada. Mas aquela era particularmente tramada. Numa comichão normal, apenas tramada, existe um misto de incómodo e de prazer; chateia quando aparece, mas depois de uma boa coçadela, transforma-se em alívio, quase sempre acompanhado por um sonoro e descomprimido ahhhhh. A comichão que me assolava naqueles dias não tinha nada de normal. Não era despoletada pela mordidela de uma pulga, a picadela de um mosquito ou o contacto com uma erva daninha. Não atingia uma área específica do corpo, nem mostrava sinais de abrandamento perante as minhas vigorosas coçadelas. Pus-me a pensar, pensei mais um pouco e cheguei à conclusão que a comichão aparecia quando pensava demais. Estes surtos de urticária neural surgiam sempre que a minha mente decidia vaguear pelos meandros mais intrincados das nossas vivências sociais. Depois de muito penar, lá descobri o antídoto para essa minha irritadiça comichão: a escrita. Nunca tinha escrito nada de relevante até ao dia da primeira comichão mais que tramada. Depois desse dia continuei a não escrever nada de relevante, mas aquilo aliviava o prurido. Era uma espécie de terapia anti-coceira. Foi então que, em jeito de catarse, me pus a escrever umas coisas, sobre coisas que me causavam comichão. E é a magnitude da comichão que decide o tipo de escrita. Se o agente alergénio for de grande porte, a puxar para a sarna, a escrita descamba numa expressão rude de sentimentos do tipo antibiótico de largo espectro. No caso da ténue comichão, do tipo cóceguinha atrás da orelha, basta uma suave escrita “aspirina” para que os sintomas rapidamente se dissipem.
Quando pensei que os meus rudimentares escritos ficassem perdidos algures entre a escrivaninha e os gatafunhos infantis dos meus filhos, alguém leu um desses desabafos e pediu-me para os editar no Jornal Torrejano. E foi assim que dei em cronista. Podia ter dado em coisas piores . Eu acho que depois da minha segunda crónica, já o João Lopes tinha ficado arrependido de me ter endereçado o convite, mas nunca teve coragem de me dizer: “Desculpa lá, mas os teus gatafunhos ficam bem é no meio dos gatafunhos dos teus filhos!”. Então, essa pedra no sapato do JT foi-se mantendo por nove longos anos, durante os quais fui descobrindo o efeito secundário em alguns dos escassos leitores das minhas crónicas: uma terrível e prolongada comichão(?). É verdade, eu deixava de ter coceira porque escrevia, e o leitor passava a coçar-se porque lia. Até que cheguei a este ponto de loucura extrema ao decidir compilar alguns desses devaneios escritos, neste livro de gatafunhos terapêuticos para a comichão.
Ainda pensei em convidar um escritor a sério para fazer o prefácio do meu livro, mas não tive coragem. Por muito menos, já vi grandes personalidades arruinarem o seu aparente inabalável prestígio. Assim, coube-me a mim, apresentar esta obra literária de média…vá… de pouca envergadura, desta maneira algo comichosa.
A forma como as crónicas serão apresentadas, não obedece a qualquer tipo de organização. É que eu nunca fui lá muito arrumadinho, para desgosto dos que comigo convivem. No meio do caos, preocupei-me apenas em colocar para abrir, uma das piores e mais deprimentes crónicas, no sentido de garantir que, à medida que se avança pelas restantes páginas, a qualidade será sempre melhor.
Como última nota, apenas a recomendação para, no caso do leitor sentir em algum momento uma irritadiça comichão, o favor de fechar o livro e esperar que passe sem se coçar muito.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

A ditadura do flash



Fui ao casamento de um amigo. Aliás, só um amigo consegue fazer com que suporte, de ânimo menos pesado, um casamento. Pensando bem, um amigo que se preze, não se casa, só para não ter que fazer os amigos gramar o frete da boda. Bom, mas lá fui, antecipando aquele longo dia sentado à mesa num obsceno exercício de gula, entre 4 pratos e múltiplas batidelas com os talheres nos copos à espera do beijo público dos noivos. Quando quis cumprimentar os noivos, dei de caras com um dos tipos de maior poder na sociedade portuguesa. Não, não falo do Américo Amorim ou do professor Marcelo, mas do fotógrafo do casamento. Barrou-me o caminho com as suas costas, dizendo: “Agora não, que tenho de fazer uma fotografia com o altar ali de fundo!” É, de facto, ele quem manda naquilo tudo; É ele que faz esperar o noivo no altar; é ele que diz ao padre onde se ajoelham os noivos; é ele que decide quando os convidados podem começar a trincar as iguarias. Mas vamos por partes. Primeiro a parte das fotografias da noiva em cima da cama, com o vestido sobre a colcha de renda. A noiva; a noiva com os pais; a noiva com os padrinhos; a noiva com o afilhado; a noiva com a irmã mais velha; a noiva agarrada ao urso de peluche. A noiva trinca um rissol, dá um gole no champanhe… “Isso! de perfil,...deixe os lábios no rebordo do copo!...que foto fantástica com a luz a bater no espumante!” reforça o artista. A noiva apressa-se a sair de casa dos pais. “Um momento! Alguém a segurar no vestido!...assim,… estica, isso mesmo,…agora estica mais para a direita,…isso, mantém,…agora o sorriso… o senhor agora não passa! ninguém passa no portão!…Isso! tudo quieto!.. pronto já está!” . Ao sinal do líder de máquina a tiracolo, toda a malta já pode correr para os carros. A noiva entra no carro. “Não entra ainda! …espera!...quem segura a porta?...tem de ser o pai!...onde está o pai?...agora entra devagar para eu conseguir apanhar todo o momento!”…o momento(?). Sim! O da entrada no veículo antes do enlace. O noivo já espera há meia hora, mas é da praxe a noiva não ser pontual. Porquê? Por causa do fotógrafo. Chega à igreja, o (outro) momento: a saída do carro. “O pai!...atenção ao vestido bem aberto,…bom,… a tapar bem a escadaria!...o pai do lado direito da noiva, isso!...mas com um sorriso senhor António,…afinal é a sua filha que se vai casar, homem!...”. O noivo olha para ela com ar de quem está farto de esperar e ela sorri: “sabes, …o fotógrafo”. O casamento decorre, sempre com a câmara entre o padre e os noivos num frenético alvoroço. A entrega da aliança é feita devagar para que não falte pitada à reportagem fotográfica e videográfica. A cerimónia decorre mais rápido do que previsto; o padre despachou-se; vamos ao que interessa!... ao petisco. Mas, e as fotografias dos noivos em frente ao altar? com os pais, padrinhos, amigos,… Toda a gente sai para a cena do arroz na cabeça e espera cá fora ao sol. Continua a espera…então os noivos? saem ou não saem? …está ali o fotógrafo a disparar mais umas poses “Isso, agora com um beijo na testa!...ali mais junto da sacristia!”. Parece que já vêm os noivos, é agora o arroz, vai ser agora que a malta vai mandar!…Atenção! “Pára!”...grita o homem da máquina… “Só lança o arroz quando os noivos passarem no segundo degrau!”. Então a malta já não pode mandar o arroz quando quer? O arremesso para ser lúdico, tem de ser espontâneo e com força, para se embrenhar no penteado da noiva; não pode obedecer a restrições. “Mas é por causa do efeito estético; a imagem fica mais conseguida”.
No restaurante dá-se a expressão máxima do poder do fotógrafo. Encosta os noivos a uma sebe, bem iluminada pelo sol, e vai disparando ininterruptamente, indiferente ao suor das vítimas e à fome dos convidados das vítimas. Ele domina claramente a situação. 200 pessoas à espera para trincar a vitela assada e os noivos ali com um sorriso nos lábios esperando por mais uns tiros do esquadrão de fuzilamento. Está tudo ali, com vontade de mandar um croquete à cabeça do ditador, mas quando ele se vira, ouve-se alguém: “Eu também quero uma com os noivos!”. Ao fim de duas horas à soleira com o permanente sorriso nos lábios, os noivos sobreviveram apenas com ténues sinais de desidratação e rigidez facial. Os convidados, esses, já tinham enfardado todos os croquetes e rissóis das entradas e nem sequer pensavam já na vitela e no bacalhau com natas. Quando o fotógrafo decide libertar os moribundos noivos à beira da insolação, já só nos apetece o cafezinho.
Ainda não foi desta que consegui chegar à sobremesa. Depois de tanto frito no bucho, fiquei-me pelo primeiro prato. Mas fui ao casamento do meu amigo e aguentei até onde pude. Ele vai perdoar a minha retirada mais cedo do combate; compreenderá as minhas limitações. Agora, no repouso do lar, temo que a qualquer momento surja a pergunta que não terei arcaboiço para responder afirmativamente : “Olha, não queres ver o vídeo do nosso casamento?”.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Se até o chimpanzé percebe...


O meu carro cheira a leite podre. Quem conhece o meu natural desleixo já deve estar a pensar que me voltei a esquecer das peúgas suadas debaixo do banco ou da casca de banana no porta-luvas. Mas não. O carro tresanda mesmo a leite a puxar assim para o azedo. E é com este odor pouco agradável como fundo, que aproveito para lançar daqui a minha mais profunda homenagem a todos os ecoresistentes deste país, que andam com o carro a cheirar a leite podre e a sacudir varejas do tabliê à procura de ecopontos. Tudo começou com um chimpanzé a explicar como fazer a separação dos lixos. E a campanha publicitária dizia qualquer coisa do género: “Se até o chimpanzé percebe como se faz…”. O anúncio é bem feito; desperta a hominização que existe em cada um de nós. E esse nosso orgulho humano não poderia ficar indiferente ao ser suplantado por um símio que come bananas e amendoins. A confusão entre o balde amarelo, o verde e o azul já não existe, até porque o espectro do bicho peludo a dizer que “até ele percebe”, não me deixa espaço para confessar a minha distracção, de forma totalmente assumida. O que o chimpanzé não percebe é a trabalheira que dá a uma pessoa, despejar o lixo que conseguiu separar em casa. Sim, esta coisa de colocar a lata de Coca-cola na mão do bicho e pô-lo a deitar no balde azul (?)… ou será o amarelo (?), que está ali a dois passos, eu acho que com algum trabalho, até punha os meus cães a fazer. Eu gostaria era de ver o chimpanzé, com o saco cheio de pacotes de leite amassados às costas, conseguir descobrir um ecoponto e depois, ter o engenho para despejar os resíduos lá dentro de forma célere. A campanha começou bem com o chimpanzé a explicar como se faz, mas qualquer esforço de mudança de maus hábitos enraizados, deverá assentar na filosofia da facilitação. Metem-se os sacos na bagageira do carro e vamos à procura dos ecopontos. Quando por fim, lá os encontramos, deparamo-nos logo com esse fabuloso factor facilitador: A abertura. A história do elefante passar pelo buraco da agulha, ensombra o nosso esforço, sempre que queremos empurrar os nossos volumosos pacotes de leite compactados, por aquele orifício…zinho. Aliás o nome “Plasticão” rima na perfeição com o asneiredo que sai da nossa boca, quando estamos a fazer força no fundo do saco para aquilo entrar lá dentro e. verificarmos por fim, que a coisa não entra. Ao retirar alguns pacotes para estreitar o volume, aquele pedaço de leite coalhado espirra em direcção da nossa roupa lavada. Fazemos mais umas rimas e, ao fim de algum tempo, conseguimos empurrar, com a ajuda de todo o nosso peso, os plásticos lá para dentro. Depois das embalagens, vamos buscar o papel para despejar no “papelão”. A luta “orifício pequeno/ volume grande” continua animada. Temos um molho de papéis na mão, vem uma rabanada de vento e vemos os estratos bancários voar na direcção do quintal do lado. Sai outra rima brejeira em honra ao orifício do papelão e vamos apanhar o saldo bancário ao espinho de uma roseira. Por fim, conseguimos apanhar todos os papéis e metê-los no orifício. Coragem, que já só falta o vidro. O Vidrão tem o buraco mais pequeno de todos. Assim à primeira vista parece passar à vontade uma mini de cada vez. É curioso porque o nome “vidrão” (assim como os seus primos anteriores) indicia uma coisa em grande, com uma abertura em grande, para se poder despachar coisas em grande e depois, selecciona criteriosamente todos os invólucros, qual posto fronteiriço entre Israel e a Palestina. Estamos nós a espetar garrafa a garrafa lá para dentro e, ao nosso lado, bem ao nosso lado, está um caixote de lixo vulgar, com uma abertura enorme e vulgar, a chamar por nós. É um teste à nossa consciência; o Lúcifer apontando o caminho da perdição. Não basta dificultar a tarefa, como nos espetam com a opção mais apetecível a acenar bem ali à mão. É como querem impingir-nos um prato de comida macrobiótica, com o odor da feijoada ali encostado ao nosso nariz.
O meu carro continua a cheirar a leite podre. Esqueci-me de despejar à ida para o trabalho e não tive tempo para despejar à vinda. Quase a chegar a casa, tenho outro caixote de lixo grande e lustroso a chamar pelo meu leite coalhado: Aqui! Podes deixar esse cheiro a azedo aqui! É só abrires a tampa e já está! Do que estás à espera? Não sei bem…talvez iludido à espera do dia em que se lembrem de me facilitar a vida. Parece que até o chimpanzé percebe.

domingo, 15 de junho de 2008

A Metamorfose


Fui buscar o meu filho ao infantário. “Temos aqui uma caixinha para levar para casa!...”. Esta frase antecipa um dos momentos mais aguardados por qualquer progenitor: o dia em que o convidam a acolher em sua casa, os simpáticos bichos-da-seda, esses mandrakianos seres que se conseguem transformar em borboletas. Pretende-se que as crianças acompanhem de forma activa esse processo de metamorfose, mas cedo percebemos que vai sobrar para nós. Começa logo, porque a doce criatura é esquisita como raio e só come folhinhas de amoreira(?)… mas,… e aonde é que existem essas amoreiras?, perguntamos convencidos da sua enorme abundância em todos os jardins da cidade. “Amoreiras, ora deixa cá ver,…, existe uma ali p’rós lados do Vale e outra junto àquela rotunda …”. Começamos a fazer contas de cabeça e multiplicamos as centenas de pais, que levaram para casa dezenas de bichos-da-seda, depois dividimos pelas 4 amoreiras que existem na cidade, o que dá assim a grosso modo uma média de muito bicho por cada árvore. Mas não podem ser folhas de alface? De oliveira? De uma qualquer erva daninha? Não!...o bichinho parece que não vai muito à bola com essas folhas; causam-lhe distúrbios no frágil metabolismo. Andamos nós a ensinar às crianças as vantagens de uma alimentação variada, a não torcerem o nariz quando lhes colocamos uns brócolos no prato, a sorrirem perante uma sopa de espinafres e depois pomo-las a satisfazer os caprichos de uma larva esquisita. Mas vale o esforço; afinal o bicho transforma-se em borboleta. Lá me meti no carro e fui à procura de tão rara espécie vegetal. Depois de algumas voltas, encontrei a bela da Amoreira, ou o que restava dela. Parece que outros pais, já se tinham antecipado e deixaram-me uma Amoreira depenada do pescoço para baixo. As folhas que sobreviviam, encontravam-se a uma altura alcançável por um basquetebolista americano ou pelo Tarzan nos seus melhores dias. Assumi desde logo que não tinha molas nas pernas, nem tão pouco a Jane à minha espera no cocuruto da árvore, restando-me a versão “pés em cima do tejadilho do carro” como forma de alcançar tão difícil verdura. Estava eu a resmungar em pontas dos pés em cima da chaparia do veículo, quando passou outro veículo que abrandou a sua marcha. Com duas folhitas numa mão e o ramo seguro pela outra, olhei para baixo e deparei-me com o olhar reprovador do condutor. Sentia-se no ar um “Não tens vergonha? a roubar folhas de uma árvore tão rara…”. Não estou para isto! Um tipo tem de fazer quilómetros para encontrar umas folhas especiais para um estafermo multipatas que não crava os dentes em qualquer repolho; depois tem de se pôr aos saltos para ver se alcança o raio da verdura; e ainda se sujeita ao desdém do senhor do automóvel. Raios partam a minhoca. Mas se ela até se transforma em borboleta…Pronto, está bem. Lá meti umas quantas folhas no saco e levei-as para os meus filhos satisfazerem o apetite daqueles selectos seres. Quando as folhas caíram na caixa, os doces bichinhos da seda que se transformam em delicadas borboletinhas, mandaram-se a elas como um boçal brutamontes da idade média morderia um naco de pernil. Não basta as tipas só comerem folhas de uma árvore em vias de extinção, como não demonstram qualquer tipo de preocupação na preservação dos parcos recursos. Trituram a amoreira quais térmitas trucidando escrivaninhas. Mas deixa lá; até se transformam em borboletas. Depois de assistir ao fugaz e javardo banquete das larvas, lá nos retirámos com a certeza de que teríamos de voltar a depenar a pobre da amoreira a breve trecho. No dia seguinte, os miúdos curiosos espreitaram para dentro da caixa e nada. Nem sinal dos bichos. Só restavam vestígios de folhas trucidadas e muitas caganetas de larva. Será que os bichos-da-seda se transformaram em trampa? Uma metamorfose difícil de explicar às crianças. A caixa tinha ficado aberta. Não pensámos que as lagartas fossem pelas suas próprias patas à procura da amoreira. Até teria um cunho pedagógico, no sentido de perceberem o que as custa alimentar. Foi então que pousou um passarinho junto da caixa vazia. Parecia olhar lá para dentro em busca de algo. Percebemos o destino dos bichos-da-seda. Lamentavelmente existiu outro ser que ignorou as invulgares capacidades do bicho se transformar em borboleta e decidiu transformá-lo em alimento para as crias. Tive de explicar aos meus filhos que, na natureza, também se dão este tipo de cruéis metamorfoses. A lagarta, ao invés de esvoaçar em forma de borboleta, esvoaçaram com ela para dentro do ninho de um insensível pardal.
Parece que depois de ter servido de alimento, a larva decidiu vingar-se e operou uma metamorfose no pássaro que a trincou. A partir de então, foi ver o pardal desesperado esvoaçando por tudo quanto era lado, em busca da folhinha de uma árvore difícil de encontrar.

terça-feira, 27 de maio de 2008

O barril de crude


Fui assaltado. E o azar foi de tal maneira grande, que esta semana já fui assaltado 5 vezes(?). O curioso é que em todas as vezes que fui roubado, parece que já tinha a sensação de que me iriam meter a mão no bolso; uma espécie de premonição. Então se sabias que te iam roubar, porque razão te foste meter na boca do lobo?...porque o malandro do meu carro não anda sem gasolina!...E é assim que eu me sinto sempre que levanto o manípulo do gasóleo: um pobre tipo a ser roubado à descarada. Estava eu a recompor-me desta sequência de roubo por esticão, quando ouvi a notícia do investimento dos postos de gasolina em sistemas mais eficazes de segurança contra ladrões(?). E eu achei fabuloso. Melhor do que isto, só a revelação do gangue do narcotráfico da Cova da Moura em pretender apetrechar-se com um sistema revolucionário anti-roubo da sua mercadoria. Os tipos que me roubam todos os dias vão instalar um sistema de protecção contra… roubos.
Parece que andam por aí uns indivíduos encapuzados de arma em punho a assaltar gasolineiras. É lamentável, ainda para mais usando a violência. Esses imbecis não aprendem nada com quem realmente sabe do assunto. Não é preciso carapuço, nem tão pouco uma arma apontada à testa. Basta clicar na tecla e passar a coisa de 1,30 para 1,33 euros; e repetir essa operação durante vários dias seguidos. Alguma malta nem percebe; mas como é muita malta, os cofres das gasolineiras percebem na perfeição. Se o assaltado começar a dar por ela, fala-se da escalada do preço do barril de crude, treta que dá para um tipo se resignar. Mas estes assaltantes com nível, para além do poder de persuasão, têm também a seu favor a arma da persistência. O vulgar gatuno entra de rompante dentro da loja, empunhando uma shot gun e diz para esvaziarem rapidamente a caixa, pondo-se em fuga, caso oiça as sirenes do alarme. O gatuno do gasóleo, ri-se quando lhe gritam ao ouvido “Seu ladrão! eu,eu,eu, nem sei o que te faça!....”. Depois do ladrão o chacotear com uma grande gargalhada, responde-lhe com um lacónico: “P’ra começar o que tu podes fazer é dar mais 20 cêntimos por cada litro. Depois, se refilas muito, amanhã pagas mais 50 cêntimos!...queres dizer mais qualquer coisa?...queres ir para casa a pé?”. E para um cidadão urbano, o “ir para casa a pé” é quase tão mau como “levar uma coronhada no toutiço” . São essas as alternativas oferecidas pelos assaltantes. É com alguma repulsa, que eu próprio, apesar de tentar contrariar essa tendência, me sinto quase à beira de esboçar um ténue sinal de complacência para com os tipos que roubam as gasolineiras. Mas não! Não posso compactuar com a ideia do “ladrão que rouba ladrão…” a assaltar a bomba e embrenhar-se na floresta de Sherwood para distribuir o fruto do roubo com os seus amigos pobres. Nenhum roubo justificará outro roubo, …, desculpem lá mas lá estou eu outra vez a cair na tentação de pensar no Robin Hood como herói da minha juventude.
Parece que algumas gasolineiras, vão passar a uma nova estratégia, baseada no assalto sem subterfúgios. Como já perceberam que podem assaltar à vontade com os pategos, vão mais longe e pretendem prolongar o seu gozo, colocando nos seus postos de abastecimento enormes outdoors com a inscrição “Nós roubamos como ninguém”. O cliente irá abastecer, sabendo que está a ser roubado, sem correr o risco de lhe dizerem que a culpa é do barril de crude. A opinião favorável dos pategos é unânime: “Estes gajos roubam, mas são sinceros! Um tipo assim já sabe as linhas com que se cose”. Já viram algum ladrão dizer: “Coloque aqui as notas neste saco, para ajuda das vítimas do tornado do Mississipi !”? quanto muito um “Enche já essa mer…, senão levas um balázio na fronha!”…é mais sério, não está a enganar o funcionário vendendo-lhe a ideia de que não é um cavalgadura.
Acompanhando essa estratégia do roubo à descarada, as gasolineiras vão mudar a imagem dos seus postos. Os bonés dos funcionários vão ser substituídos por máscaras encapuçadas e, nas bombas, estarão inscrições sugestivas do género: “Mão ao ar… e a outra na mangueira”; “A bolsa ou a penantes”; “Abasteça já, porque amanhã vai ser pior”.
Mas não me sai da cabeça o sistema de segurança anti-roubo que os tipos que nos roubam todos os dias vão instalar. Nós é que somos roubados, caramba. Temos de criar o nosso próprio sistema anti-roubo. Um sensor aplicado no veículo que, quando o sinal da reserva acende, se oiça uma voz: “Atenção! É hora de regressar a casa o mais rápido que conseguir!”. No caso do carro não conseguir chegar a casa e se comece a engasgar com falta de combustível, outra voz se fará ouvir: “Atenção! É hora de regressar a casa a pé, o mais rápido que conseguir!”…é que poderá sempre existir uma bomba de combustível pelo caminho, que o faça cair em tentação...de ser roubado sem remissão.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

O Depósito do nosso contentamento



Comemorei o dia 25 de Abril a meter gasolina em Espanha. Também eu pensei que não seria muito patriótico, num dia tão representativo para nós portugueses, estar ali a encher os bolsos dos espanhóis. De mangueira na mão e a ver o líquido castelhano escorrer para o gargalo do depósito do meu carro, senti que deveria estar, ao invés, a escutar uma melodia do Zeca Afonso com um cravo na lapela e exaltar gritos de liberdade. E a agravante de tudo isto é que não meti gasolina de forma circunstancial por estar a passear em Espanha. Fui propositadamente a Espanha para encher o depósito num acto premeditado e sem escrúpulos. Mas que terra de Espanha visitaste?...Nenhuma! Passei a fronteira, abasteci e vim-me embora todo contente. E isso ainda é mais grave. Depois de atraiçoar a pátria eu ainda vinha contente. Tentava purgar a minha culpa “Bem vistas as coisas, com a gasolina 30 cêntimos mais barata, já me dá para dar umas voltitas ali pelo Alentejo à borla…”, mas a culpa continuava a perseguir-me. Enquanto pressionava no manípulo da mangueira com algum constrangimento, aproveitava para olhar para trás. Via uma fila de carros, todos portugueses, à espera, para também eles encherem os seus depósitos; chegavam cada vez mais e mais. Atenuavam um pouco o meu fardo. Já não me sentia tão só. E depois comecei a vê-los entrar na estação de serviço a abastecer que nem uns alarves de tudo o que os seus braços conseguiam abraçar. “Eu ao menos só encho o meu depósito. Agora estes tipos, no dia 25 de Abril, traírem o país desta forma, grandes malandros!...” sentia-me quase absolvido perante a gula desenfreada dos meus compatriotas. Gritava um para a mulher “Ó Matilde já viste aqui um saco de 20 quilos de batatas por 6 euros?”… “E as cebolas?...” É incrível, até por uma saca de cebolas estes indivíduos se vendem aos espanhóis. Ainda por cima no dia 25 de Abril? “Eu ao menos é só gasolina…” , vem a minha mulher muito contente acenando com um gel de banho na mão que custava metade do preço do que em Portugal e tive de lhe dizer “Leva!” . E já agora aquelas bolachas de 1 euro e os chocolates Milka que lá são um balúrdio e aqui em Espanha só custam… “Leva!”. Saímos de lá com os braços cheios de pequenas coisas que valiam a pena, o depósito cheio de gasolina que valia a pena e na mala do carro esteve perto de entrar aquele saco de 20 quilos de batatas …que pena eu não o ter levado. A minha consciência?...nada que um breve cantarolar de uma música do Zeca não redimisse. Mas ao invés de trautear qualquer melodia interventiva como forma de terapia redentora, deixei a minha mente vaguear por factos muito concretos : “Mas porque raio os espanhóis ganham quase o dobro do que nós e pagam menos pela gasolina , pelas batatas, pelo gel de banho e pelos chocolates Milka?” Não encontrando uma resposta concreta para estes factos concretos apenas me ocorreu um sentimento “Que se lixe!”. Ainda bem que tinha ido abastecer a Espanha naquele dia 25 de Abril. Que bem me sentia depois de ter enchido o depósito com menos uns valentes euros. E que bem se deve ter sentido a Matilde ao descascar aquelas batatas. Passei assim o peso das minhas dúvidas para os tipos que taxam os combustíveis em Portugal de forma alarve e até me apeteceu musicar um poema de Ary dos Santos . Voltei a Portugal e, lá do alto do Marvão, olhando para as ameias construídas sobre aquele abismo de rocha, pensei na trabalheira que um grupo de empreendedores portugueses tiveram para nos proteger dos invasores espanhóis. Uma curiosa ironia; agora somos nós, que invadimos Espanha em busca de víveres mais baratos.
Foi sem grandes preocupações energéticas que percorri muitos quilómetros no Alentejo. Ao encher o depósito do meu deslumbramento com o cheiro da paisagem alentejana, ia pensando que não se pode ter tudo. Eles Ganham mais e pagam menos, e nós,…bom,…nós temos o Alentejo para nos encher o ego. Shiuuuu, não contes a muita gente, mas parece que os espanhóis estão a comprar o Alentejo. Com alguma sorte, pode ser que quando plantarem os seus olivais, também coloquem postos de combustível na banda de cá ao preço da margem de lá. E já agora não se esqueçam das batatas, das cebolas e dos chocolates Milka.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Um Regalo


Li no Jornal Torrejano uma nota de indignação manifestada por um senhor perante a nossa revolta enquanto professores no panorama actual. Escrevia ele que sempre trabalhou no duro e nunca teve as nossas abissais regalias. E eis que, qual cruzado a dar no toutiço dos infiéis, chegou finalmente alguém com coragem para retirar as tais regalias desses malandros, que esbanjam o dinheiro dos nossos impostos e não fazem quase nada. Ora aí está uma mente lúcida! A função dos bons governantes não é criar mais regalias, mas sim retirá-las. Há que nivelar as regalias, para a malta não se queixar. E se não é possível nivelar por cima, nivela-se por baixo que está muito bem. Até acho que eu próprio daria um óptimo governante; hoje fiz a experiência de dar menos ração aos meus cães e eles nem se queixaram muito. Isso de tirar privilégios instalados até parece fácil…O caminho terá forçosamente de passar por esta ideia chave: “Queres regalias? O Tanas!” . Estou a imaginar o inquérito a preencher pelo candidato a um emprego onde aparecerá naquele campo das doenças: 1. sofre de epilepsia?, 2. tem problemas de visão ou audição? 3. deficiências respiratórias? 4. Tem sífilis? 5. Aspira a algum tipo de regalia?. No caso do infeliz responder positivamente à última questão recebe o carimbo com “O Tanas” estampado. Mesmo aquele indivíduo mais maneirinho que responde com um pouco ambicioso “Se possível…sabe… gostaria de ter uns diazitos de férias, mas poucos está claro…” lá via o seu formulário ser borrado com o implacável “ Tanas” do carimbo. Será esta a sociedade que nos espera, em que todos sonham com um emprego onde possam usufruir do menor número de regalias possível. O trabalhador ideal dá o litro 60 horas por semana, não tem férias para ir apanhar uma corzita à praia da Vieira e apenas se queixa daqueles que trabalham menos horas e têm mais dias de férias. Trabalha que nem um moiro e fica extremamente contente se, os que são menos moiros, ficarem tão moiros quanto ele. Caminhamos na direcção da moirice colectiva; uma massa de moiros que não descansa e que não descansa enquanto não tiver a seu lado todos os que tinham algumas regalias. Aliás a palavra regalia, soa tão mal nos ouvidos de um moiro como a voz esganiçada da Catarina Furtado soa nos meus. Basicamente o moiro é um invejoso do catano. Entre darem-lhe mais dois dias de férias ou retirarem quatro dias de férias a um privilegiado, prefere claramente a segunda opção. No entanto, existe algo que eu ainda estou a ver se entendo. Supostamente, com tanto moiro a produzir, com tanta regalia retirada aos quase moiros, seria suposto que se estivesse a gerar mais riqueza. E eu pergunto: para que é tanta riqueza? Se os moiros não se importam de ser moiros e forçam os quase moiros a ser moiros, quem usufrui da produção?...do tempo livre?...do repouso?..do dinheiro?..das reformas mais cedo?....Estão a pensar em quem?...
Mas o golpe de génio foi de quem pensou em retirar as faraónicas regalias dos professores. Os chorudos ordenados, o interminável tempo de ócio, a progressão automática, as turmas pequenas, os alunos que estão lá para aprender. O professor que não se revolta por lhe retirarem regalias, será um indivíduo conformado. E a grande vantagem da transformação de professores em seres resignados e apáticos, é que também ensinarão os seus alunos a ser resignados e apáticos, ou seja, moiros em potência. E é disso que esta sociedade necessita. Da proliferação de cada vez mais moiros resignados a uma sorte de trabalharem que nem uns condenados para conseguirem sobreviver…sem regalias.
Hoje a minha mãe viu a enormidade que teria de pagar de IRS. Ficou a perceber que perdeu as enormes regalias por ser deficiente motora. Estarão a esta hora muitos moiros esfregando as mãos de contente e comentando com o colega moiro do lado: Estava a ver que nunca mais retiravam as regalias a estes malandros que vivem às custas do nosso trabalho. Se não têm dinheiro para pagar os impostos como nós, vendam as cadeiras de rodas, despeçam a empregada, esqueçam a reabilitação, não tomem medicação, fiquem na cama! Querem regalias? O Tanas!...quanto muito um “regalo”,…daqueles espanhóis mais baratuchos. Olha, até pode ser um dos toiros em miniatura que fazem muuuu quando lhe apertam o dorso. É que o bicho pode ser pequeno mas não é lá muito resignado...