quarta-feira, 13 de maio de 2009

A Maria Joana


A marcha pela legalização da “cannabis” invadiu a capital com cerca de …500 participantes. Quando eu pensava que estava tudo maluco, que este país iria parar ao inevitável sifão, eis que surge este movimento repleto de clarividência, onde a palavra de ordem, entre tambores e apitos, seria “deixem-nos fumar charros à vontade qu’a malta assim é que é feliz!”. Mas eu iria mais longe. A Marijuana, não só deveria ser legalizada, como devia fazer parte da lista de prescrição dos Pediatras como substância potenciadora de um desenvolvimento infantil mais harmonioso. Assim, ao substituir o aerosol por uma vaporização de maconha após o banho, a criança, para além de lhe passar a crise dos brônquios, ficaria de tal forma calma, que já não faria birras para comer a sopa ou fitas a caminho da lavagem dos dentes. E porque razão se deveria estimular este processo de entorpecimento, logo a partir da infância? Porque assim, os jovens viveriam sem ter de lidar com o trauma de perceber a dura realidade que lhes ensombra o quotidiano. Assim, se um tipo fumar umas ganzas logo pela manhã, até acha uma certa graça quando o Primeiro Ministro abre a boca. De facto, os efeitos medicinais da droga, perdão, da erva, são evidentes. Que melhor prova dos benefícios da mesma, senão a forma alegre e despreocupada como aqueles tipos desfilaram no Largo do Rato, sem demonstrarem qualquer sintoma de artrite, hérnia discal, pedra na vesícula, doença bipolar ou gota. Até ostentavam orgulhosos as rastas nos cabelos como que a dizer “o pessoal nem se precisa de pentear porque, com o efeito da maconha, até achamos que estamos bonitos quando nos vimos ao espelho, pá!”. Tenho de confessar que nunca fumei daquilo, mas há momentos em que…, olhem agora estava a lembrar-me da história de todos os partidos (aquela espécie de organização que fala muito de moralização, ética e coisas assim) terem votado um aumento estapafúrdio do seu financiamento, numa época de crise mais ou menos profunda. Com maconha a inebriar-me os sentidos, até poderia achar algum sentido a esta falta massiva de dever cívico; trocava a vontade incontrolada de lhes chamar “filhos da p****” por uma expressão mais descontraída do tipo “É isso bravos heróis, vós precisais de mais verbas para as nobres campanhas que se avizinham”. A manifestação pró-marijuana lá continuou com alegria e o tipo do bloco de esquerda (que está sempre presente em relevantes causas sociais) lá ia dizendo que o consumidor de cannabis não deveria ter de comprar o produto a traficantes de heroína e cocaína. Está encontrada a razão pela qual a maioria dos fumadores de cannabis descambam em consumidores de drogas pesadas. Por falar em drogas pesadas, lembrei-me agora da mais recente declaração do engenheiro Sócrates, que pedia a maioria absoluta… maioria absoluta???...Pela legalização da Cannabis já! Até porque o exemplo deverá vir de cima, e, só um homem profundamente perturbado ou entorpecido pelo efeito de substâncias alucinogéneas poderia proferir uma barbaridade destas, depois da fabulosa governação que empreendeu. Arrisco-me a propor um outro passo ainda mais ambicioso: o da nacionalização da marijuana. Todos sabemos que a nossa agricultura ou não existe, ou, a que existe brevemente deixará de existir. Assim, aproveitar-se-iam os campos abandonados de trigo no Alentejo, para plantar erva em barda. Teríamos de mudar a designação espanholada de “marijuana” para uma mais caseira “Maria Joana”. E a “Maria Joana” espalhava alegria e optimismo por todos nós, considerados os mais tristes e pessimistas da Europa. A vida seria mais fácil, como mais fácil seria aceitar a estirpe de políticos que nos governam. Aprenderíamos a desresponsabilizar ainda mais os tipos, e a responsabilizar ainda mais a erva. “Deixa lá o homem em paz! Então tu não vês que quando o tipo tomou a decisão de avaliar os polícias pelo número de detenções, estava com uma moca do caneco? Aquilo foi na farra, a culpa é da droga …” . Lembrei-me da falada e hipotética formação de um governo central, resultante da união entre os dois partidos rivais. Só com muita Maria Joana nas vias respiratórias, é que conseguiríamos acreditar que essa união se daria por interesses nacionais e não por interesses corporativos de distribuição racional de “tachos” e “panelas”.
Parece ter chegado a altura de se desvendar de uma vez por todas o mistério associado à mítica frase partilhada entre Sócrates e Durão, no meio daquele abraço e do sorriso aquando da assinatura do tratado de Lisboa: Depois de sair aquele espontâneo “Porreiro Pá!...” provavelmente alguém ouviu o resto… “Sabes ó Durão, não há melhor do que a nossa Maria Joana! …Um gajo fica mesmo disposto a dizer, a ver e a ouvir todo o tipo de baboseira…com um sorriso nos lábios”

segunda-feira, 27 de abril de 2009

A Identidade do Cidadão


Sempre achei que a identidade era uma coisa importante. Com o passar do tempo comecei a achar que mais importante do que a identidade, seria o bilhete de…identidade. Tive pela primeira vez essa sensação, quando não pude embarcar num avião só porque o dito bilhete tinha terminado o prazo de validade. Ainda tentei explicar à senhora do check in que o bilhete tinha caducado, mas não a própria da identidade. Eu continuava a ser eu, com os mesmos olhos, a mesma boca, o mesmo cabelo,…bom..talvez menos,…os mesmos pais e avós. A senhora foi irredutível e eu perdi o voo por causa daquele reles cartão plastificado. Depois desse lamentável episódio, pus-me a reparar nas vezes em que nos pedem o bendito bilhete e perceber que até poderia ter alguma relevância. Para abrir uma conta, ser sócio do clube de vídeo, pagar uma televisão às prestações, mostrar ao guarda de trânsito, ou seja, faz-se fé num bocado de papel que poderá ser falsificado e ignora-se a verdadeira identidade que nem com muitos liftings pode ser usurpada.
Depois de ouvir repetidamente e de forma quase indignada que os meus filhos não tinham o bilhete de identidade, decidi que deveria zelar para que eles encontrassem a sua identidade. Foram fazer a fotografia “à lá minuta”, disse-lhes até a baboseira do “olhó passarinho!” para que pudessem exteriorizar o seu melhor sorriso (para a identidade aparecer risonha) e lá fomos contentes para o registo civil. Fui-lhes contando que aquilo não custava nada, até iriam borrar o dedo numa tinta preta, facto que deixou o miúdo radiante, com particular queda que tem para a javardice. Chegámos e tirámos a nossa senha. Seria rápido pois apenas tínhamos duas pessoas à frente. Ao esperarmos, íamos percebendo que aquelas duas pessoas, teriam uma identidade algo complexa, pois demoraram um bocadinho mais do que eu estaria à espera, mesmo com uma limpeza apurada do dedo carimbado. Chamaram a nossa senha e impacientemente lancei um “vínhamos tirar o bilhete de identi….” antes de terminar a frase, a senhora respondeu: “já não existe bilhete de identidade !” O quê??? Está-me a dizer que eu perdi o avião por causa da falta de uma coisa que já não existe? Então e a identidade dos meus filhos?...como posso continuar a dizer que não têm o bendito bilhete de identidade? Para já não falar no desapontamento do mais novo por não poder borrar o dedo com tinta preta. “Agora existe o Cartão do Cidadão!” contrapõe a senhora com um ar orgulhoso de quem finalmente enterrou um bilhete decrépito e criou um pujante cartão do futuro. Aliás, não foi por acaso que se substituiu o termo “bilhete” por “cartão”. Um bilhete lembra um ingresso de cinema, um talão de compra do talho, um ticket de comboio, uma passagem de avião,…outra vez a perseguir-me o maldito voo perdido. “Cartão”, para além de rimar com “Cidadão”, lembra o que todos desejamos ter a enfeitar o porta moedas. Uma panóplia de rectângulos coloridos que servem para dar dinheiro e descontos ou perder dinheiro e descontos: cartões de crédito, de multibanco, do continente, da sportzone, do intermarché, das piscinas, do campismo e caravanismo, das pousadas, dos bombeiros, do Belenenses. O cartão representa um espécie de fetiche lusitano. Até há quem defenda que um cartão CaixaGold a reluzir na carteira, poderá constituir um factor facilitador de conquistas amorosas . Eu cá só queria o bilhete de identidade para os miúdos; Mas não podia ser. Teria de ser o pomposo e moderno Cartão do Cidadão. “Então é preciso o quê, para se ter esse cartão?” perguntei cabisbaixo. “É preciso o cartão de contribuinte, o cartão de eleitor, o cartão do utente de saúde, o cartão da segurança social, o bilhete de identidade(?)”. Agora fiquei baralhado. Por um lado, os miúdos não tinham nenhum desses cartões, por outro fundem-se 5 cartões em apenas um(?). Então e o que vai acontecer ao brilhantismo das nossas carteiras, sem a panóplia de cartões a enfeitar? O cartão de cidadão não substitui o cartão Continente? Ah, assim já podemos ficar mais descansados. A senhora procedeu a todo o processo de certificação do cidadão e demorou cerca de meia hora para cada cachopo. Apesar de toda a malta que estava à espera, achar aquilo tempo de mais, eu penso, que para um indivíduo se tornar cidadão até foi muito rápido. Antigamente para se ser cidadão a valer tinha de se ser um tipo asseadinho, cumpridor das regras sociais, ajudar a mãe a lavar a loiça, levar o irmão mais novo à escola, ajudar os colegas de estudo, beber o leite ao pequeno almoço. Agora a coisa parece mais facilitada. Um tipo assina numa máquina, mete o dedo numa máquina, faz um sorriso para uma máquina, diz o estado de saúde e pagamento de impostos à máquina e a máquina trata da nossa cidadania.
Quando a minha mulher se preparava para ser também ela cidadã, a senhora diz-lhe que aquela criança ao colo do senhor tinha prioridade para tirar o cartão de cidadão. Está traçado o caminho do progresso efectivo, onde a cidadania se compactua num electrónico cartão multifunções e, onde existem uns que, por serem levados ao colo, poderão adquirir mais cedo as vantagens inerentes ao cidadão de futuro.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Alerta Amarelo


“Querido não achas que levamos roupa a mais? Afinal vamos só passar 3 dias fora!....” o marido preocupado responde “Não vês que eles deram alerta amarelo?...mete mas é mais duas camisolas de lã e um kispo para a chuvada que aí vem!”. Quantos de nós não nos revemos no pobre do marido que condiciona os seus actos de acordo com as previsões meteorológicas. “Marcaste hotel no Algarve? Então não viste que os tipos davam um temporal acompanhado de maremoto na costa sul?”; Mas esses gajos da meteorologia não têm mais nada que fazer senão atazanar-nos os planos? Deixem-nos ir à vontade de férias, na doce ignorância, depois lá, logo se verá. Se chover, compramos um chapéu de chuva de 2 euros aos vendedores de rua que também têm de ganhar a vida. Mas pior do que os meteorologistas para nos lixar o ócio, apareceram agora uns tipos da protecção civil, um organismo que foi criado para lidar com as situações de emergência, coordenando os meios operativos existentes,….?..... Fazes o quê? Coordeno! Sempre tive uma certa admiração pelos indivíduos que coordenam. Constróis casas? Não, coordeno a construção!; Dás aulas? Não, coordeno os professores!; Serras lenha? Não, coordeno a serração.; Apanhas ladrões? Não, coordeno a polícia! Apagas fogos? Não, coordeno a distribuição dos aviões alugados a preço de ouro! Qualquer trabalhador que se preze não pode pôr as mãos na massa sem antes arranjar alguém que coordene as suas acções. Será até de certa maneira constrangedor se, ao perguntarem a um electricista se não tem ninguém a coordenar as suas montagens eléctricas, ele responder que não…Não? Então e os perigos? Os choques? Quem coordena esses arrojadas acções com o busca-pólos em cima do escadote?
Mas voltemos à protecção civil e à coordenação que fazem dos meios de emergência e das nossas férias. Os tipos, como perceberam que é difícil coordenar situações de emergência, resguardam-se na prevenção e fazem eles muito bem. “Ó Isabel, põe aí mais um gorro e um par de luvas que isto do alerta amarelo não é para brincadeiras!”.
Esta coisa dos alertas, foi um golpe de génio. Pôr a malta alerta, é despertar um estado de vigília permanente. Promover a desconfiança, o receio, a atenção, ou seja, afogar-nos no desconforto antes mesmo de levar com chuva na cachimónia. Como a ordem de alerta dada pelo major (o coordenador) ao sentinela da noite de um quartel rodeado por uma multidão de inimigos talibãs. O que pensa o sentinela? Que provavelmente se adormecer estará lixado e se não adormecer …lixado estará. Pelo sim pelo não, não vai conseguir adormecer, porque a levar um balázio ao menos que seja acordado. E é assim que nos sentimos quando vamos uns dias de férias ensombrados por o alerta agoirento pairando sobre as nossas aspirações de dias de descontracção. Vamos contraídos, envoltos em cachecóis e impermeáveis, esperando o pior dos vendavais, o mais ignóbil dilúvio. “Mas já viste o sol que está? Eles não diziam que…”, pergunta a mulher de forma optimista, “Espera que o pior ainda está para vir, mantém-te alerta!” contrapõe o pragmático marido.
No gabinete do coordenador da protecção civil, a conversa desenrola-se: “Não achas que exagerámos um bocadinho com o alerta? Afinal só dão aguaceiros e uns ventitos…”, “Shiuuu, cala-te! Não viste como ia ardendo toda a reserva do Gerês no mês passado? Foi porque não lançámos nenhum alerta!...ou lançámos?...mas de que cor?...”. Também quem se lembrou de pôr amarelo ao alerta? Amarelo não intimida; é alegre, radioso, até lembra o sol iluminando malmequeres. Já agora um alerta cor-de-rosa para nos avisar de uma breve brisa marítima. O alerta vermelho faz mais sentido. Lembra-nos sangue, tragédia, fogo, Benfica, enfim, imagens pouco apelativas e mais consonantes com cenários de flagelo.
“Mas ó Manuel, já estamos quase no último dia de férias e ainda não pingou…”, o Manuel continua firmemente convicto “Vais ver que vamos apanhar a intempérie na viagem de regresso a casa e ainda ficamos presos no caminho…”
As expectativas do céu amarelado não se confirmaram e o casal regressou a casa com um sol radioso, apenas interrompido por uns pingos ali perto de Mealhada, que serviu de pretexto para mandar os dentes a um naco de leitão. Chegados a casa, ao tirar do carro toda a tralha que tinham levado para combater as condições de inverno rigoroso previstas, o Manuel de forma resignada perguntou: “Achas que o coordenador é daltónico?”
Acabo de escrever esta crónica a ouvir a chuva que cai lá fora, e os pingos que caem cá dentro por causa do dilúvio da tarde. Será que o coordenador lançou um alerta amarelo para hoje e eu não ouvi?....

terça-feira, 31 de março de 2009

Relativamente...


Tenho de tirar o chapéu ao nosso ilustre ministro da administração interna que, mediante o clima de insegurança instalado, consegue dizer ao cidadão inseguro que afinal está seguro(!?).Mas vamos por partes. Sai o relatório anual de segurança interna e toda a gente fica atenta. Depois de se passar a vida a ouvir falar de assaltos por tudo quanto é lado, agressões a polícias à descarada, tráfico de droga em barda, armamento pesado em bairros sociais, eis que surgem os números: Afinal não há lugar para alarmismos! A criminalidade violenta aumentou apenas 11% relativamente ao último ano!? O que nos diz o ministro destes números? Nada mais aconchegante do que: “Portugal continua a ser um país relativamente seguro”. Então não é que o homem tem razão??? Tem razão porque colocou ali no meio a tal palavrinha que nunca compromete: o “relativamente”. E com o “relativamente” tudo se resolve; tudo acaba em bem. Eu por exemplo sou um tipo “relativamente” bonito; afinal existem sempre figuras com a aparência de um Jaime Gama ou um Jorge Sampaio. Sinto-me um tipo “relativamente” rico, quando penso na malta que trabalha numa fábrica de calçado de Guimarães. Sou mesmo relativamente milionário, se conseguir imaginar os 3 euros ao mês de um tipo que cose bolas de futebol no Bangladesh. Apesar de estar sempre de fato de treino, visto-me “relativamente” bem, quando imagino a figura do Alberto João Jardim mascarado de baiana no carnaval da Madeira. Sinto-me “relativamente” bem disposto sempre que sou atendido pela senhora do registo predial. Sou “relativamente” inteligente quando penso na ministra da educação. Sinto-me “relativamente” muito saudável se pensar no cadavérico e malogrado César Monteiro. Tenho um poder de oratória “relativamente” grande quando ouço Vasco Pulido Valente.
Resumindo, serei um tipo “relativamente” bafejado pela sorte pois sou “relativamente” bonito, rico, bem vestido, bem disposto, inteligente, saudável, bem falante. O drama é se me ponho a pensar no Brad Pitt, Américo Amorim, Calvin Klein, Fernando Mendes, Einstein, Nelson Évora ou Barack Obama .Aí já começo a sentir-me “relativamente” feio, pobre, mal vestido, tristonho, mentecapto, fraquinho, tartamudo. Mas ao menos sinto-me “relativamente” seguro. E tudo graças ao nosso salvador ministro Rui Pereira, que diz que somos “relativamente” seguros, forçando a imaginação a vaguear sobre os tiroteios das favelas do Rio de Janeiro. Esqueçam o Brasil! Nós temos índices de criminalidade dos mais baixos da Europa, com os espantosos valores de 37% contra 70%...?....70%? Com 70% de criminalidade, as probabilidades de ser esfaqueado à saída do autocarro em Berna ou em Basileia serão enormes. Ainda bem que raramente passo a fronteira. Olhe! Sôr Ministro!...Por acaso não confundiu os papéis e onde aparece Europa não estaria Medellin da Colômbia?
Mas não há dúvida que o facto de nos sentirmos “relativamente” seguros nos transmite alguma serenidade, até para analisarmos os 23% de aumento dos assaltos de carjacking. Só 23%? Isso é quase o valor do IVA nas latas de Atum e ninguém se queixa; até dizem que é rico em ómega 3. Este estado “relativamente” tranquilo que nos invade o espírito, apenas sofrerá uma pequena mutação quando nos assaltarem a casa. Aí ficaremos “relativamente” chateados e com vontade de chamar uns nomes “relativamente” feios aos tipos que dizem que estamos “relativamente” seguros.
Esta imagem do Ministro segurando os óculos com as duas mãos, não pretende fazer sarcasmos com uma hipotética miopia do senhor que lhe tolherá a clarividência. Aliás, as suas dioptrias serão “relativamente” irrelevantes quando comparadas com as do Mr Magoo. Mas não haverá motivo de preocupação porque a medicina tem dado grandes passos. A questão será a de saber se para este tipo de limitação visual os nossos oftalmologistas não serão apenas “relativamente” bons…

quarta-feira, 11 de março de 2009

Uma vista de olhos



“Não é António?” Perguntei a um aluno distraído sobre a matéria que tinha acabado de transmitir. “É sim senhor!” respondeu ele convicto do que não tinha ouvido; a coisa complicou-se quando insisti “É o quê?”. Como o António tinha estado a ouvir a informação ministrada pelo seu colega do lado sobre os atributos anatómicos da Marta, respondeu com um engasgado “Pois…? Sabe…é que…”. Expliquei que nunca se responde “sim” a algo sobre o qual não se faz a mínima ideia, sob pena, de responder afirmativamente a questões comprometedoras sobre a sua vida íntima, ou sobre a sua eventual precária capacidade intelectual. Isto vem a propósito do último congresso do PS. Um verdadeiro festival, com muita bandeirinha a abanar, muito punho no ar, muita beijoca e o tipo que nos “governa” a dizer que melhor do que ele só o Ghandi e, eventualmente, o Dalai Lama . A coisa começou a complicar quando o repórter se lembrou de perguntar aos congressistas o que achavam da moção que estiveram a votar. “Então o que acha da moção?” Pergunta o jornalista. “Eu acho que está muito boa!”; o repórter insiste “mas qual o aspecto da moção que acha mais válido?”,… “bom,… assim de repente,…deixa ver,…acho que estão todos bons!”; o raio do jornalista não dava tréguas e replicava objectivamente “Mas você leu a moção?”, ao que o protagonista responde “dei uma vista de olhos, não aprofundei muito, sabe…”. Dizer que se dá uma vista de olhos é o mesmo que dizer que não se viu a ponta de um chavo, ou seja, que os olhos não tiveram vista nenhuma. É totalmente anti-natura; um insulto a todos os cegos deste país, ávidos que os seus olhos lhes dessem a vista que lhes teima em faltar. O cego não vê porque não consegue; o ignorante não vê porque … quer dar uma vista de olhos. O que estamos a falar não é de cegueira sensorial, mas de cegueira intelectual. Mas voltemos ao espampanante congresso. O jornalista lá percorria os vários congressistas em busca da vista perdida e ia obtendo respostas variadas, mas de conteúdos similares. Os ignorantes mais politizados até arriscavam com respostas abalizadas do tipo “é claramente uma moção que combate a exclusão social, o desemprego, a crise…”, tanga que caía por terra quando se ouvia “ mas o senhor leu a moção?”,… “ ler, ler,…mas é claro que dei uma vista de olhos!”….Nããããõ seu ignorante! Você diz-me que a moção é melhor do que a Madonna nua numa suite do Hilton, quando nem sequer a viu? Deveria dizer o repórter para achincalhar a sua estupidez.
Correcta estava aquela senhora que não teve com meias medidas e disse logo “Olhe, eu não li coisa nenhuma, mas votei “sim” porque gosto muito do homem; é muito simpático e se ele acha que sim eu também acho!”. Ao menos assim assume, sem subterfúgios a sua cegueira…pelo homem. E lá foi comer o pastelinho de bacalhau e beber o seu sumol entre um aceno e um aplauso. Existe um pequeno pormenor que me deixa um pouco incomodado. A moção que se estava a votar intitulada “A força da mudança“ , não propunha uma mudança no guarda-roupa do primeiro-ministro para as suas corridas matinais. A moção, para além de falar da maioria absoluta, tinha aspectos com implicações significativas no nosso dia-a-dia no caso de termos a infelicidade do governo continuar o mesmo. E dão pastelinhos de bacalhau, lá no congresso? Atão eu voto sim!…A expressão “mandar areia para os olhos” nunca fez tanto sentido. Um indivíduo com areia nos olhos pouco vê. E este tipo que nos governa é mestre da propaganda, eficaz na arte de arremesso de areia para o olho alheio, o que até nem é muito difícil com a apetência que o povão sem sentido crítico tem para se deixar cegar com a poeira da “mudança”.
Estou a tentar acabar de ler o livro “Ensaio sobre a cegueira” de Saramago. Nele se fala de uma epidemia que torna todas as pessoas cegas. Todas, excepto uma: A senhora que fica responsável por conduzir todas aquelas dependentes pessoas sem alternativa, em busca de alimento, de uma cama, de uma qualidade de vida aceitável. E a senhora era boa; tinha compaixão; era competente; tentava minorar a cegueira colectiva; A nós, na vida real, calhou-nos um indivíduo que tenta impulsionar a cegueira colectiva. Porque quantos mais forem os ceguinhos, maiores serão as possibilidades das barbaridades que se continuam a cometer, permanecerem impunes e, com alguma sorte, até apreciadas como um sinal de coragem(?).
Lembrei-me agora dos cães guias, esses fabulosos animais que apareceram como uma das melhores ajudas para os cegos se tornarem autónomos . São eles que evitam que os cegos choquem nos carros, embatam nos postes, tropecem nos passeios. Para que consigam assumir essa responsabilidade, de garantir a plena segurança do cego, são exaustivamente treinados, por forma a não se deixarem distrair com facilidade. Parece que nem todos os cães guia serão assim. Existem uns rafeiros que, para além de morderem às pessoas que deveriam proteger, têm um faro que se distrai facilmente com o odor de cadelas com o cio, deixando os cegos entregues à sua sorte. Quando, finalmente, voltam cansados da rebaldaria e, antes de apanharem com o jornal, estendem a pata, abanam o rabo e entregam o pastelinho de bacalhau que surripiaram na mercearia do bairro…

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Crianças Índigo

Imagem retirada da net

Estou mais aliviado. Aliás, todos deveríamos estar mais aliviados. A minha irmã acabou de me dar a feliz notícia do nascimento das crianças Índigo. Eu sei, também eu fiz essa cara, de quem pensou tratar-se da catrefada de gémeos que nasceram daquele casal americano, resultado de uma inseminação artificial com sémen de elefante, mas não. Estas crianças nasceram de inseminação natural e parecem que constituem 90% de todos os miúdos nascidos a partir da década de noventa. Parece que são seres com uma série de atributos intelectuais e sensoriais acima dos padrões, até então, normais. De entre as principais características mais marcantes vou realçar apenas duas copiadas da Wikipédia: “Chegam ao mundo com sentimento de realeza” ; “Custa-lhes aceitar autoridade que não oferece explicação nem alternativa”. Ora aí está, o que toda a criançada da minha geração, desejava ser: Uma espécie de príncipe que pode comer todas as guloseimas sem ter de dar cavaco a ninguém. Infelizmente, não nascemos com essa aura espiritual, uma espécie de campo electromagnético azul-índigo, descoberta pela parapsicóloga americana Nancy Tappe. Sinceramente eu tenho alguma dificuldade em perceber bem essa coisa da aura e muito menos o método de descobrir a cor da mesma, mas não interessa. O que interessa é que já não temos de chamar “malcriadão” ao miúdo que chama nomes à mãe só porque esta não lhe comprou um jogo para a consola. A partir de agora já podemos substituir esse ar de indignação e vontade de mandar uns tabefes, por um desculpabilizante sorriso e a frase “Aquela criança é tão… Índigo” . Acabaram-se pois os nossos problemas de indisciplina dentro da sala de aula. Se 90% da turma manda borrachas e papelinhos aos colegas enquanto o professor escreve o sumário no quadro, não são “acções produzidas por umas quaisquer bestas quadradas” mas “comportamentos perfeitamente normais de crianças índigo que fazem exercícios de aeromodelismo com o seu material escolar”. Se para um adulto retrógrado, a borracha apenas serve para apagar, a criança índigo consegue ver na borracha uma nave espacial em busca de um novo planeta chamado…nuca da Ana Luísa. A criança Índigo desmotiva-se com facilidade porque tem capacidades de apreensão e criatividade para além dos rudimentares valores transmitidos pelo adulto . Tem dificuldade de assimilar regras impostas, porque com a sua criatividade pode criar as suas próprias regras. É por isso que estou mais aliviado. A probabilidade de qualquer um dos meus filhos ser índigo é grande, afinal 90% é muita coisa. Como tal posso relaxar mais. É que exercer autoridade dá uma trabalheira do caneco, e assim, perante crianças que têm uma aura de criatividade especial, pode-se ser mais condescendente. Ainda ontem tive de me chatear à bruta para os meter na cama a horas que eu considero decentes; A vantagem do índigo é que define a própria decência. A criança índigo é uma espécie de panela Bimby versão infantil: educa-se a si própria. É só preciso colocar alguns ingredientes fundamentais lá dentro como sejam bolicaos, consolas, telemóveis, gomas, sapatilhas de marca, chaves do carro do pai e o cachopo faz o resto, ou seja, transforma-se num jovem índigo. Cá para nós, desconfio que os parapsicólogos que inventaram,… ops,… perdão,… descobriram o conceito de crianças índigo, tinham em casa miúdos daqueles muito, mas mesmo muito …índigos. Assim já não correriam o risco de lhes chamar cavalgaduras, quando eles davam largas à criatividade com as paredes da casa. Os especialistas defendem que as crianças índigo fomentam a desordem na sala de aula, porque aprendem os conteúdos muito rápido e depois ficam desmotivados. Esqueceram-se de dizer, que conteúdos(?), isto, porque o Manuel do 4º ano, o filho do senhor André da rua de baixo, deu 38 erros no ditado de língua portuguesa. Das duas uma, ou não teve a felicidade de ser abençoado por aquela aura azul que apenas deixa por iluminar 10% das crianças, ou então deveria estar a pensar na língua eslovaca que só aprenderia daqui a uns anitos. Tenho de reconhecer que até há pouco tempo, sempre que ouvia dizer que um pai tinha ido à escola ralhar com o professor porque este tinha ralhado com o seu filho só porque este estava a mandar sms à namorada durante a aula , apenas me vinha ao pensamento a palavra “energúmeno”. Agora percebo, que com as crianças índigo, também surgiram os pais índigo; pais muito à frente do nosso tempo, que já tinham percebido que isto não vai lá com castigos traumáticos para as crianças que “chegam ao mundo com sentimento de realeza”. Ainda tenho alguma dificuldade em assimilar que me nasceram dois nobres brasonados em casa, à espera de serem servidos pelas suas aias. Ainda não assimilei que eles não assimilam bem as regras dos adultos. Ainda ralho quando dão azo à sua real agressividade, materializada por batalhas fratricidas entre irmãos; ainda me chateio quando não conseguem jantar sem correr à volta da mesa; ainda fico fulo quando faltam ao respeito a pessoas mais velhas. Talvez um dia eu aspire a ser um pai índigo. Não sei bem porquê, mas estava agora aqui a pensar naquele jovem que foi baleado durante uma fuga à polícia. Fiquei indi…gnado. Então não explicaram ao agente da autoridade que aquele jovem que lhe apontou uma arma, que tinha como passatempo roubar carros a outras pessoas com elas dentro, afinal poderia mesmo ser um jovem índigo?

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Passa a outro e não ao mesmo...

imagem retirada da net

Hoje ao pequeno almoço, estavam os meus filhos a discutir a história do Pedro e do Lobo. Pedi que me relembrassem os pormenores e o mais novo avançou logo com um eloquente “o Pedro era mentiroso e já ninguém acreditava nele!…”. O moral da história estava traçado, sem ser necessário perder-se muito tempo com as entrelinhas. Os miúdos lá continuaram a desenvolver o enredo do banquete que o lobo fez com o cachopo mentiroso e a minha mente vagueava em direcção do… Freeport(?). A história, embora diferente, tem alguns contornos parecidos. Um tipo mente compulsivamente e depois, num momento de aflição, quer que acreditemos nele . Eu não acredito no homem! …ou antes,… Eu já não acredito no homem! E esta minha legitimidade para a descrença, deixa-me triste, sobretudo porque estamos a ser governados por esta versão adulta do Pedro mentiroso. Eu sei que posso estar a cometer uma profunda injustiça, por achar que lá por o nome do tipo estar na cabeça da lista dos suspeitos, de ter permitido fazer-se uma obra em tempo recorde em cima de uma reserva ecológica, de existirem gravações de conversas de luvas, não quer dizer que seja culpado, certo?…Errado! Sabem quando eu comecei a acreditar que o tipo era culpado? Quando começou a dizer que não o era. Ora temos de analisar de forma paradigmática os factos, com base na teoria dos antónimos. Um tipo que mente diz o facto ao contrário. Os impostos vão subir e ele diz que vão descer; o desemprego aumenta e ele diz que diminui; a ministra é incompetente e ele diz que é competente; o benfica joga muito mal e ele diz que joga de forma esplendorosa. Se o tipo diz que não tem nada a ver com o caso Freeport, nós deduzimos o quê?…
Mas existe uma coisa que ainda me incomoda mais do que um indivíduo mentiroso; é o indivíduo mentiroso e queixinhas. Existem duas expressões muito portuguesas que retratam a personagem: o “Sacudir a água do capote” e o “Passa a outro e não ao mesmo”. A primeira expressão reporta-se a esta característica de raramente se conseguir assumir a culpa própria. Essa incapacidade está impregnada no material genético de muitos humanos. O bébé quando chora, quer logo dizer que não teve a culpa de cagar nas fraldas. E este é o início de vida do indivíduo que gosta de sacudir a água do capote, com forte possibilidades de descambar no ser abjecto de “passar a outro e não ao mesmo”. Esta subespécie de mentiroso deixa-me pessoalmente sem qualquer respeito para dar. Um tipo que parte uma chávena, diz que não foi ele e aponta para o indivíduo do lado, é o personagem que merece todo o meu desprezo e até alguma regurgitação. E quem personaliza esse ser de que falo? Querem que eu dê uma pista?…Então aqui vai : “Sou inocente! Isto é uma campanha para denegrir a minha imagem! Uma campanha orquestrada pela oposição!…” lembra-vos alguma coisa? Aqui estão as duas expressões em plena harmonia: “sacudir água do capote”- Estou inocente e “Passa a outro e não ao mesmo” - a cabala. A culpa é sempre dos outros, sejam eles oposição, amigos ou animais de estimação.
Eu sou um acérrimo defensor de que nas escola deveriam existir acções de formação na área da responsabilização individual, intituladas “Como assumir a culpa em 20 lições”. Em alguns casos, onde se incluem os candidatos a políticos sérios, ter-se-ia de aprofundar até às 268 lições, assumindo carácter de disciplina plurianual. Até à 30ª lição, o exercício da jarra no canto da mesa que tinha de se derrubar e, depois de olhar para os cacos no chão tinha de se conseguir inibir o automatismo de dizer baboseiras do género “Quem foi o estúpido que colocou a jarra quase a cair!”; “A culpa é do médico que me receitou comprimidos que originam movimentos involuntários!” , “O raio dos chineses que não sabem fazer jarras resistentes!?”. O desafio estaria ultrapassado quando , depois de muito esforço o aluno conseguiria gemer um “acho que…a culpa foi …minha”. Talvez depois destes cursos, os futebolistas não culpassem a canela do adversário que molestaram, os pedófilos não culpassem as crianças que violaram, os cavalgaduras não culpassem os outros da sua falta de ética, os incompetentes corruptos não culpassem a conjuntura internacional, o ladrão não culpasse o dono do carro por ter deixado as chaves na ignição.
Para nossa desgraça, desconfio que, no sub-mundo dos partidos políticos, existirá formação no sentido inverso ou seja, “Como sacudir a água do capote e depois passar a culpa a outro em 20 lições”. Com a natural apetência para a patranha, as aprendizagens estariam consolidadas ao fim da 5ª lição.
Sinto que chegou a hora de esperar que o lobo apareça rápido e espete de uma vez por todas os dentes nas carnes do rapaz mentiroso. Tenho no entanto algum temor. Em primeiro lugar, de que os aldeões continuem a acreditar nas patranhas com um tonto sorriso nos lábios; em segundo lugar, de que o predador, quando chegar , seja apenas outro mentiroso disfarçado com pele de lobo.