domingo, 4 de janeiro de 2009

A Liliana resolve

Imagem retirada da net

Depois da viragem para o novo ano dei de caras com uma tal Liliana Queiroz; direi antes, que dei de caras com as mamocas de uma tal Liliana Queiroz(?). Foi aliás com algum espanto que, depois da festarola, do champanhe, das passas e da contagem decrescente, começámos a fazer zapping pelos vários canais televisivos e eis que surge a nossa miss Playboy, exibindo desinibida os seus fartos atributos carnais. Ao princípio estranhei. Havia algo que não batia certo; quase sempre nos mandam com filmes do Van Damme, melodramas dos anos 80, ou ainda análises prognósticas do ano que aí vem. Mas desta vez, ali estava a moçoila semi-despida com os seios pululando de alegria. Por mera curiosidade pus-me a analisar um pouco da história. A rapariga muito bonita tinha um primo muito bonito que namorava com outra rapariga muito bonita. Iam para um rancho muito bonito, com vacas muito bonitas, onde a rapariga muito bonita num exercício de imaginação pré-incestuosa, começou a achar que o primo afinal era bonito de mais para ser apenas… primo. Na voz off, a rapariga confessava a sua ininterrupta estimulação sensual; tudo lhe despertava sensualidade, desde o primo, à namorada do primo, ao feno, aos cortinados, aos lençóis de algodão, à ovelhinha, ao odor da furgoneta. Tudo era suficiente para se começar a despir. Está bom de ver que aquilo descambou numa grande e confusa algazarra…sensual. O canal de televisão teve uma boa ideia. Perante a perspectiva de um ano ensombrado e negro, manda-nos com as tetas silicónicas da Liliana, rapariga que se satisfaz com qualquer coisita. A estratégia é do mais elaborado que existe. Espetam-nos uma farpa no nosso cérebro reptiliano, na nossa faceta mais abrutalhada, com uma imagem da boazona da Liliana sempre a despir as vestes, por causa do clima escaldante. Transmite-nos assim uma sensação de calor e aconchego, perante um panorama gélido e sem grande piada. A imagem das mamocas felizes da Liliana, leva-nos a encarar as agruras do dia-a-dia com outro optimismo. Basta para isso um exercício de alguma imaginação. Ao ouvirmos o discurso do Presidente no primeiro dia do ano, apelando à nossa (infindável) paciência perante as (infindáveis) adversidades, ao invés de desenvolvermos alguma repulsa por aquele frouxo timoneiro que não faz nada para salvar o barco, bastará pensarmos que a doce Liliana descobriria na voz do Cavaco qualquer coisa de sensual. Se começarmos a ficar com azia sempre que Sócrates liberta mais uma das suas baboseiras, teremos de imaginar o que a Liliana poderia dizer: “então este não foi considerado um dos governante mais sensuais da Europa?...até as patranhas têm algo de estimulante!”. A Liliana funciona assim como o nosso anjinho; a voz positivista da consciência, apenas com uns seios maiores. Quando começarmos a fazer contas; a ver o fim do mês cada vez mais longe, porque o tipo da voz sensual nos pediu para ter paciência, e o outro da mentira estimulante nos entesa cada vez mais, basta pensar na angélica Liliana a sussurrar-nos delicadamente ao ouvido “meu doce, esquece as contas para pagar, pensa que com pouca roupinha se cria outro clima de sensualidade...”. Pensarmos no aumento de 20% do desemprego, nada que a Liliana não resolva com um “é da maneira que têm todo o tempo para rebolarem ali nos fenos ou na caixa aberta da furgoneta, com toda a sensualidade e sem pensar em acordar cedo para pegar no trabalho”. A onda de assaltos violentos? A Liliana tem a solução “Às vezes a violência é tão estimulante! Um homem de capuz a entrar numa casa aos berros é tão sensual!...eu,…eu,.. batia-lhe logo com o chicote e amarrava-o à cabeceira da cama!” . O estado da educação em Portugal, dos miúdos que brincam apontando armas de plástico à cabeça das professoras,… “era disso que eu me tinha esquecido. O capuz, o chicote e… a pistola. Só depois o amarrava à cabeceira. É tão sensual um homem apontando a pistola. E então quando grita: ou me dás positiva ou disparo! é do mais afrodisíaco que pode haver…”.
Será desta forma, acompanhado pela imagem da positiva, despreocupada e sensível Liliana, que tentarei superar os espinhos mais dolorosos do novo ano. Ela facultou-me a lição de que até os seres mais abjectos poderão esconder qualquer tipo de sensualidade, bastando fazer um pequeno esforço para o descobrir. Quem sabe se a breve trecho, consiga vislumbrar na assembleia da república, uma espécie de quinta da playboy, onde até as moscas das vaquinhas exalam sensualidade.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

A arte do Simulacro


A catástrofe assolou o país durante dois dias. Caiu um viaduto, incendiou-se um posto de combustível, desabaram dezenas de casas, explodiu uma fábrica, descarrilou um comboio, soterrou-se uma escola, despenharam-se carros, deram-se fugas de gás e rupturas de condutas de água, pessoas feridas no chão, rostos de sofrimento,…Corta!!! Já chega!...Terminou o simulacro! … Um simulacro, pá? E vem a malta aqui a esta hora, ao frio, convencidos que o sangue era mesmo a sério, mas afinal é tudo a fingir!? Indignam-se os curiosos que assistem incrédulos às operações de salvamento. Mas o espectáculo foi em grande; rivalizava com qualquer filme de Ridley Scott. Bombeiros, helicópteros, forças militares, ambulâncias, polícias e tudo para salvar malta que… não precisava de ser salva. Falava alguém sobre a importância dos simulacros, para estudar as lacunas da protecção civil em caso de emergência. “Para se perceber como agir em situações reais é necessário fazer simulações, criar situações a fingir…” , “A fingir o catano! Atão e a minha horta? Quem me paga os estragos nos tomateiros?” gritava a dona Idalina depois dos solícitos soldados da marinha lhe terem partido a porta de casa e pisado as hortaliças, para conseguirem chegar ao cenário de derrocada…a fingir. Parece que os rapazes levaram mesmo aquilo à séria e vai disto ó Evaristo, pensando que a idosa era também figurante daquele filme. “Em vez de andarem a pisar tomates, vão mas é apanhar os traficantes de droga na costa vicentina!”, parecia querer dizer a dona Idalina.
Mas de resto a coisa até correu benzito. As pessoas estavam calmas, os polícias estavam calmos, os bombeiros estavam tão calmos que parece que demoraram algum tempo a chegar. Aliás, uma das grandes conclusões do simulacro, foi a grave lacuna associada ao tempo excessivo que os mortos demorariam a chegar ao instituto de medicina legal. Um aspecto verdadeiramente importante, até porque as dezenas de mortos estavam vivos e cheios de frio.
O simulacro representou também uma experiência extraordinária para toda a ladroagem que existia em Lisboa e arredores. É que grande parte das forças de segurança estava distraída a resolver problemas a fingir. “Ó Jota, já sabes, quando a chota for ali ajudar os bombeiros na derrocada do viaduto em Alcântara-Mar, tu atacas na ourivesaria do Lumiar!”…”E se ouvires sirenes, não te preocupes que são os gajos a levar mortos a fingir…”
Gosto muito de ver espectáculos megalómanos de muita luz e acção. E apreciei de sobremaneira toda esta encenação, até porque a conjugação de várias sonoridades de sirenes, do ruído das hélices e todo o colorido das fardas, deixou no ar uma imagem arrebatadora de estoicismo. Só não percebi bem a parte do simulacro. Sinceramente, acho que gastar dinheiro a simular catástrofes, quando o país se encontra mergulhado numa tão grande, seria escusado. Com assaltos a bancos quase todos os dias; acidentes de viação hora a hora; assassinatos várias vezes ao dia; tráfico de droga e de armas em barda; pedófilos a atacar crianças que ninguém quer conhecer; bancários a roubar à bruta; políticos amigos de bancários que roubam à bruta. Então para quê o simulacro? Por causa dos sismos. Têm razão. Para a coisa parecer mais negra, só falta mesmo a terra tremer e abrir brechas, para nós cairmos definitivamente no buraco, embora eu pense que num sismo a sério a malta vai toda sair a correr para todo o lado, se possível para longe das sirenes.
Mas se a catástrofe grassa no nosso quotidiano, então e o simulacro? Não existe uma especialidade em mentir à descarada? A grande novidade reside no facto de habitualmente se usarem simulacros para se esconderem as catástrofes. Aliás, o nosso Primeiro ministro é um mestre na arte de bem simular. Simula licenciaturas, simula empregos, simula competência, simula riqueza, simula ordem, simula julgamentos, simula educação e tudo com muita calma, com muito descaramento. E, se lhe perguntarem como resolveria o transporte dos mortos, diria logo que ninguém morreria, mas no caso (remoto) de isso acontecer, os corpos chegariam à morgue em segundos e, ele próprio, patrocinava funerais com belas coroas de flores para todos.
A grande vantagem de termos à frente do país um tipo especialista no simulacro é que, no caso de surgir um terramoto a sério, ele conseguirá como ninguém, iludir o pessoal de que aquilo, quanto muito, será o resultado de uma má digestão de um qualquer elefante perdido na mata de Monsanto. É caso para Recuperar as palavras de Pinheiro de Azevedo, primeiro-ministro em 75, depois de um quantos petardos lançados num terreiro do Paço a abarrotar de manifestantes em pânico, ele gritava: “O povo é sereno! o povo é sereno!...isto é só fumaça!...”. A essas palavras só faltaria acrescentar: “E já agora tenham cuidado para não pisar a horta da dona Idalina!...”

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Interpretações Galináceas



Já não escrevia há algum tempo. Estive a passar por um período de recolhimento forçado resultante da avalanche de fenómenos paranormais que vão surgindo e a minha capacidade de filtragem ser extremamente limitada. Precisava de tempo para conseguir fazer a minha interpretação dos factos. Estava eu aqui no meu canto, a interpretar sossegadinho, e dou comigo a chocar com a própria da interpretação(?). E esse meu encontro com a “interpretação”, foi para mim um momento feliz; ao nível de um encontro da minha dentição com um prato de favas estufadas. Procurava algo que me pudesse saciar o apetite, sem ter de ficar com um travo de alho colado ao hálito. A “interpretação” deu-me essa sensação de repasto bem nutrido. Descobri que não há melhor forma de acalmar os nossos fantasmas mais corrosivos do que chamar a “interpretação” ao barulho. “Aquele tipo chamou-te ca***ão?”. “Sabes, eu acho que ele me queria chamar Carlitos, mas tropeçou numa pedra da calçada e teve de transformar aquela palavra num som mais próximo de Carlão” . Existe um facto; um tipo insulta outro; O outro, num golpe de mágica, consegue transformar o insulto num elogio, e não tem de andar à chapada. É um indivíduo mais feliz. Esta é a génese da verdadeira interpretação. Perante um facto, cada um o interpreta como quiser. Assim, se existem uns que conseguem pintar o facto de cor-de-rosa suave e apelativo, outros há que, assombrados pela interpretação negativista, começam logo a imaginar que a seguir daquele palavrão o tipo vai puxar das matracas escondidas debaixo do casaco de cabedal e desatar à matracada. Existe no entanto uma interpretação que sempre me pareceu difícil de fazer, talvez baseada na minha ignorância: a interpretação da lei. Sempre pensei que a lei fosse,…lei. Desprovida de equívocos; de subterfúgios; de mais ou menos; de …interpretações. Isto vem a propósito das declarações da ministra da educação que ouvi, entre duas músicas da rádio comercial. (A rádio comercial também tem as suas fragilidades e fracas interpretações)…Então dizia a senhora, que houve uma falha na interpretação da lei…?...Qual lei?...a do estatuto do aluno, que diz no artigo 22 da lei nº 3/2008 , que os alunos que atinjam o limite de faltas, qualquer que seja a sua natureza, terão de fazer uma prova de recuperação na disciplina em causa. “As escolas interpretaram mal lei!”, vociferou sem qualquer tipo de pudor. A interpretação é um dos melhores bodes expiatórios que existem, no fundo, materializada com a velha máxima “vocês é que perceberam mal!”. E eu de facto percebi tudo mal. Percebi mal que fosse preciso um instantâneo e lamentável desperdício de ovos contra o vidro duma limusina, para a lei ser transformada numa espécie de “assim-assim”. Se eu fosse galinha poedeira também teria percebido mal como a trabalheira e a força produzida de rabo voltado para a palha, pudesse ser estragada de forma tão leviana. Também percebi mal o poder que 3 simples omoletas espalmadas num vidro podem ter, quando comparadas com 120 mil professores na rua, que reivindicam a mudança de uma lei que não conseguem entender, nem com muito contorcionismo interpretativo. Deixo aqui a interpretação que faço em relação à importância que as galinhas poedeiras operam na interpretação da lei. Galinhas ao poder, já!...Pensando no panorama político actual,….ao menos tínhamos ovos à fartazana e não era só a gasolina que aumentava; o colesterol também ia por ali acima. E as galinhas tiveram também o dom de me fazer lembrar a excitação do Primeiro Ministro que, de olhos esbugalhados, cacarejava do seu poleiro, que Portugal iria ser em breve um país em que todos teriam acesso…imaginem….vá lá são capazes!....a emprego?....nã!...a bons serviços de saúde?...nãaã!...a salários mais aceitáveis?....nããã!?.... a navegar na Internet a 100 megabytes em todo o lado! Extraordinário! De entre as interpretações possíveis destas palavras, as mais lúcidas andariam na casa do “pirou de vez” ou “depois do Chavez lhe estragar o Magalhães ficou assim aparvalhado” ou então “não há maneira de ficar perdido de uma vez por todas no lago de Maracaibo durante uma prospecção de petróleo?”.
Estava eu aqui a vaguear pela complexidade dos múltiplos processos interpretativos e lembrei-me do Jorge Palma e daquele lamentável concerto que assisti há pouco tempo. O tipo entrou cambaleante no palco e arrotou uma série de baboseiras antes de começar a amarfanhar as canções. E a sua interpretação não poderia ser mais desconcertante, ou direi antes des…governada? Diziam os jornais, que ele estava em estado ébrio, que é uma maneira delicada de dizer que estava bêbado que nem um cacho. Mas, apesar da revolta que eu senti, por ter pago um bilhete para ver um tipo embriagado no palco, nunca em nenhum momento, o ouvi dizer que nós é que tínhamos interpretado mal o que ele estava a tocar. É que o tipo é bêbado mas ainda preserva alguma decência e capacidade de assumir que ele é que conseguia destruir o que tinha produzido. E verdade seja dita, que as suas canções foram bem criadas. E este tipo bêbado, poderia muito bem explicar aos nossos governantes que, pior do que serem incapazes de produzir trabalhos decentes, é acusarem-nos de os percebermos mal. “Shiu pá! Vai mas é beber um vodka e deixa-nos aqui mandar essa da “interpretação” dúbia, a ver se cola!”
Uma palavra final para as galinhas poedeiras, no sentido de ficarem descansadas porque, da minha parte, os vossos ovos serão sempre comidos no prato depois de terem passado pela frigideira e polvilhados com sal, alho e orégãos. Está visto que não me consigo livrar do mau hálito…

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

O Bang-bang do Senhor Armando


Há pessoas que nos marcam. E há clichés que nunca pensaríamos usar de forma pública, mas que, por transmitirem tão bem o que sentimos, têm forçosamente de ser utilizados sem qualquer inibição e em escrita bem vincada: Há pessoas que nos marcam!...O senhor Armando é uma dessas pessoas. Para a maioria dos leitores o senhor Armando será alguém desconhecido; para mim não, nem para todos os que, o desconhecendo, o conheciam. O Senhor Armando foi levado por uma daquelas doenças fulminantes, que nos levam as coisas boas com a crueldade de não nos prepararem primeiro. Podiam-nos ter avisado antes, de forma calma e sem dramas; afagarem-nos o cabelo e dizerem entre dentes “olha, prepara-te,…que esta pessoa terá de partir daqui a pouco.”, e seguidamente, encher-nos a imaginação de imagens idílicas da morte, como aquela da estrela no céu representando a alma da perda. E porque escrevo esta crónica? Eu tinha jurado nunca escrever sobre alguém a título póstumo. Não valeria a pena; o visado não iria ler. Escrevo, simplesmente porque muita gente não conhecia o senhor Armando e deveria ter conhecido, mesmo desconhecendo. Todos os dias quando ia buscar a minha filha à escola, esbarrava no seu incondicional sorriso e um vigoroso aperto de mão de quem nunca se queixa da vida. E aquele encontro sempre me parecia fugaz; ocasional; a correr, para meter as mãos na miúda e ir embora. Mas sempre que saía dali, levava debaixo da epiderme aquele sorriso e o calor do cumprimento. Era uma espécie de elixir contra a má disposição que muitos dias nos teima em invadir o espírito. Dizia-se que o Senhor Armando não tinha família, que vivia para o colégio. Mas como um homem assim, não pode ter família? Agora percebo. Ele conseguia fazer de todos nós a sua família. E como pode ser grande a família. Nunca fui a um petisco com o senhor Armando, nem viajei pelo Alentejo dentro do seu citroen; nunca ficámos na conversa até de madrugada, nem bebemos sequer um café juntos e é isso o mais admirável; como uma pessoa que nos toca por tão breves momentos, nos pode deixar uma marca tão grande. De facto, não o conhecia, mas passou-me tudo o que pretendia passar: a simpatia e a positividade perante as agruras do dia-a-dia.
Ouvi hoje alguém dizer “que morreu um senhor que era funcionário do colégio”. O senhor chamava-se Armando e era muito mais do que um funcionário; era parte do colégio. Os cachopos adoravam-no porque ele era licenciado em pedagogia da mais elaborada. Jogava à bola com eles, tocava viola para eles, abraçava-se a eles, contava-lhes histórias e ralhava com eles quando era preciso. Era um professor sem canudo mas cheio de canudo para a coisa.
Estou a escrever esta crónica numa espécie de limbo. Estou triste, mas não posso estar triste, porque o senhor Armando ficaria triste se me visse triste. Tenho assim de fingir que escrevo com alegria, neste momento de enorme tristeza. Ouviu senhor Armando! Eu não estou triste!...estou só a matutar aqui com os meus botões sobre a sua arte de nos animar, de nos tornar pessoas melhores! Hoje tive de explicar ao meu miúdo que já não valia a pena sair do carro a correr para conseguir apanhar o senhor com a sua arma imaginária, antes de ser surpreendido por um Bang-bang seu! Para tornar a coisa mais leve, também tive de lhe passar aquela história de que o senhor agora é uma estrela no céu, à qual poderemos acenar sempre que nos sentirmos tristes.
Pelo sim, pelo não, quando acabar de escrever esta crónica, vou ali fora à procura da sua estrela. Vou acenar-lhe, vou dizer-lhe obrigado e depois, vou espetar o dedo indicador na sua direcção e libertar um sonoro Bang-bang, seguido de uma bela gargalhada.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

O fintinhas

Estou aqui a tentar tratar os dados de um inquérito que tive que realizar junto dos meus alunos. Já passou uma hora e ainda não passei da resposta número três. Vagueava entre as inúmeras respostas sobre o que o aluno costuma comer ao pequeno almoço; se gosta mais de grelhados, cozidos ou fritos, se se acha alegre, triste, agressivo ou preguiçoso; se sai com os amigos ou se joga consola e veio-me à memória o “Frasco”. O Frasco? Eu sei , também me lembrei do frasco de cianeto, como a forma mais rápida de resolver os meus problemas de professor afogado em papelada inútil, mas em primeiro lugar lembrei-me do outro Frasco, o jogador do FCP da época de 80, com o seu bigode farfalhudo e as pernas arqueadas, fintando tudo o que havia para fintar. Ninguém tirava a bola ao homem. Para o Frasco nenhuma finta era demais. Quantos mais jogadores ele driblasse, melhor se sentia. A baliza para ele representava um mero adorno perdido na sua arte de trocar as voltas aos adversários. Basicamente o que faltava ao Frasco era objectividade. Fintava um adversário, estava em frente à baliza e tinha de arranjar mais alguém para passar a bola entre as pernas, porque só assim satisfazia o seu ego de fintinhas inveterado. “Remata agora Frasco!” e o Frasco respondia “Epá deixa-me só ir ali fazer mais uma cueca àquele matulão do holandês, que depois eu remato…”. Tenho a sensação, que o grande drama do Frasco seria não o deixarem fintar todos os jogadores e espectadores antes de chutar à baliza. E aqui continuo eu de volta dos inquéritos, na fase dos programas preferidos dos alunos, a passar para a música preferida dos alunos, para os filmes preferidos dos alunos. Depois é só converter isto em percentagem e já está quase,…. Mas eu sou professor ou aspiro a integrar os quadros do Instituto Nacional de Estatística? Atenção que estes dados são fundamentais para a elaboração do PDC que é parecido com o PCT e estão ambos dependentes do PCE, que por sua vez está em estreita ligação com o PA. Para todos os que não são professores, não se preocupem, porque só os professores é que irão usufruir desta fabulosa multiplicidade de inter-relações em código secreto. Afinal todas as siglas começam por um P, representando sempre um plano ou um projecto; até é fácil de completar. Então e as aulas?...Calma aí que ainda falta colocar o PEI e o RI…o RI? Assim já me estás a baralhar as voltas,…então e o P? Se quiseres, podemos sempre pôr um P antes do RI e sempre lembrará uma apitadela de um árbitro…Priiii! Então e as aulas? …Aguenta aí que estamos a ver se conseguimos encontrar mais algum Planozeco que é para a gente encher bem os dossiers da avaliação. Então e as aulas, Porra? Vês? criaste mais uma sigla começada por P, só não sei o que é o ORRA? Perguntavas tu, das aulas? Há-de arranjar-se aqui um espaço entre a elaboração do PDC, do PCT e das Diagnoses, para preparares as tuas aulitas. Eu quero dar aulas! Deixem-me dar aulas! Aulas! Passem-me o Cianeto!...Eu não quero o outro Frasco, o das fintinhas! Estou farto de fintinhas, eu quero é meter a chicha dentro da baliza! Estou farto de driblar PDCs , PCTs e grelhas de avaliação com muita coluna! Mas há sempre um raio de um Frasco para nos acrescentar mais algum parâmetro para colocarmos em mais alguma coluna!? Ou me deixam dar aulas ou me dão o Cianeto! Toda a malta de fora, estará radiante por finalmente os professores irem ser avaliados à séria. A dar aulas?...Não! A fazer fintinhas. De facto, os professores irão ser avaliados nos mesmos moldes de um trabalhador da Soporcel, ou seja, na produção de muita pasta de papel. “Epá mas a fintinha é útil, adorna muito bem a coisa! Dá outra espectacularidade ao jogo!” “Útil é marcar golo, seu, seu,…Frasco de meia tijela!”. Continuo de volta dos inquéritos e cheguei à parte em que os alunos expressam a sua opinião do que representa ser um bom professor. Em termos de percentagem dará que cerca de 98% considera um bom professor como alguém que estabelece uma boa relação pedagógica com os alunos; alguém exigente e explícito. E as fintas? Ninguém perguntou aos miúdos se não gostavam de fintas? Talvez aqueles 2%? Não?...
Daqui a aproximadamente 4 horas, depois de acabar o tratamento dos dados, irei concentrar-me na elaboração do PDC para poder estabelecer as minhas metas enquanto professor de sucesso. E todas as metas terão de ser quantificáveis, tal qual como na mercearia do Senhor Fonseca. Uns quilos de alunos com positivas, somando aos quilos dos dossiers com papelada, obtém-se a subida percentual e paralela da avaliação do professor, isto sem chegar ao Muito Bom ou Excelente que é só para alguns. Então e as aulas? As aulas, essas, se calhar aparecerão como prioridade, quando surgir o PEF: o Plano da Erradicação dos Fintinhas.

domingo, 28 de setembro de 2008

O Pombo


Um pombo cagou-me no ombro. Eu sei que é uma forma um pouco rude para começar uma crónica, mas na verdade estou a ser delicado, atendendo à reacção que tive quando ouvi o som parecido com o lançamento de um ovo espalmado em cima da minha camisola nova. Poderia romancear a coisa, com uma descrição do género “o voo de uma bela pomba sobre os beirados, em perfeita harmonia com a natureza…”, desculpem mas não consigo pensar em harmonia, depois de ver o meu algodão conspurcado com uma cagadela esverdeada. Olhei para cima, para poder insultar olhos nos olhos a ave, mas já tinha dado à asa; um caso claro de defecação e fuga. Depois de limpar os resquícios da digestão do pombo, comecei a desculpabilizá-lo. Achei logo que seria um borracho em plena actividade lúdica. Penso mesmo que, se eu próprio fosse pombo, me divertiria a bombardear as carecas daqueles seres que não me davam nem uma migalhita. No fundo, uma versão columbófila da traquinice humana do toque às campainhas e fuga. E nós também temos uma arma fantástica para atenuar a nossa revolta. Depois de limpar o dejecto, a minha irmã lançou-me o desafio: “Olha que isso pode ser sinal de sorte! Vamos mas é fazer o euromilhões!”. E lá fomos todos contentes com a certeza de que a cagada nos iria presentear com um generoso reforço da conta bancária. As superstições operam maravilhas; conseguem transformar trampa em esperança. Um tipo entorna vinho na mesa e põe-se logo a tocar com dedo molhado atrás da orelha porque dá sorte…?..., até pode ser, mas têm que explicar com jeitinho à pessoa que vai limpar a nódoa da toalha. Se um indivíduo apanhar com uma ferradura na cabeça, além do hematoma, é sinal de muita sorte, porque poderia partir a cabeça(?)…e só fez um galo. Este atenuar da desgraça com a benfeitoria dá algum jeito. Como a história de que muita cera nos ouvidos é sinal de riqueza,…hã?...diga?…não o estou a ouvir! De facto, com tanta barbaridade que a malta vai ouvindo, só com cera a obstruir a audição, se terá a sorte de ficar na ignorância. O que me custa mais a perceber são as superstições do azar. Aquela do gato preto que se atravessa no caminho, é um claro sinal de discriminação pelo tom do pêlo. A curpa é sempre dos preto pá? De facto, já um pobre de um gato preto, não pode procurar gatas com o cio, que está sempre a receber insultos racistas. E o azar que se tem quando se mata uma aranha em casa? No meu caso, o azar que dá matar aranhas em casa, é sempre compensado com o facto de não ter de tropeçar nas suas teias por todo o lado. Olha ainda agora fiquei com mais um bocadinho de azar, aqui agarrado à meia do pé esquerdo. A superstição de que dinheiro em cima da mesa dá azar, só poderá vir de uma mente etérea, que pensa sempre no lado da espiritualidade para explicar a matéria. Imagina que os alimentos nos caem do céu, trazidos por cegonhas do Quénia e os livros da escola dos miúdos são oferecidos pelo filantropo editor. Ter dinheiro em cima da mesa, é bom sinal: é sinal que se tem dinheiro e mesa.
Bom, mas tudo isto começou com a cagadela do pombo no meu ombro. Andei toda a semana a dizer bem do pombo, que me iria permitir ajudar um monte de malta com a massa do euromilhões e, no dia do sorteio,…nem uma cruzinha,…nem uma estrelinha. Raio do pombo! Apetecia-me subir ao beirado e defecar-lhe em cima da penugem nova, que é para ele ver como é bom p’rá tosse. Epá não podes ser assim tão rancoroso com o pombo, coitado do bicho! A minha indignação, nem é tanto com o pombo, é mais com a superstição associada à cagadela do pombo. Eu até já tinha limpo os dejectos e tudo. O mal foi acreditar que a bosta traz sorte. A minha sorte foi perceber que também existem contradições nas superstições. De uma leitura mais apurada das várias crenças populares, surge aquela que me deixa um pouco mais aliviado mas também baralhado: “Criar Pombos dá azar”. Ora aí está, alguém inteligente. Mas, se criar pombos dá azar, como é que uma cagada de pombo dá sorte? Esta superstição anti-columbófila só pode ter sido criada por alguém que como eu, viu a sua camisola nova conspurcada pelo bomba viscosa mandada lá de cima do beirado. Pelo contrário, a superstição pró-laxante, foi decerto criada pelos próprios pombos, como protesto contra o tipo que não dá migalhinhas e que deve ser o mesmo da camisola conspurcada. Estava eu aqui no jogo supersticioso do gato e do rato, quando percebi que ambas as superstições não têm grande relevância. Na verdade o pombo é um excelente animal; até consegue encontrar o caminho de casa quando o abandonam a milhares de quilómetros. Teria sim relevância se alguém se lembrasse de, inspirado nestas duas superstições aparentemente antagónicas, criar uma em que todos acreditássemos: “Se um dos nossos governantes se atravessar à tua frente é sinal de que irás ter azar nos próximos anos”. É que, à semelhança dos pombos nos beirados, não haverá ser que consiga defecar com tanta perfeição na cabeça dos seus cidadãos.

domingo, 21 de setembro de 2008

O estreito de Magalhães


“O Magalhães chegou às escolas” Assim de repente, quando ouvi a notícia, fiquei admirado e um pouco emocionado, afinal não era todos os dias que assistiríamos ao renascer do nosso mais corajoso navegador português. Depois fiquei confuso quando completaram com um “agora até os mais pequenos só têm de clicar nas teclas…”. Mas que raio tem o “clicar nas teclas” a ver com Magalhães, conhecido pela arte no manuseamento do leme das suas Naus? Será que o inventor do computador para crianças se lembrou mesmo de Fernão de Magalhães, ou apenas o teria feito em honra de um amigo, um tal de António Magalhães, dono da mercearia, e grande percursor da troca do lápis atrás da orelha, pelo clicar na máquina registadora? Eu inclino-me mais para esta tese, até porque, se o herói Magalhães desconfiasse que deram o seu nome a um objecto de plástico com botões, fabricado nos Estados Unidos, iria ficar um pouco aborrecido. Mas o computador cria nas crianças desde muito cedo a habilidade de navegar e descobrir um mundo sem limites. Pronto, está explicado. O computador representa para a criança de 6 anos, o fast-food da navegação. O lema será: “Navega com facilidade, trabalha sem dificuldade”. É isso que se pretende, facilitar a vida do petiz. A máquina evita que tenha muito trabalho a escrever ou a procurar informação; basta navegar com o cursor, que a coisa fluirá sem problemas. Parece pois, que a navegação é o denominador comum entre o Magalhães e Magalhães. A grande diferença está na trabalheira que o genuíno (o Fernão) teve para descobrir o raio do Estreito que fazia a ligação entre dois continentes. Agora é ver um monte de Magalhãezinhos a navegarem até à Patagónia chilena, apenas com um clique , troçando das longas semanas que o outro Magalhães passou, a tentar sair daquele labirinto gelado e descobrir uma passagem que ninguém sonhava existir. O feito do nosso verdadeiro navegador, nada tem de instantâneo, revela uma perseverança e astúcia, que não se coadunam com um simples clicar no botão do lado esquerdo do rato. E ali está ele, Fernão Magalhães, em frente do tal Oceano, que haveria de chamar de Pacífico, pronto para se lançar à descoberta…Pssst,…Ó Magalhães!...Magalhãaaaees!...sou eu, o Xavier do 2º ano turma B! …Olha Magalhães, se queres descobrir as Molucas, basta colocares aqui em cima na janela do Google, o nome “Molucas” e elas aparecem num instantinho, com mapas e tudo pá! É que isso de te mandares à maluca dá uma trabalheira p’ra chegares à Moluca! Eh, eh, gostastes do trocadilho intelectual que acabei de fazer pá? Mas como Magalhães não sabia o que era o Google, lá foi ele, atravessar o Pacífico durante três meses,… com comida para duas semanas. O Xavier do 2º ano, que sabe procurar no motor de busca, nem sonha o que será ter de comer o couro das amarras ou os ratos do convés para sobreviver ao desafio da descoberta de um novo oceano.; Para a Beatriz do 4º ano é simples navegar, sem ferir as mãos a caçar a vela ou sentir os lábios gretados pela desidratação; para o Jaime do 3º ano é óbvio identificar a Micronésia sem lhe conhecer o cheiro. Para Fernão de Magalhães nada era fácil ou óbvio. Para se ser empreendedor tinha de se suar estopinhas. Magalhães descobriu que a terra era redonda porque levantou a bunda do sofá e foi à luta. Pssst, pssst,….ó Magalhães, sou eu outra vez, o Xavier do 2º ano. Essa coisa da luta é careta; agora é mais wrestling e moches pá! E para mais, eu descobri que a terra era redonda, sem ter de deixar a minha cadeirinha ergonómica a amparar-me o nadegueiro. Bastou ir ao globo tridimensional do Google Earth, e não custou nadinha.
Continuo sem conseguir explicar tão absurda colagem do nome do herói Magalhães a um negócio de bytes-milhões, encoberto por hipotéticos benefícios educacionais. Não quero sequer imaginar que tal associação se possa dever à forma como o navegador morreu na Indonésia, às mãos do cacique Lapu-Lapu. Acredita-se que Fernão de Magalhães cometeu um suicídio; foi ao encontro de uma morte voluntária. O meu temor é que o computador Magalhães, represente também ele o Harakiri do próprio ensino; a facada final na memória que temos de um Homem com as proeminências no sítio certo, dizendo à sua tripulação que aquela era uma aventura pela qual valeria a pena arriscar a vida. Pssst,….pssst, ouve lá ó cronista de meia tijela, aqui o Xavier do 2º ano, não percebeu o que é que tem o Harakiri a ver com o tal do Magalhães??? Diz aqui na wikkipédia que isso era uma coisa dos Samurais…?...onde é que o Magalhães é p’rá qui chamado pá?