sexta-feira, 28 de agosto de 2009

O início do fim…


“Estamos no início do fim da crise” disse o senhor no alto da sua sapiência, convencido que a frase pegava. E pegou, porque o raio da frase não me deixa em paz, como também não me sai da cabeça a afirmação que se lhe seguiu “mas a crise está longe de ser resolvida!”…???. Passei grande parte das férias a analisar estas duas pérolas desconcertantes da inspiração vocal do Primeiro-Ministro, sem chegar a grandes conclusões. O “início do fim” é um conceito verdadeiramente anti-natura. É o mesmo que dizer “o calor do frio” , “a vertigem do baixo” , “a palidez do moreno” , “o egoísmo do altruísta” ou “a coragem do cobarde”. O fim está numa ponta e o início na outra. Para mais o fim não tem nenhum início. O fim é o fim e pronto. Corresponde ao momento em que alguma coisa acaba; não se prolonga no tempo, nem tem percursos intermédios. Assim como o início é outro momento bem definido. Numa corrida de 100 metros o início é dado pelo tiro de partida e é o início da corrida, não do… fim. O fim é a linha de chegada, é o momento de esticar o pescoço, de levantar os braços, de gritar ufa. Entre o inicio e o fim existe um percurso doloroso a percorrer. Daí eu não perceber muito bem a forma satisfeita como homem disse aquilo. Tenho de confessar que numa primeira análise senti um certo alívio porque me fixei na parte final da frase “…o fim da crise”. Mas quando ele disse que a crise estava longe de ser resolvida percebi que ali havia marosca. Dizer a um maratonista que aquilo é o início do fim da corrida, mas que ainda faltam 42 quilómetros, é de um sadismo a toda a prova. Como também não será de bom tom visitar uma mãe na maternidade e dizer para o recém-nascido, entre bilu-bilus e caretas parvas, que aquela coisinha fofa, está no inicio do fim da vida. Não se faz…Então porque é que o Primeiro- Ministro o faz? Porque não tinha mais nada que fazer. Estava enfadado, ou então enredado pela perspectiva de uma provável derrota eleitoral e lançou esse petardo sinalizador a ver se a coisa pegava. A minha grande dúvida será saber onde está o fim da coisa, se é que a coisa tem fim. Quanto tempo demorará o início a terminar num fim. Das poucas acções onde o tempo entre o inicio e o fim é quase imperceptível será o que dura a explosão de uma bomba num qualquer bairro de Bagdat. Mas longe de mim querer estabelecer analogias entre a cintura cheia de explosivos de um radical islâmico ou o elaborado jogo de cintura utilizado por alguns políticos para dinamitar a clarividência da malta. Teria sido mais agradável ouvir o “fim” sem o “início”. Porque o inicio da crise já eu o senti há muito tempo, mas curiosamente quando isolo a palavra “crise” a única cara de que me lembro é a do próprio senhor que inventou o “inicio do fim…”. O que eu gostaria mesmo era de ouvir que tínhamos chegado ao fim da insegurança, da corrupção, da impunidade, do facilitismo, do trabalho precário, do desrespeito, da pouca vergonha. Dizerem-me que estamos no início do fim do pesadelo é como dizer a um forcado antes da pega que já está no início do fim…da cornada. Não alivia, agrava a ansiedade. Pensando melhor, tenho de admitir que a frase até pode ter o seu quê de positivismo. Eu por exemplo, já não penso no início do trabalho, nem no fim das férias como algo desagradável. Penso que já estou no “início do fim do ano lectivo” e fico logo bem disposto. É preciso é que não apareça nenhum senhor a dizer com um sorriso iluminado “ Chegaste ao inicio do fim, mas tens de ver que o calendário é um pouco…extenso”

sexta-feira, 31 de julho de 2009

O Vírus do vírus

imagem retirada da net


Uma amiga entrou no centro de saúde com queixas de febre e dor de garganta. Foi recebida como uma leprosa em estado de avançada decomposição. Todos colocaram máscaras e luvas, todos se afastaram com ar de “aí vem a peste” e por fim, com algum distanciamento lá lhe diagnosticaram uma letal…amigdalite. Foi aí que percebi que o vírus chegou em força. Não o vírus da gripe A, mas o vírus do vírus da gripe A, uma pandemia psicossomática que nos leva a falar e a pensar todo o dia num vírus que há-de chegar mas que ainda não chegou. Esta patologia que tinha assolado de forma aguda ávidos jornalistas e empregados do laboratórios da Roche, agora propagou-se para todo o lado, gerando uma contaminação em massa difícil de parar. Neste momento não me deixa de invadir um sentimento de alguma compaixão pela gripe vulgar. Essa, que nos toca à porta todos os anos, que afecta mais de metade da população, que nos dá febre e arrepios de frio como a outra, nos deixa com as pernas a doer como a outra, nos priva do apetite e até parece que mata mais do que a outra, vê-se agora substituída pela outra, nas luzes da ribalta. Ainda por cima chamam de gripe A à outra? Então e a velhinha gripe, é despromovida para a liga B? Não podemos cair nesta injustiça de votarmos ao abandono este vírus que sempre nos acompanhou nas noites frias de inverno.
Quanto à proliferação, podem os médicos ficar descansados pois parece que agora se está a falar num método do paciente nem ter de sair de casa e não propagar o vírus nos corredores dos hospitais. A consulta e o tratamento serão feitos a partir do telefone, embora se estejam ainda a estudar os efeitos da administração do Tamiflu em doentes com otite que se enganaram na hora de dar os sintomas à médica telefonista.
O vírus do vírus apareceu para as pessoas terem cuidado nas férias, por forma a puderem gozá-las descansadas. Vejamos então como um portador do vírus do vírus goza as suas férias descansado. Para começar tem de alancar com todas as malas porque o bagageiro do hotel que se presta a ajudar, já colocou as luvas nas malas de prováveis infectados com o vírus . Chegado ao elevador vê sair de lá de dentro 4 ingleses com aspecto suspeito de pegarem a doença; apanha o elevador do lado, mas estão ali os botões que já foram pressionados por dedos cheios de vírus. Sobe pelas escadas com as 5 malas às costas. Chega ao quarto, dirige-se para ver a varanda, mas lembra-se que a porta de correr tem um fecho que centenas de pessoas (alguma delas com o vírus) já abriram. Desce pelas escadas até à piscina, senta-se no chão porque as cadeiras já foram contaminadas por algum “bife” com o bicho. Está calor, escolhe a sombra em vez da piscina, porque não acredita nas qualidades de desinfecção do cloro, naquela água empestada de vírus e demais micróbios. No almoço de buffet tem dificuldade em pegar na colher da carne assada na qual agarrou aquele espanhol de aparência adoentada. Opta pela sua própria colher. Está a trincar a batata e lembra-se que talvez a cozinheira não tivesse lavado as mãos depois de ter dado um abraço ao primo que veio do Canadá. Pensa em ir à praia, mas desiste porque tem pôr os pés na areia, pisada por milhares de pessoas e alguma delas já terá apanhado o vírus numa viagem a Punta Cana. Está cansado de ver vírus por todo o lado, de lavar as mãos vezes sem conta e decide voltar para casa prematuramente. Tem de pagar o Hotel de multibanco e colocar o código nos botões onde todos os infectados já pressionaram. Alanca outra vez com as malas até ao carro mas tem de encher o depósito para o regresso. Ali está a pistola do gasóleo, qual revólver apontado à fronha, pronto para o exterminar com o raio do vírus.
Se a pandemia do vírus do vírus consegue lixar as férias a um tipo, também contribui para lhe lixar as poupanças. Parece que as notas são o maior veículo de propagação do vírus. Assim, a reforçar a máxima lançada por Obama “comprem, comprem, comprem”, na cabeça do portador do vírus do vírus repete-se a ideia “despacha-te das notas, despacha-te das notas, despacha-te das notas”. Aquela senhora do Porto é que não foi em conversas e disse logo que não tinha medo nenhum de meter as mãos nas notas. Eu estou como ela. Para além de não ter medo nenhum do vírus das notas, também passei uma semana em grande num hotel empestado de vírus.. Assim, quando o vírus genuíno me atacar as carnes, já ninguém me tirará as belas banhocas na piscina contaminada por todos aqueles vírus provenientes de Inglaterra e Espanha ou o sabor daquele queijinho fresco que comi ao pequeno almoço, cortado com a espátula onde todos os infectados colocaram as mãos. A única coisa que me preocupa no dia em que for assolado pela febre será, quando ligar para a Saúde 24, ouvir do outro lado : “Boa tarde! Está a falar com a Ângela Costa e gostaria de o informar da campanha de verão que estamos a fazer para os clientes especiais. A partir da 4ª chamada para os nossos serviços, paga uma embalagem de Tamiflu e leva duas.”

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Isto e Aquilo

Imagem retirada da net


“Não é isto que eu quero!” Podem os leitores ficar descansados que eu quero mesmo escrever esta crónica. Não estou nada contrariado, ou… talvez um bocadito,… mas é que acabo de ouvir tão rude afirmação, ou antes, tão rude negação, que não posso ficar indiferentemente bem disposto. Qualquer um que ouça alguém gritar “não é isto que quero!…” fica logo de pé atrás. E fica assim por causa do “Isto” entre o “não” e o “quero”. Pela nossa mente passam logo rápidos preenchimentos para o “isto”, todos eles pouco apelativos. Passemos para o plano prático. Se uma namorada diz para o seu companheiro “Não é isto que eu quero!”, o rapaz completará o enigma de acordo com o seu grau de sensibilidade. Poderá substituir o “isto” por “esta relação” no caso de ser um romântico . Já se for do tipo abrutalhado, o “isto” representa claramente o “sexo” que gostaria de experimentar. De qualquer das formas, a cruel afirmação expelida da boca da rapariga em jeito de desmancha prazeres deixá-lo-á pelas ruas da amargura. “Não é isto que eu quero!” pretende ser uma machadada nas aspirações de qualquer ouvinte; soa mal, soa a tampa, soa a música de Tchaikovsky tocada por um aprendiz de violino. Arranha o ouvido; dá pontapés nas canelas. Neste momento estamos apenas a colocar-nos na posição desconfortável do ouvinte que gostaria de ter ouvido “É isto que eu quero!”. No entanto, para fazer justiça, teremos de encarnar o papel de quem produziu a afirmação de forma tão convicta. Esta reacção surgirá quando o “isto” é mesmo desagradável a puxar para o azedo. Quando um tipo vai à frutaria e a senhora nos quer vender umas maçãs farinhentas “Não é isto que eu quero!”. Quando nos tocam à porta para contribuirmos para a 35ª liga dos toxicodependentes em recuperação “Não é isto que eu quero!”. Quando a senhora diz para o cabeleireiro que lhe mostra como modelo o penteado de Manuela Ferreira Leite “Não é isto que eu quero!”. Quando um reformado olha para o preço exorbitante do medicamento que faz bem às suas artroses “Não é isto que eu quero!”. Basicamente para não se querer uma determinada coisa, será porque ela nos desagrada efectivamente… Mas com a conversa já me ia esquecendo de dizer da boca de quem ouvi tão eloquente afirmação. Estava aqui em frente à televisão a tentar curar uma crise de rinite alérgica que dá um desconforto do caneco, quando uma senhora, que foi agora eleita para deputada do parlamento europeu, e que quer ser candidata a autarca local(?), lançou a afirmação que me martelava na cabeça por causa da tosse e da ranheta que me invadia as fossas nasais “Não é isto que eu quero!”. Alto lá! Mas o que é que é isto? Ou antes, o que é “o” isto? O Eco das minhas preces para a erradicação da rinite? Foi mesmo o que a eurodeputada candidata a autarca disse. A entrevistadora perguntou-lhe se ela queria brócolos com feijão frade? Se queria dar beijos rechonchudos na bochecha de Paulo Rangel? Se desejaria experimentar ficar fechada numa jaula com um urso siberiano e o Manuel Pinho? Nada disso. A entrevistadora apenas perguntou se ela iria para o Porto caso fosse eleita e as palavras saíram de forma fluida em que o “isto” significava a função de “eurodeputada”. Pensem agora comigo. A senhora andou a abanar bandeirinha para a elegerem como deputada do parlamento europeu . Foi eleita. Os portugueses que votaram nela ficaram contentes. Mas logo no primeiro dia de apresentação no parlamento europeu diz “Não é isto que eu quero!”(?). Pela sua repulsa, pensei logo que, qual criança no primeiro dia de aulas, a tinham praxado de forma ignóbil e lhe colaram pastilhas elásticas no cabelo, colocaram pioneses na sua cadeira ou a presentearam com vigorosos calduços à entrada do parlamento, mas parece que não. Parece que o que a senhora queria mesmo era… “Aquilo”. Aquilo? Sim, ser presidente da Câmara do Porto. Decida-se lá de uma vez por todas! Então e o mandato? Não é “isto” que a senhora quer. O que a senhora quer mesmo é voltar abanar a bandeirinha para ter “aquilo” no Porto, mas não perder já “isto” em Bruxelas. É que por muito mau que “isto” seja, as remunerações e os subsidiozitos de deslocação e de estadia, sempre poderão fazer esquecer “aquilo” do Rui Rio, do vinho do porto e do frio de rachar de Bruxelas. Bom bom seria ficar com “Isto” e “Aquilo”.
“Não é isto que eu quero!” . O quê? A ranheta entupindo-te as fossas nasais? Não. O “isto” quer mesmo dizer “esta corja que me entope o optimismo”. E como “aquilo” seria tão melhor sem “isto”. Ou seria “isto” sem “aquilo”? …Acho que o ideal seria mesmo ficarmos sem “Isto” nem “Aquilo” e apenas com o “Aqueloutro” . Parece que para o “Aqueloutro” não é preciso abanar bandeirinhas…

quinta-feira, 2 de julho de 2009

O colector


Às vezes ponho-me a pensar até quando se param de inventar coisas novas. E não é que há sempre alguém que se lembra de coisas que não lembram nem ao próprio Colombo que inventou o tal do ovo que se punha em pé? As possibilidades inventivas do ser humano caminham assim até infinito, em caminhos quase sempre surpreendentes. Não deveremos questionar muito a utilidade das invenções, uma vez que o grande mérito da invenção está na capacidade de alguém imaginar algo de totalmente novo. Tomei hoje conhecimento da fabulosa invenção chamada Dinner Sky, que reúne 20 comensais em torno de uma mesa colocada a 40 metros do solo. Antes de cairmos na tentação mesquinha de libertar entre dentes “Estes gajos não têm mais nada para inventar?”, lembramo-nos de outras invenções com similar grau de utilidade como o guarda-sol para carros, o alarme de pai natal, o apagador de velas de aniversário(?), o coletor de peidos, o protector de orelhas para cachorro, a campainha para pessoas enterradas vivas,…?...,esta última de particular relevância, para quem, como eu, sempre se preocupou com o facto de o enterrarem vivo e depois ter de agatanhar a tampa do caixão e sufocar entre gritos de socorro. A mesa lá subiu aos céus e toda aquela malta sorria à espera da refeição, amarrados às cadeiras com cintos de segurança anti-queda. O repórter entrevistava lá em cima o mentor do projecto sobre as vantagens da ideia e este respondia “As pessoas têm aqui uma experiência totalmente nova...” Também um tipo ser enterrado vivo representará uma experiência totalmente nova e mesmo irrepetível (a não ser que tenha a tal campainha à mão)… “Os nossos clientes ficam estarrecidos com o facto de comerem longe do solo, com esta paisagem magnífica”. Pessoalmente acho que os pardais é que foram feitos para comer a esvoaçar, até porque se a moda pega, temos novos inventores que se lembrarão de pendurar na grua uma banheira, uma cama, um sofá, um campo de futebol, um jogo de matraquilhos, para que se consigam fazer actividades de índole terrestre num meio quase aéreo. E digo “quase” porque para comer a 40 metros de altura, mais valia estar na marquise de um apartamento no 56º andar, ao menos não se corre o risco de um pardal fazer das suas em cima do nosso prato de caviar ou o transeunte que tem o azar de passar por debaixo da mesa apanhar com uma colher na cabeça. “E o preço?” pergunta o repórter “Bom, varia entre os 150 euros um pequeno almoço e os 350 euros um almoço!” responde o anfitrião… “Não acha que é um pouco puxado num momento de crise?” insiste o entrevistador “Este produto tem como destinatários clientes restritos…” Aí esteve bem. De facto, haverá poucos indivíduos que não saibam mesmo o que fazer aos rodos de dinheiro que têm no banco. Para nós, que passamos o mês sem sabermos bem o que fazem ao nosso parco dinheiro que passa rapidamente pelo banco, temos dificuldade em perceber como se dá 350 euros para estar amarrado a uma cadeira, pendurado por uma grua a beber champanhe e comer ostras. Ainda se fosse uma bela feijoada acompanhada por umas imperiais bem tiradas… Mas isto há gostos para tudo. Também há quem ponha protector de orelhas nos cães, ou quem não deixe o filho apagar as velas do aniversário. Continuei a ouvir o senhor a explicar as potencialidades do Dinner Sky e fiquei com a nítida sensação de ver um tipo do outro lado da mesa a esbracejar. Parecia querer gritar algo ao senhor que teve a ideia de o colocar ali em cima amarrado à cadeira. Estou mesmo a ouvi-lo perguntar qualquer coisa como “Olhe! Psst! Se faz favor!...Acho que estou com uma vontade súbita de ir ao WC! Como faço?” O mentor resolver-lhe-ia rapidamente a questão “Sabe que não podemos descer isto a meio da refeição. Mas não tem problema! Debaixo das cadeiras está a nossa última invenção: Um colector de dejectos fisiológicos totalmente hermético e inodoro!”

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Tinonim...


Foi com alguma estupefacção que recebi a notícia da falta de carros disponíveis na Esquadra de Investigação Criminal da Amadora. Parece que estão todos avariados e um deles teima mesmo em permanecer na oficina há quase um ano. Parece que se dá melhor com as chaves inglesas e macacos pneumáticos do que a circular entre projecteis de bala no bairro da Cova da Moura. Temos assim a estranha situação de, no concelho com a maior percentagem de bandidagem por metro quadrado, os polícias da investigação criminal, andarem a perseguir a rapaziada a pé ou de autocarro. Pus-me a pensar nas causas desta situação e exclui desde logo a hipótese da falta de meios. Se todos os ministros, secretários de estado, adjuntos dos secretários dos secretários renovam a frota de automóveis de luxo de dois em dois anos, não faltaria verba para apetrechar os nossos agentes da lei. A falta de veículos policiais tem a ver com uma estratégia mais profunda de reabilitar as corridas de meio-fundo no continente europeu. De facto, desde há alguns anos que os países africanos monopolizam todos os pódios das corridas nos grandes eventos do atletismo mundial. Isto surgiu por falta de alternativa e de…carros. Os quenianos e etíopes, para chegarem à escola ou aos correios, têm de correr muitos quilómetros que nem uns condenados. A necessidade aguça o engenho e assim se fizeram os grandes campeões do atletismo mundial. Aos nossos polícias, foi-lhes retirada a alternativa do carro, para os obrigar a correr … muitos quilómetros que nem uns condenados. Mais nenhum país europeu se lembrou desta jogada brilhante. Daqui a muito pouco tempo teremos o Agente Bastos com a medalha Olímpica dos 3000 metros obstáculos ao peito. “Sim, porque na Amadora, p’ra a malta caçar os tipos, temos de passar por cima de muito muro e vedação!”. É o treino ideal fornecido pelas excelentes condições naturais oferecidas pelo Concelho da Amadora que conseguem articular uma grande área geográfica aliada a uma rica proliferação de gatunos. Um polícia atleta e sem carro está sempre em acção, a correr entre o assalto da Buraca, a violação na Brandoa e o esfaqueamento na Damaia. São séries sem repouso que transformam comuns mortais em ressuscitados Zatopeques. Mas atenção que o treino na Amadora não se restringe apenas ao desenvolvimento da resistência para corridas longas. Os agentes portugueses terão também uma palavra a dizer nas corridas de velocidade, dominadas também elas por africanos, excepto o Obikwelo, que é português e veio de… África(?). Se os bandidos forem muito rápidos na fuga (na amadora existem muitos africanos) ou tiverem um armamento muito rápido apontado ao agente, o desenvolvimento da velocidade far-se-á sem grandes problemas ou recurso a substâncias dopantes, quanto muito, a um analgésico ou outro no caso de algum ferimento por ricochete. Se a moda pega é ver os nadadores australianos a fugir das mandíbulas de tubarões esfomeados ou os ciclistas espanhóis a escapar de manadas de toiros bravos Pirinéus acima. Mas voltemos aos nossos bravos agentes apeados e ao momento em que já não podem mais com as pernas de tanta perseguição ou fuga. No caso de fadiga extrema, sempre têm o autocarro ali à porta da esquadra!? …Não deixa de ser engraçado pensar no pobre do guarda a tentar furar no meio da confusão para chegar ao motorista e gritar-lhe “Persiga-me aquele BMW de vidros fumados que vai ali a chiar pneu!!!” . Temos de ser pragmáticos e admitir que não há mesmo alternativa para substituir a corrida a pé. Entre apertar a farda contra as carnes que se gladiam pelo melhor lugar no autocarro e correr que nem um condenado pelas ruas da Reboleira… antes correr que nem um condenado pelas ruas da Reboleira. No meio de tudo isto só há uma coisa que me entristece: A falta de sirenes a apitar. No nosso imaginário hollywoodesco não existe uma perseguição aceitável sem umas belas sirenes a fazer barulho. Como medida para salvaguardar o impacto da perseguição policial, já estão na calha, para serem comprados pelos próprios agentes da autoridade, uns capacetes com a sirene acoplada. Seremos assim, o país europeu, com os melhores corredores, sendo estes também os únicos que se deslocam com uma coisa esquisita na cabeça que faz luzinhas e emite um som espectacular do tipo…Tinonim, tinonim,…

terça-feira, 16 de junho de 2009

O Pai do Yakari


A minha filha aproximou-se quando eu estava entretido a ler o jornal. “Oh pai esse aí não é o Primeiro-ministro?”. Olhei com atenção e lá estava ele sorridente no cantinho da página. “É sim filha!” respondi. “Não é este que se porta mal?”. Aí fiquei um pouco mais atrapalhado e não sabia como responder sem faltar muito à verdade. Por um lado, a minha faceta pedagógica dizia-me que teria de contrariar o adjectivo depreciativo da miúda sobre um alto chefe de estado, por outro, existem momentos em que não deveremos ignorar a clareza incorruptível de uma criança. Neste dilema saiu-me um balbuciante e nada convencido “sabes, esse senhor não se porta… mal,… é apenas…um bocadinho,…., deixa ver,….incompetente”. Nisto apareceu o mais novo em passo de corrida e sem respirar atirou-me “incompetente é o quê pai?”. Não me conseguia libertar da parede aonde estava encostado… “Incompetente é uma pessoa que não cumpre bem a sua função. Um professor é incompetente quando não ensina os seus alunos; um médico é incompetente quando não diagnostica bem as doenças; um cozinheiro é incompetente quando coloca ingredientes incorrectos no consumé; um político é incompetente quando contribui para um decréscimo das condições de vida da população”. O miúdo prossegue a inquirição “não estou a perceber bem o que tu queres dizer”. Tive de me empenhar e socorrer-me de linguagem mais infantil “Um país é como a tribo do Yakari, aquele indiozito que tu gostas muito. O Seu pai, como chefe da tribo, é o responsável para que nada falte à aldeia. A comida, a segurança e o bem estar de todos. Quando tu vês o Yakari ele está sempre pronto e contente para mais aventuras em cima do seu cavalo Minitrovão na companhia do sonolento Olho-de-Bolha. Se o Chefe não deixasse os seus índios caçarem búfalos, se não protegesse as mulheres e crianças dos malfeitores ou se passasse o dia a esbofetear o Yakari, este não andava lá muito bem disposto, nem o Olho-de-Bolha teria muita vontade de dormir descansado. Significava que o Chefe não cuidava bem do seu povo e por isso era incompetente” pensei que tinha sido desta “Ahhh, já estou a perceber, era assim uma espécie de pessoa que se… porta mal!?” gritou o miúdo. Voltámos ao início, mas eu não iria argumentar mais. A minha filha atacava de novo “Mas porque é que o senhor está sempre a sorrir, se as pessoas não estão lá muito contentes com ele?”mais uma botifarra para eu descalçar “Ele sorri para que as pessoas acreditem que está tudo melhor…”, “é uma espécie de mentirinha, não é pai?”, tento amenizar “se calhar ele quer que as pessoas fiquem optimistas e também sorriam, mesmo desempregadas”. O mais novo, mais pragmático e sem grande polimento político rematou “Então porta-se mal e diz mentiras?” . Temia que se alongasse mais o debate a coisa se agudizasse e fiquei-me por um descomprometido “Não é bem assim…”. Antes que ele lançasse um “Então é como?” tratei de o despachar “Agora vai lá brincar que eu tenho de pôr a mesa para o almoço!”. Colocava eu os pratos sobre a toalha, quando chegaram os dois cada um com um marcador e, entre sorrisos, começaram a pintar enfeites na cara do senhor do sorriso. Estou a escrever esta crónica com alguns pesos na consciência porque não fiz nada naquele momento em que os petizes riam por cada bigode que punham no engenheiro. Não agi, não repreendi, apenas continuei a colocar talheres e copos, sem interferir naquela espécie de usurpação da imagem de jornal do primeiro ministro. Pensei que a culpa era minha. Quando a miúda disse que o homem se portava mal se calhar já o tinha ouvido da minha boca num momento de desabafo. No entanto senti alívio por ela ter utilizado o adjectivo mais suave que o pai costuma pensar quando se lembra do senhor do sorriso. Mas eu deveria ter impedido que lhe pintassem dentes de azul escuro. O sorriso e o optimismo afundavam-se. Só faltavam os guardanapos e os miúdos continuavam na sua pintura. Eu deveria ter pousado os guardanapos e agido com um veemente “Não façam isso!” , ao invés fui à procura do fundo para os tachos, fingindo que não era nada comigo. Acabei de pôr a mesa e lá me saiu um tímido “Agora já chega de pinturas vamos lá comer a sopa!”. A minha curiosidade não me deixava desfrutar a refeição em paz se não fosse inteirar-me da obra que, no fundo, eu desejaria ter concebido, e lá fui espreitar pelo canto do olho. O senhor do sorriso estava com uma popa, tinha agora óculos, precisava de uma visita ao estomatologista e usava um bigode parecido com o do D. Duarte. Afinal não foi tão mau assim. Com as minhas frustrações latentes eu teria , bem á vontade, pintado uma cicatriz na cara, uns cornichos na cabeça e uma tatuagem “Born to Destroy” no peito. A minha conscienciosa filha durante o almoço lá confessou que não se sentia muito bem por ter pintado o bigode no senhor. Eu tive de concordar e expliquei-lhe, que por muito mal que as pessoas se portem, não deveremos pintar-lhes os dentes com marcador azul. No jornal do dia seguinte, o senhor do sorriso, estava sem sorriso a admitir que dificilmente teria maioria absoluta. Aí eu pensei: “será que a pintura teve um efeito de macumba e o senhor começou a revelar alguns traços de bom senso?” Para a próxima terei mesmo de pintar uma tatuagem no peito do senhor a dizer “Born to Be Good”. Pode ser que resulte…

quarta-feira, 13 de maio de 2009

A Maria Joana


A marcha pela legalização da “cannabis” invadiu a capital com cerca de …500 participantes. Quando eu pensava que estava tudo maluco, que este país iria parar ao inevitável sifão, eis que surge este movimento repleto de clarividência, onde a palavra de ordem, entre tambores e apitos, seria “deixem-nos fumar charros à vontade qu’a malta assim é que é feliz!”. Mas eu iria mais longe. A Marijuana, não só deveria ser legalizada, como devia fazer parte da lista de prescrição dos Pediatras como substância potenciadora de um desenvolvimento infantil mais harmonioso. Assim, ao substituir o aerosol por uma vaporização de maconha após o banho, a criança, para além de lhe passar a crise dos brônquios, ficaria de tal forma calma, que já não faria birras para comer a sopa ou fitas a caminho da lavagem dos dentes. E porque razão se deveria estimular este processo de entorpecimento, logo a partir da infância? Porque assim, os jovens viveriam sem ter de lidar com o trauma de perceber a dura realidade que lhes ensombra o quotidiano. Assim, se um tipo fumar umas ganzas logo pela manhã, até acha uma certa graça quando o Primeiro Ministro abre a boca. De facto, os efeitos medicinais da droga, perdão, da erva, são evidentes. Que melhor prova dos benefícios da mesma, senão a forma alegre e despreocupada como aqueles tipos desfilaram no Largo do Rato, sem demonstrarem qualquer sintoma de artrite, hérnia discal, pedra na vesícula, doença bipolar ou gota. Até ostentavam orgulhosos as rastas nos cabelos como que a dizer “o pessoal nem se precisa de pentear porque, com o efeito da maconha, até achamos que estamos bonitos quando nos vimos ao espelho, pá!”. Tenho de confessar que nunca fumei daquilo, mas há momentos em que…, olhem agora estava a lembrar-me da história de todos os partidos (aquela espécie de organização que fala muito de moralização, ética e coisas assim) terem votado um aumento estapafúrdio do seu financiamento, numa época de crise mais ou menos profunda. Com maconha a inebriar-me os sentidos, até poderia achar algum sentido a esta falta massiva de dever cívico; trocava a vontade incontrolada de lhes chamar “filhos da p****” por uma expressão mais descontraída do tipo “É isso bravos heróis, vós precisais de mais verbas para as nobres campanhas que se avizinham”. A manifestação pró-marijuana lá continuou com alegria e o tipo do bloco de esquerda (que está sempre presente em relevantes causas sociais) lá ia dizendo que o consumidor de cannabis não deveria ter de comprar o produto a traficantes de heroína e cocaína. Está encontrada a razão pela qual a maioria dos fumadores de cannabis descambam em consumidores de drogas pesadas. Por falar em drogas pesadas, lembrei-me agora da mais recente declaração do engenheiro Sócrates, que pedia a maioria absoluta… maioria absoluta???...Pela legalização da Cannabis já! Até porque o exemplo deverá vir de cima, e, só um homem profundamente perturbado ou entorpecido pelo efeito de substâncias alucinogéneas poderia proferir uma barbaridade destas, depois da fabulosa governação que empreendeu. Arrisco-me a propor um outro passo ainda mais ambicioso: o da nacionalização da marijuana. Todos sabemos que a nossa agricultura ou não existe, ou, a que existe brevemente deixará de existir. Assim, aproveitar-se-iam os campos abandonados de trigo no Alentejo, para plantar erva em barda. Teríamos de mudar a designação espanholada de “marijuana” para uma mais caseira “Maria Joana”. E a “Maria Joana” espalhava alegria e optimismo por todos nós, considerados os mais tristes e pessimistas da Europa. A vida seria mais fácil, como mais fácil seria aceitar a estirpe de políticos que nos governam. Aprenderíamos a desresponsabilizar ainda mais os tipos, e a responsabilizar ainda mais a erva. “Deixa lá o homem em paz! Então tu não vês que quando o tipo tomou a decisão de avaliar os polícias pelo número de detenções, estava com uma moca do caneco? Aquilo foi na farra, a culpa é da droga …” . Lembrei-me da falada e hipotética formação de um governo central, resultante da união entre os dois partidos rivais. Só com muita Maria Joana nas vias respiratórias, é que conseguiríamos acreditar que essa união se daria por interesses nacionais e não por interesses corporativos de distribuição racional de “tachos” e “panelas”.
Parece ter chegado a altura de se desvendar de uma vez por todas o mistério associado à mítica frase partilhada entre Sócrates e Durão, no meio daquele abraço e do sorriso aquando da assinatura do tratado de Lisboa: Depois de sair aquele espontâneo “Porreiro Pá!...” provavelmente alguém ouviu o resto… “Sabes ó Durão, não há melhor do que a nossa Maria Joana! …Um gajo fica mesmo disposto a dizer, a ver e a ouvir todo o tipo de baboseira…com um sorriso nos lábios”