sexta-feira, 25 de outubro de 2013
sábado, 28 de setembro de 2013
O milagre da transformação segundo o outro Jesus
Sempre tive
algum fascínio pelo filho com “nome do ídolo”. A decisão de baptizar os filhos
com nomes de pessoas que se admiram, traz a esperança de que o descendente consiga
trilhar um caminho de sucesso similar ao dos seus inspiradores. Chamar a um
filho Viriato, é aspirar a que o petiz herde alguma da virilidade desse bravo
guerreiro lusitano, que despachou à pedrada os invasores romanos. Na década de
60, muitos foram os Eusébios que cresceram na ambição de aplicarem nas bolas de
rua a potência de remate do rei da bola moçambicano. O pai de Cristiano Ronaldo inspirou-se no nome
do presidente americano Ronald Reagan, o actor/político, na hora de escolher o
nome para o filho. Parece que o rapaz não deu em político, mas aos pontapés na
chicha, comprou mais casitas e Ferraris do que o tal do Ronald original. Muitos serão os Tonys nascidos na última
década, fruto das barrigas saltitantes das mães nos concertos do pavilhão
atlântico ao som do “Sonho de menino” do seu ídolo musical. Aquele comentador
político de televisão, que outrora foi primeiro ministro, carregou sobre os
seus ombros o apelido de um dos maiores filósofos Gregos. Sócrates, o Filósofo,
colocou ao dispor do seu herdeiro de apelido uma vasta obra de sábios
pensamentos, para que ele pudesse ter uma ajuda na hora de construir a sua
personalidade. Pensamentos como “Sábio
é aquele que conhece os limites da própria ignorância.” ou “A maneira mais fácil e mais segura de
vivermos honradamente, consiste em sermos, na realidade, o que parecemos ser.”,
retratam de forma fidedigna como
Sócrates, o político, quis levar à letra a sabedoria de tais ensinamentos…
Passemos então ao top da tabela de ídolos seguidos.
O apelido Jesus. Uma pessoa que decide apelidar os seus descendentes, com um
nome desta magnitude bíblica, deverá alimentar dois tipos de ilusão: a de que o
nome trará sorte e bênção ou de que o nome servirá de inspiração para que os
seus utilizadores consigam seguir os ensinamentos de Jesus Cristo. Olhando para Jesus, o outro, o treinador de
futebol, à partida nada nos faz lembrar Jesus de Nazaré. Começa logo porque na
altura não havia pastilhas gorila e caso houvesse deveria ser proibido roê-las
com a boca aberta ; depois a pronúncia hebraica tinha pouca similitude com os
“prontos” do dialecto da Amadora; poderíamos
tentar ir pelas semelhanças do discurso de Jesus Cristo nas suas palestras de
evangelização: “Deus não lhe dá mais do que pode carregar”. Jesus, o treinador
riposta: “Vocês os quatro, formem aí um triângulo!”…não me parece…
Finalmente descobri uma luz ao fundo do
túnel. A luz apareceu depois das declarações de Jesus, o outro, no rescaldo da
cena de pugilato com um polícia para libertar um adepto. Já que não conseguia comer pastilhas de boca
fechada, falar dialecto hebraico, nem articular frases com algum sentido,
decidiu ser verdadeiramente ambicioso e operar um milagre ao nível do seu ídolo.
Tal como Jesus de Nazaré conseguiu devolver a visão ao cego de Jericó e
transformar água em vinho, Jesus, o outro, decidiu também adoptar o seu próprio
milagre da transformação. O milagre do vinho até lhe daria algum jeito, mas
optou por outro de maior amplitude. Conseguiu transformar aquele personagem de
cabelos brancos enraivecido, aos berros e aos murros a um polícia, num herói e
guerreiro Viriato aos murros a um malfeitor polícia,…(mas não pode mandar
murros no polícia?)…, bom,…num arcanjo de cabelos celestiais passando
suavemente a epiderme da palma da mão nos braços vigorosos do agente da
autoridade. “Mas Jesus, as imagens foram explícitas. Viu-se que o senhor
espetou uns valentes selos no braço do polícia, que até lhe saltaram os
óculos!”….”Só lhe saltaram os óculos? Eu queria era que saltassem os olhos a
esse filho da p***a do bófia!”. “Mas sabe que pode ser punido na
justiça?”...“Bom, antes de mais não foi agressão (aqui está o milagre), foi
apenas uma ligeira exaltação com o intuito de proteger o adepto (aqui está a
solidariedade). Mas desde já peço desculpa ao senhor agente (aqui está o
arrependimento cristão) se levou a mal as festinhas que lhe fiz”. Mas Jesus
promete não ficar por aqui em questões de milagres e fazer jus ao nome que
enverga. Já estão na forja outros, tais como deixar perder campeonatos nos
últimos minutos, ou transformar pães em rosas…Esses já existem??...que pena…
Por falar em milagres no mundo do futebol,
eu próprio assisti a um milagre da transformação, que pela sua finura, não
consigo deixar partilhar com os leitores. Ao acompanhar o meu filho a um dos
seus jogos infantis, a equipa da casa, antes do início do jogo uniu-se para presentear
os pais e espectadores com o seu grito colectivo. A disposição prometia algo de
arrojado, e arrojada a coisa fluiu. O capitão gritava a palavra de ordem e a
equipa iria atrás: “Somos as malta da Picha de aço! Aço,aço,aço! Com os co**ões
a marcar passo! passo, passo, passo!”. Quando a perplexidade me invadia o pensamento,
no sentido de perceber quem tinha sido a besta que punha miúdos a gritar
aquilo, olhei para o lado e, os pais, ao invés de indignados, aplaudiam de
forma orgulhosa e efusiva os seus petizes. Eis o milagre da transformação: A transformação de putos malcriados em crianças
motivadas. Já haverá alguém a sugerir a
Jesus que importe este tipo de milagre para a sua equipa. Obviamente ele
responderá: “não te esqueças que o meu nome é Jesus. Esse milagre é
p’ra…meninos!!!”
terça-feira, 10 de setembro de 2013
No país do Ao Menos
Estava a tomar a bica matinal e a minha orelha esquerda foi ao encontro da conversa dos dois tipos que mandavam abaixo duas bejecas também elas matinais. Dizia um para o outro: “Epá o meu primo Manecas, já está desempregado há mais de um ano e não arranja nada!”. Depois de limpar a espuma da cerveja dos pêlos do bigode, o amigo responde: “Eu ao menos ainda tenho o meu empregozito, que me paga 400 euros ao mês… Espero não ter o azar de ser despedido.” Aqui está o “Ao menos” metido no meio da frase e que traduz esse sentimento de relativização bem português. Roubaram-te a carteira e o telemóvel à saída do eléctrico? Ao menos deixaram-me a roupa e o boné; Foste espancada pelo teu marido bêbado depois da derrota do Benfas? Ao menos só me partiu 5 dentes e o maxilar inferior; O presidente da Câmara não paga 100 milhões de euros aos fornecedores? Ao menos fez umas avenidas e umas rotundas espectaculares. A ministra das Finanças esteve envolvida no negócio das Swaps que lesou o país em grande? Ao menos veste uns blasers beges muito elegantes. A justiça não mete na cadeia os tipos do BPN? Ao menos a malta sabe quem eles são. Os incêndios continuam a queimar a nossa floresta todos os anos? Ao menos ainda nos restam os relvados dos jardins públicos. O dono do restaurante ganha 50 cêntimos por cada refeição económica que vende? Ao menos ganha 50 cêntimos por cada refeição. Trabalhas 10 horas por dia a 400 euros mensais? Ao menos não estás desempregado. E voltámos ao início da conversa. A conversa do “Ao menos” tenho um emprego, com tudo o que de subversivo transporta. Parece que os ordenados baixam porque existe muito desemprego e as pessoas em desespero sujeitam-se ao “Ao menos” que vier. A coisa funciona assim: um patrão comunica ao empregado com 20 anos de casa que vai ter de lhe baixar o ordenado para metade se quer continuar a trabalhar ali. O empregado incrédulo pergunta “Mas existem menos encomendas? …existe prejuízo?” o patrão responde eloquente “tenho 100 jovens desempregados que se ofereceram para a tua função e a ganhar metade”. E continua “São as leis da liberalização do mercado, os custos de produção diminuem, competimos com a China e o meu lucro será maior! Tens de pensar que reduzes o salário, mas ao menos continuas connosco!...”. Neste “Ao menos” surge o que de pior tem a condição humana: A exploração voluntária das debilidades alheias. Vendem-se garrafas de água a 20 euros o litro para quem vive no deserto; Vendem-se medicamentos a 100 euros a caixa para quem tem dores reumáticas crónicas. Vendem-se cadeiras de rodas a preços de automóveis, a quem fica paraplégico; Vende-se a casa por 1/10 do seu valor, para se poder comprar comida para casa. Trabalha 10 horas por dia a 400 euros mensais, porque precisa de um emprego para sobreviver. Voltámos de novo ao nosso “Ao menos” tenho este emprego. E o “Ao menos” tem hoje um aliado de peso, a “Troika”. “Ó António, eu até te queria pagar mais, mas sabes…a Troika está a dar cabo disto; ao menos sempre ganhas qualquer coisita…”. Ou seja a “Troika” funciona aqui como a grande responsável do “ao menos”.
Gostaria de trocar, sem ter de emigrar, este país do “Ao menos” , por um país do “Eu quero mais”. Eu quero mais competência na gestão do país; Eu quero mais tempo livre para estar com os meus filhos; Eu quero mais patrões que percebam os benefícios de terem funcionários satisfeitos; Eu quero mais políticos independentes de interesses ocultos; Eu quero mais pudor e responsabilidade; Eu quero mais ordenados que possibilitem viver com dignidade. Mas é a tal liberalização dos mercados… E com a liberalização económica chegou a liberalização moral, onde tudo é aceitável, desde que o lucro financeiro esteja garantido.
Tento fugir da sina da resignação implícita ao “ao menos”. Para começar a minha terapêutica do “eu quero mais” decidi que não voto mais em partidos políticos. “Epá, mas não percebes que há algumas pessoas boas dentro dos partidos políticos e que eles é que têm de nos governar!” . É verdade sim senhor, mas ao menos eles ficarão a saber que eu quero mais…
sábado, 1 de junho de 2013
A fronteira da rede ovelheira
Tenho onze
ovelhas a comer a erva do meu terreno. Fiquem os benfiquistas descansados que
não se trata de qualquer referência ovina a uma tal equipa bafejada pelo azar
dos momentos finais. Até porque ser ovelha não é sinónimo de azar; a não ser
quando a metem na carrinha rumo ao matadouro. Por falar em matadouro, afinal já
não são onze ovelhas, porque uma teve o azar de embarcar na tal carrinha. Não,
e não foi porque se portou mal ou por
ter sido agressiva (parece que existe uma raça de ovelhas paraguaias que
costumam investir sobre os donos); o animal estava muito doente e cabisbaixo.
Naquela tarde
serrei alguns ramos, mas só enviei para a boca das ovelhas alguns deles, não
fossem elas habituarem-se ao bem bom do verdinho e deixarem o prado seco para
outro ruminantes. Ao fazer uma fogueira com outros dos ramos serrados, senti-me
mal. Ali estavam elas de cabeças espetadas na vedação com o olhar colado na
rama verde e eu, queimando o seu sonho alimentar. Senti-me um malvado “Merkel”
, que grita: “Queriam estas folhas verdinhas no bucho?...vão mas é rapar o
pasto seco que paparam em menos de um fósforo!...Quando o pasto seco
acabar?...pode ser que vos envie mais uns quantos raminhos de oliveira, mas
poucos, para não se habituarem à fartura…”.
A crueldade
suprema é que a ovelha vê, pelos buracos da vedação, que logo ali tão pertinho
o petisco existe. E se se erguesse um
muro que impossibilitasse a visão do bicho? Ou então uns óculos pintados de
verde para que o animal visse o amarelo em tons esverdeados?...Não resulta,
porque a ovelha tem olfacto e porque já viu, cheirou e trincou o que existe do
outro lado da vedação. O curioso é que a ovelha permanece ali passiva, sem
empurrar a vedação, roendo desconsolada a erva seca e o torrão, à espera que
alguém lhe lance um raminho cheio de folhas verdes.
quinta-feira, 2 de maio de 2013
Eu conto com o Continente
O anúncio
da Dona Florinda Ferreira a dizer que “Conta
com o Continente” deixou-me …contente. E isto porque a senhora estava ela
também radiante ao dizer que “no meu tempo não havia nada disto...e agora há!”.
E eu pensei: agora há o quê?....E a dona Florinda responde “Pá de porco com
osso a 1 euro 79 cêntimos”…?...Deveria ser um equívoco. A forma efusiva com que
a senhora dizia que contava com o continente, assemelhava-se ao contentamento
de um miúdo a aprender a contar e a dizer “Eu conto com a Galinha Pintainha!”.
Ó dona Florinda, diga-me lá quem é esse Continente que a deixa assim? “No Continente há arroz carolino a 0,69
cêntimos!”. Não percebeu o que eu disse. Numa altura em que todos desejamos ver
uma luz ao fundo do túnel, um rasgo de esperança no meio do flagelo social, as
palavras da senhora espelham essa ilusão de podermos contar com alguém
competente e sério para nos tirar do buraco, uma espécie de Zorro dos tempos modernos.
“E o quilo e meio de cebola embalada a 0,89 cêntimos?”. Deixe-se
disso e diga-nos quem é esse
enigmático “Continente”. Quando a dona Florinda diz confiante: “Eu conto com o
Continente” o meu imaginário infantil trata logo de transformar o personagem
continental num super-herói que nos vai salvar das garras dos malfeitores. Estou a ver a grande notícia: “Mister Continente veste o seu fato verde, entra a
voar dentro do parlamento com a capa abanando ao vento do ar condicionado e, num simples mas poderoso sopro, consegue
transformar 230 inertes seres em 20
vigorosos governantes, daqueles que conseguem…governar o país. Mas esperem, que na maioria dos dias o seu
sopro atingiria, na melhor das hipóteses, uns 30 deputados. Mas Mister
Continente pensa em tudo, só escolhe os dias festivos para actuar; poderia ser naquele dia
dos cravos e no outro da “Implantação” de qualquer coisa…deixa cá ver… acabada
em “blica”. Depois dessa acção de transformação cirúrgica, esvoaçava para os grandes
gabinetes de advogados e, num simples mas poderoso sopro, transformava-os em
seres de intelecto normal, para não entenderem as leis que criaram para salvar
os seus ricos e corruptos clientes, transformando assim impunidade em justiça.
E Mister Continente continuaria a esvoaçar a sua esplendorosa capa verde
convertendo tudo o que é silvado, em campos de margaridas em flor (não resisti
a uma analogia poética). “Mas no meu tempo não havia pescada fresca a 3 euros e
99 cêntimos!”. Agora chega Dona Florinda!!! Tenho de ripostar: No meu tempo não havia 20%
de desemprego; no meu tempo os governantes tinham de ter mais do que 23 anos; no meu
tempo conseguia dizer o nome dos jogadores do plantel do Sporting; no meu tempo
não havia a Golden & Sachs; no meu
tempo não pagávamos 1,4 por cada litro de gasóleo; no meu tempo não existiam contratos de PPP ou swap. A dona Florinda não baixa a
guarda e lança “No meu tempo não existia
amendoim com casca torrado a 1 euro e 49 cêntimos”. É lá, com essa
arrumou-me!...Temo que tenhamos de voltar à terra, deixar de imaginar um Mister
Continente para nos vir salvar, e assumir de uma vez por todas que nós só poderemos contar com o In…Continente Gaspar; aquele que continua sorver as nossas parcas economias e as deixa sair, para serem absorvidas pela fralda de uma qualquer instituição financeira
internacional. Abri agora um folheto do tal
Continente e não é que vi um pacote de 64 fraldas por apenas 4 euros e
99 cêntimos? No meu tempo não havia nada disto…
segunda-feira, 8 de abril de 2013
Em busca da pantufa perdida
.jpg)
Num momento de agitação social
aguda, de proliferação do desemprego a níveis nunca vistos, de recessão
económica grave, hoje irei escrever sobre a minha… pantufa esquerda. Eu sei que
parece um assunto de leviana futilidade no meio de tanto assunto cheio de
substância, mas aqui vai...a minha reflexão sobre essa coisa que se coloca nos
pés quando se chega a casa à noite, para os manter sequinhos e quentinhos. Na
verdade, são mais chinelos de quarto, mas o termo pantufa é mais carinhoso e
faz-nos lembrar o cãozinho do nosso
imaginário infantil. E é precisamente por pantufa estar associado a algo tão
pueril e fofo, que tenho dificuldade em conformar-me com o facto, da mesma me atazanar o bem
estar. Vamos passar ao enquadramento do problema. O problema é que todas as
noites de inverno, quando me levanto para ir à casa de banho (com a idade a
bexiga minga e a próstata aumenta) procuro com o pé esquerdo a pantufa em falta
e ela nunca está lá! E assim se fazem as
incursões nocturnas ao WC: cambaleando
de forma desequilibrada pelo sono e pelo facto de ir com uma pantufa calçada e
o outro pé cruelmente sujeito às agruras de uma tijoleira fria. Já experimentei
colocá-las geometricamente alinhadas, em local de fácil acesso pedonal, mas nada;
sento-me na cama e o meu pobre pé gelado procura de forma desenfreada um peludo
aconchego e o raio da pantufa deu de frosques. O enigma é que a pantufa é uma
coisa, um objecto, que por definição não tem vida própria, não se ofende, não fala,
não foge, não discute, não diz que a sopa está insonsa. Limita-se a estar,
certo?...Não! a minha pantufa esquerda decidiu reivindicar; não quer pés
dentro; quer permanecer livre de odores indesejados. Até aí a coisa não faz
nexo. Ainda se fossem uns ténis de corrida, sujeitos a inúmeros maus
tratos, lama dos carreiros, manchas de
suor, quilos de chulé, vestígios de micoses, ainda vá. Mas os meus ténis de
corrida são pacíficos e fiéis, obedecem ao dono, não fogem com a amante…bom, só
aquele que fugiu na boca de um cão desconhecido e nunca mais apareceu. Agora
uma pantufa(?), que está todos os dias no aconchego do lar, nem um pingo de chuva apanha no têxtil, que
tem o privilégio de contactar com pés limpinhos acabadinhos de sair da
banheira, às vezes até com cheiro de creme hidratante, tem de se queixar do
quê? Não se queixa?...pois não!...mas foge todas as noites para debaixo da cama
o que, para um ser ensonado, com olhos semi-cerrados, revoltado pela sua
micro-bexiga aniquilar o sonho que estava a ter com praias tropicais
paradisíacas, torna a tarefa de descoberta com um nível de dificuldade
similar ao Indiana Jones em busca do templo perdido.
Estava eu aqui a pensar na pantufa
que deveria estar lá mas não está e lembrei-me das chaves do carro…?...naquele
dia que decidimos não levar o carrinho de compras ao supermercado e trazemos,
qual halterofilista, 15 quilos de compras em cada mão. Numa das mãos o pack de
6 garrafas de litro e meio de água, porque a água do cano sabe a terra e a
cloro, na outra 6 sacos repletos de víveres cuja pressão na palma da mão nos
deixa com mais uma linha que fará as delícias de qualquer quiromante. Chegamos
ao carro, pousamos as garrafas e levamos a mão livre ao bolso esquerdo em busca
da chave que nos libertará da tortura produzida pelos sacos. Nada…a chave está
no bolso errado!...porra!...pousamos os 6 sacos no chão, a lata de salsichas
rebola pelo passeio, o iogurte de frutos silvestres é espalmado com o peso das
massas, o alho francês salta borda fora e nós, perante aquela fuga generalizada dos bens alimentares, insultamos o raio da chave que tinha logo de
estar no bolso errado.
Para dar um cunho de alguma
credibilidade a esta crónica, seria conveniente, estabelecer aqui uma ponte
entre a minha pantufa esquerda e a
situação política do país. Nem seria difícil; Os políticos são como a minha
pantufa esquerda: Confiamos que eles estarão lá
num momento de aflição e de fragilidade ; entregamo-nos à sua hipotética
competência para a função e, quando precisamos deles,…traem-nos, seja fugindo para debaixo da cama ou para dentro de uma qualquer multinacional . Na
realidade o que eu quero mesmo é que a minha pantufa esquerda hoje à noite, não
comece com historietas e trate de se encaixar no meu delicado pezinho, que ele
já começa a sofrer de artroses…
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013
A Fraude
Tentei ver a
“Fraude”, a reportagem da SIC sobre o
BPN , mas terminei todos os episódios a …dormir profundamente. Percebi a
gravidade da situação quando era questionado por colegas: “Epá, Viste aquela
coisa da Fraude do BPN?...Aquilo é arrepiante!...Grandes bandidos!...”. Abanava
a cabeça afirmativamente , quando na
realidade deveria abanar a cabeça “semi-afirmativamente…(?)”. De facto, comecei
a ver mas… acabei a dormir. Como é possível adormecer perante o relato de um
assunto tão explosivo? Um assunto que nos diz tanto a nós cidadãos
vilipendiados pelas maroscas da máfia financeira. Com algum peso na consciência
voltei à carga. Pus-me novamente a ver os programas gravados e “pumba!”,…ou antes…”rrronronca…”
voltei a cair no mais profundo sono. O que se estaria a passar comigo? Fiquei
desprovido da mais elementar curiosidade humana? Se o facto de uns bandidos nos
roubarem 4 mil milhões de euros à luz do dia, não me desperta um estado básico
de vigília, é sinal de que o meu sentido
crítico está profundamente empedernido. Comecei a pensar nas razões para o meu
adormecimento prematuro e, a par das alvoradas vespertinas forçadas por
obrigações profissionais, só me ocorria o “…E então? E então?..nada!..”. O “E então? E então?...nada!…” personaliza a ausência
da concretização final de um determinado acontecimento. “Aquela jogada do
Zezinho foi fabulosa! Partiu atrás de meio campo, fintou 3 adversários, mandou
um petardo fora da área e…”… “E então? E
então?...” , “…nada!... Mandou a bola à trave.” Fica-se com uma profunda
sensação de desapontamento, quase a roçar a revolta. Esperava-se que o culminar
de uma daquelas jogadas, terminasse com o esférico dentro da baliza e não no
ferro. Como se espera que um encontro nocturno termine de outra forma que não:
“Epá, ontem à noite engatei uma mulheraça de sonho: Um corpo fabuloso, um
sentido de humor refinado, uma cara digna de estrela da cinema. Levei-a até ao
quarto de hotel e…” , “E então? E então?”… “E então? Nada!...a tipa era um
travesti e tive de lhe espetar um banano nas ventas.”
A reportagem sobre o BPN (a parte que consegui assistir com as pálpebras
elevadas) relatou de forma fidedigna
como todos nós teremos de pagar pelo alarve e despudorado roubo efectuado por inúmeras personalidades da
nossa praça. “E então? E então? …O que lhes aconteceu?...Nada!…”. Aí está a
falta de concretização que tínhamos falado há pouco, aplicada a um acto
criminoso. Um ladrão rouba uma ourivesaria. O Ourives é lesado. A polícia
descobre quem é o ladrão. O ladrão é preso. Este seria o ciclo normal
devidamente concretizado e que de alguma forma aliviaria a indignação da vítima. No caso do BPN, alguns gatunos foram
identificados , entre eles, Oliveira e Costa, o cabecilha do gang que, depois
de ter conseguido a proeza de com os amigos nos surripiar aquela bestialidade
de dinheiro, cospe pedaços de sandes mastigadas e conta piadas numa audiência parlamentar
sobre o assunto, para depois conseguir ser preso … à lareira da sua casa. E
Então, e então… os amigos?...Nada!...Aliás, alguns amigos ainda andam por aí
sem qualquer pudor. Um tipo que é agora conselheiro do primeiro ministro, e o
outro, o tal recém-eleito secretário de estado que sabia,
mas esperou que se torrassem mais uns milhões para depois sussurrar ao ouvido
de alguém, que ouviu falar de uns dinheiritos que fugiram para umas contitas no
estrangeiro. Agora percebi por que razão
adormeci ao tentar ver a “Fraude”; foi uma reacção de autoprotecção do meu
organismo contra esta impunidade que apenas me faz mal. Esta falta de concretização aliviadora da
punição da gatunagem deixa-me com gastrite. A sensação de se ficar a saber que
nos roubaram, seguida do “E então? E então?...Nada!” é a mesma daquela que se
sente depois de uns carnais e efusivos preliminares amorosos, serem
interrompidos por um “é melhor ficarmos por aqui…”. Vivemos
no contraditório dilema Revolta / Resignação, onde após a indignação surge
invariavelmente a impotência. Apetece-nos apertar o pescoço a toda essa
bandidagem, mas os bandidos cospem sandes no parlamento entre risos e piadas e
nós, nem um bananinho nas ventas conseguimos aplicar. É por isso que adormeço
antes de constatar essas barbaridades. Se numa cirurgia à vesícula, é um bocado
chato o paciente estar acordado enquanto lhes escarafuncham as vísceras, porque
teremos nós de rejeitar a anestesia do sono, enquanto nos escarafuncham as
entranhas da paz interior? Ontem estava
a ler uma crónica de Paulo Morais, onde denunciava a ladroagem das parcerias
público-privadas , com a clara conivência do solícito ministro Gaspar. O pior
de tudo, é que em nenhum momento da crónica, senti as pálpebras fraquejar e fui
obrigado a manter o estado de consciência até ao final. “E então? E então?...e
perante esta constatação, o ministro faz alguma coisa?...nada…de muito especial!...
a não ser continuar a jorrar o nosso dinheiro para algibeiras mais “necessitadas”
e aconselhar o sono profundo como antídoto para todas as preocupações.
Assinar:
Postagens (Atom)


