Fui assolado
pela loucura do eclipse solar. Um
fenómeno único, que só daqui a 11 anos poderemos ver outra vez. “Então e onde
vamos ver o tal eclipse?” ; “Disseste ver?...olhar para o acontecimento com
atenção?... Não podes! Causa cegueira!”. Digam-me lá se faz algum nexo;
publicita-se um acontecimento espectacular, deixa-se a malta em polvorosa,
combinam-se festarolas, compram-se as moelas e as cervejas e depois dizem que
não se pode olhar, que podemos ficar cegos. Ontem a minha mulher relatou-me que
tinha feito um óptimo bolo de chocolate, dirigi-me à cozinha e trinquei 3
fatias de forma festiva e alarve. “Sabes o bolo era espectacular mas utilizei
uns ovos que tinha aí guardados há uns meses…pode ser que te cause algum
desarranjo intestinal”. “E cegueira, e cegueira???” ; “Fica descansado que a
diarreia não chegará à retina”. O que os
tipos conseguiram com a notícia “é espectacular, mas não pode olhar”, é que
passei toda a manhã de olhos no chão, com vontade de olhar, para onde não podia
olhar, por causa da cegueira. Mais valia terem ficado caladinhos, até porque o
fenómeno nem foi assim tão espectacular, digo eu, que só consegui olhar até ao rebordo
superior do volante. Eu entendo o pobre do Sol. Também eu ficaria lixado se um insignificante
satélite me impedisse de espalhar o brilho nas horas em que o espectáculo de
luz é meu. Então tomem lá uma cegueirazita que é para aprenderem. Existem uns
filtros que se compram e se colocam nos olhos. Mas o sol não é p’ra todos?
Primeiro dão-me o fenómeno como acessível e espectacular, depois cobram
entradas para nos salvarem das cataratas? Já agora expandam o negócio para a
doçaria infantil e avancem nessa estratégia “Minha menina queres este fabuloso
chupa-chupa às riscas amarelas e azuis? Então toma, querida! Quando a criança
se prepara para colocar o dente na bola de açúcar, ouve as entrelinhas:
“Mas não te esqueças de dizer à tua mamã
que vá ali comprar o antídoto para o cianeto.” Ao ver todos aqueles astrónomos
de binóculos especiais, com filtros especiais apontando para o céu, em busca de
um acontecimento espectacular, saiu-me um: “E então?”. A lua passou à frente do
sol e ofuscou o seu brilho; e depois? Todos os dias nos deparamos com eclipses
e não fazemos este regabofe todo. O eclipse da espectacular lista dos
contribuintes Vip, perdão, os não contribuintes vip. A lista saiu a brilhar cá
para fora e rapidamente alguém a empurrou com a barriga para os confins da
decomposição. O eclipse na minha espectacular peúga nos dentes do meu obscuro
cachorro novo. Mas o eclipse que me chateou hoje, foi o eclipse na nossa língua
materna. Já tinha sido ofuscada pelo abjecto acordo ortográfico e agora é assombrada pelo satélite anglo-saxónico de
Cambridge. A minha filha teve de pagar um exame de certificação de Cambridge
que chegou à escola pública. Porquê? Porque Cambridge saiu do seu cantinho,
embrenhou-se nos institutos particulares de todo o mundo e agora chegou ao
ensino público português. Tens a
certificação de Cambridge? És um tipo espectacular! Não conseguiste passar no
exame de Cambridge?...coitado, estás perto do estado de sem-abrigo. Disseram-me que os professores de inglês em
Portugal, estão a esta hora, a testar os seus conhecimentos em frente aos
computadores de Cambridge. “You need improvement” respondem as máquinas na
sobranceria inglesa, sempre que o profe tecla na tecla errada. Os mesmos profes
que todos os dias se fecham numa sala de aula com 28 alunos, tentando que os
miúdos fiquem a saber, no meio da algazarra, que o “to be” é um verbo e não o Tobias, o cão do vizinho. São
esses alunos que terão agora acesso ao fabuloso exame de Cambridge e à tal
certificação. O satélite Cambridge entra de rompante e vende ele próprio os
óculos que impedem que se fique cego por se olhar para a estrela da língua portuguesa.
Porque em todo o mundo se fala inglês…de Cambridge. Sem o inglês de Cambridge
não entra em lado nenhum. Aliás pela dicção inglesa de José Mourinho, um dos
portugueses de maior sucesso no mundo, percebe-se que Cambridge fez parte integrante
do seu currículo na escola básica de Setúbal.
Agora afastem lá o rabo do Cambridge aí da frente e deixem-me espreitar
para o brilho da minha língua portuguesa descansado. Estou tão farto de
eclipses, que se me falarem novamente da lua ou de Cambridge, ainda vos mando
com as espectaculares declarações de José Mourinho: Ai sink ai m a special one!...
domingo, 22 de março de 2015
domingo, 18 de janeiro de 2015
Pai Ambrósio
Hoje irei
debruçar-me sobre a complexa temática do “Pai Ambrósio”, espécime antropológico
esquecido de forma injusta em todos os manuais de taxonomia do reino animal. Já
tinha aflorado este tema de forma superficial, baseado apenas na constatação da
vida desenfreada de alguns amigos, na tentativa chegarem a tempo às aulas de
violino, de equitação, de ténis e de inglês dos filhos. Como desejava comprovar
a minha teoria do “Pai Ambrósio” com sustentação científica, nada melhor do que
mergulhar de cabeça na loucura da experimentação. E tudo começa de uma forma
muito singela, com uma frase também ela inofensiva: “Querida, não achas que os
miúdos deviam fazer um desporto qualquer?...”.
Se a querida da esposa responde afirmativamente, a nossa vida sofre uma
fabulosa alteração, que tinha dificuldade em classificar, até que a minha mãe
tratou de facilitar a conceptualização da coisa, lançando a expressão: “Filho,
já viste que tens os pneus do carro carecas!...”. Armei-me em cientista e agora tenho de me
aguentar à bronca. E a dimensão da bronca tem uma relação directa com a
magnitude do mergulho em forma de bomba, que mandei da última prancha, rumo às
exigentes actividades dos miúdos. Moro
longe da urbe, mas decidi levar em simultâneo a filha para o Basquetebol e o
filho para o futebol. Como achei que, eventualmente, não experienciava a tese de forma plena, aumentei o grau de
dificuldade e de quilómetros, levando o miúdo para uma terra ainda mais
distante. No final de 4 anos de experimentação como “Pai Ambrósio”, sinto-me
com a propriedade académica para tirar
algumas das principais conclusões deste estudo. Em primeiro lugar, a certeza de
que os accionistas da Galp e da Michelin
gostam mais de mim, do que Soares gostará de Sócrates. A quantidade de litros
de gasóleo que entra no depósito do veículo de qualquer “Pai Ambrósio” por mês,
rivaliza com a que enche os camiões TIR que transportam cebolas entre Sever do
Vouga e Bruxelas. Em segundo lugar, a ligação entre o Pai Motorista e as
instituições desportivas é similar à que
um trabalhador estabelece com a
segurança social; à medida que o tempo
passa, a esperança de que o trabalho vá diminuindo e a reforma chegando,
afasta-se como uma miragem no deserto do Atacama. É um mergulho sem retorno a
terra firme; quanto mais nadamos para a margem, mais ela se afasta. Avançamos
nos anos e aumenta o número de treinos, o número de jogos e, os horários, são
empurrados para horas próprias da entrada nas discotecas da Praia da Rocha. A
hora de jantar em família vagueia ao sabor dos treinos nocturnos, quase sempre
com o arroz empapado e frio. Mas o pai Ambrósio não baixa os braços; coloca-os
no volante e acelera entre campos da bola e de basquete. Mete um às 18, a outra
às 19.30, pega no primeiro e trá-lo às 20; vai buscar a outra às 21, chega a
casa às 21.30. Levanta-se às 7 da matina de sábado para levar um ao Cartaxo,
porque o jogo só começa às 9, mas o “mister” tem de dar uma palestra de meia
hora antes da hora de aquecimento que antecede o jogo. A outra joga em Rio
Maior às 15. Tem de sair de casa às 13 para chegar às 14. O jogo termina às
17.30. Chegamos a casa às 18.30. No domingo, outro jogo, porque é jornada
dupla. Não queremos saber; queremos ficar na cama a descansar; “levanta-te pai
que vou chegar atrasada!...” o “Pai Ambrósio” levanta e acelera…a um domingo
(?). O treinador diz que a miúda
ganharia mais argumentos técnicos se não faltasse aos treinos das 20, mas o pai
Ambrósio balbucia com algum embaraço que, apesar de ser multicelular não
consegue dividir-se em 2 organismos distintos e estar em 2 locais à mesma hora.
“Achas que podemos ir passar o fim de semana ao Alentejo?” pergunta a esposa em
busca de um retiro em família. “Já te esqueceste que o miúdo tem jogo na
Freixianda?”. O Pai Ambrósio acaba de poupar umas massas num Hotel alentejano.
Os amigos telefonam para irem descer juntos um rio em Arouca. “No fim de semana
do jogo com o Ouriense que decide o 3º lugar? Impossível…”. Também, o bife de
vaca arouquesa está pela hora da morte. Ainda bem que desporto faz bem aos
miúdos; desenvolve as competências físicas e sociais. Em compensação as
competências sociais e físicas do “Pai Ambrósio” estão perto do vegetativo. E
nas férias da Páscoa? Os treinos continuam? Ah, vai haver um torneio com
equipas muito boas, como o Atalaiense e o Caxarias?...Então e os 4 dias que
planeámos sair até ao Gerês???...Deixa lá que aquilo é só árvores, erva, chuva
e burros selvagens!...
Numa das
inúmeras viagens que fazem juntos, o filho tocou no ombro do pai e disse-lhe:
“Ó Pai, apetece-me algo!…Que o Sporting me faça o tal convite. Íamos só 3 vezes
por semana a Lisboa. O que te parece? ” O “Pai Ambrósio” respondeu: “Toma lá
esta caixa de Ferrero Roché e já vais com sorte…”
domingo, 28 de dezembro de 2014
Meteorologia natalícia
Estava a minha
dentição entretida a trucidar os coscorões e todas as iguarias que o
metabolismo merece enfardar no dia de natal, quando alguém teve a genial ideia
de ligar a televisão. Em uníssono, ouvimos um apelo colectivo: “Esse tipo é que
não!...desliga isso, senão a fruta cristalizada não passa no esófago!!” Entre o
ligar, o apelo e o desligar, sobraram alguns segundos, suficientes para ficar
colada aos nossos coscorões a mítica frase “desde há muitos anos que os
portugueses não terão a acumulação de nuvens negras no seu horizonte”. Várias dúvidas me assaltaram e nenhuma tinha a
ver com a carga calórica dos coscorões. A primeira questão prendia-se com o
facto de, no dia em que comemoramos o nascimento do menino Jesus, aparecer o
primeiro ministro a falar ao país. Não sei se a ideia seria colar-se ao nascimento do salvador e ele próprio apanhar
essa onda deixando no ar a imagem de que também nasceu o redentor económico
“sabem, eu não tive uma vaquinha nem um burrinho para me aconchegar o berço,
mas tive uns tipos do banco central europeu muito simpáticos que me deram
aconchego nos momentos em que eu mais precisei; esses e os chineses que nos
compraram a energia; esses e os brasileiros que nos compraram e venderam as
comunicações aos franceses; esses e outros que não sabemos bem quem, a que
entregámos os correios” . Nasce assim,
Passos como o salvador de todos os nossos pecados da gula, afastando o
espectro do terror e da falência. Por falar em falência, “Ó Passos, então e
aquela história do BES? Da solidez dos investimentos?” Da regulação fictícia do
Banco de Portugal?...” “Banco? Qual
banco?...hoje vim aqui falar de prosperidade!!!...já de propósito, para evitar
mal entendidos, troquei um banco de madeira por esta cadeira vermelha igual à que o pai natal
utiliza nos centros comerciais para
vender fotografias aos meninos que se conseguirem sentar ao seu colo.”.
Voltemos à
frase meteorológica lançada pelo primeiro ministro sobre a acumulação de nuvens
negras no horizonte. Um claro sinal de
que o tipo tem poderes maiores do que o malogrado Anthímio de Azevedo, que só
conseguia prever as baixas pressões para um período de 5 dias com alguma
segurança. Passos lança-se seguro para a certeza de uma baixa acumulação de
nuvens negras nos próximos tempos, ou seja, entre o dia de Natal e as eleições
legislativas. É d’homem! Ou antes, é d’homem poderoso! Ou melhor é d’homem
poderoso a puxar para o milagroso!
Trincamos o
peito do peru ao memo tempo que ouvimos a notícia de que a idade da reforma irá
aumentar para os 66 anos e 2 meses. Lembramo-nos da nuvem negra na fase dos
coscorões, engolimos o peru à pressa e começamos a fazer a nossa análise
introspectiva: “Grande mentiroso! Então
que tudo iria ser melhor; que faria um sol radioso e dá-nos a perspectiva de gozar
a reforma a trabalhar?” . “Disseste mentiroso? Não confundiste com poderoso e
milagroso? Pensa bem no “oso” que colocas no final do adjectivo.” Na verdade
Passos não mentiu, porque domina a metáfora meteorológica como ninguém. Lança a
redução da acumulação nuvens negras como uma coisa boa, sabendo que, para um
alentejano, assolado pela seca e falta de água, e ansioso por uma bela carrada
de chuva e negridão no horizonte, a redução das nuvens revela-se como uma má
notícia. A metáfora meteorológica não compromete; a nuvem pode ser má para um
minhoto ou boa para um algarvio. “Quem disse que as coisas iriam melhorar?...eu
só falei em nuvens negras, mais nada!”. Mais nada?...falou também que “Será o
primeiro Natal desde há muitos anos em que temos o futuro aberto diante de
nós.”. Aqui já ultrapassa a previsão meteorológica e entra no domínio do
consideravelmente estúpido. Talvez por um erro de sintaxe. O nosso futuro
sempre esteve aberto diante de nós; aberto e repleto de figuras, cujas
competências deveriam estar ao dispor do Instituto do Mar e da Atmosfera e
nunca aos comandos da complexa gestão de um país. Se tivesse dito “temos mais futuro aberto diante de nós”, a coisa já faria algum sentido; de facto
percebo que tenho cada vez mais
futuro a trabalhar, mesmo que para isso tenha de levar comigo as artroses e o
andarilho.
Acabei agora
de consultar a previsão meteorológica para
os próximos dias e fiquei a saber que não haverá nuvens no horizonte. Ufa,
ainda bem. Seremos brindados com um
fabuloso frio glaciar para testar as nossas adiposidades. Enquanto a nuvem não
vai e o frio não vem, vou continuar agarrado aos coscorões e ao peito de peru,
com a certeza de que só abrirei a televisão para conferir os números do
euromilhões, que desta vez me lembrei de fazer. Pode ser que o futuro se abra
perante nós com a nebulosidade adequada.
sábado, 18 de outubro de 2014
Da Serra Leoa para Portugal...com admiração...
Somos um dos três países mundiais com maior competência no sector. Fiquei estupefacto com a fabulosa notícia. Nós, que perdemos tempo com fatigantes lamúrias e maledicência barata, aprendemos hoje que fazemos parte de uma restrita elite na vanguarda do conhecimento. Pensarão os leitores de que sector se trata, e não adianta perderem tempo a divagar pela pesca, agricultura, economia, justiça e irem logo directos para a área da saúde. Descobrimos que estamos na vanguarda da despistagem do vírus mais falado no momento: o ébola. Mas não confundamos despistagem com …despistagem. A despistagem da qual falamos não termina com o chassis do carocha amolgado na cortiça de um sobreiro; trata-se sim da investigação laboratorial que atesta se o líquido do frasquinho tem vestígios do tal vírus mortal. E sermos um dos três países de referência na despistagem do ébola, resulta em quê?...na escolha dos nossos laboratórios como local privilegiado aonde chegarão amostras de todo o mundo em busca de diagnóstico. Um orgulho nacional. Finalmente o reconhecimento exterior pelos nossos serviços. Numa altura em que tanto se fala de exportação, era disso que nós precisávamos: de importar o vírus ébola. Estava longe do nosso território, mas nós fizemos questão de o chamar para pertinho de nós. Não sei bem como conseguimos ser escolhidos no meio de tantos, mas aproveitemos para cumprir essa função com brio e dedicação. A senhora do laboratório dizia que se despedia dos filhos e encarava a estóica tarefa como um combatente na linha de fogo, sem pensar numa bala perdida, numa luva furada, numa galocha rasgada. À primeira vista, poderíamos esperar a importação de outro tipo de serviços e bens como barcos de pesca noruegueses, organização suíça, tecnologia japonesa, economia alemã, pizzas italianas…o quê?...essas já importámos?... fiquemos pela economia. Mas importamos o Ébola e exportamos o diagnóstico para todo o mundo; um serviço público de valor humanitário. Poderíamos ter ficado na vanguarda das análises do colesterol, da glicemia, da Alina Aminotransferase , mas nós gostamos de fazer as coisas em grande (eu sei que a última designação técnica soava a algo grandioso mas não é nada de especial) e apostámos num vírus que tem uma taxa de mortalidade de 70%, ou seja, mata comó caneco. Não questionamos porque razão são só três os países de referência para a análise do ébola (não sei quais são os outros dois, mas não devem ser os alemães que já têm a economia, nem os noruegueses que já têm os barcos de pesca...), e encaramos a tarefa com o empenhamento e o desprendimento do montanhista que escala nos Himalaias, do pára-quedista que se atira do avião, do piloto que acelera a 300km/h antes da curva, do canoísta que enfrenta os rápidos do rio Zambeze. Recebemos o frasquinho vindo da Serra Leoa em busca de respostas e seremos nós os portadores das mesmas. Temos esse poder entre mãos, esse e o frasquinho que não pode cair ao chão. E é no fio da navalha, com a adrenalina a pulsar nas veias, que trabalhamos em prole dos outros; uma tarefa de pura abnegação. O fato foi bem vestido, as luvas bem colocadas, os óculos acondicionados, as galochas coladas às canelas, a análise realizada, a desinfecção concretizada, os resultados obtidos. E eis que chega o culminar magnânime desta tarefa: a comunicação ao doente se este tem ou não tem o vírus. No caso da análise ser negativa, o doente saltará de alegria e jamais se esquecerá dos portadores da boa nova e ainda acabará a comer sardinhas nas docas de Peniche. No caso da existência do vírus se confirmar , teremos a dolorosa tarefa de dizer ao doente que apanhou ébola e, no caso dele perguntar pelo outro diagnóstico, o da cura, conseguirmos dizer-lhe que: “Cura, cura, ainda não se descobriu,…, mas parece que os americanos estão a testar um medicamento que pode ser que faça qualquer coisinha…”. A nossa tarefa restringe-se pois à despistagem…sim, a despistagem: a do carocha que se estampa contra o sobreiro. Chegamos ao local com a fita métrica debaixo do braço e, depois de várias medições e análises, afiançamos o diagnóstico com propriedade: “O senhor tem a chaparia do seu Volkswagen em estreita comunhão com a cortiça do sobreiro; basicamente tem o carro feito num oito e acaba de destruir uma árvore centenária”. Ao que o acidentado responde: “Isso dá para ver com facilidade; mas acha que tem solução???”. “Solução, solução,..., olhe tenho aqui o contacto de um bate chapas; pode ser que lhe resolva isso.”
O que não me sai da cabeça é a imagem da investigadora do laboratório, acondicionada dentro de todo aquele aparato de isolamento, com a mão trémula segurando o frasco com o possível líquido mortal; sem margem para erro, ou vacilação. O que acontecerá no caso da senhora não conseguir conter um espirro?..... alguém tem o contacto do bate-chapas?....
quarta-feira, 29 de janeiro de 2014
Vencimento Nostalgia
Troquei de carro. Ou antes, fui
obrigado a trocar de carro, uma vez que o meu veículo decidiu falecer à revelia do dono. Ainda
tentei reanimá-lo, com umas festinhas no capô e uns pontapés nas jantes, mas
ele claudicou. Mas não se limitou a claudicar de forma passiva; até chegarmos
às festinhas no capô, já ele tinha feito grandes festinhas na carteira do dono,
entre tubagens, embraiagens, motor de arranque, correia de distribuição. Mas os
laços que nos uniam eram de tal maneira fortes, que ele decidiu que gostaria de
levar o dono para a cova com ele. Percebe-se que nunca esqueceu os momentos
fraternos que vivemos juntos, das peúgas suadas debaixo dos bancos, dos caminhos
em terra batida que percorremos, dos iceteas
espalmados no banco do passageiro, das cascas de banana em compostagem
no guarda-luvas. Decidiu então falecer neste momento de prosperidade económica
em que vivemos, para que o dono esbanjasse também ele a sua própria prosperidade. Em sua memória fiz-lhe a vontade e adquiri um
veículo afogado em tecnologia onde tudo apita e nos faz pensar que prevaricamos
a toda a hora. Apita quando não se põe o cinto, apita quando se tira o cinto,
apita quando as luzes estão ligadas, apita quando é preciso fazer a revisão,
apita quando não pressionamos o travão de mão, apita quando saímos do carro em
andamento…?...(já um tipo não pode saltar do carro). Este árbitro de futebol de
quatro rodas, tem, contudo, uma apitadela que me faz babar de contentamento: o
apito do sensor da marcha atrás. E não se limita a apitar quando estamos
prestes a embater na oliveira lá de casa. Avisa com uma luz que vai passando de
verde para vermelho à medida que o pára choques se aproxima do estado de
espalmamento, terminando com um enorme e reluzente STOP antes do impacto. Bem
sei que nesta fase deveria estar a fazer o luto pelo meu falecido carro, mas
estou naquela fase de afogamento tecnológico, qual criança inebriada com a
playstation recebida no Natal, e sem qualquer sinal de nostalgia das avarias do meu chaço anterior.
Decidi então pegar no meu
compacto amovível de tecnologia e ir até ao multibanco ver o recibo de
vencimento. Olhei para o tal recibo e , depois de soltar um termo imperceptível,
consegui sentir um misto de alegria e tristeza. Por um lado, ao fim de 25 anos
a trabalhar, nunca o meu salário se aproximou tanto daquele que eu recebia no
meu primeiro ano de vencimento. E essa sensação nostálgica transportou-me à minha primeira ferrugenta renault 4L, aos
0,6 cêntimos do litro de gasolina, aos 0,4 escudos do preço da bica, ao meu ano
de jovem estagiário, que não pensava em custos do rolo de papel higiénico. Mas
o recibo do meu “vencimento nostalgia” deixou-me com alguma pena dos nossos decisores políticos por, no meio
de tanto Mercedes e BMW onde sentam as majestosas bundas, ainda não terem adquirido um veículo daqueles
à séria, com sensores de marcha atrás. A atestar pela velocidade de recuo a que
sujeitam as economias familiares, que nos levam a sentir os costázios a furar
sucessivos muros de betão, decerto que não têm o apito milagroso nem a luzinha
vermelha a acender. Ei, Meus senhores!...comprem lá o tal sensor, que a minha
carroçaria de retaguarda não aguenta
muito mais espalmamento!!... Quando pensava que não me ouviam, eis que surgem
os primeiros sinais de se querer inverter a tendência de regressão económica.
Uma medida de fundo, que revolucionará o panorama de desenvolvimento nacional
concertado: Um referendo!...Isso!...consulte-se o povo para que esta carroça
ande para a frente! O tema do referendo?...É…?...Vamos lá, deixem-se de suspense…(decerto
um dos grandes temas aglutinadores do desenvolvimento nacional e social como a privatização
da energia, a regularização dos impostos, o funcionamento da justiça,…)…a
Co-adopção por casais homossexuais!? Muito bem! Finalmente alguém com clarividência
para pôr isto a andar para a frente. Eu
compreendo o pensamento do tipo que teve essa “holofótica” ideia. “Deixa cá
ver; podíamos legislar directamente sobre a co-adopção por casais homossexuais,
mas gastando 10 milhões de euros é outra coisa! Tem mais impacto, faz com que
os cidadãos sintam essa medida como sua!...” De impacto a nossas carroçaria de
retaguarda percebe, depois de vários estampanços contra oliveiras no caminho.
Aguardo ansioso pela próxima ideia de referendo sobre a proibição de lançamento
de cascas de amendoim pela janela do carro, ou sobre a limitação do consumo de
bolacha Maria a partir das 23 h, ou a imprescidível abolição das brocas dos
dentistas.
A avaliar pelo ritmo da marcha
atrás ininterrupta que este veículo assumiu, rapidamente a magnitude do meu
salário, encontrar-se-á com a nostalgia da mesada que a minha mãe me dava nos
tempos de adolescente. Mas, mas,.... já há malta de 40 anos que voltou a viver
com a mesada das mães???... Grandes malandros, vão comprar os livros do Tex e
pacotes de batatas Pala-pala antes de eu lá chegar.
domingo, 10 de novembro de 2013
As broas pelo canudo da produção
“Meninos cheguem aqui para
prepararmos o dia dos bolinhos!...”… “mas ó pai …” “Shiu não me interrompam. Tu podes levar aquele saco às riscas e tu o
saco com as galinhas desenhadas..” “ Mas pai, tu não sabias que…”, “Esperem,
que agora temos de planear o roteiro. Poderíamos apostar na rua da avó, que tem
aquela senhora simpática…”, “ Ouve, ainda não percebeste que…”, “Mas deixam-me
acabar ou não??? Íamos naquela senhora simpática, das broas de mel e no senhor de
bigodes das nozes e dos rebuçados de frutas…” “Pai, já podemos falar?...Tu
queres saber que…” “ E temos de saber onde espalhamos as guloseimas, se em
nossa casa ou na casa da avó…”. De forma contundente e sincronizada, os miúdos
gritaram, interrompendo o périplo imaginário : “Paiiii! Já não vai haver o dia dos bolinhos!!!” …(silêncio
aterrador)….. “Que raio estão a dizer?...” “É verdade, já não existe o feriado
do dia 1 de Novembro, para podermos encher os sacos de guloseimas”. Os meus
filhos lançaram um olhar de piedade perante o olhar de desilusão do progenitor.
“E, e,…então e os bolinhos? As broas de mel e de canela? As nozes e os
chocolates? Os toques nas campainhas e nos batentes? O sorriso das pessoas
simpáticas e o silêncio das pessoas enclausuradas atrás das cortinas? O
enfartamento pós enfardamento?”…Grandes estafermos! Transformar este fabuloso e doce feriado, num
deprimente dia útil, para quê?...para aumentar a produção laboral. Ah, assim está bem! E de
facto a produção subiu em flecha. O
suficiente para exportarmos mais 20 pares de sapatos , 100 embalagens de
sardinhas enlatadas e 40 pistões para a indústria automóvel. Aliás, dando
seguimento à invulgar capacidade de produção dos nossos governantes. Conseguem
produzir cortes à catanada como ninguém, produzir ministros que gostam dos
açoites angolanos nas nalgas como ninguém, produzir impostos como ninguém,
produzir dívida como ninguém, produzir cálculos matemáticos como ninguém,
produzir riqueza como ninguém…???..., desculpem confundi-os com aqueles tipos que
estão mais a norte,… p´rós lados da Noruega. Temos pois os mestres da produção ao leme do
barco lusitano. Basta olhar para a aglomeração de deputados que inundam todos
os dias a assembleia, que se empurram em busca do melhor lugar sentado,
rivalizando com o acotovelamento dentro do metro à hora de ponta, para
percebermos a vontade quase esquizofrénica de produzir trabalho. E essa
produção de trabalho é de tal forma assertiva que conseguiram fazer
corresponder na perfeição (através dos tais cálculos matemáticos) toda a massa
da redução salarial, ao valor dos encargos para o próximo ano com as PPPs. Ou seja o dinheiro que retiram todos os meses
a quase 10 milhões de portugueses, entra directamente nos bolsos dos blasers
das chefias das…26(?) PPPs, negociadas
pelos amigos das chefias. A proporcionalidade do números (10 milhões para
26) poderá reforçar a sigla das ditas
sugadoras de capital: muitos Produzem
Para Poucos comerem (e não serão broas de mel). Com o incremento
exponencial da produção gerada neste dia dos bolinhos, poderemos continuar a
aspirar a pequenos luxos como suportar o aumento das despesas dos gabinetes
ministeriais para este ano em 3,8 milhões de euros. Parece que os tipos já nem
tinham verba para um cafezito a meio da manhã. Ou a manutenção das escolas privadas
suportadas por dinheiros públicos, junto de escolas públicas…confusos??...eu
também, mas eles é que são os especialistas na produção.
Apesar de todos os ganhos
inerentes à conversão do dia dos bolinhos em dia de trabalho (todos trabalhámos
cheios de vontade e produzimos à bruta) , continuo a não me conformar com o
facto dos meus filhos, não terem trincado as broas de mel da senhora simpática.
E se as broas tivessem contribuído para o aumento da produção de alguns nichos
do mercado empresarial?…aumento da produção? Onde, onde?? No trabalho dos
pasteleiros de broas; no trabalho dos dentistas tratando das cáries produzidas
pelas broas deliciosas e no trabalho dos médicos resolvendo problemas de
obesidade infantil produzidos pelas broas. Mas estes pequenos nichos serão
insignificantes quando comparados com enormes ganhos de produtividade. Como tal, ainda bem que os miúdos não tiveram
o fugaz prazer de falar com a senhora simpática, uma vez que o trocaram por algo mais grandioso. O final
deste feriado dos bolinhos foi, adulterando a emblemática frase lunar, Um
pequeno passo para o Homem, mas um grande passo para a…Produtividade.
sexta-feira, 25 de outubro de 2013
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