sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Interpretações Galináceas



Já não escrevia há algum tempo. Estive a passar por um período de recolhimento forçado resultante da avalanche de fenómenos paranormais que vão surgindo e a minha capacidade de filtragem ser extremamente limitada. Precisava de tempo para conseguir fazer a minha interpretação dos factos. Estava eu aqui no meu canto, a interpretar sossegadinho, e dou comigo a chocar com a própria da interpretação(?). E esse meu encontro com a “interpretação”, foi para mim um momento feliz; ao nível de um encontro da minha dentição com um prato de favas estufadas. Procurava algo que me pudesse saciar o apetite, sem ter de ficar com um travo de alho colado ao hálito. A “interpretação” deu-me essa sensação de repasto bem nutrido. Descobri que não há melhor forma de acalmar os nossos fantasmas mais corrosivos do que chamar a “interpretação” ao barulho. “Aquele tipo chamou-te ca***ão?”. “Sabes, eu acho que ele me queria chamar Carlitos, mas tropeçou numa pedra da calçada e teve de transformar aquela palavra num som mais próximo de Carlão” . Existe um facto; um tipo insulta outro; O outro, num golpe de mágica, consegue transformar o insulto num elogio, e não tem de andar à chapada. É um indivíduo mais feliz. Esta é a génese da verdadeira interpretação. Perante um facto, cada um o interpreta como quiser. Assim, se existem uns que conseguem pintar o facto de cor-de-rosa suave e apelativo, outros há que, assombrados pela interpretação negativista, começam logo a imaginar que a seguir daquele palavrão o tipo vai puxar das matracas escondidas debaixo do casaco de cabedal e desatar à matracada. Existe no entanto uma interpretação que sempre me pareceu difícil de fazer, talvez baseada na minha ignorância: a interpretação da lei. Sempre pensei que a lei fosse,…lei. Desprovida de equívocos; de subterfúgios; de mais ou menos; de …interpretações. Isto vem a propósito das declarações da ministra da educação que ouvi, entre duas músicas da rádio comercial. (A rádio comercial também tem as suas fragilidades e fracas interpretações)…Então dizia a senhora, que houve uma falha na interpretação da lei…?...Qual lei?...a do estatuto do aluno, que diz no artigo 22 da lei nº 3/2008 , que os alunos que atinjam o limite de faltas, qualquer que seja a sua natureza, terão de fazer uma prova de recuperação na disciplina em causa. “As escolas interpretaram mal lei!”, vociferou sem qualquer tipo de pudor. A interpretação é um dos melhores bodes expiatórios que existem, no fundo, materializada com a velha máxima “vocês é que perceberam mal!”. E eu de facto percebi tudo mal. Percebi mal que fosse preciso um instantâneo e lamentável desperdício de ovos contra o vidro duma limusina, para a lei ser transformada numa espécie de “assim-assim”. Se eu fosse galinha poedeira também teria percebido mal como a trabalheira e a força produzida de rabo voltado para a palha, pudesse ser estragada de forma tão leviana. Também percebi mal o poder que 3 simples omoletas espalmadas num vidro podem ter, quando comparadas com 120 mil professores na rua, que reivindicam a mudança de uma lei que não conseguem entender, nem com muito contorcionismo interpretativo. Deixo aqui a interpretação que faço em relação à importância que as galinhas poedeiras operam na interpretação da lei. Galinhas ao poder, já!...Pensando no panorama político actual,….ao menos tínhamos ovos à fartazana e não era só a gasolina que aumentava; o colesterol também ia por ali acima. E as galinhas tiveram também o dom de me fazer lembrar a excitação do Primeiro Ministro que, de olhos esbugalhados, cacarejava do seu poleiro, que Portugal iria ser em breve um país em que todos teriam acesso…imaginem….vá lá são capazes!....a emprego?....nã!...a bons serviços de saúde?...nãaã!...a salários mais aceitáveis?....nããã!?.... a navegar na Internet a 100 megabytes em todo o lado! Extraordinário! De entre as interpretações possíveis destas palavras, as mais lúcidas andariam na casa do “pirou de vez” ou “depois do Chavez lhe estragar o Magalhães ficou assim aparvalhado” ou então “não há maneira de ficar perdido de uma vez por todas no lago de Maracaibo durante uma prospecção de petróleo?”.
Estava eu aqui a vaguear pela complexidade dos múltiplos processos interpretativos e lembrei-me do Jorge Palma e daquele lamentável concerto que assisti há pouco tempo. O tipo entrou cambaleante no palco e arrotou uma série de baboseiras antes de começar a amarfanhar as canções. E a sua interpretação não poderia ser mais desconcertante, ou direi antes des…governada? Diziam os jornais, que ele estava em estado ébrio, que é uma maneira delicada de dizer que estava bêbado que nem um cacho. Mas, apesar da revolta que eu senti, por ter pago um bilhete para ver um tipo embriagado no palco, nunca em nenhum momento, o ouvi dizer que nós é que tínhamos interpretado mal o que ele estava a tocar. É que o tipo é bêbado mas ainda preserva alguma decência e capacidade de assumir que ele é que conseguia destruir o que tinha produzido. E verdade seja dita, que as suas canções foram bem criadas. E este tipo bêbado, poderia muito bem explicar aos nossos governantes que, pior do que serem incapazes de produzir trabalhos decentes, é acusarem-nos de os percebermos mal. “Shiu pá! Vai mas é beber um vodka e deixa-nos aqui mandar essa da “interpretação” dúbia, a ver se cola!”
Uma palavra final para as galinhas poedeiras, no sentido de ficarem descansadas porque, da minha parte, os vossos ovos serão sempre comidos no prato depois de terem passado pela frigideira e polvilhados com sal, alho e orégãos. Está visto que não me consigo livrar do mau hálito…

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

O Bang-bang do Senhor Armando


Há pessoas que nos marcam. E há clichés que nunca pensaríamos usar de forma pública, mas que, por transmitirem tão bem o que sentimos, têm forçosamente de ser utilizados sem qualquer inibição e em escrita bem vincada: Há pessoas que nos marcam!...O senhor Armando é uma dessas pessoas. Para a maioria dos leitores o senhor Armando será alguém desconhecido; para mim não, nem para todos os que, o desconhecendo, o conheciam. O Senhor Armando foi levado por uma daquelas doenças fulminantes, que nos levam as coisas boas com a crueldade de não nos prepararem primeiro. Podiam-nos ter avisado antes, de forma calma e sem dramas; afagarem-nos o cabelo e dizerem entre dentes “olha, prepara-te,…que esta pessoa terá de partir daqui a pouco.”, e seguidamente, encher-nos a imaginação de imagens idílicas da morte, como aquela da estrela no céu representando a alma da perda. E porque escrevo esta crónica? Eu tinha jurado nunca escrever sobre alguém a título póstumo. Não valeria a pena; o visado não iria ler. Escrevo, simplesmente porque muita gente não conhecia o senhor Armando e deveria ter conhecido, mesmo desconhecendo. Todos os dias quando ia buscar a minha filha à escola, esbarrava no seu incondicional sorriso e um vigoroso aperto de mão de quem nunca se queixa da vida. E aquele encontro sempre me parecia fugaz; ocasional; a correr, para meter as mãos na miúda e ir embora. Mas sempre que saía dali, levava debaixo da epiderme aquele sorriso e o calor do cumprimento. Era uma espécie de elixir contra a má disposição que muitos dias nos teima em invadir o espírito. Dizia-se que o Senhor Armando não tinha família, que vivia para o colégio. Mas como um homem assim, não pode ter família? Agora percebo. Ele conseguia fazer de todos nós a sua família. E como pode ser grande a família. Nunca fui a um petisco com o senhor Armando, nem viajei pelo Alentejo dentro do seu citroen; nunca ficámos na conversa até de madrugada, nem bebemos sequer um café juntos e é isso o mais admirável; como uma pessoa que nos toca por tão breves momentos, nos pode deixar uma marca tão grande. De facto, não o conhecia, mas passou-me tudo o que pretendia passar: a simpatia e a positividade perante as agruras do dia-a-dia.
Ouvi hoje alguém dizer “que morreu um senhor que era funcionário do colégio”. O senhor chamava-se Armando e era muito mais do que um funcionário; era parte do colégio. Os cachopos adoravam-no porque ele era licenciado em pedagogia da mais elaborada. Jogava à bola com eles, tocava viola para eles, abraçava-se a eles, contava-lhes histórias e ralhava com eles quando era preciso. Era um professor sem canudo mas cheio de canudo para a coisa.
Estou a escrever esta crónica numa espécie de limbo. Estou triste, mas não posso estar triste, porque o senhor Armando ficaria triste se me visse triste. Tenho assim de fingir que escrevo com alegria, neste momento de enorme tristeza. Ouviu senhor Armando! Eu não estou triste!...estou só a matutar aqui com os meus botões sobre a sua arte de nos animar, de nos tornar pessoas melhores! Hoje tive de explicar ao meu miúdo que já não valia a pena sair do carro a correr para conseguir apanhar o senhor com a sua arma imaginária, antes de ser surpreendido por um Bang-bang seu! Para tornar a coisa mais leve, também tive de lhe passar aquela história de que o senhor agora é uma estrela no céu, à qual poderemos acenar sempre que nos sentirmos tristes.
Pelo sim, pelo não, quando acabar de escrever esta crónica, vou ali fora à procura da sua estrela. Vou acenar-lhe, vou dizer-lhe obrigado e depois, vou espetar o dedo indicador na sua direcção e libertar um sonoro Bang-bang, seguido de uma bela gargalhada.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

O fintinhas

Estou aqui a tentar tratar os dados de um inquérito que tive que realizar junto dos meus alunos. Já passou uma hora e ainda não passei da resposta número três. Vagueava entre as inúmeras respostas sobre o que o aluno costuma comer ao pequeno almoço; se gosta mais de grelhados, cozidos ou fritos, se se acha alegre, triste, agressivo ou preguiçoso; se sai com os amigos ou se joga consola e veio-me à memória o “Frasco”. O Frasco? Eu sei , também me lembrei do frasco de cianeto, como a forma mais rápida de resolver os meus problemas de professor afogado em papelada inútil, mas em primeiro lugar lembrei-me do outro Frasco, o jogador do FCP da época de 80, com o seu bigode farfalhudo e as pernas arqueadas, fintando tudo o que havia para fintar. Ninguém tirava a bola ao homem. Para o Frasco nenhuma finta era demais. Quantos mais jogadores ele driblasse, melhor se sentia. A baliza para ele representava um mero adorno perdido na sua arte de trocar as voltas aos adversários. Basicamente o que faltava ao Frasco era objectividade. Fintava um adversário, estava em frente à baliza e tinha de arranjar mais alguém para passar a bola entre as pernas, porque só assim satisfazia o seu ego de fintinhas inveterado. “Remata agora Frasco!” e o Frasco respondia “Epá deixa-me só ir ali fazer mais uma cueca àquele matulão do holandês, que depois eu remato…”. Tenho a sensação, que o grande drama do Frasco seria não o deixarem fintar todos os jogadores e espectadores antes de chutar à baliza. E aqui continuo eu de volta dos inquéritos, na fase dos programas preferidos dos alunos, a passar para a música preferida dos alunos, para os filmes preferidos dos alunos. Depois é só converter isto em percentagem e já está quase,…. Mas eu sou professor ou aspiro a integrar os quadros do Instituto Nacional de Estatística? Atenção que estes dados são fundamentais para a elaboração do PDC que é parecido com o PCT e estão ambos dependentes do PCE, que por sua vez está em estreita ligação com o PA. Para todos os que não são professores, não se preocupem, porque só os professores é que irão usufruir desta fabulosa multiplicidade de inter-relações em código secreto. Afinal todas as siglas começam por um P, representando sempre um plano ou um projecto; até é fácil de completar. Então e as aulas?...Calma aí que ainda falta colocar o PEI e o RI…o RI? Assim já me estás a baralhar as voltas,…então e o P? Se quiseres, podemos sempre pôr um P antes do RI e sempre lembrará uma apitadela de um árbitro…Priiii! Então e as aulas? …Aguenta aí que estamos a ver se conseguimos encontrar mais algum Planozeco que é para a gente encher bem os dossiers da avaliação. Então e as aulas, Porra? Vês? criaste mais uma sigla começada por P, só não sei o que é o ORRA? Perguntavas tu, das aulas? Há-de arranjar-se aqui um espaço entre a elaboração do PDC, do PCT e das Diagnoses, para preparares as tuas aulitas. Eu quero dar aulas! Deixem-me dar aulas! Aulas! Passem-me o Cianeto!...Eu não quero o outro Frasco, o das fintinhas! Estou farto de fintinhas, eu quero é meter a chicha dentro da baliza! Estou farto de driblar PDCs , PCTs e grelhas de avaliação com muita coluna! Mas há sempre um raio de um Frasco para nos acrescentar mais algum parâmetro para colocarmos em mais alguma coluna!? Ou me deixam dar aulas ou me dão o Cianeto! Toda a malta de fora, estará radiante por finalmente os professores irem ser avaliados à séria. A dar aulas?...Não! A fazer fintinhas. De facto, os professores irão ser avaliados nos mesmos moldes de um trabalhador da Soporcel, ou seja, na produção de muita pasta de papel. “Epá mas a fintinha é útil, adorna muito bem a coisa! Dá outra espectacularidade ao jogo!” “Útil é marcar golo, seu, seu,…Frasco de meia tijela!”. Continuo de volta dos inquéritos e cheguei à parte em que os alunos expressam a sua opinião do que representa ser um bom professor. Em termos de percentagem dará que cerca de 98% considera um bom professor como alguém que estabelece uma boa relação pedagógica com os alunos; alguém exigente e explícito. E as fintas? Ninguém perguntou aos miúdos se não gostavam de fintas? Talvez aqueles 2%? Não?...
Daqui a aproximadamente 4 horas, depois de acabar o tratamento dos dados, irei concentrar-me na elaboração do PDC para poder estabelecer as minhas metas enquanto professor de sucesso. E todas as metas terão de ser quantificáveis, tal qual como na mercearia do Senhor Fonseca. Uns quilos de alunos com positivas, somando aos quilos dos dossiers com papelada, obtém-se a subida percentual e paralela da avaliação do professor, isto sem chegar ao Muito Bom ou Excelente que é só para alguns. Então e as aulas? As aulas, essas, se calhar aparecerão como prioridade, quando surgir o PEF: o Plano da Erradicação dos Fintinhas.

domingo, 28 de setembro de 2008

O Pombo


Um pombo cagou-me no ombro. Eu sei que é uma forma um pouco rude para começar uma crónica, mas na verdade estou a ser delicado, atendendo à reacção que tive quando ouvi o som parecido com o lançamento de um ovo espalmado em cima da minha camisola nova. Poderia romancear a coisa, com uma descrição do género “o voo de uma bela pomba sobre os beirados, em perfeita harmonia com a natureza…”, desculpem mas não consigo pensar em harmonia, depois de ver o meu algodão conspurcado com uma cagadela esverdeada. Olhei para cima, para poder insultar olhos nos olhos a ave, mas já tinha dado à asa; um caso claro de defecação e fuga. Depois de limpar os resquícios da digestão do pombo, comecei a desculpabilizá-lo. Achei logo que seria um borracho em plena actividade lúdica. Penso mesmo que, se eu próprio fosse pombo, me divertiria a bombardear as carecas daqueles seres que não me davam nem uma migalhita. No fundo, uma versão columbófila da traquinice humana do toque às campainhas e fuga. E nós também temos uma arma fantástica para atenuar a nossa revolta. Depois de limpar o dejecto, a minha irmã lançou-me o desafio: “Olha que isso pode ser sinal de sorte! Vamos mas é fazer o euromilhões!”. E lá fomos todos contentes com a certeza de que a cagada nos iria presentear com um generoso reforço da conta bancária. As superstições operam maravilhas; conseguem transformar trampa em esperança. Um tipo entorna vinho na mesa e põe-se logo a tocar com dedo molhado atrás da orelha porque dá sorte…?..., até pode ser, mas têm que explicar com jeitinho à pessoa que vai limpar a nódoa da toalha. Se um indivíduo apanhar com uma ferradura na cabeça, além do hematoma, é sinal de muita sorte, porque poderia partir a cabeça(?)…e só fez um galo. Este atenuar da desgraça com a benfeitoria dá algum jeito. Como a história de que muita cera nos ouvidos é sinal de riqueza,…hã?...diga?…não o estou a ouvir! De facto, com tanta barbaridade que a malta vai ouvindo, só com cera a obstruir a audição, se terá a sorte de ficar na ignorância. O que me custa mais a perceber são as superstições do azar. Aquela do gato preto que se atravessa no caminho, é um claro sinal de discriminação pelo tom do pêlo. A curpa é sempre dos preto pá? De facto, já um pobre de um gato preto, não pode procurar gatas com o cio, que está sempre a receber insultos racistas. E o azar que se tem quando se mata uma aranha em casa? No meu caso, o azar que dá matar aranhas em casa, é sempre compensado com o facto de não ter de tropeçar nas suas teias por todo o lado. Olha ainda agora fiquei com mais um bocadinho de azar, aqui agarrado à meia do pé esquerdo. A superstição de que dinheiro em cima da mesa dá azar, só poderá vir de uma mente etérea, que pensa sempre no lado da espiritualidade para explicar a matéria. Imagina que os alimentos nos caem do céu, trazidos por cegonhas do Quénia e os livros da escola dos miúdos são oferecidos pelo filantropo editor. Ter dinheiro em cima da mesa, é bom sinal: é sinal que se tem dinheiro e mesa.
Bom, mas tudo isto começou com a cagadela do pombo no meu ombro. Andei toda a semana a dizer bem do pombo, que me iria permitir ajudar um monte de malta com a massa do euromilhões e, no dia do sorteio,…nem uma cruzinha,…nem uma estrelinha. Raio do pombo! Apetecia-me subir ao beirado e defecar-lhe em cima da penugem nova, que é para ele ver como é bom p’rá tosse. Epá não podes ser assim tão rancoroso com o pombo, coitado do bicho! A minha indignação, nem é tanto com o pombo, é mais com a superstição associada à cagadela do pombo. Eu até já tinha limpo os dejectos e tudo. O mal foi acreditar que a bosta traz sorte. A minha sorte foi perceber que também existem contradições nas superstições. De uma leitura mais apurada das várias crenças populares, surge aquela que me deixa um pouco mais aliviado mas também baralhado: “Criar Pombos dá azar”. Ora aí está, alguém inteligente. Mas, se criar pombos dá azar, como é que uma cagada de pombo dá sorte? Esta superstição anti-columbófila só pode ter sido criada por alguém que como eu, viu a sua camisola nova conspurcada pelo bomba viscosa mandada lá de cima do beirado. Pelo contrário, a superstição pró-laxante, foi decerto criada pelos próprios pombos, como protesto contra o tipo que não dá migalhinhas e que deve ser o mesmo da camisola conspurcada. Estava eu aqui no jogo supersticioso do gato e do rato, quando percebi que ambas as superstições não têm grande relevância. Na verdade o pombo é um excelente animal; até consegue encontrar o caminho de casa quando o abandonam a milhares de quilómetros. Teria sim relevância se alguém se lembrasse de, inspirado nestas duas superstições aparentemente antagónicas, criar uma em que todos acreditássemos: “Se um dos nossos governantes se atravessar à tua frente é sinal de que irás ter azar nos próximos anos”. É que, à semelhança dos pombos nos beirados, não haverá ser que consiga defecar com tanta perfeição na cabeça dos seus cidadãos.

domingo, 21 de setembro de 2008

O estreito de Magalhães


“O Magalhães chegou às escolas” Assim de repente, quando ouvi a notícia, fiquei admirado e um pouco emocionado, afinal não era todos os dias que assistiríamos ao renascer do nosso mais corajoso navegador português. Depois fiquei confuso quando completaram com um “agora até os mais pequenos só têm de clicar nas teclas…”. Mas que raio tem o “clicar nas teclas” a ver com Magalhães, conhecido pela arte no manuseamento do leme das suas Naus? Será que o inventor do computador para crianças se lembrou mesmo de Fernão de Magalhães, ou apenas o teria feito em honra de um amigo, um tal de António Magalhães, dono da mercearia, e grande percursor da troca do lápis atrás da orelha, pelo clicar na máquina registadora? Eu inclino-me mais para esta tese, até porque, se o herói Magalhães desconfiasse que deram o seu nome a um objecto de plástico com botões, fabricado nos Estados Unidos, iria ficar um pouco aborrecido. Mas o computador cria nas crianças desde muito cedo a habilidade de navegar e descobrir um mundo sem limites. Pronto, está explicado. O computador representa para a criança de 6 anos, o fast-food da navegação. O lema será: “Navega com facilidade, trabalha sem dificuldade”. É isso que se pretende, facilitar a vida do petiz. A máquina evita que tenha muito trabalho a escrever ou a procurar informação; basta navegar com o cursor, que a coisa fluirá sem problemas. Parece pois, que a navegação é o denominador comum entre o Magalhães e Magalhães. A grande diferença está na trabalheira que o genuíno (o Fernão) teve para descobrir o raio do Estreito que fazia a ligação entre dois continentes. Agora é ver um monte de Magalhãezinhos a navegarem até à Patagónia chilena, apenas com um clique , troçando das longas semanas que o outro Magalhães passou, a tentar sair daquele labirinto gelado e descobrir uma passagem que ninguém sonhava existir. O feito do nosso verdadeiro navegador, nada tem de instantâneo, revela uma perseverança e astúcia, que não se coadunam com um simples clicar no botão do lado esquerdo do rato. E ali está ele, Fernão Magalhães, em frente do tal Oceano, que haveria de chamar de Pacífico, pronto para se lançar à descoberta…Pssst,…Ó Magalhães!...Magalhãaaaees!...sou eu, o Xavier do 2º ano turma B! …Olha Magalhães, se queres descobrir as Molucas, basta colocares aqui em cima na janela do Google, o nome “Molucas” e elas aparecem num instantinho, com mapas e tudo pá! É que isso de te mandares à maluca dá uma trabalheira p’ra chegares à Moluca! Eh, eh, gostastes do trocadilho intelectual que acabei de fazer pá? Mas como Magalhães não sabia o que era o Google, lá foi ele, atravessar o Pacífico durante três meses,… com comida para duas semanas. O Xavier do 2º ano, que sabe procurar no motor de busca, nem sonha o que será ter de comer o couro das amarras ou os ratos do convés para sobreviver ao desafio da descoberta de um novo oceano.; Para a Beatriz do 4º ano é simples navegar, sem ferir as mãos a caçar a vela ou sentir os lábios gretados pela desidratação; para o Jaime do 3º ano é óbvio identificar a Micronésia sem lhe conhecer o cheiro. Para Fernão de Magalhães nada era fácil ou óbvio. Para se ser empreendedor tinha de se suar estopinhas. Magalhães descobriu que a terra era redonda porque levantou a bunda do sofá e foi à luta. Pssst, pssst,….ó Magalhães, sou eu outra vez, o Xavier do 2º ano. Essa coisa da luta é careta; agora é mais wrestling e moches pá! E para mais, eu descobri que a terra era redonda, sem ter de deixar a minha cadeirinha ergonómica a amparar-me o nadegueiro. Bastou ir ao globo tridimensional do Google Earth, e não custou nadinha.
Continuo sem conseguir explicar tão absurda colagem do nome do herói Magalhães a um negócio de bytes-milhões, encoberto por hipotéticos benefícios educacionais. Não quero sequer imaginar que tal associação se possa dever à forma como o navegador morreu na Indonésia, às mãos do cacique Lapu-Lapu. Acredita-se que Fernão de Magalhães cometeu um suicídio; foi ao encontro de uma morte voluntária. O meu temor é que o computador Magalhães, represente também ele o Harakiri do próprio ensino; a facada final na memória que temos de um Homem com as proeminências no sítio certo, dizendo à sua tripulação que aquela era uma aventura pela qual valeria a pena arriscar a vida. Pssst,….pssst, ouve lá ó cronista de meia tijela, aqui o Xavier do 2º ano, não percebeu o que é que tem o Harakiri a ver com o tal do Magalhães??? Diz aqui na wikkipédia que isso era uma coisa dos Samurais…?...onde é que o Magalhães é p’rá qui chamado pá?

sábado, 23 de agosto de 2008

Campismo em quadrupedia


Imbuído de uma enorme nostalgia, dos meus tempos de campista adolescente, da tenda canadiada e do fogão camping gás onde fazia umas arrozadas de salsichas, pensei como seria agradável, partilhar estas minhas remotas vivências campistas com os meus filhotes. Chegámos ao parque de campismo e disseram-nos que apenas existia um espaço para o nosso iglo, ali entre duas tendas familiares. Á medida que a estrutura da nossa tenda de 4 lugares ganha forma, percebemos que o fabricante era definitivamente chinês, uma vez que aquele espaço daria quanto muito para albergar 4 chinezinhos ou uma família de porquinhos da índia. No momento de espetar as espias naquele solo empedernido, falta-nos o que falta sempre ao aspirante de campista: o martelo. Vamos à procura de pedras para bater na espia e encontramos sempre uma que magoa a mão e é pouco eficaz na hora de espetar o ferro no betão. Quando entortamos a quarta espia e partimos a terceira pedra, olhamos para o lado e deparamo-nos com o personagem que dá cabo do nosso ego de campista esporádico. Ali está ele, o campista residente, com um olhar de desdém pelo nosso empenhado esforço no sentido de conseguir cravar as espias. E não há nada mais humilhante do que, depois de nos ver ali algum tempo a de gladiar entre a espia, o calhau e o cordel, nos dizer se precisamos de uma ajuda abalizada. Declinamos de forma educada e continuamos, com alguma dignidade, a nossa luta para deixar a coisa apresentável. O campista residente retira-se para o seu luxuoso abrigo: Uma tenda de fazer inveja ao Sultão do Dubai; com todo o conforto eléctrico de qualquer casa, parabólica e micro-ondas incluídos, o mosaico incrustado no chão, cadeiras de encosto em frente da televisão e sebes bem regadas à volta do espaço.
Nós, tínhamos aquela carapaça de cágado, onde teriam de caber 4 corpos de cágados com toda a roupa e farnel. E é na posição de cágado que temos de entrar nos aposentos e com ela destruir toda a nostalgia da adolescência. Aí percebemos esse lado pernicioso do campismo que nos obriga a um exercício de alternância constante entre o bipedismo e a quadrupedia. Vamos dar um mergulho à praia e…”Onde estão os fatos de banho dos miúdos?”pergunto, “Estão no fundo da tenda ali debaixo das calças e por cima dos casacos!”, entro a rastejar e procuro no meio do monte de roupa onde poderão estar. O monte de roupa cai em cima dos sacos de cama e saio a rastejar com os fatos de banho na boca. “E o protector solar?”. Rastejo novamente e novamente chafurdo naquele amontoado de peças. Saio triunfante, com o troféu 40 UV seguro na mão.
Depois do mergulho na praia, voltamos à carapaça que, depois de ficar todo o dia ali ao sol, se transforma numa espécie de sauna em miniatura. Entramos no forno em quadrupedia para encontrar o champô e as toalhas para o duche. Chegamos ao duche e encontramos uma bicha que vai até aos urinóis. Esperamos que chegue a nossa vez e finalmente lá entramos para o retemperador duche…frio??? Melhor assim que se poupa água. Esfrega rápido o miúdo; esfrega rápido o pai, embrulha na toalha e vá de correr com cabelos ao vento até à tenda em busca do quentinho. Entramos os dois e procuramos a roupa. O monte já passou a colina; chegam as duas cágadas e instala-se um pandemónio ao nível de uma luta na lama numa discoteca em Albufeira. Conseguirmo-nos vestir ali no interior da minúscula carapaça sem dar uma cotovelada ou um pontapé no nariz de alguém, revela-se uma árdua tarefa. Rastejamos a suar para o exterior e cheiramos a arte dos nossos vizinhos residentes. Qualquer campista que se preze tem de ter um grelhador para assar os seus petiscos; Da direita vinha o fumo da bela da sardinha, da esquerda o odor do picante frango na brasa. Estávamos na confluência de cheiros, a comer a nossa lata de atum com batatas pála-pála, sentados numa manta e envoltos em fumo do petisco dos outros. Os outros, sentam-se à mesa e exibem entre os dedos e os dentes, as iguarias das quais nós só sentimos o cheiro.
Chegou à hora da soneca. Conseguimos encaixar os quatro muito a custo e temos de fechar as aberturas por causa das melgas. O termo-acumulador funcionou na perfeição durante o dia e agora, estava ali, em processo de compostagem, com o nariz encostado ao pano lateral da tenda e o cabelo a roçar no que resta da colina de roupa. “Que se lixem as melgas!”. Abri os orifícios e pus a cabeça de fora. Agora sim, está mais fresco. Vou finalmente dormir,…,péra lá que o vizinho está a explicar à mulher os planos para amanhã; o tipo da caravana em frente está a falar numa língua esquisita que deve ser sueco; e oiço também lá longe a rapaziada que chegou agora da nigth. No campismo é assim; o som propaga-se mais fácil, tornando difícil o descanso pleno. É agora!...depois de uma hora a ouvir toda a animação circundante, estou quase a aterrar…isso, num sono profundo,….Dlim,dlão,…dlim,dlão(?). As vaquinhas que pastam junto da vedação onde encostei a tenda, têm badalos, que badalaram a noite toda, badalando-me também o meu estado de vigília,… dlim,dlão.
Com olheiras e picadelas de melgas arrumei as tralhas, e pisguei-me dali na manhã seguinte, pensando como a falta de material e disponibilidade adequados poderão ensombrar as nossas doces recordações. No entanto, a minha memória, está a ver se insiste na partida do campismo; de me obrigar a comprar uma tenda maior, uma mesa com banquinhos e um grelhador, mas tenho quase a certeza de que um dia, ainda me vou lembrar de um tal hotel de 5 estrelas onde passei dias muito felizes na adolescência.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Torcer o Nariz


Sentei-me no sofá a ver os Jogos Olímpicos. O meu filho mais novo sentou-se ao meu lado e lançou a pergunta da ordem: “Oh pai, estás a torcer por quem?”. Eu respondi-lhe: “Pela portuguesa.”
“E achas que ela vai ganhar?”
“Parece-me bem que não, mas está a esforçar-se…”
Depois de um breve silêncio, volta à carga
“Mas porque é que ela vai em último?”
Tinha chegado a altura da explicação pedagógica, com ênfase na relativização dos resultados mediante o amadorismo dos nossos atletas; no seu esforço, na sua superação,..
“E as medalhas?...só os outros é que ganham medalhas?”, não desistia o cachopo
E eu pensei… “É lá!...querem ver que tenho aqui um repórter desportivo em potência?”. De facto o tipo reproduzia de forma fiel as palavras da maioria dos jornalistas que cobrem o evento…”então e as medalhas?”. Já acho alguma piada, à cara que os tipos fazem quando, suspendendo a respiração, perguntam “È agora?”….para depois expirar com um fatídico desconsolo “…ainda não foi desta”. Também me dá um certo gozo, quando têm de soletrar amargurados, a trigésima sexta posição que o atleta português ocupou no final. Eu sei que é um pouco cruel, mas os tipos têm de aprender a não ser gulosos. Para se exigir colocar os dentes no petisco, tem de se dar o seu contributo com alguns ingredientes. De entre os campeonatos de futebol da 1º, 2º 3º e distritais, as notícias do judo, do atletismo, da vela, do badminton ao longo do ano, continuam a aparecer, apenas quando um desses atletas semi-amadores consegue a improbabilidade de ganhar uma medalha contra um qualquer Golias profissional. Bom, mas voltemos ao que interessa. Cabia-me a tarefa de explicar ao miúdo que dos 40 em competição só os três melhores ganham medalhas, e que muitos daqueles 37 que não sobem ao pódio, são também os melhores dos seus países.
“Queres dizer que esta atleta que ficou em último é a melhor que temos em Portugal?”
“Sim.”
“Mas porquê?”
Esta mania do “porquê” deixa-me irritado; a coisa poderia ter ficado muito bem com o “sim” e não se falava mais nisso. Agora com a curiosidade exagerada do petiz, ou me pirava dali com uma desculpa estapafúrdia ou teria de explicar ao miúdo que somos um país pequenino, que tem outras prioridades para investir e, outras balelas, que não lhe interessam para nada.
Sentei-me no sofá a ver os Jogos Olímpicos. O meu filho sentou-se ao meu lado:
“Oh pai, há portugueses em prova?”
“Não.”
Como já não tinha o entrave patriótico a atrapalhar, perguntou esperançoso:
“Estás a torcer por quem?”
“Por aquele tipo da Nova Zelândia”
“Então eu também vou torcer por ele.”
Deu-se a partida para a corrida.
“Oh, pai não é ele que está a ficar para trás?”
“Penso que sim.”…
…“Achas que posso torcer antes por aquele americano que vai à frente?”