quarta-feira, 11 de março de 2009

Uma vista de olhos



“Não é António?” Perguntei a um aluno distraído sobre a matéria que tinha acabado de transmitir. “É sim senhor!” respondeu ele convicto do que não tinha ouvido; a coisa complicou-se quando insisti “É o quê?”. Como o António tinha estado a ouvir a informação ministrada pelo seu colega do lado sobre os atributos anatómicos da Marta, respondeu com um engasgado “Pois…? Sabe…é que…”. Expliquei que nunca se responde “sim” a algo sobre o qual não se faz a mínima ideia, sob pena, de responder afirmativamente a questões comprometedoras sobre a sua vida íntima, ou sobre a sua eventual precária capacidade intelectual. Isto vem a propósito do último congresso do PS. Um verdadeiro festival, com muita bandeirinha a abanar, muito punho no ar, muita beijoca e o tipo que nos “governa” a dizer que melhor do que ele só o Ghandi e, eventualmente, o Dalai Lama . A coisa começou a complicar quando o repórter se lembrou de perguntar aos congressistas o que achavam da moção que estiveram a votar. “Então o que acha da moção?” Pergunta o jornalista. “Eu acho que está muito boa!”; o repórter insiste “mas qual o aspecto da moção que acha mais válido?”,… “bom,… assim de repente,…deixa ver,…acho que estão todos bons!”; o raio do jornalista não dava tréguas e replicava objectivamente “Mas você leu a moção?”, ao que o protagonista responde “dei uma vista de olhos, não aprofundei muito, sabe…”. Dizer que se dá uma vista de olhos é o mesmo que dizer que não se viu a ponta de um chavo, ou seja, que os olhos não tiveram vista nenhuma. É totalmente anti-natura; um insulto a todos os cegos deste país, ávidos que os seus olhos lhes dessem a vista que lhes teima em faltar. O cego não vê porque não consegue; o ignorante não vê porque … quer dar uma vista de olhos. O que estamos a falar não é de cegueira sensorial, mas de cegueira intelectual. Mas voltemos ao espampanante congresso. O jornalista lá percorria os vários congressistas em busca da vista perdida e ia obtendo respostas variadas, mas de conteúdos similares. Os ignorantes mais politizados até arriscavam com respostas abalizadas do tipo “é claramente uma moção que combate a exclusão social, o desemprego, a crise…”, tanga que caía por terra quando se ouvia “ mas o senhor leu a moção?”,… “ ler, ler,…mas é claro que dei uma vista de olhos!”….Nããããõ seu ignorante! Você diz-me que a moção é melhor do que a Madonna nua numa suite do Hilton, quando nem sequer a viu? Deveria dizer o repórter para achincalhar a sua estupidez.
Correcta estava aquela senhora que não teve com meias medidas e disse logo “Olhe, eu não li coisa nenhuma, mas votei “sim” porque gosto muito do homem; é muito simpático e se ele acha que sim eu também acho!”. Ao menos assim assume, sem subterfúgios a sua cegueira…pelo homem. E lá foi comer o pastelinho de bacalhau e beber o seu sumol entre um aceno e um aplauso. Existe um pequeno pormenor que me deixa um pouco incomodado. A moção que se estava a votar intitulada “A força da mudança“ , não propunha uma mudança no guarda-roupa do primeiro-ministro para as suas corridas matinais. A moção, para além de falar da maioria absoluta, tinha aspectos com implicações significativas no nosso dia-a-dia no caso de termos a infelicidade do governo continuar o mesmo. E dão pastelinhos de bacalhau, lá no congresso? Atão eu voto sim!…A expressão “mandar areia para os olhos” nunca fez tanto sentido. Um indivíduo com areia nos olhos pouco vê. E este tipo que nos governa é mestre da propaganda, eficaz na arte de arremesso de areia para o olho alheio, o que até nem é muito difícil com a apetência que o povão sem sentido crítico tem para se deixar cegar com a poeira da “mudança”.
Estou a tentar acabar de ler o livro “Ensaio sobre a cegueira” de Saramago. Nele se fala de uma epidemia que torna todas as pessoas cegas. Todas, excepto uma: A senhora que fica responsável por conduzir todas aquelas dependentes pessoas sem alternativa, em busca de alimento, de uma cama, de uma qualidade de vida aceitável. E a senhora era boa; tinha compaixão; era competente; tentava minorar a cegueira colectiva; A nós, na vida real, calhou-nos um indivíduo que tenta impulsionar a cegueira colectiva. Porque quantos mais forem os ceguinhos, maiores serão as possibilidades das barbaridades que se continuam a cometer, permanecerem impunes e, com alguma sorte, até apreciadas como um sinal de coragem(?).
Lembrei-me agora dos cães guias, esses fabulosos animais que apareceram como uma das melhores ajudas para os cegos se tornarem autónomos . São eles que evitam que os cegos choquem nos carros, embatam nos postes, tropecem nos passeios. Para que consigam assumir essa responsabilidade, de garantir a plena segurança do cego, são exaustivamente treinados, por forma a não se deixarem distrair com facilidade. Parece que nem todos os cães guia serão assim. Existem uns rafeiros que, para além de morderem às pessoas que deveriam proteger, têm um faro que se distrai facilmente com o odor de cadelas com o cio, deixando os cegos entregues à sua sorte. Quando, finalmente, voltam cansados da rebaldaria e, antes de apanharem com o jornal, estendem a pata, abanam o rabo e entregam o pastelinho de bacalhau que surripiaram na mercearia do bairro…

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Crianças Índigo

Imagem retirada da net

Estou mais aliviado. Aliás, todos deveríamos estar mais aliviados. A minha irmã acabou de me dar a feliz notícia do nascimento das crianças Índigo. Eu sei, também eu fiz essa cara, de quem pensou tratar-se da catrefada de gémeos que nasceram daquele casal americano, resultado de uma inseminação artificial com sémen de elefante, mas não. Estas crianças nasceram de inseminação natural e parecem que constituem 90% de todos os miúdos nascidos a partir da década de noventa. Parece que são seres com uma série de atributos intelectuais e sensoriais acima dos padrões, até então, normais. De entre as principais características mais marcantes vou realçar apenas duas copiadas da Wikipédia: “Chegam ao mundo com sentimento de realeza” ; “Custa-lhes aceitar autoridade que não oferece explicação nem alternativa”. Ora aí está, o que toda a criançada da minha geração, desejava ser: Uma espécie de príncipe que pode comer todas as guloseimas sem ter de dar cavaco a ninguém. Infelizmente, não nascemos com essa aura espiritual, uma espécie de campo electromagnético azul-índigo, descoberta pela parapsicóloga americana Nancy Tappe. Sinceramente eu tenho alguma dificuldade em perceber bem essa coisa da aura e muito menos o método de descobrir a cor da mesma, mas não interessa. O que interessa é que já não temos de chamar “malcriadão” ao miúdo que chama nomes à mãe só porque esta não lhe comprou um jogo para a consola. A partir de agora já podemos substituir esse ar de indignação e vontade de mandar uns tabefes, por um desculpabilizante sorriso e a frase “Aquela criança é tão… Índigo” . Acabaram-se pois os nossos problemas de indisciplina dentro da sala de aula. Se 90% da turma manda borrachas e papelinhos aos colegas enquanto o professor escreve o sumário no quadro, não são “acções produzidas por umas quaisquer bestas quadradas” mas “comportamentos perfeitamente normais de crianças índigo que fazem exercícios de aeromodelismo com o seu material escolar”. Se para um adulto retrógrado, a borracha apenas serve para apagar, a criança índigo consegue ver na borracha uma nave espacial em busca de um novo planeta chamado…nuca da Ana Luísa. A criança Índigo desmotiva-se com facilidade porque tem capacidades de apreensão e criatividade para além dos rudimentares valores transmitidos pelo adulto . Tem dificuldade de assimilar regras impostas, porque com a sua criatividade pode criar as suas próprias regras. É por isso que estou mais aliviado. A probabilidade de qualquer um dos meus filhos ser índigo é grande, afinal 90% é muita coisa. Como tal posso relaxar mais. É que exercer autoridade dá uma trabalheira do caneco, e assim, perante crianças que têm uma aura de criatividade especial, pode-se ser mais condescendente. Ainda ontem tive de me chatear à bruta para os meter na cama a horas que eu considero decentes; A vantagem do índigo é que define a própria decência. A criança índigo é uma espécie de panela Bimby versão infantil: educa-se a si própria. É só preciso colocar alguns ingredientes fundamentais lá dentro como sejam bolicaos, consolas, telemóveis, gomas, sapatilhas de marca, chaves do carro do pai e o cachopo faz o resto, ou seja, transforma-se num jovem índigo. Cá para nós, desconfio que os parapsicólogos que inventaram,… ops,… perdão,… descobriram o conceito de crianças índigo, tinham em casa miúdos daqueles muito, mas mesmo muito …índigos. Assim já não correriam o risco de lhes chamar cavalgaduras, quando eles davam largas à criatividade com as paredes da casa. Os especialistas defendem que as crianças índigo fomentam a desordem na sala de aula, porque aprendem os conteúdos muito rápido e depois ficam desmotivados. Esqueceram-se de dizer, que conteúdos(?), isto, porque o Manuel do 4º ano, o filho do senhor André da rua de baixo, deu 38 erros no ditado de língua portuguesa. Das duas uma, ou não teve a felicidade de ser abençoado por aquela aura azul que apenas deixa por iluminar 10% das crianças, ou então deveria estar a pensar na língua eslovaca que só aprenderia daqui a uns anitos. Tenho de reconhecer que até há pouco tempo, sempre que ouvia dizer que um pai tinha ido à escola ralhar com o professor porque este tinha ralhado com o seu filho só porque este estava a mandar sms à namorada durante a aula , apenas me vinha ao pensamento a palavra “energúmeno”. Agora percebo, que com as crianças índigo, também surgiram os pais índigo; pais muito à frente do nosso tempo, que já tinham percebido que isto não vai lá com castigos traumáticos para as crianças que “chegam ao mundo com sentimento de realeza”. Ainda tenho alguma dificuldade em assimilar que me nasceram dois nobres brasonados em casa, à espera de serem servidos pelas suas aias. Ainda não assimilei que eles não assimilam bem as regras dos adultos. Ainda ralho quando dão azo à sua real agressividade, materializada por batalhas fratricidas entre irmãos; ainda me chateio quando não conseguem jantar sem correr à volta da mesa; ainda fico fulo quando faltam ao respeito a pessoas mais velhas. Talvez um dia eu aspire a ser um pai índigo. Não sei bem porquê, mas estava agora aqui a pensar naquele jovem que foi baleado durante uma fuga à polícia. Fiquei indi…gnado. Então não explicaram ao agente da autoridade que aquele jovem que lhe apontou uma arma, que tinha como passatempo roubar carros a outras pessoas com elas dentro, afinal poderia mesmo ser um jovem índigo?

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Passa a outro e não ao mesmo...

imagem retirada da net

Hoje ao pequeno almoço, estavam os meus filhos a discutir a história do Pedro e do Lobo. Pedi que me relembrassem os pormenores e o mais novo avançou logo com um eloquente “o Pedro era mentiroso e já ninguém acreditava nele!…”. O moral da história estava traçado, sem ser necessário perder-se muito tempo com as entrelinhas. Os miúdos lá continuaram a desenvolver o enredo do banquete que o lobo fez com o cachopo mentiroso e a minha mente vagueava em direcção do… Freeport(?). A história, embora diferente, tem alguns contornos parecidos. Um tipo mente compulsivamente e depois, num momento de aflição, quer que acreditemos nele . Eu não acredito no homem! …ou antes,… Eu já não acredito no homem! E esta minha legitimidade para a descrença, deixa-me triste, sobretudo porque estamos a ser governados por esta versão adulta do Pedro mentiroso. Eu sei que posso estar a cometer uma profunda injustiça, por achar que lá por o nome do tipo estar na cabeça da lista dos suspeitos, de ter permitido fazer-se uma obra em tempo recorde em cima de uma reserva ecológica, de existirem gravações de conversas de luvas, não quer dizer que seja culpado, certo?…Errado! Sabem quando eu comecei a acreditar que o tipo era culpado? Quando começou a dizer que não o era. Ora temos de analisar de forma paradigmática os factos, com base na teoria dos antónimos. Um tipo que mente diz o facto ao contrário. Os impostos vão subir e ele diz que vão descer; o desemprego aumenta e ele diz que diminui; a ministra é incompetente e ele diz que é competente; o benfica joga muito mal e ele diz que joga de forma esplendorosa. Se o tipo diz que não tem nada a ver com o caso Freeport, nós deduzimos o quê?…
Mas existe uma coisa que ainda me incomoda mais do que um indivíduo mentiroso; é o indivíduo mentiroso e queixinhas. Existem duas expressões muito portuguesas que retratam a personagem: o “Sacudir a água do capote” e o “Passa a outro e não ao mesmo”. A primeira expressão reporta-se a esta característica de raramente se conseguir assumir a culpa própria. Essa incapacidade está impregnada no material genético de muitos humanos. O bébé quando chora, quer logo dizer que não teve a culpa de cagar nas fraldas. E este é o início de vida do indivíduo que gosta de sacudir a água do capote, com forte possibilidades de descambar no ser abjecto de “passar a outro e não ao mesmo”. Esta subespécie de mentiroso deixa-me pessoalmente sem qualquer respeito para dar. Um tipo que parte uma chávena, diz que não foi ele e aponta para o indivíduo do lado, é o personagem que merece todo o meu desprezo e até alguma regurgitação. E quem personaliza esse ser de que falo? Querem que eu dê uma pista?…Então aqui vai : “Sou inocente! Isto é uma campanha para denegrir a minha imagem! Uma campanha orquestrada pela oposição!…” lembra-vos alguma coisa? Aqui estão as duas expressões em plena harmonia: “sacudir água do capote”- Estou inocente e “Passa a outro e não ao mesmo” - a cabala. A culpa é sempre dos outros, sejam eles oposição, amigos ou animais de estimação.
Eu sou um acérrimo defensor de que nas escola deveriam existir acções de formação na área da responsabilização individual, intituladas “Como assumir a culpa em 20 lições”. Em alguns casos, onde se incluem os candidatos a políticos sérios, ter-se-ia de aprofundar até às 268 lições, assumindo carácter de disciplina plurianual. Até à 30ª lição, o exercício da jarra no canto da mesa que tinha de se derrubar e, depois de olhar para os cacos no chão tinha de se conseguir inibir o automatismo de dizer baboseiras do género “Quem foi o estúpido que colocou a jarra quase a cair!”; “A culpa é do médico que me receitou comprimidos que originam movimentos involuntários!” , “O raio dos chineses que não sabem fazer jarras resistentes!?”. O desafio estaria ultrapassado quando , depois de muito esforço o aluno conseguiria gemer um “acho que…a culpa foi …minha”. Talvez depois destes cursos, os futebolistas não culpassem a canela do adversário que molestaram, os pedófilos não culpassem as crianças que violaram, os cavalgaduras não culpassem os outros da sua falta de ética, os incompetentes corruptos não culpassem a conjuntura internacional, o ladrão não culpasse o dono do carro por ter deixado as chaves na ignição.
Para nossa desgraça, desconfio que, no sub-mundo dos partidos políticos, existirá formação no sentido inverso ou seja, “Como sacudir a água do capote e depois passar a culpa a outro em 20 lições”. Com a natural apetência para a patranha, as aprendizagens estariam consolidadas ao fim da 5ª lição.
Sinto que chegou a hora de esperar que o lobo apareça rápido e espete de uma vez por todas os dentes nas carnes do rapaz mentiroso. Tenho no entanto algum temor. Em primeiro lugar, de que os aldeões continuem a acreditar nas patranhas com um tonto sorriso nos lábios; em segundo lugar, de que o predador, quando chegar , seja apenas outro mentiroso disfarçado com pele de lobo.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

A entrada nos “Entas”



Não sei bem quem inventou essa treta dos “Entas”. Nunca tinha dado grande importância ao facto, até eu próprio chegar aos quarenta anos. “Agora já pertences ao clube dos entas!” dizem-me os amigos. Será um clube restrito, onde a malta fina joga bridge, bebe uns Wishkies, fuma uns charutos cubanos e discute as acções da bolsa?...a ilusão acaba-se quando completam com a animadora perspectiva: “Agora é que é o delas! É cada vez pior; sempre em queda descendente!...”. Não querendo assumir a faceta de páraquedista, penso que já não pretendo integrar o tal clube. Quero voltar atrás; voltar à avioneta dos trinta; é que não me dou lá muito bem com alturas e não gosto que me empurrem assim à bruta.
O estigma associado à fronteira dos entas, encontra-se reforçado pela passagem do “Ainda?” para o “Já?”. Quando temos 39 anos, as pessoas dizem-nos radiantes e de forma elogiosa “Ainda só tens 39?”; No dia em que mudamos de ano e arredondamos felizes a coisa, levamos logo com um desprestigiante “Já tens 40?”, associado uma expressão facial fatalista, sintomática de quem está a pensar “Coitado, já não há nada a fazer, estás um trapo!...”. Na realidade não senti essa súbita mudança; essa espécie de golpe de mágica degenerativa, que transforma um vigoroso atleta num artrítico ser. Isto porque de vigoroso atleta já tenho pouco. O artrítico ser, esse, começou antes dos “entas”, sempre que me levantava da cama a ranger tudo o que era articular. Que me perdoem as pessoas de 80 anos, que devem achar ofensivas as queixas de alguém que tem a sorte de “apenas” ter 40 anos, mas a culpa é de quem criou a fronteira dos “entas” para nos achincalhar; para nos tentar levar à depressão. Deixa-te disso, então e os 50, 60, 70 ou 80?...nessas idades já o mal está feito. O mal foi termos chegado aos “entas”. E é aqui que surge a velha máxima defensiva do tipo que está todo empenado e lança um orgulhoso “A velhice está na cabeça, não no corpo!” , faltando, no entanto, completar com um “…agora passa-me aí o andarilho para eu conseguir chegar à casa de banho!”. Tenho de admitir que também eu vacilei na entrada dos “entas”, quando a minha filha me perguntou se eu já era “velho”. Ainda pensei em responder-lhe com um convincente “nããã”, ou com aquela dos “velhos são os trapos”, mas tive que assumir que “já” não era novo. E o que aquilo me custou dizer. A injustiça é não se fazer a coisa com suavidade, para nos irmos preparando. Passamos 39 anos e algumas horas a viver na ignorância da juventude, para, de seguida, nos brindarem com um atestado de velhice, facultando-nos uma terminação inalterável, ainda por cima comunicando-nos que a sorte grande ficou para trás . O fardo dos 40 cai-nos no colo como uma bigorna em forma de presente. E a bigorna é tramada, que descai logo para a barriga, que vai crescendo de forma descontrolada, como crescendo vai a vontade de comer tudo o que está no frigorífico, naquela hora que não devemos comer tudo, porque já chegámos ao traste do metabolismo dos “entas”. Ao menos podiam-nos deixar trincar o chocolate descansados; até como terapia para afogarmos as mágoas de sermos entradotes. Para além da bigorna, da barriga e das restantes adiposidades, mandam-nos também os problemas do colesterol, dos triglicéridos, da hipertensão, da vista cansada, das dores de costas e o espectro da aproximação do traumático exame à próstata. Já um gajo não pode envelhecer sossegadinho perto do frigorífico e sem pensar no raio do médico calçando as luvas de silicone a dizer que não vai doer nada?!
Nesta passagem para os “entas”, teremos assim duas alternativas: A primeira, da negação, dando origem às figuras deprimentes dos tipos que aproveitam essa idade para pintar o cabelo de roxo, colocar piercings nas narinas e expressar-se através do dialecto das tribos adolescentes. Assim, com essa mudança de visual, apesar das hérnias discais, é vê-los aos saltos a gritar “Eu tou bué da jovem men! Hoje vou ripar no skate, amanhã vou curtir umas ondas!” . Este tipo terá fortes probabilidades de passar alguns meses, num centro de fisioterapia a apanhar choques e a levar chapadas nas carnes. A segunda alternativa, será a do “Deixa andar e que se lixe” que muitos especialistas classificam como a forma de saber envelhecer com serenidade. Basicamente, prende-se com a incapacidade da consciência pesar, mesmo depois de se ter trucidado o resto do pudim que ficou no frigorífico ou de ter adormecido no sofá a ver as “Escolhas de Marcelo”.
Na fase de recente quarentão, ainda tenho algum pudor em mandar a toalha ao chão e partir para o abandalhamento com serenidade. Também não admito a hipótese de furar a chicha com brincos ou começar a frequentar “raves” até de madrugada. No meio das dúvidas próprias deste período de reflexão existencial, tenho apenas uma certeza: quando me perguntarem a idade, assumirei orgulhosamente os meus Quar…inta.

domingo, 4 de janeiro de 2009

A Liliana resolve

Imagem retirada da net

Depois da viragem para o novo ano dei de caras com uma tal Liliana Queiroz; direi antes, que dei de caras com as mamocas de uma tal Liliana Queiroz(?). Foi aliás com algum espanto que, depois da festarola, do champanhe, das passas e da contagem decrescente, começámos a fazer zapping pelos vários canais televisivos e eis que surge a nossa miss Playboy, exibindo desinibida os seus fartos atributos carnais. Ao princípio estranhei. Havia algo que não batia certo; quase sempre nos mandam com filmes do Van Damme, melodramas dos anos 80, ou ainda análises prognósticas do ano que aí vem. Mas desta vez, ali estava a moçoila semi-despida com os seios pululando de alegria. Por mera curiosidade pus-me a analisar um pouco da história. A rapariga muito bonita tinha um primo muito bonito que namorava com outra rapariga muito bonita. Iam para um rancho muito bonito, com vacas muito bonitas, onde a rapariga muito bonita num exercício de imaginação pré-incestuosa, começou a achar que o primo afinal era bonito de mais para ser apenas… primo. Na voz off, a rapariga confessava a sua ininterrupta estimulação sensual; tudo lhe despertava sensualidade, desde o primo, à namorada do primo, ao feno, aos cortinados, aos lençóis de algodão, à ovelhinha, ao odor da furgoneta. Tudo era suficiente para se começar a despir. Está bom de ver que aquilo descambou numa grande e confusa algazarra…sensual. O canal de televisão teve uma boa ideia. Perante a perspectiva de um ano ensombrado e negro, manda-nos com as tetas silicónicas da Liliana, rapariga que se satisfaz com qualquer coisita. A estratégia é do mais elaborado que existe. Espetam-nos uma farpa no nosso cérebro reptiliano, na nossa faceta mais abrutalhada, com uma imagem da boazona da Liliana sempre a despir as vestes, por causa do clima escaldante. Transmite-nos assim uma sensação de calor e aconchego, perante um panorama gélido e sem grande piada. A imagem das mamocas felizes da Liliana, leva-nos a encarar as agruras do dia-a-dia com outro optimismo. Basta para isso um exercício de alguma imaginação. Ao ouvirmos o discurso do Presidente no primeiro dia do ano, apelando à nossa (infindável) paciência perante as (infindáveis) adversidades, ao invés de desenvolvermos alguma repulsa por aquele frouxo timoneiro que não faz nada para salvar o barco, bastará pensarmos que a doce Liliana descobriria na voz do Cavaco qualquer coisa de sensual. Se começarmos a ficar com azia sempre que Sócrates liberta mais uma das suas baboseiras, teremos de imaginar o que a Liliana poderia dizer: “então este não foi considerado um dos governante mais sensuais da Europa?...até as patranhas têm algo de estimulante!”. A Liliana funciona assim como o nosso anjinho; a voz positivista da consciência, apenas com uns seios maiores. Quando começarmos a fazer contas; a ver o fim do mês cada vez mais longe, porque o tipo da voz sensual nos pediu para ter paciência, e o outro da mentira estimulante nos entesa cada vez mais, basta pensar na angélica Liliana a sussurrar-nos delicadamente ao ouvido “meu doce, esquece as contas para pagar, pensa que com pouca roupinha se cria outro clima de sensualidade...”. Pensarmos no aumento de 20% do desemprego, nada que a Liliana não resolva com um “é da maneira que têm todo o tempo para rebolarem ali nos fenos ou na caixa aberta da furgoneta, com toda a sensualidade e sem pensar em acordar cedo para pegar no trabalho”. A onda de assaltos violentos? A Liliana tem a solução “Às vezes a violência é tão estimulante! Um homem de capuz a entrar numa casa aos berros é tão sensual!...eu,…eu,.. batia-lhe logo com o chicote e amarrava-o à cabeceira da cama!” . O estado da educação em Portugal, dos miúdos que brincam apontando armas de plástico à cabeça das professoras,… “era disso que eu me tinha esquecido. O capuz, o chicote e… a pistola. Só depois o amarrava à cabeceira. É tão sensual um homem apontando a pistola. E então quando grita: ou me dás positiva ou disparo! é do mais afrodisíaco que pode haver…”.
Será desta forma, acompanhado pela imagem da positiva, despreocupada e sensível Liliana, que tentarei superar os espinhos mais dolorosos do novo ano. Ela facultou-me a lição de que até os seres mais abjectos poderão esconder qualquer tipo de sensualidade, bastando fazer um pequeno esforço para o descobrir. Quem sabe se a breve trecho, consiga vislumbrar na assembleia da república, uma espécie de quinta da playboy, onde até as moscas das vaquinhas exalam sensualidade.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

A arte do Simulacro


A catástrofe assolou o país durante dois dias. Caiu um viaduto, incendiou-se um posto de combustível, desabaram dezenas de casas, explodiu uma fábrica, descarrilou um comboio, soterrou-se uma escola, despenharam-se carros, deram-se fugas de gás e rupturas de condutas de água, pessoas feridas no chão, rostos de sofrimento,…Corta!!! Já chega!...Terminou o simulacro! … Um simulacro, pá? E vem a malta aqui a esta hora, ao frio, convencidos que o sangue era mesmo a sério, mas afinal é tudo a fingir!? Indignam-se os curiosos que assistem incrédulos às operações de salvamento. Mas o espectáculo foi em grande; rivalizava com qualquer filme de Ridley Scott. Bombeiros, helicópteros, forças militares, ambulâncias, polícias e tudo para salvar malta que… não precisava de ser salva. Falava alguém sobre a importância dos simulacros, para estudar as lacunas da protecção civil em caso de emergência. “Para se perceber como agir em situações reais é necessário fazer simulações, criar situações a fingir…” , “A fingir o catano! Atão e a minha horta? Quem me paga os estragos nos tomateiros?” gritava a dona Idalina depois dos solícitos soldados da marinha lhe terem partido a porta de casa e pisado as hortaliças, para conseguirem chegar ao cenário de derrocada…a fingir. Parece que os rapazes levaram mesmo aquilo à séria e vai disto ó Evaristo, pensando que a idosa era também figurante daquele filme. “Em vez de andarem a pisar tomates, vão mas é apanhar os traficantes de droga na costa vicentina!”, parecia querer dizer a dona Idalina.
Mas de resto a coisa até correu benzito. As pessoas estavam calmas, os polícias estavam calmos, os bombeiros estavam tão calmos que parece que demoraram algum tempo a chegar. Aliás, uma das grandes conclusões do simulacro, foi a grave lacuna associada ao tempo excessivo que os mortos demorariam a chegar ao instituto de medicina legal. Um aspecto verdadeiramente importante, até porque as dezenas de mortos estavam vivos e cheios de frio.
O simulacro representou também uma experiência extraordinária para toda a ladroagem que existia em Lisboa e arredores. É que grande parte das forças de segurança estava distraída a resolver problemas a fingir. “Ó Jota, já sabes, quando a chota for ali ajudar os bombeiros na derrocada do viaduto em Alcântara-Mar, tu atacas na ourivesaria do Lumiar!”…”E se ouvires sirenes, não te preocupes que são os gajos a levar mortos a fingir…”
Gosto muito de ver espectáculos megalómanos de muita luz e acção. E apreciei de sobremaneira toda esta encenação, até porque a conjugação de várias sonoridades de sirenes, do ruído das hélices e todo o colorido das fardas, deixou no ar uma imagem arrebatadora de estoicismo. Só não percebi bem a parte do simulacro. Sinceramente, acho que gastar dinheiro a simular catástrofes, quando o país se encontra mergulhado numa tão grande, seria escusado. Com assaltos a bancos quase todos os dias; acidentes de viação hora a hora; assassinatos várias vezes ao dia; tráfico de droga e de armas em barda; pedófilos a atacar crianças que ninguém quer conhecer; bancários a roubar à bruta; políticos amigos de bancários que roubam à bruta. Então para quê o simulacro? Por causa dos sismos. Têm razão. Para a coisa parecer mais negra, só falta mesmo a terra tremer e abrir brechas, para nós cairmos definitivamente no buraco, embora eu pense que num sismo a sério a malta vai toda sair a correr para todo o lado, se possível para longe das sirenes.
Mas se a catástrofe grassa no nosso quotidiano, então e o simulacro? Não existe uma especialidade em mentir à descarada? A grande novidade reside no facto de habitualmente se usarem simulacros para se esconderem as catástrofes. Aliás, o nosso Primeiro ministro é um mestre na arte de bem simular. Simula licenciaturas, simula empregos, simula competência, simula riqueza, simula ordem, simula julgamentos, simula educação e tudo com muita calma, com muito descaramento. E, se lhe perguntarem como resolveria o transporte dos mortos, diria logo que ninguém morreria, mas no caso (remoto) de isso acontecer, os corpos chegariam à morgue em segundos e, ele próprio, patrocinava funerais com belas coroas de flores para todos.
A grande vantagem de termos à frente do país um tipo especialista no simulacro é que, no caso de surgir um terramoto a sério, ele conseguirá como ninguém, iludir o pessoal de que aquilo, quanto muito, será o resultado de uma má digestão de um qualquer elefante perdido na mata de Monsanto. É caso para Recuperar as palavras de Pinheiro de Azevedo, primeiro-ministro em 75, depois de um quantos petardos lançados num terreiro do Paço a abarrotar de manifestantes em pânico, ele gritava: “O povo é sereno! o povo é sereno!...isto é só fumaça!...”. A essas palavras só faltaria acrescentar: “E já agora tenham cuidado para não pisar a horta da dona Idalina!...”

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Interpretações Galináceas



Já não escrevia há algum tempo. Estive a passar por um período de recolhimento forçado resultante da avalanche de fenómenos paranormais que vão surgindo e a minha capacidade de filtragem ser extremamente limitada. Precisava de tempo para conseguir fazer a minha interpretação dos factos. Estava eu aqui no meu canto, a interpretar sossegadinho, e dou comigo a chocar com a própria da interpretação(?). E esse meu encontro com a “interpretação”, foi para mim um momento feliz; ao nível de um encontro da minha dentição com um prato de favas estufadas. Procurava algo que me pudesse saciar o apetite, sem ter de ficar com um travo de alho colado ao hálito. A “interpretação” deu-me essa sensação de repasto bem nutrido. Descobri que não há melhor forma de acalmar os nossos fantasmas mais corrosivos do que chamar a “interpretação” ao barulho. “Aquele tipo chamou-te ca***ão?”. “Sabes, eu acho que ele me queria chamar Carlitos, mas tropeçou numa pedra da calçada e teve de transformar aquela palavra num som mais próximo de Carlão” . Existe um facto; um tipo insulta outro; O outro, num golpe de mágica, consegue transformar o insulto num elogio, e não tem de andar à chapada. É um indivíduo mais feliz. Esta é a génese da verdadeira interpretação. Perante um facto, cada um o interpreta como quiser. Assim, se existem uns que conseguem pintar o facto de cor-de-rosa suave e apelativo, outros há que, assombrados pela interpretação negativista, começam logo a imaginar que a seguir daquele palavrão o tipo vai puxar das matracas escondidas debaixo do casaco de cabedal e desatar à matracada. Existe no entanto uma interpretação que sempre me pareceu difícil de fazer, talvez baseada na minha ignorância: a interpretação da lei. Sempre pensei que a lei fosse,…lei. Desprovida de equívocos; de subterfúgios; de mais ou menos; de …interpretações. Isto vem a propósito das declarações da ministra da educação que ouvi, entre duas músicas da rádio comercial. (A rádio comercial também tem as suas fragilidades e fracas interpretações)…Então dizia a senhora, que houve uma falha na interpretação da lei…?...Qual lei?...a do estatuto do aluno, que diz no artigo 22 da lei nº 3/2008 , que os alunos que atinjam o limite de faltas, qualquer que seja a sua natureza, terão de fazer uma prova de recuperação na disciplina em causa. “As escolas interpretaram mal lei!”, vociferou sem qualquer tipo de pudor. A interpretação é um dos melhores bodes expiatórios que existem, no fundo, materializada com a velha máxima “vocês é que perceberam mal!”. E eu de facto percebi tudo mal. Percebi mal que fosse preciso um instantâneo e lamentável desperdício de ovos contra o vidro duma limusina, para a lei ser transformada numa espécie de “assim-assim”. Se eu fosse galinha poedeira também teria percebido mal como a trabalheira e a força produzida de rabo voltado para a palha, pudesse ser estragada de forma tão leviana. Também percebi mal o poder que 3 simples omoletas espalmadas num vidro podem ter, quando comparadas com 120 mil professores na rua, que reivindicam a mudança de uma lei que não conseguem entender, nem com muito contorcionismo interpretativo. Deixo aqui a interpretação que faço em relação à importância que as galinhas poedeiras operam na interpretação da lei. Galinhas ao poder, já!...Pensando no panorama político actual,….ao menos tínhamos ovos à fartazana e não era só a gasolina que aumentava; o colesterol também ia por ali acima. E as galinhas tiveram também o dom de me fazer lembrar a excitação do Primeiro Ministro que, de olhos esbugalhados, cacarejava do seu poleiro, que Portugal iria ser em breve um país em que todos teriam acesso…imaginem….vá lá são capazes!....a emprego?....nã!...a bons serviços de saúde?...nãaã!...a salários mais aceitáveis?....nããã!?.... a navegar na Internet a 100 megabytes em todo o lado! Extraordinário! De entre as interpretações possíveis destas palavras, as mais lúcidas andariam na casa do “pirou de vez” ou “depois do Chavez lhe estragar o Magalhães ficou assim aparvalhado” ou então “não há maneira de ficar perdido de uma vez por todas no lago de Maracaibo durante uma prospecção de petróleo?”.
Estava eu aqui a vaguear pela complexidade dos múltiplos processos interpretativos e lembrei-me do Jorge Palma e daquele lamentável concerto que assisti há pouco tempo. O tipo entrou cambaleante no palco e arrotou uma série de baboseiras antes de começar a amarfanhar as canções. E a sua interpretação não poderia ser mais desconcertante, ou direi antes des…governada? Diziam os jornais, que ele estava em estado ébrio, que é uma maneira delicada de dizer que estava bêbado que nem um cacho. Mas, apesar da revolta que eu senti, por ter pago um bilhete para ver um tipo embriagado no palco, nunca em nenhum momento, o ouvi dizer que nós é que tínhamos interpretado mal o que ele estava a tocar. É que o tipo é bêbado mas ainda preserva alguma decência e capacidade de assumir que ele é que conseguia destruir o que tinha produzido. E verdade seja dita, que as suas canções foram bem criadas. E este tipo bêbado, poderia muito bem explicar aos nossos governantes que, pior do que serem incapazes de produzir trabalhos decentes, é acusarem-nos de os percebermos mal. “Shiu pá! Vai mas é beber um vodka e deixa-nos aqui mandar essa da “interpretação” dúbia, a ver se cola!”
Uma palavra final para as galinhas poedeiras, no sentido de ficarem descansadas porque, da minha parte, os vossos ovos serão sempre comidos no prato depois de terem passado pela frigideira e polvilhados com sal, alho e orégãos. Está visto que não me consigo livrar do mau hálito…