segunda-feira, 28 de maio de 2007

Feijoada à transmontana




A análise da ementa no restaurante é uma das tarefas mais atractivas que conheço. Sabe-se à partida que serão outros a lavar a loiça mas fundamentalmente, com tantas e tão variadas opções, não se corre o risco, de ter de se comer o jantar da véspera, aquele arroz de pato empapado e insosso que entrou no frigorífico quase intacto por ninguém o conseguir consumir. Para além da regalia de alguém nos questionar acerca das nossas preferências para o almoço, a leitura da ementa é um momento de verdadeiro deleite para um espírito salivador. Cada prato que se encontra escrito naquele pedaço de papel leva-nos a imaginar a confecção, a apresentação, o odor , o sabor, a textura e as pastilhas Alka Selzer que teremos de tomar após a sua ingestão. Quando nos preparamos para fazer o nosso pedido, eis que surge no ar aquela palavra emitida pela boca da amiga do nosso amigo, sentada na nossa mesa: - Sabes quantas calorias têm esses bifinhos com cogumelos e natas que acabaste de pedir?
Como é possível transformar um tenro bife de lombo, banhado com aquele suculento molho esbranquiçado, estaladiças batatas fritas, um arroz saboroso e uma salada bem avinagrada por um conjunto de calorias? A paranóia das calorias destrói qualquer leitura prazerosa de um menu. A análise dos ingredientes é ultrapassada por um estudo de conversão calórica apenas ao alcance de especialistas dietéticos ou ilustres matemáticos.
A obsessão calórica surge geralmente, não por motivos de saúde, mas sobretudo por exigências de índole estética. Curiosamente, o valor da palavra caloria aumentou quando se diminuiram as peças de vestuário. Enquanto os fatos de banho tapavam o corpo dos joelhos ao pescoço e as saias rodadas terminavam no rebordo das solas dos sapatos, nenhum destes traumas calóricos era conhecido. A culpa é do criador do...biquini que descobriu a forma de se poupar em tecido e de esbanjar partes carnais expostas a olhares alheios. A par deste des...cobrimento progressivo do corpo, aumentou gradual e compreensivelmente a importância dada ao mesmo. Para agravar , o ideal de beleza promovido pelos anúncios da “pepsi diet”, dos filmes da Palmela Anderson ou dos desfiles de Gaultier nada tem a ver com o conceito tão propagandeado de outros tempos de que “Gordura é formosura” . A beleza da roliça e anafada mulher que constituiu no início do século fonte de inspiração a poetas, escultores e pintores, deu lugar ao culto da mulher esquelética sem vestígio de qualquer prega de adiposidade. As revistas femininas, repletas de receitas anti-celulite, dietas milagrosas à base de extractos de algas e verduras orientais, exercícios específicos para reforçar o traseiro e consolidar os volumes peitorais, vendem-se a ritmos colossais.
Nas academias de ginástica multiplica-se a oferta de actividades que “garantem” uma silhueta agradável. Nas paredes dos ginásios, exibem-se posters de homens musculados e mulheres adelgaçadas, como se de objectivos esculturais se tratassem para os frequentadores do espaço.
- Quer ficar como eles? Então terá de gastar muitas calorias nas nossas aulas de Cardiofitness, levar muita estalada nas coxas pelas mãos do nosso massagista, fazer 150 repetições nas nossas máquinas de musculação, suar que nem um louco na nossa sala de sauna, beber as bebidas energéticas no nosso bar e pagar uma mensalidade irrisória na nossa recepcionista. Se depois de tudo isto necessitar de esconder o seu fabuloso corpo durante as férias balneares, venha cá que nós puxamos mais um bocadinho por esse “cabedal”!
Quando não se consegue mudar o “cabedal” com ginástica e iogurtes magros, recorre-se ao bisturi de um cirurgião plástico. “Quanto custa um corpo perfeito?” era o título de uma revista Mulher Activa num dos meses que antecedia o verão. Abriam-se as páginas e verificava-se que os “milagres” estéticos existem, e por “meia” dúzia de tostões consegue-se, sem grande esforço, um novo corpo. Claro que os respectivos maridos terão de ter algum cuidado no manuseamento das novas criações para não correrem o risco de ficar com uma bola de silicone nas mãos. Mas para alguém que tinha a aparência da Sara Ferguson, ficar de repente transformada em Michelle Pfeiffer, todos os sacrifícios serão compensados. Serão mesmo? valerá a pena abdicar dum bom cozido à portuguesa ou suportar o pós operatório de uma cirurgia plástica para se conseguir encaixar na roupa da Mango, exibir a silhueta na Praia da Rocha ou apreciar a sua imagem na montra da loja? A resposta afirmativa que obteria numa amostra considerável da população, não pode ser dissociada da promoção estereotipada e exacerbada que a poderosa máquina publicitária faz de um ideal de beleza voltado para a exterioridade. Acho uma certa piada quando perguntam a uma actriz vaporosa qual a característica que mais admira nos homens e ela responde prontamente que aprecia fundamentalmente a sua inteligência e beleza interior. Adivinha-se que depois de tão íntima revelação, regresse ao aconchego do seu lar onde a espera o seu marido, atarracado cientista de metro e cinquenta com estrabismo acentuado, dentes amarelados e um capachinho tapando a escassez capilar.
Talvez daqui a uns anos a mulher ideal, magra, de nariz implantado e com distúrbios maníaco-depressivos causados pela abstinência alimentar, dê novamente lugar a uma mulher mais redondinha, mais alegre, com a capacidade de olhar para a ementa do restaurante e, sem qualquer tipo de pejo, pedir uma calórica feijoada à transmontana.

sábado, 26 de maio de 2007

E por falar em gases...



Alegrem-se torrejanos! Daqui a uns séculos, a vossa casa construída no meio do olival vai beneficiar de uma esplêndida e inesperada vista para o mar. Acabar-se-ão as longas horas de abarrotamento do automóvel com tralha para os 15 dias de férias na praia do Pedrogão , isto porque, segundo previsões fidedignas transmitidas pela revista Visão, “o mar vai engolir Portugal”. Em boa verdade o mar vai engolir o actual litoral. A malta do interior é que vai gozar à fartazana. Podemos andar de chinelos de dedo durante todo o ano, os mini-mercados aumentarão os preços dos produtos para o dobro no verão, os estrangeiros invadirão a nossa Albergaria, a venda de protectores solares nas farmácias subirá em flecha, espalhar-se-ão vendedores de pulseiras e pintores de retratos na rua da Levada. É certo que também acabarão pequenos devaneios turísticos como visitas à baía de Cascais, compras na rua Augusta, ingestão de pastéis de Belém, doces de ovos de Aveiro, sardinhas em Portimão ou francesinhas na ribeira, tudo porque estes locais ficarão transformados numa espécie de Atlântida submergida no oceano. Em contrapartida Beja passar-se-á a chamar Malibu Alentejana, Coimbra será baptizada com o título de Côte Azur de Capa e Batina e Setúbal converter-se-á numa espécie de Porto Santo continental. Não me agrada o panorama...
As causas para esta transformação de Torres Novas em colónia balnear estão nos gases; no efeito de estufa; nos americanos; no George Bush e fundamentalmente na Coca-Cola (?).Mas vamos por partes. É tudo uma questão de gaseificação. Existe uma excessiva emissão de gases industriais e urbanos para a atmosfera o que leva ao sobreaquecimento do planeta com consequente descongelamento do gelo polar e aumento da água nos oceanos. Por seu turno, milhares de americanos consumiram demasiada Coca-cola levando a que existisse uma sobreprodução de gases ao nível intestinal e intelectual levando-os a elegerem um bronco para seu presidente que por sua vez se está marimbando para os gases na atmosfera porque na sua cabeça o espaço reservado à massa encefálica está condicionado pela existência de uma imensa nuvem de gases. Agora que já cumpri um desejo de escrever um parágrafo à imagem de Saramago, vou explicar mais pausadamente. O bronco do Bush, presidente do país responsável pela produção de 25% dos gases malignos, ignorou o protocolo de Quioto que previa a redução da emissão de gases a nível global em 5,2%. O parceiro do jogo que mandou mais cascas de tremoços para o chão foi um dos poucos que se recusou a deitá-las no caixote do lixo. Isto porque Bush contestou as provas apresentadas sobre os malefícios do Dióxido de Carbono na atmosfera. O homem até conseguiu fazer uma associação. Mas que mal poderia fazer o CO2 à atmosfera se a Coca-Cola, refrigerante mais vendido no mundo inteiro, tem na sua composição esse gás? Então, ora bem... se as pessoas gostam de Coca-cola, também gostam de CO2, como tal, não vale a pena reduzir da atmosfera um gás que as pessoas consomem voluntariamente e ainda pagam para o ter. Pensamento de mestre. O mundo agradecerá o desaparecimento maciço de cidades e países, os verões tropicais de 45 graus à sombra, o uso generalizado de máscaras que evitem bronquites asmáticas, a redução de reservas de água doce e tudo isto em troca... dos gases da Coca-cola. O que me deixa louco é o facto de nada podermos fazer para alterar alguma coisa que seja, porque quem manda é o bronco. Alguma coisa poderemos fazer, nem que seja chamar-lhe um nome feio, ou atribuir-lhe uma alcunha...isso,... uma alcunha bem depreciativa. Ao menos ficaremos com um certo alívio. E vendo bem as coisas, se na escola colegas se alcunham por muito menos : pudim flan por ser gordo, palito por ser magro, dentuças por proeminência dental exagerada, chegou a altura de alcunharmos alguém que realmente merece. Lembrei-me de utilizar o nome dos gases que poluem a atmosfera: não ficaria mal um George Óxido Nitroso ou Clorofuorcarboneto Bush, mas pensei melhor e cheguei à conclusão que seria mais adequado usar um dos ingredientes da Coca-cola. Entre o corante, o caramelo, os acidificantes, os edulcorantes e a cafeína, encontrei designações que apesar de aparentemente menos sonantes seriam muito bem empregues como alcunhas: os “És” seguidos de três números. Os “És” poderiam abarcar várias alcunhas numa só. O “E” representaria a característica, e o número a magnitude da característica. Por exemplo o E-338 poderia significar “- Este gajo é 338 vezes estúpido”. Para o “E” poderíamos enumerar adjectivos como Energúmeno, Esbofeteador, Errante, Estroina, Epidémico, Estrumeiro, Estrupício, Enxavido, Estupor, todos eles bem contundentes e provavelmente exagerados. Mas é isso que me está a apetecer: alcunhar exageradamente. E para ser mais exagerado, optei pela Coca-cola Light que tem mais e maiores “És”. Portanto senhor George E-952 Bush, não se esqueça de colocar no rótulo das garrafas de Coca-cola o aviso : “Os gases desta bebida prejudicam gravemente a saúde”.

sexta-feira, 25 de maio de 2007

A problemática da flatulência

Um dos maiores tabus do nosso século é sem dúvida o flato. Tecnicamente, o flato representa a exteriorização da acumulação de gases no intestino. De uma maneira simples, é a libertação para o exterior de gases produzidos no interior do organismo. Essa libertação poderá ser materializada sob duas formas: O peido, é uma ventosidade extrovertida que anuncia a sua chegada ao exterior de maneira ruidosa. Quando a saída dos gases se processa sem qualquer sinal sonoro, dando um certo anonimato ao responsável pela acção, toma a designação de bufa. Em ambas as formas é libertado um odor geralmente pouco agradável para as pessoas próximas do autor. Nesta fase já o leitor estará chocado com o conteúdo desta crónica, demonstrando que realmente a flatulência é um tema tabu. No entanto toda a gente se peida, assim como urina ou defeca, por ser uma necessidade fisiológica. Se uma pessoa disser a outra que vai à casa de banho fazer Xi-xi, ninguém se escandaliza, até incentiva. O que soa mal é alguém dizer:
- Olha vou-me peidar ali na casa de banho e volto já!
A reprovação é imediata, o que nem tem muita lógica, dado que o visado foi realizar a sua acção de forma isolada com a preocupação de não incomodar o seu amigo. Pior seria se libertasse uma bufa e culpasse, com um olhar acusador, a inocente senhora que passava ao seu lado.
O desenvolvimento deste tabu ao longo dos anos tem uma relação directa com a sonoridade do nome atribuído ao mesmo. Se repararmos com atenção, o termo bufa é mais bem aceite do que peido. Soa melhor, é menos agressivo e mais suave. A bufa está para o peido como o xi-xi está para o mijar. Designam actos semelhantes mas produzem reacções bem diversas. Xi-xi é sem dúvida o termo mais agradável de entre os quatro e curiosamente o único que não vem no dicionário. É a tentativa de dar um ar mais infantil e carinhoso ao que é reprovado socialmente. Assim criou-se o “pum” para peido, lembrando a batida de um tambor, ou “cócó” para defecar, dando uma aparência galinácea e divertida ao acto.
O que todos deverão ter em comum é o condicionamento da sua prática à intimidade. São acções eminentemente solitárias, excepto para os menos recatados que guardam as bufas para serem libertadas no autocarro em hora de ponta, analisando a reacção das vítimas a posteriori. Na realidade os efeitos da bufa em locais públicos são similares aos provocados pelo fumo do tabaco. Ambos incomodam quem deles não usufrui. O caso do tabaco é um pouco mais perturbador porque traz malefícios à saúde dos outros. Daqui a uns anos aparece a LBI, “Liga dos Bufadores Inveterados” a reivindicar locais para se poder bufar à vontade sem medo de represálias. Nos aviões, restaurantes, cafés e bibliotecas será obrigatória a existência de lugares para Bufadores e Não Bufadores, devidamente sinalizados.
Mas se é aceite que o flato deverá ser libertado em privado, já não é tão claro qual o melhor local para o fazer. A casa de banho é o primeiro refúgio que vem à cabeça. No entanto, não existe lugar mais inadequado para a consecução do acto, fundamentalmente quando se têm visitas em casa, sabendo-se da excelente acústica proporcionada pelo formato da sanita. Por outro lado, a generalidade das casas de banho são locais exíguos e pouco arejados, sendo à partida desaconselhado o abandono de uma desagradável lembrança olfactiva aos utilizadores que se seguem, que não têm culpa da alimentação desregrada do “bufador”. O ar livre é o espaço no qual os riscos de agressão exterior dos nossos humores interiores são mais reduzidos. Se a libertação do flato coincidir com a passagem de um bando de aves migradoras e se realizar debaixo de 3 eucaliptos, os seus efeitos serão perfeitamente dissipados e imperceptíveis aos ouvidos sensíveis de um pianista e ao olfacto treinado de um criador de perfumes.
O tabu criado em torno do flato prende-se com regras socialmente e culturalmente enraizadas. No entanto, as normas sociais que reprimem o flato apresentam algumas lacunas. Vejamos o caso das crianças que são estimuladas a libertar a sua flatulência sem qualquer sinal de relutância. Até se acha uma certa piada e se comenta o cheiro da bufa do menino. Se um adulto, por descuido, deixa escapar um traque e diz: “Desculpem lá, mas acabei de me peidar!” , é aconselhado pelos amigos a consultar um psiquiatra, ou então a regredir cronologicamente até uma idade que lhe permita dizer e fazer o que lhe apetece sem ser reprimido, ou seja, aos 5 meses.
Quando alguém diz que peido é uma asneira, está a dizer uma grande...asneira. Peido, tal como flato, bufa ou traque, são palavras que fazem parte do vocabulário português e como tal jamais deverão ser rejeitadas ou originadoras de tabus. O flato contribui para a nossa sanidade e, renegar a sua existência, é esquecer que temos um aparelho digestivo incluído nessa criação suprema que é o corpo humano. Não se esperará que a flatulência seja o principal tema de conversa entre empresários numa reunião de negócios ou motivo de discussão entre senhoras finas num encontro de canasta. No entanto, se alguém “ousar” soletrar a palavra peido, não fará mais do que falar de algo banal e intrínseco à própria natureza humana.

quinta-feira, 24 de maio de 2007

Balconite Aguda

Entra pela porta de uma repartição pública um senhor idoso de aspecto humilde dirigindo-se para o local do balcão onde se encontra uma senhora sentada. Esperou alguns momentos e, perante o estado inerte da suposta anfitriã, o senhor perguntou timidamente:
- Olhe, se fazia o fav... (antes de conseguir terminar a frase é elucidado)
- Não vê que eu estou ocupada!!!
O senhor baixou a cabeça e continuou a apertar o boné entre as duas mãos, acatando pacifica e servilmente a ordem da simpática recepcionista. Ao fim de alguns minutos a doce criatura decidiu interromper (a breve trecho) a leitura da página dos conselhos íntimos da revista “Maria” e dirigiu-se educadamente à pessoa de aspecto humilde e desamparado que se encontrava do outro lado do balcão:
-O que é quer!
-Bom, eu ...bom eu, queria vêr se era possível...
-Mas que folha é essa? Então você não sabe que isso não chega? tem de me preencher 2 requerimentos, arranjar 3 certidões, reconhecer 4 assinaturas e decorar em 5 minutos o Despacho Normativo nº 134/91 do Diário da República!
-Mas minha senhora eu...só vim aqui...
-Será que eu falo Chinês? Você não me ouviu? É que eu tenho mais que fazer do que estar aqui a ouvi-lo (afinal ainda só ia na décima terceira página da revista) !
-É que o meu filho pediu-me que eu viesse aqui só para entregar esta folha. Ele disse que isto chegava e eu pensei...
-Já lhe disse o que tem a fazer e não vou voltar a repetir!
-Mas eu não sei ler nem escrever! confessa o senhor envergonhado
-E que culpa é que eu tenho se não foi à escola!
O senhor pediu desculpas e saiu do estabelecimento tal como entrou, apenas um pouco mais confuso e humilhado.
A senhora que o recebeu aparentava ser uma pessoa normal: Tinha um marido de quem gostava, três magníficos filhos, dois cães e um periquito, uma casa hipotecada ao banco e umas pantufas compradas no mercado. No conforto do seu lar era uma pessoa agradável, divertida, protectora, trabalhadora e atenciosa. Mas as pessoas que a rodeavam não conheciam a sua dupla personalidade. A outra face obscura apenas se manifestava perante aquele objecto de madeira irresistível : o balcão da sua repartição!
Quando inspirava o pó acumulado sobre balcão dava-se a total transfiguração: as pupilas tilintavam, os joelhos tremiam, a voz tornava-se mais firme e grave, a altura dos seus saltos aumentava e o seu sorriso transformava-se numas “trombas” de efeito prolongado. Sentia uma sensação de liberdade mas acima de tudo sentia-se a melhor “espezinhadora” do mundo. Não precisava de fazer a comida sem esturricar, de lavar meias mal cheirosas ou mudar as fraldas do filho mais novo às 4 da manhã. Atrás daquele balcão era ela quem definia as tarefas, quem estipulava o tempo, quem decidia quais os clientes que mereciam ser atendidos e quais as revistas que mais a enriqueceriam culturalmente durante o expediente.
O utente introvertido, que espera pela sua vez, se dirige com uma voz sumida à sua pessoa, e começa o diálogo com um acanhado “por favôr” representa a vítima mais apetecida desta ditadora do balcão. O processo de humilhação passa por duas etapas fundamentais: 1ª etapa “distanciamento punitivo”– agora ficas aí à espera qu’é p’ráprenderes a não seres tão educadinho! Esta etapa demora geralmente entre 5 e 28 minutos ; 2ª etapa “o golpe de mestre” – agora eu estou aqui do lado de dentro do meu balcão e tu aí desse lado ; eu é que tenho as minutas, as esferográficas, os carimbos, os selos e as máquinas de escrever, portanto quem manda aqui sou eu! Esta etapa representa o tempo que a vítima demora a conseguir articular a primeira frase sem interrupções ou a engolir em “seco” pela vigésima quinta vez.
Geralmente o tempo que duram as duas etapas referidas poderá ser reduzido drasticamente caso o utente se apresente da mesma forma como pede uma imperial na tasca da esquina. A sua chegada é anunciada com um vigoroso murro no balcão entoando as suas exigências com voz de tenor embriagado, capaz de ferir os tímpanos à dactilógrafa da sala ao lado. Ao invés do “se faz favor” utiliza a frase bem mais contundente e apelativa “eu quero” . Nem ela resiste a tanto charme... Este é o utente que consegue deitar por terra o seu letal olhar, as palavras incisivas, os gestos reprovadores. Felizmente para ela, estes utentes, que fazem perigar a demonstração da sua força bélica, não são muito frequentes.
Atendeu o último chato do dia e com ele o seu trabalho chegava mais uma vez ao fim. Á medida que se afasta do balcão todas as características genuínas da sua personalidade iam recuperando as funções e quando chegou a casa já conseguia esboçar o seu primeiro sorriso.
Á noite, deitada no seu travesseiro de penas e a dormir profundamente, não conseguia eliminar dos seus sonhos a sequência de letras : olhe, se faz favor....

O Ás do volante


Depois de dar à chave pela 8ª vez consecutiva e de não conseguir ouvir o característico ruído produzido pela (super)potência do motor do seu citroen AX, Ediberto percebeu que aquele companheiro de 4 rodas decidira uma vez mais fazer greve ao deslocamento. Apesar da provecta idade, o seu carro dispunha de sensores totalmente inovadores para avaliar a urgência da situação: se o seu dono abria a porta bruscamente, sinal que estava atrasado para o emprego e os riscos de o maltratar serem maiores, accionava o mecanismo de auto-protecção, imobilizando-se de imediato.
Mas o esperto do Ediberto que já conhecia a má disposição matinal do seu veículo, na noite anterior, tomou as medidas necessárias para o demover da inércia, colocando-o numa descida. A aceleração intensa que realizou depois de conseguir pôr o seu carro em funcionamento servia para o penitenciar e, simultaneamente comunicar aos 11 vizinhos, que até aí dormiam profundamente, que o habitante do 3º esquerdo tinha saído para o emprego.
No primeiro cruzamento que encontrou não reparou no sinal hexagonal vermelho com quatro letras escritas, nem tão pouco na outra viatura que circulava na via para onde entrou e que obrigou a travar bruscamente. Incomodado com barulho emanado pelo (legítimo) buzinar do carro atrás do seu, ainda por cima vermelho (a cor rival do clube do seu coração) , Ediberto não é de modas e acena-lhe com todos os dedos flectidos excepto um, como que a dizer:
-Ó palerma, tu não sabias comprar um carro verde com uma buzina que entoasse música “Rave”?
Pode-se considerar que Ediberto encarna o verdadeiro artista do volante; sem grande esforço e circulando a alta velocidade consegue fazer passar o carro entre uma moto, um tractor, duas bicicletas e uma mãe empurrando o carrinho de bébé, sem ter de desligar o telemóvel.
O único contratempo que pode retardar aquele exímio condutor são as...filas. A sequência de carcaças metálicas que estava à sua frente e o obrigam a pressionar o bolorento pedal central representa uma penitência difícil de superar. Para amenizar o sofrimento da terrível espera tem ao seu dispor 2 métodos recreativos: ou se entretêm a observar as moçoilas que passam acompanhando a análise com alguns piropos picantes, ou diverte-se pressionando a buzina, tentando estabelecer, em código morse, laços de amizade com o condutor da frente.
Acaba por fim o congestionamento e inicia-se a aceleração triunfante rumo ao local de trabalho. Quando se prepara para explorar todas as potencialidades do seu carro, encontrou mais um obstáculo à sua progressão: veículo a circular a 50 Km/h...50 km/h? mas ninguém anda a 50km/h ainda mais dentro duma localidade!?
- Ó “abrolho”, tira essa lata da frente! Gritava Ediberto enfurecido.
Escusado será dizer que a “lata” era um BMW último modelo com ar condicionado, jantes de liga leve e air bag para todos os ocupantes (inclusive o gato) , e o “abrolho” do condutor era um senhor descontraído que a avaliar pelo aspecto fino deveria ter a carteira cheia de cartões de crédito.
Quando Ediberto consegue ultrapassar em plena curva o seu opositor, olhou para ele e liberta um reparo cheio de intimidade:
- Ouve lá ó Amélinha, recebeste a carta nos pacotes da farinha “maizena”? Vai mas é p’ra casa lavar a roupa!
Depois de se desembaraçar de mais um “empecilho” prossegue viagem e começa a antecipar o seu momento de glória. Orienta o espelho retrovisor para o bigode, penteia a longa cabeleira, coloca os óculos escuros, retira a cera dos ouvidos com a unha, ensaia o sorriso mais cinematográfico, liga a aparelhagem sonora nos 150 decibéis e, com a mão pendente fora da janela, segura o cigarro aceso. Quando passa a 8 Km/h em frente da Escola Secundária o seu Ego fervilha de confiança; sente-se o Humphrey Bogart nos seus melhores dias. Como um verdadeiro macho latino, não diz nenhuma palavra, apenas lança um olhar aglutinador e pedófilo pelos 17 melhores “collants” que se encontram ao portão daquele estabelecimento de ensino. Para as raparigas menos atentas à sua inebriante passagem, Ediberto oferece como despedida uma das suas sonoras e olfactivas acelerações, deixando de recordação metade do rastro dos pneus “mabor” no alcatrão.
As poucas centenas de metros que faltavam para o emprego, eram preenchidas com a retrospectiva da acção de galanteio elaborado que tinha acabado de produzir junto do público feminino. Os pensamentos inibiam de tal maneira os actos que Ediberto apenas se apercebeu do senhor idoso que passava lentamente na passadeira, já quase encostado à sua bengala. Mas como a perícia suplantava qualquer sobressalto, travou bruscamente e evitou o impacto eminente. Perante a queda do senhor, Ediberto colocou a cabeça fora da janela e, num acto de solidariedade gratuita prontificou-se de imediato a ajudar:
-Ó velhadas, não sabes andar com mais atenção? Tira esses ossos caquéticos de cima da passadeira senão passo-te por cima!
Finalmente chega ao local de trabalho e, quando questionado pelos colegas sobre o facto de ter chegado atrasado, Ediberto com um ar visivelmente agastado responde:
-O trânsito na cidade está impossível ! Um gajo encontra cada maluco ao volante...

quarta-feira, 23 de maio de 2007

Rosto Pálido tem um novo LCD


A minha adolescência foi marcada de forma determinante pelos livros do Tex. Chegava da escola extenuado, arranjava as minhas 4 sandes com tulicreme e punha-me no quarto a ler as histórias do meu herói predilecto, aproveitando para encher o livro com as migalhas que iriam cair no colo da minha irmã quando os abrisse de seguida. Partilho esta enternecedora história de infância para perceberem que a minha personalidade foi, em grande medida, moldada pelos duelos fratricidas entre índios e cowboys nos tempos do faroeste que se traduziam posteriormente, nos duelos fratricidas entre eu e a minha irmã, porque ela não gostava lá muito das migalhas dentro do livro. E Foi, com esta imagem dos pistoleiros bons a dominarem os índios quase sempre maus, que eu cresci. Raras eram as histórias em que os índios, representavam o bem, salvavam velhinhas, ajudavam a montar os acampamentos dos colonos e comiam xupa-xupas daqueles que pintam a língua de verde. Em quase todas elas, os Peles Vermelhas (até lhes atribuíram uma cor sanguinária para realçar a sua malvadez) atiravam flechas a fazendeiros indefesos, arrancavam escalpes a criancinhas loiras e ainda por cima pintavam a cara e grunhiam em cima de cavalos sem selas. Tudo isto para que o Grande Tex, pudesse salvar os fazendeiros, as criancinhas loiras, mandasse umas murraças nas pinturas foleiras dos peles vermelhas e nós continuássemos radiantes a encher os livros com migalhas. No meio de todo este endeusamento do pistoleiro americano, surgiu o Gerónimo para nos baralhar as voltas. Gerónimo, grande chefe apache, revoltou-se contra o Rosto Pálido porque este queria ficar com as suas terras e vá de lhe dar umas coças valentes. Aí um tipo fica baralhado. Os cowboys não deveriam levar tareias dos índios. Mas se os tipos ocuparam as suas terras queriam o quê? E a partir daí foi-se dando a minha viragem enquanto admirador do Cowboy bom que dá enxertos nos índios maus, para admirador do índio bom que dá enxertos nos cowboys maus.
Tudo isto vem a propósito do dia em que tomei consciência da magnitude do imposto(?) que irei ter de pagar pela minha casa e pelo meu terreno a uns tipos que não me são nada. Ao perceber do absurdo que é pagar a outros, algo que é… meu(?), apeteceu-me fazer um arco de madeira, flechas com penas de ganso, montar-me no meu…cão…, e passar ao ataque da revolta. Tenho a impressão que, com algum jeito, até conseguiria fazer um grito parecido com o dos índios com a mão na boca sem parecer um bocado amaricado. Gerónimo como eu te percebo! Volta Cochise estás perdoado!... Este “Rosto Pálido” está cada vez mais pálido de pagar, até o que já é seu. Há momentos em que me apetecia ser índio. A primeira grande vantagem é não ter de pagar imposto, bom, exceptuando as peles de urso ao futuro sogro pela mão da sua futura esposa. Mas sobretudo não tinha dinheiro para gastar, nem nada em que gastar dinheiro. Não sabia do último modelo do hi-pod nem tão pouco do portátil com mais gigas e dual band e sei lá mais o quê; os últimos sapatos da timberland que são caros como camandro mas também muito engraçados não rivalizariam com os mocassins; não tinha problemas de obesidade, porque tinha de perseguir e apanhar os búfalos e não levar uma cornada deles; não tinha carro para mudar o óleo ou as pastilhas; e era dono das terras…até vir o camelo do “rosto pálido” dizer que ou pagava imposto ou teria de sair. E assim estamos nós na época do nosso grande chefe Sócrates que taxa tudo o que mexe e o que não mexe; taxa tudo o que é dele e o que é nosso.
O cartoon de Grezegorz Szumovski, vencedor de um prémio no Porto, retrata um indígena segurando um arco a lançar um telemóvel que se encontra agarrado à sua flecha. Nele se pode ver o sorriso do índio quando estica a corda atrás e se prepara para mandar o pobre do telemóvel para as malvas. E esse sorriso é sintomático de que ele está feliz. A minha interpretação para o seu pensamento será: “é melhor mandar esta coisa com botões para longe não vá ela explodir nas minhas mãos e depois já não posso caçar javalis”. Obviamente que para os críticos, a imagem traduz algo bem mais rebuscado como a própria evolução do homem, a imagem da globalização. Um homem que nada tinha, evolui para um homem que toda a tecnologia tem. A tecnologia que lhe iria permitir ter mais tempo livre (?) e com isso maior qualidade de vida(?). Como se deve estar a rir Gerónimo da triste figura do rosto pálido. O tal que lhe retirou as terras para lá se estabelecer, passa os dias em frente a umas caixas com imagens esquisitas e a fazer contas a todas as contas que terá de pagar a outros rostos pálidos. É esta a sina do rosto pálido dos tempos modernos, montado no seu cavalo, tentando escapar a umas flechadas atiradas por outros da sua raça, à espera do momento em que cai desamparado no chão e ouve: Rosto Pálido Morde o Pó!
Agora chega de escrita, porque aqui o rosto pálido vai ali ver umas imagens numa outra caixa esquisita que não tem botões para escrever, sempre à espera que a mesma avarie, para o rosto pálido ter uma boa desculpa para comprar o tal LCD que dizem ser uma coisa em grande….

segunda-feira, 21 de maio de 2007

Curto-circuito

Tenho de confessar que me assustei quando ouvi repetidamente o termo “Choque Tecnológico” como a grande prioridade do governo. O tecnológico até soa bem, lembra-me aqueles filmes do Espaço 1999, da Guerra das Estrelas ou do Matrix. Naves espaciais com homens orelhudos, lutas com espadas florescentes e tipos contorcionistas a fugirem de balas que voam em câmara lenta. O que me custa perceber é de onde é que se desencantou o termo “choque” como uma proposta dinamizadora e estimulante. Será que nunca apanharam uma descarga eléctrica na vida, para saber do desagradável que é um tipo ficar ali em tremideira à espera que alguém desligue a corrente? Se choque fosse algo de bom, não dizíamos aos nossos filhos: Ó Zé tira lá os dedos da tomada senão ainda apanhas um choque e duas palmadas! Assim de repente não me lembro de nenhum choque divertido. Temos o exemplo do choque térmico sentido pelo indivíduo que está 2 horas a comer camarões tigre à torreira do sol e depois da última imperial resolve dar um mergulho nas águas gélidas da nossa costa. Fica logo com azia e cheio de vontade de voltar à toalha e às gambas. O choque entre um carro e um eucalipto adulto. Os bombeiros a desencarcerar os ocupantes do veículo sinistrado dizem para um deles: Valente choque, eim? Vá, agora deixe-se de fitas e corra até à ambulância que é p’rá gente o levar ao hospital tratar desses ossos fracturados! Será também ridículo imaginarmos os prisioneiros das cadeias em Bagdade a levarem com uns choques nos costázios e, enquanto se contorcem vigorosamente, os guardas pensam: - Pára lá com essas risadas para aplicarmos mais uma descarga de volts nesse corpinho. Mas o Primeiro Ministro percebeu que meteu o pé na argola. Descobriu que a palavra “choque” soava mal a qualquer indivíduo lúcido e resolveu trocá-la por “Plano”. Assim, se repararem, ultimamente fala-se apenas em “Plano Tecnológico”; eliminou-se a sensação de “fronha contra o inamovível eucalipto” e passou-se a um termo mais simpático, menos abrupto. No “plano” ficamos com a ideia que existiu um estudo prévio; não é só meia bola e força. O “plano” é algo para ser ir fazendo, pode ser alterado ao longo do tempo, ou não ser feito de todo; não é como o “choque” que se apanha e pronto. E chegou-se assim ao “plano tecnológico”; a prioridade que ninguém percebe bem o que é, mas que todos apoiam por se lembrarem com saudosismo do mundo ficcionado do Mr Spock na nave “Enterprise” a dar palmadinhas nas costas ao capitão Kirk. Explicou-me um amigo mais iluminado que o plano tecnológico pretende, entre outras coisas, ligar todas as escolas entre si via Internet, para os alunos terem assim um acesso mais rápido e fácil à informação. Depois vi o engenheiro Sócrates dentro de uma Sala de Aula Virtual todo contente a explicar como o aluno poderia ver no ecrã gigante toda a informação de que precisava. São destas medidas de fundo que o ensino precisa; cada aluno com o seu computador conseguindo aceder a toda a informação fundamental ao seu desenvolvimento. - Ó stôr, pode vir aqui explicar como se chega à página das “Loiras aos saltos”! Disseram-me que nesse site se aprende com facilidade as leis da Física e os conceitos de anatomia aplicada às…loiras! Mas a sala de aula virtual, espelha bem o ensino que nos pretendem impingir daqui a pouco tempo…um ensino integralmente virtual, onde o professor está ali para ir buscar uns sumos ao bar, apanhar pastilhas do chão e eventualmente, com sorte, assumir um papel mais activo a matar uma aranha que passe por cima do teclado. Mas será que estes tipos são mesmo idiotas ou acreditam sinceramente nisto? Desculpem-me lá mas isto só vai com linguagem de choque. Se colocarmos um imbecil em frente a um computador com acesso a toda a informação disponível na Internet, ao fim de um ano ele passará para um estádio de desenvolvimento humano superior? Não. E sabem porquê? Porque para o desenvolvimento humano efectivo, é necessário contacto humano. Contacto com alguém que nos diga sem ecrã que o pacote de leite chocolatado não se atira para o chão; alguém que nos puna quando não somos responsáveis; que nos recompense quando somos solidários; alguém que seja exigente e retire de nós o que pensamos não ter para dar; alguém que nos dê uma reprimenda quando faltamos ao respeito a outro. É disto que a Educação trata e é isso que as escolas estão progressivamente a perder, porque todos esses indivíduos que enchem a boca com planos tecnológicos, que decidem sobre o funcionamento das escolas sem as conhecerem, acham que o que faz falta na escola actual não é a disciplina, o trabalho, a exigência, o tempo para o convívio, mas sobretudo um acesso facilitado à informação, seja ela qual for. Espero melhor para os meus filhos; espero que tenham aulas interessantes dadas por professores motivados e competentes; espero que lhes seja incutido o valor do trabalho como forma de singrar na vida; espero que não sejam enclausurados durante todo o dia numa sala repleta de computadores; espero que possam gritar de vez em quando “Feriado! Vamos jogar à bola!” quando o professor não vem; espero que sejam punidos quando se portarem mal e elogiados quando fizerem bem. Pelo rumo que isto está a tomar, temo que a sua geração possa ficar conhecida como a geração dos trabalhadores virtuais, composta por indivíduos fantásticos na manipulação do teclado. O único problema do ensino cibernético será se, por qualquer imponderável, a luz for abaixo.