domingo, 21 de setembro de 2008

O estreito de Magalhães


“O Magalhães chegou às escolas” Assim de repente, quando ouvi a notícia, fiquei admirado e um pouco emocionado, afinal não era todos os dias que assistiríamos ao renascer do nosso mais corajoso navegador português. Depois fiquei confuso quando completaram com um “agora até os mais pequenos só têm de clicar nas teclas…”. Mas que raio tem o “clicar nas teclas” a ver com Magalhães, conhecido pela arte no manuseamento do leme das suas Naus? Será que o inventor do computador para crianças se lembrou mesmo de Fernão de Magalhães, ou apenas o teria feito em honra de um amigo, um tal de António Magalhães, dono da mercearia, e grande percursor da troca do lápis atrás da orelha, pelo clicar na máquina registadora? Eu inclino-me mais para esta tese, até porque, se o herói Magalhães desconfiasse que deram o seu nome a um objecto de plástico com botões, fabricado nos Estados Unidos, iria ficar um pouco aborrecido. Mas o computador cria nas crianças desde muito cedo a habilidade de navegar e descobrir um mundo sem limites. Pronto, está explicado. O computador representa para a criança de 6 anos, o fast-food da navegação. O lema será: “Navega com facilidade, trabalha sem dificuldade”. É isso que se pretende, facilitar a vida do petiz. A máquina evita que tenha muito trabalho a escrever ou a procurar informação; basta navegar com o cursor, que a coisa fluirá sem problemas. Parece pois, que a navegação é o denominador comum entre o Magalhães e Magalhães. A grande diferença está na trabalheira que o genuíno (o Fernão) teve para descobrir o raio do Estreito que fazia a ligação entre dois continentes. Agora é ver um monte de Magalhãezinhos a navegarem até à Patagónia chilena, apenas com um clique , troçando das longas semanas que o outro Magalhães passou, a tentar sair daquele labirinto gelado e descobrir uma passagem que ninguém sonhava existir. O feito do nosso verdadeiro navegador, nada tem de instantâneo, revela uma perseverança e astúcia, que não se coadunam com um simples clicar no botão do lado esquerdo do rato. E ali está ele, Fernão Magalhães, em frente do tal Oceano, que haveria de chamar de Pacífico, pronto para se lançar à descoberta…Pssst,…Ó Magalhães!...Magalhãaaaees!...sou eu, o Xavier do 2º ano turma B! …Olha Magalhães, se queres descobrir as Molucas, basta colocares aqui em cima na janela do Google, o nome “Molucas” e elas aparecem num instantinho, com mapas e tudo pá! É que isso de te mandares à maluca dá uma trabalheira p’ra chegares à Moluca! Eh, eh, gostastes do trocadilho intelectual que acabei de fazer pá? Mas como Magalhães não sabia o que era o Google, lá foi ele, atravessar o Pacífico durante três meses,… com comida para duas semanas. O Xavier do 2º ano, que sabe procurar no motor de busca, nem sonha o que será ter de comer o couro das amarras ou os ratos do convés para sobreviver ao desafio da descoberta de um novo oceano.; Para a Beatriz do 4º ano é simples navegar, sem ferir as mãos a caçar a vela ou sentir os lábios gretados pela desidratação; para o Jaime do 3º ano é óbvio identificar a Micronésia sem lhe conhecer o cheiro. Para Fernão de Magalhães nada era fácil ou óbvio. Para se ser empreendedor tinha de se suar estopinhas. Magalhães descobriu que a terra era redonda porque levantou a bunda do sofá e foi à luta. Pssst, pssst,….ó Magalhães, sou eu outra vez, o Xavier do 2º ano. Essa coisa da luta é careta; agora é mais wrestling e moches pá! E para mais, eu descobri que a terra era redonda, sem ter de deixar a minha cadeirinha ergonómica a amparar-me o nadegueiro. Bastou ir ao globo tridimensional do Google Earth, e não custou nadinha.
Continuo sem conseguir explicar tão absurda colagem do nome do herói Magalhães a um negócio de bytes-milhões, encoberto por hipotéticos benefícios educacionais. Não quero sequer imaginar que tal associação se possa dever à forma como o navegador morreu na Indonésia, às mãos do cacique Lapu-Lapu. Acredita-se que Fernão de Magalhães cometeu um suicídio; foi ao encontro de uma morte voluntária. O meu temor é que o computador Magalhães, represente também ele o Harakiri do próprio ensino; a facada final na memória que temos de um Homem com as proeminências no sítio certo, dizendo à sua tripulação que aquela era uma aventura pela qual valeria a pena arriscar a vida. Pssst,….pssst, ouve lá ó cronista de meia tijela, aqui o Xavier do 2º ano, não percebeu o que é que tem o Harakiri a ver com o tal do Magalhães??? Diz aqui na wikkipédia que isso era uma coisa dos Samurais…?...onde é que o Magalhães é p’rá qui chamado pá?

sábado, 23 de agosto de 2008

Campismo em quadrupedia


Imbuído de uma enorme nostalgia, dos meus tempos de campista adolescente, da tenda canadiada e do fogão camping gás onde fazia umas arrozadas de salsichas, pensei como seria agradável, partilhar estas minhas remotas vivências campistas com os meus filhotes. Chegámos ao parque de campismo e disseram-nos que apenas existia um espaço para o nosso iglo, ali entre duas tendas familiares. Á medida que a estrutura da nossa tenda de 4 lugares ganha forma, percebemos que o fabricante era definitivamente chinês, uma vez que aquele espaço daria quanto muito para albergar 4 chinezinhos ou uma família de porquinhos da índia. No momento de espetar as espias naquele solo empedernido, falta-nos o que falta sempre ao aspirante de campista: o martelo. Vamos à procura de pedras para bater na espia e encontramos sempre uma que magoa a mão e é pouco eficaz na hora de espetar o ferro no betão. Quando entortamos a quarta espia e partimos a terceira pedra, olhamos para o lado e deparamo-nos com o personagem que dá cabo do nosso ego de campista esporádico. Ali está ele, o campista residente, com um olhar de desdém pelo nosso empenhado esforço no sentido de conseguir cravar as espias. E não há nada mais humilhante do que, depois de nos ver ali algum tempo a de gladiar entre a espia, o calhau e o cordel, nos dizer se precisamos de uma ajuda abalizada. Declinamos de forma educada e continuamos, com alguma dignidade, a nossa luta para deixar a coisa apresentável. O campista residente retira-se para o seu luxuoso abrigo: Uma tenda de fazer inveja ao Sultão do Dubai; com todo o conforto eléctrico de qualquer casa, parabólica e micro-ondas incluídos, o mosaico incrustado no chão, cadeiras de encosto em frente da televisão e sebes bem regadas à volta do espaço.
Nós, tínhamos aquela carapaça de cágado, onde teriam de caber 4 corpos de cágados com toda a roupa e farnel. E é na posição de cágado que temos de entrar nos aposentos e com ela destruir toda a nostalgia da adolescência. Aí percebemos esse lado pernicioso do campismo que nos obriga a um exercício de alternância constante entre o bipedismo e a quadrupedia. Vamos dar um mergulho à praia e…”Onde estão os fatos de banho dos miúdos?”pergunto, “Estão no fundo da tenda ali debaixo das calças e por cima dos casacos!”, entro a rastejar e procuro no meio do monte de roupa onde poderão estar. O monte de roupa cai em cima dos sacos de cama e saio a rastejar com os fatos de banho na boca. “E o protector solar?”. Rastejo novamente e novamente chafurdo naquele amontoado de peças. Saio triunfante, com o troféu 40 UV seguro na mão.
Depois do mergulho na praia, voltamos à carapaça que, depois de ficar todo o dia ali ao sol, se transforma numa espécie de sauna em miniatura. Entramos no forno em quadrupedia para encontrar o champô e as toalhas para o duche. Chegamos ao duche e encontramos uma bicha que vai até aos urinóis. Esperamos que chegue a nossa vez e finalmente lá entramos para o retemperador duche…frio??? Melhor assim que se poupa água. Esfrega rápido o miúdo; esfrega rápido o pai, embrulha na toalha e vá de correr com cabelos ao vento até à tenda em busca do quentinho. Entramos os dois e procuramos a roupa. O monte já passou a colina; chegam as duas cágadas e instala-se um pandemónio ao nível de uma luta na lama numa discoteca em Albufeira. Conseguirmo-nos vestir ali no interior da minúscula carapaça sem dar uma cotovelada ou um pontapé no nariz de alguém, revela-se uma árdua tarefa. Rastejamos a suar para o exterior e cheiramos a arte dos nossos vizinhos residentes. Qualquer campista que se preze tem de ter um grelhador para assar os seus petiscos; Da direita vinha o fumo da bela da sardinha, da esquerda o odor do picante frango na brasa. Estávamos na confluência de cheiros, a comer a nossa lata de atum com batatas pála-pála, sentados numa manta e envoltos em fumo do petisco dos outros. Os outros, sentam-se à mesa e exibem entre os dedos e os dentes, as iguarias das quais nós só sentimos o cheiro.
Chegou à hora da soneca. Conseguimos encaixar os quatro muito a custo e temos de fechar as aberturas por causa das melgas. O termo-acumulador funcionou na perfeição durante o dia e agora, estava ali, em processo de compostagem, com o nariz encostado ao pano lateral da tenda e o cabelo a roçar no que resta da colina de roupa. “Que se lixem as melgas!”. Abri os orifícios e pus a cabeça de fora. Agora sim, está mais fresco. Vou finalmente dormir,…,péra lá que o vizinho está a explicar à mulher os planos para amanhã; o tipo da caravana em frente está a falar numa língua esquisita que deve ser sueco; e oiço também lá longe a rapaziada que chegou agora da nigth. No campismo é assim; o som propaga-se mais fácil, tornando difícil o descanso pleno. É agora!...depois de uma hora a ouvir toda a animação circundante, estou quase a aterrar…isso, num sono profundo,….Dlim,dlão,…dlim,dlão(?). As vaquinhas que pastam junto da vedação onde encostei a tenda, têm badalos, que badalaram a noite toda, badalando-me também o meu estado de vigília,… dlim,dlão.
Com olheiras e picadelas de melgas arrumei as tralhas, e pisguei-me dali na manhã seguinte, pensando como a falta de material e disponibilidade adequados poderão ensombrar as nossas doces recordações. No entanto, a minha memória, está a ver se insiste na partida do campismo; de me obrigar a comprar uma tenda maior, uma mesa com banquinhos e um grelhador, mas tenho quase a certeza de que um dia, ainda me vou lembrar de um tal hotel de 5 estrelas onde passei dias muito felizes na adolescência.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Torcer o Nariz


Sentei-me no sofá a ver os Jogos Olímpicos. O meu filho mais novo sentou-se ao meu lado e lançou a pergunta da ordem: “Oh pai, estás a torcer por quem?”. Eu respondi-lhe: “Pela portuguesa.”
“E achas que ela vai ganhar?”
“Parece-me bem que não, mas está a esforçar-se…”
Depois de um breve silêncio, volta à carga
“Mas porque é que ela vai em último?”
Tinha chegado a altura da explicação pedagógica, com ênfase na relativização dos resultados mediante o amadorismo dos nossos atletas; no seu esforço, na sua superação,..
“E as medalhas?...só os outros é que ganham medalhas?”, não desistia o cachopo
E eu pensei… “É lá!...querem ver que tenho aqui um repórter desportivo em potência?”. De facto o tipo reproduzia de forma fiel as palavras da maioria dos jornalistas que cobrem o evento…”então e as medalhas?”. Já acho alguma piada, à cara que os tipos fazem quando, suspendendo a respiração, perguntam “È agora?”….para depois expirar com um fatídico desconsolo “…ainda não foi desta”. Também me dá um certo gozo, quando têm de soletrar amargurados, a trigésima sexta posição que o atleta português ocupou no final. Eu sei que é um pouco cruel, mas os tipos têm de aprender a não ser gulosos. Para se exigir colocar os dentes no petisco, tem de se dar o seu contributo com alguns ingredientes. De entre os campeonatos de futebol da 1º, 2º 3º e distritais, as notícias do judo, do atletismo, da vela, do badminton ao longo do ano, continuam a aparecer, apenas quando um desses atletas semi-amadores consegue a improbabilidade de ganhar uma medalha contra um qualquer Golias profissional. Bom, mas voltemos ao que interessa. Cabia-me a tarefa de explicar ao miúdo que dos 40 em competição só os três melhores ganham medalhas, e que muitos daqueles 37 que não sobem ao pódio, são também os melhores dos seus países.
“Queres dizer que esta atleta que ficou em último é a melhor que temos em Portugal?”
“Sim.”
“Mas porquê?”
Esta mania do “porquê” deixa-me irritado; a coisa poderia ter ficado muito bem com o “sim” e não se falava mais nisso. Agora com a curiosidade exagerada do petiz, ou me pirava dali com uma desculpa estapafúrdia ou teria de explicar ao miúdo que somos um país pequenino, que tem outras prioridades para investir e, outras balelas, que não lhe interessam para nada.
Sentei-me no sofá a ver os Jogos Olímpicos. O meu filho sentou-se ao meu lado:
“Oh pai, há portugueses em prova?”
“Não.”
Como já não tinha o entrave patriótico a atrapalhar, perguntou esperançoso:
“Estás a torcer por quem?”
“Por aquele tipo da Nova Zelândia”
“Então eu também vou torcer por ele.”
Deu-se a partida para a corrida.
“Oh, pai não é ele que está a ficar para trás?”
“Penso que sim.”…
…“Achas que posso torcer antes por aquele americano que vai à frente?”

sábado, 19 de julho de 2008

Comichões

Não sei quem disse que um homem só materializa a sua existência depois de plantar uma árvore, fazer um filho e escrever um livro. Depois de ter plantado algumas árvores, de ter contribuido para a produção de duas magníficas crianças, decidi compilar algumas das minhas crónicas e editar um livro de devaneios. Curiosamente, depois de me olhar várias vezes ao espelho, tentar imitar a voz de um másculo tenor ou de ter espreitado para o interior das calças, não notei grandes alterações existenciais, que corroborassem a teoria de que agora é que sou um homem a valer. Depois de pensar muito, sem grandes respostas, ...mas querem ver que é por causa do trabalho para os conseguir? Nããã... Pensando no trabalho, é curioso como esse três vértices da existência humana o têm incluido na sua génese. O trabalho para se fazer um filho é pouco (e até dá algum gozo), mas o trabalho para o criar é muito; no caso da árvore, existe um certo equilíbrio de esforço: Dá trabalho a plantar e dá trabalho depois de plantar (com as regas e as podas). No caso do livro, a relação apresenta-se algo inversa à da procriação, dando trabalho antes de editar e nenhum trabalho depois da coisa estar feita. Bom mas sem chegar a qualquer tipo de conclusão, a não ser que a existência dependerá de obras bastante mais magnânimes do que estas, aqui deixo a capa do meu livro e o seu prefácio....

A comichão é tramada. Mas aquela era particularmente tramada. Numa comichão normal, apenas tramada, existe um misto de incómodo e de prazer; chateia quando aparece, mas depois de uma boa coçadela, transforma-se em alívio, quase sempre acompanhado por um sonoro e descomprimido ahhhhh. A comichão que me assolava naqueles dias não tinha nada de normal. Não era despoletada pela mordidela de uma pulga, a picadela de um mosquito ou o contacto com uma erva daninha. Não atingia uma área específica do corpo, nem mostrava sinais de abrandamento perante as minhas vigorosas coçadelas. Pus-me a pensar, pensei mais um pouco e cheguei à conclusão que a comichão aparecia quando pensava demais. Estes surtos de urticária neural surgiam sempre que a minha mente decidia vaguear pelos meandros mais intrincados das nossas vivências sociais. Depois de muito penar, lá descobri o antídoto para essa minha irritadiça comichão: a escrita. Nunca tinha escrito nada de relevante até ao dia da primeira comichão mais que tramada. Depois desse dia continuei a não escrever nada de relevante, mas aquilo aliviava o prurido. Era uma espécie de terapia anti-coceira. Foi então que, em jeito de catarse, me pus a escrever umas coisas, sobre coisas que me causavam comichão. E é a magnitude da comichão que decide o tipo de escrita. Se o agente alergénio for de grande porte, a puxar para a sarna, a escrita descamba numa expressão rude de sentimentos do tipo antibiótico de largo espectro. No caso da ténue comichão, do tipo cóceguinha atrás da orelha, basta uma suave escrita “aspirina” para que os sintomas rapidamente se dissipem.
Quando pensei que os meus rudimentares escritos ficassem perdidos algures entre a escrivaninha e os gatafunhos infantis dos meus filhos, alguém leu um desses desabafos e pediu-me para os editar no Jornal Torrejano. E foi assim que dei em cronista. Podia ter dado em coisas piores . Eu acho que depois da minha segunda crónica, já o João Lopes tinha ficado arrependido de me ter endereçado o convite, mas nunca teve coragem de me dizer: “Desculpa lá, mas os teus gatafunhos ficam bem é no meio dos gatafunhos dos teus filhos!”. Então, essa pedra no sapato do JT foi-se mantendo por nove longos anos, durante os quais fui descobrindo o efeito secundário em alguns dos escassos leitores das minhas crónicas: uma terrível e prolongada comichão(?). É verdade, eu deixava de ter coceira porque escrevia, e o leitor passava a coçar-se porque lia. Até que cheguei a este ponto de loucura extrema ao decidir compilar alguns desses devaneios escritos, neste livro de gatafunhos terapêuticos para a comichão.
Ainda pensei em convidar um escritor a sério para fazer o prefácio do meu livro, mas não tive coragem. Por muito menos, já vi grandes personalidades arruinarem o seu aparente inabalável prestígio. Assim, coube-me a mim, apresentar esta obra literária de média…vá… de pouca envergadura, desta maneira algo comichosa.
A forma como as crónicas serão apresentadas, não obedece a qualquer tipo de organização. É que eu nunca fui lá muito arrumadinho, para desgosto dos que comigo convivem. No meio do caos, preocupei-me apenas em colocar para abrir, uma das piores e mais deprimentes crónicas, no sentido de garantir que, à medida que se avança pelas restantes páginas, a qualidade será sempre melhor.
Como última nota, apenas a recomendação para, no caso do leitor sentir em algum momento uma irritadiça comichão, o favor de fechar o livro e esperar que passe sem se coçar muito.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

A ditadura do flash



Fui ao casamento de um amigo. Aliás, só um amigo consegue fazer com que suporte, de ânimo menos pesado, um casamento. Pensando bem, um amigo que se preze, não se casa, só para não ter que fazer os amigos gramar o frete da boda. Bom, mas lá fui, antecipando aquele longo dia sentado à mesa num obsceno exercício de gula, entre 4 pratos e múltiplas batidelas com os talheres nos copos à espera do beijo público dos noivos. Quando quis cumprimentar os noivos, dei de caras com um dos tipos de maior poder na sociedade portuguesa. Não, não falo do Américo Amorim ou do professor Marcelo, mas do fotógrafo do casamento. Barrou-me o caminho com as suas costas, dizendo: “Agora não, que tenho de fazer uma fotografia com o altar ali de fundo!” É, de facto, ele quem manda naquilo tudo; É ele que faz esperar o noivo no altar; é ele que diz ao padre onde se ajoelham os noivos; é ele que decide quando os convidados podem começar a trincar as iguarias. Mas vamos por partes. Primeiro a parte das fotografias da noiva em cima da cama, com o vestido sobre a colcha de renda. A noiva; a noiva com os pais; a noiva com os padrinhos; a noiva com o afilhado; a noiva com a irmã mais velha; a noiva agarrada ao urso de peluche. A noiva trinca um rissol, dá um gole no champanhe… “Isso! de perfil,...deixe os lábios no rebordo do copo!...que foto fantástica com a luz a bater no espumante!” reforça o artista. A noiva apressa-se a sair de casa dos pais. “Um momento! Alguém a segurar no vestido!...assim,… estica, isso mesmo,…agora estica mais para a direita,…isso, mantém,…agora o sorriso… o senhor agora não passa! ninguém passa no portão!…Isso! tudo quieto!.. pronto já está!” . Ao sinal do líder de máquina a tiracolo, toda a malta já pode correr para os carros. A noiva entra no carro. “Não entra ainda! …espera!...quem segura a porta?...tem de ser o pai!...onde está o pai?...agora entra devagar para eu conseguir apanhar todo o momento!”…o momento(?). Sim! O da entrada no veículo antes do enlace. O noivo já espera há meia hora, mas é da praxe a noiva não ser pontual. Porquê? Por causa do fotógrafo. Chega à igreja, o (outro) momento: a saída do carro. “O pai!...atenção ao vestido bem aberto,…bom,… a tapar bem a escadaria!...o pai do lado direito da noiva, isso!...mas com um sorriso senhor António,…afinal é a sua filha que se vai casar, homem!...”. O noivo olha para ela com ar de quem está farto de esperar e ela sorri: “sabes, …o fotógrafo”. O casamento decorre, sempre com a câmara entre o padre e os noivos num frenético alvoroço. A entrega da aliança é feita devagar para que não falte pitada à reportagem fotográfica e videográfica. A cerimónia decorre mais rápido do que previsto; o padre despachou-se; vamos ao que interessa!... ao petisco. Mas, e as fotografias dos noivos em frente ao altar? com os pais, padrinhos, amigos,… Toda a gente sai para a cena do arroz na cabeça e espera cá fora ao sol. Continua a espera…então os noivos? saem ou não saem? …está ali o fotógrafo a disparar mais umas poses “Isso, agora com um beijo na testa!...ali mais junto da sacristia!”. Parece que já vêm os noivos, é agora o arroz, vai ser agora que a malta vai mandar!…Atenção! “Pára!”...grita o homem da máquina… “Só lança o arroz quando os noivos passarem no segundo degrau!”. Então a malta já não pode mandar o arroz quando quer? O arremesso para ser lúdico, tem de ser espontâneo e com força, para se embrenhar no penteado da noiva; não pode obedecer a restrições. “Mas é por causa do efeito estético; a imagem fica mais conseguida”.
No restaurante dá-se a expressão máxima do poder do fotógrafo. Encosta os noivos a uma sebe, bem iluminada pelo sol, e vai disparando ininterruptamente, indiferente ao suor das vítimas e à fome dos convidados das vítimas. Ele domina claramente a situação. 200 pessoas à espera para trincar a vitela assada e os noivos ali com um sorriso nos lábios esperando por mais uns tiros do esquadrão de fuzilamento. Está tudo ali, com vontade de mandar um croquete à cabeça do ditador, mas quando ele se vira, ouve-se alguém: “Eu também quero uma com os noivos!”. Ao fim de duas horas à soleira com o permanente sorriso nos lábios, os noivos sobreviveram apenas com ténues sinais de desidratação e rigidez facial. Os convidados, esses, já tinham enfardado todos os croquetes e rissóis das entradas e nem sequer pensavam já na vitela e no bacalhau com natas. Quando o fotógrafo decide libertar os moribundos noivos à beira da insolação, já só nos apetece o cafezinho.
Ainda não foi desta que consegui chegar à sobremesa. Depois de tanto frito no bucho, fiquei-me pelo primeiro prato. Mas fui ao casamento do meu amigo e aguentei até onde pude. Ele vai perdoar a minha retirada mais cedo do combate; compreenderá as minhas limitações. Agora, no repouso do lar, temo que a qualquer momento surja a pergunta que não terei arcaboiço para responder afirmativamente : “Olha, não queres ver o vídeo do nosso casamento?”.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Se até o chimpanzé percebe...


O meu carro cheira a leite podre. Quem conhece o meu natural desleixo já deve estar a pensar que me voltei a esquecer das peúgas suadas debaixo do banco ou da casca de banana no porta-luvas. Mas não. O carro tresanda mesmo a leite a puxar assim para o azedo. E é com este odor pouco agradável como fundo, que aproveito para lançar daqui a minha mais profunda homenagem a todos os ecoresistentes deste país, que andam com o carro a cheirar a leite podre e a sacudir varejas do tabliê à procura de ecopontos. Tudo começou com um chimpanzé a explicar como fazer a separação dos lixos. E a campanha publicitária dizia qualquer coisa do género: “Se até o chimpanzé percebe como se faz…”. O anúncio é bem feito; desperta a hominização que existe em cada um de nós. E esse nosso orgulho humano não poderia ficar indiferente ao ser suplantado por um símio que come bananas e amendoins. A confusão entre o balde amarelo, o verde e o azul já não existe, até porque o espectro do bicho peludo a dizer que “até ele percebe”, não me deixa espaço para confessar a minha distracção, de forma totalmente assumida. O que o chimpanzé não percebe é a trabalheira que dá a uma pessoa, despejar o lixo que conseguiu separar em casa. Sim, esta coisa de colocar a lata de Coca-cola na mão do bicho e pô-lo a deitar no balde azul (?)… ou será o amarelo (?), que está ali a dois passos, eu acho que com algum trabalho, até punha os meus cães a fazer. Eu gostaria era de ver o chimpanzé, com o saco cheio de pacotes de leite amassados às costas, conseguir descobrir um ecoponto e depois, ter o engenho para despejar os resíduos lá dentro de forma célere. A campanha começou bem com o chimpanzé a explicar como se faz, mas qualquer esforço de mudança de maus hábitos enraizados, deverá assentar na filosofia da facilitação. Metem-se os sacos na bagageira do carro e vamos à procura dos ecopontos. Quando por fim, lá os encontramos, deparamo-nos logo com esse fabuloso factor facilitador: A abertura. A história do elefante passar pelo buraco da agulha, ensombra o nosso esforço, sempre que queremos empurrar os nossos volumosos pacotes de leite compactados, por aquele orifício…zinho. Aliás o nome “Plasticão” rima na perfeição com o asneiredo que sai da nossa boca, quando estamos a fazer força no fundo do saco para aquilo entrar lá dentro e. verificarmos por fim, que a coisa não entra. Ao retirar alguns pacotes para estreitar o volume, aquele pedaço de leite coalhado espirra em direcção da nossa roupa lavada. Fazemos mais umas rimas e, ao fim de algum tempo, conseguimos empurrar, com a ajuda de todo o nosso peso, os plásticos lá para dentro. Depois das embalagens, vamos buscar o papel para despejar no “papelão”. A luta “orifício pequeno/ volume grande” continua animada. Temos um molho de papéis na mão, vem uma rabanada de vento e vemos os estratos bancários voar na direcção do quintal do lado. Sai outra rima brejeira em honra ao orifício do papelão e vamos apanhar o saldo bancário ao espinho de uma roseira. Por fim, conseguimos apanhar todos os papéis e metê-los no orifício. Coragem, que já só falta o vidro. O Vidrão tem o buraco mais pequeno de todos. Assim à primeira vista parece passar à vontade uma mini de cada vez. É curioso porque o nome “vidrão” (assim como os seus primos anteriores) indicia uma coisa em grande, com uma abertura em grande, para se poder despachar coisas em grande e depois, selecciona criteriosamente todos os invólucros, qual posto fronteiriço entre Israel e a Palestina. Estamos nós a espetar garrafa a garrafa lá para dentro e, ao nosso lado, bem ao nosso lado, está um caixote de lixo vulgar, com uma abertura enorme e vulgar, a chamar por nós. É um teste à nossa consciência; o Lúcifer apontando o caminho da perdição. Não basta dificultar a tarefa, como nos espetam com a opção mais apetecível a acenar bem ali à mão. É como querem impingir-nos um prato de comida macrobiótica, com o odor da feijoada ali encostado ao nosso nariz.
O meu carro continua a cheirar a leite podre. Esqueci-me de despejar à ida para o trabalho e não tive tempo para despejar à vinda. Quase a chegar a casa, tenho outro caixote de lixo grande e lustroso a chamar pelo meu leite coalhado: Aqui! Podes deixar esse cheiro a azedo aqui! É só abrires a tampa e já está! Do que estás à espera? Não sei bem…talvez iludido à espera do dia em que se lembrem de me facilitar a vida. Parece que até o chimpanzé percebe.

domingo, 15 de junho de 2008

A Metamorfose


Fui buscar o meu filho ao infantário. “Temos aqui uma caixinha para levar para casa!...”. Esta frase antecipa um dos momentos mais aguardados por qualquer progenitor: o dia em que o convidam a acolher em sua casa, os simpáticos bichos-da-seda, esses mandrakianos seres que se conseguem transformar em borboletas. Pretende-se que as crianças acompanhem de forma activa esse processo de metamorfose, mas cedo percebemos que vai sobrar para nós. Começa logo, porque a doce criatura é esquisita como raio e só come folhinhas de amoreira(?)… mas,… e aonde é que existem essas amoreiras?, perguntamos convencidos da sua enorme abundância em todos os jardins da cidade. “Amoreiras, ora deixa cá ver,…, existe uma ali p’rós lados do Vale e outra junto àquela rotunda …”. Começamos a fazer contas de cabeça e multiplicamos as centenas de pais, que levaram para casa dezenas de bichos-da-seda, depois dividimos pelas 4 amoreiras que existem na cidade, o que dá assim a grosso modo uma média de muito bicho por cada árvore. Mas não podem ser folhas de alface? De oliveira? De uma qualquer erva daninha? Não!...o bichinho parece que não vai muito à bola com essas folhas; causam-lhe distúrbios no frágil metabolismo. Andamos nós a ensinar às crianças as vantagens de uma alimentação variada, a não torcerem o nariz quando lhes colocamos uns brócolos no prato, a sorrirem perante uma sopa de espinafres e depois pomo-las a satisfazer os caprichos de uma larva esquisita. Mas vale o esforço; afinal o bicho transforma-se em borboleta. Lá me meti no carro e fui à procura de tão rara espécie vegetal. Depois de algumas voltas, encontrei a bela da Amoreira, ou o que restava dela. Parece que outros pais, já se tinham antecipado e deixaram-me uma Amoreira depenada do pescoço para baixo. As folhas que sobreviviam, encontravam-se a uma altura alcançável por um basquetebolista americano ou pelo Tarzan nos seus melhores dias. Assumi desde logo que não tinha molas nas pernas, nem tão pouco a Jane à minha espera no cocuruto da árvore, restando-me a versão “pés em cima do tejadilho do carro” como forma de alcançar tão difícil verdura. Estava eu a resmungar em pontas dos pés em cima da chaparia do veículo, quando passou outro veículo que abrandou a sua marcha. Com duas folhitas numa mão e o ramo seguro pela outra, olhei para baixo e deparei-me com o olhar reprovador do condutor. Sentia-se no ar um “Não tens vergonha? a roubar folhas de uma árvore tão rara…”. Não estou para isto! Um tipo tem de fazer quilómetros para encontrar umas folhas especiais para um estafermo multipatas que não crava os dentes em qualquer repolho; depois tem de se pôr aos saltos para ver se alcança o raio da verdura; e ainda se sujeita ao desdém do senhor do automóvel. Raios partam a minhoca. Mas se ela até se transforma em borboleta…Pronto, está bem. Lá meti umas quantas folhas no saco e levei-as para os meus filhos satisfazerem o apetite daqueles selectos seres. Quando as folhas caíram na caixa, os doces bichinhos da seda que se transformam em delicadas borboletinhas, mandaram-se a elas como um boçal brutamontes da idade média morderia um naco de pernil. Não basta as tipas só comerem folhas de uma árvore em vias de extinção, como não demonstram qualquer tipo de preocupação na preservação dos parcos recursos. Trituram a amoreira quais térmitas trucidando escrivaninhas. Mas deixa lá; até se transformam em borboletas. Depois de assistir ao fugaz e javardo banquete das larvas, lá nos retirámos com a certeza de que teríamos de voltar a depenar a pobre da amoreira a breve trecho. No dia seguinte, os miúdos curiosos espreitaram para dentro da caixa e nada. Nem sinal dos bichos. Só restavam vestígios de folhas trucidadas e muitas caganetas de larva. Será que os bichos-da-seda se transformaram em trampa? Uma metamorfose difícil de explicar às crianças. A caixa tinha ficado aberta. Não pensámos que as lagartas fossem pelas suas próprias patas à procura da amoreira. Até teria um cunho pedagógico, no sentido de perceberem o que as custa alimentar. Foi então que pousou um passarinho junto da caixa vazia. Parecia olhar lá para dentro em busca de algo. Percebemos o destino dos bichos-da-seda. Lamentavelmente existiu outro ser que ignorou as invulgares capacidades do bicho se transformar em borboleta e decidiu transformá-lo em alimento para as crias. Tive de explicar aos meus filhos que, na natureza, também se dão este tipo de cruéis metamorfoses. A lagarta, ao invés de esvoaçar em forma de borboleta, esvoaçaram com ela para dentro do ninho de um insensível pardal.
Parece que depois de ter servido de alimento, a larva decidiu vingar-se e operou uma metamorfose no pássaro que a trincou. A partir de então, foi ver o pardal desesperado esvoaçando por tudo quanto era lado, em busca da folhinha de uma árvore difícil de encontrar.