sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Fadinha dos Dentes



O meu filho ainda acredita na Fadinha dos Dentes. Acredita piamente e sem reservas. Acha que depois de ser ver privado da dentição, deverá haver alguma alma que o possa ressarcir de tão traumático dano. O dente cai, coloca-o debaixo da almofada e no outro dia o milagre da transformação acontece: o incisivo ensanguentado dá lugar a uma saqueta de cartas Yu-Gi-Oh. Desta vez a coisa não se deu bem assim. A Fadinha teve alguma dificuldade em descobrir as cartas com nome oriental e foi adiando a magia. Todos os dias, o miúdo espreitava para debaixo do travesseiro e nada. A Fada tinha-se esquecido do seu pedido. Expliquei-lhe que talvez não conseguisse encontrar essas cartas e ele, num acto desesperado, reescreveu o seu pedido dizendo “Querida fadinha, se não arranjares as cartas Yu-Gi-Oh, podes meter debaixo da almofada outra coisita qualquer…”. Aquilo emocionou-me. Revelou que o miúdo nem é muito exigente; só queria que o milagre acontecesse, fosse com cartas ou com …uma coisita qualquer.
Estava a ver na televisão um debate sobre a dívida pública. Parece que o país pede por hora ao Banco Central Europeu qualquer coisa como 2,5 milhões de euros, o que dará a arredondada quantia de 60 milhões de euros por dia. Toda a malta ficou admirada com esta dívida brutal e eu não percebo bem porquê. Nós somos o paradigma do país do fiado. Qualquer portuga que se preze tem de dever alguma coisa a alguém. A casa, o carro, a mercearia, as jóias, o plasma, a máquina fotográfica. Assentamos no princípio do “Leve já e pague depois”. O grande drama é quando já se levou e não se consegue pagar. Existem municípios portugueses que se orgulham da obra que empreenderam e depois devem 6.000 milhões de euros a… alguém. E aqui é que entra a história da Fadinha do Dentes. A crença de que surgirá uma criatura mágica que tratará de pagar o que nós devemos. Ao comum cidadão essa crença cairá por terra quando deixar de pagar a prestação e o banco lhe ficar com a casa. Já os grandes devedores, alimentaram a ideia de que alguma fadinha aparecerá algum dia para pagar as dívidas obscenas que foram contraindo. Essa crença também assalta os credores que acreditam receber o dinheiro antes da sua empresa ir à falência. “Epá, hoje consegui um negócio fabuloso com a Câmara Municipal! Vou fornecer gasolina aos tipos nos próximos 20 anos!”…”Mas os gajos já te pagaram os 100.000 euros que te devem?”… ”Não, mas acredito que brevemente venha uma fadinha e mos ponha à noite debaixo do travesseiro”. A ideia de que alguém pagará a nossa dívida é algo que me deixa também com uma certa esperança. Fui no outro dia às compras a um hipermercado e depois do valor que me pediram, tive uma enorme vontade para dizer que a 6ª senhora da fila é que pagaria a minha conta. E o país funciona agora assim. Gastam-se quantias megalómanas esperando que o último tipo da fila pague. Antigamente existia a ideia peregrina de se fazer obra apenas com o dinheiro que se tinha. Agora faz-se obra à custa do dinheiro que outro tem. A par desta notícia dos 60 milhões de dívida por dia, vem a outra de que já ninguém nos empresta dinheiro a não ser o BCE com juros de 4%, que quererá dizer que a fadinha dos dentes terá de pagar mais 2,4 milhões em juros, por dia. As outras instituições financeiras já adoptaram a personagem do Zé Povinho “Queres fiado? Toma!” . À medida que o país vai ficando cada vez mais desdentado, a fadinha dos dentes tarda em colocar o presente debaixo do travesseiro, mesmo que seja apenas uma coisita qualquer. E já que a fada não aparece o que se faz? Arrancam-se os molares sem anestesia…é p’ra desgraça é p’rá desgraça. Daí a despesa pública ter aumentado 2,7%, mesmo depois de todos os aumentos de impostos, despedimentos e congelamentos de carreiras. É que ainda há muito BMW série 7 para abastecer os ministérios… O tipo sabe que a inflação em 2013 terá de aumentar 4%, quando se descobrir que a Fadinha não existe; o tipo sabe que o país vai dar o berro e nem dinheiro haverá para uma saqueta de cartas Yu-Gi-Oh, e o tipo vem dizer “Não é necessário entrar em alarmismos!...”. A minha fadinha dos dentes é o FMI, para vir mandar um pontapé nos dentes do tipo, para ver se o tipo se cala, que já não há pachorra.
O me deixa mais transtornado é que os últimos tipos da fila da caixa, aqueles que terão de pagar todas as imbecilidades que toda esta corja política cometeu ao longo dos anos, poderão ser os meus filhos. A minha quota parte de responsabilidade, foi ter alimentado a história da fadinha dos dentes, colocando debaixo do travesseiro uma saqueta de cartas Yu-Gi-Oh. O Miúdo escreveu um bilhete que colocou na mesinha de cabeceira no dia seguinte: “Obrigado pelo presente, Fadinha dos Dentes”. O Meu filho tem 7 anos...

terça-feira, 31 de agosto de 2010

A crise da meia-idade

Imagem retirada da net


Estava aqui a pensar na crise da meia-idade que ataca o homem numa determinada altura da sua vida, levando-o a sair de casa à procura de tabaco e encontrar amantes 20 anos mais novas do que ele. O macho começa a temer pelas suas reservas de testosterona e decide desbaratá-las antes que seja tarde de mais. É altura para mandar tudo às malvas e enfiar-se na discoteca até às tantas, percorrer todas as estâncias de Ski dos Alpes, viajar pelas praias do Brasil mais movimentadas. À primeira vista, um tipo fica baralhado com a classificação de “crise”…(?). Numa crise vulgar, um tipo desce sempre para um patamar inferior: na crise financeira um tipo perde dinheiro; na crise da vesícula um tipo tem umas dores do catano; na crise empresarial um individuo perde o seu emprego; na crise da meia-idade um homem ganha o que sonhava ter com 20 anos : uma mulher de 25 e uma conta bancária de 50. Já ouvi alguém dizer que em linguagem informática representa uma espécie de up-grade; uma troca entre o velho e gasto sistema operativo por um sistema cheio de virtudes e energia renovada. Não sei bem aos quantos anos aparece a meia-idade. Fala-se dos 50, mas isso são os inebriados optimistas que esperam chegar aos 100 a comer todos os dias carradas de emulsionantes, conservantes e pesticidas. Basicamente, corresponde à idade em que o homem se perde na comparação das coxas com celulite e as mamas descaídas da mulher que tem em casa, com as coxas firmes e os bustos espetados das jovens que passam na rua. Aquilo é de mais para o seu sistema hormonal, apesar de arranjar justificações no desgaste emocional do casamento, na falta de diálogo, nas rotinas diárias, nas pulgas dos cães, na educação dos filhos. O que o cinquentão quer mesmo, é pôr as mãos noutra mulher que não a sua. Existem mesmo indivíduos que prolongam a crise da meia –idade, até à idade geriátrica. Estava a folhear uma revista e olhei para a imagem de um tipo com 75 anos agarrado a uma mulher de 20. Quando diziam que não se tratava de avô e neta, a imagem incomodou-me. “Mas incomodou-te porquê?” perguntarão alguns. “O tipo é que a sabe toda! A mulher tem tudo no sítio. Já viste bem aquele par de pernas?” . As pernas de facto não eram desprezíveis, a minha dúvida é o que pensará uma mulher com umas pernas daquelas, entrelaçadas num avô daqueles?”. Depois de uma primeira análise à luz do pensamento masculino do “Estes gajos é que são espertos”, penso um pouco melhor e chego à conclusão de que não é inteligente um tipo querer retroceder a uma idade pela qual já passou há muitos anos, quando já não se tem idade para isso. Consciente dos atributos de uma mulher com os mamilos a apontar fulminantes para as nossas retinas, continuo a preferir o invólucro usado da minha mulher. Eu sei que não é muito lógico, mas com a celulite nas pernas, também ela tem a memória dos tempos em que eu tinha os meus vigorosos vinte anos. Ela ainda me atura, ainda suporta o mau hálito matinal, a rabugice nocturna, as bufas malcheirosas, as meias desarrumadas, as adiposidades abdominais, porque ainda se lembra de mim dos tempos em que eu encantaria qualquer mulher de 50 anos com crise de meia-idade. Uma miúda que se deixa caçar por um velhote, conhecê-lo-á sempre com mau hálito matinal, com artroses nos joelhos, com pêlos nas orelhas, com a prótese dentária a boiar no copo da mesa de cabeceira. Nunca poderá dizer: “Lembras-te daquele mortal com pirueta que deste para dentro da piscina, antes de me atacares debaixo de água?”. Mas as mulheres mais jovens têm o pêlo na venta, não têm enxaquecas na hora H, não é necessário um tipo humilhar-se para conseguir dar azo em pleno à sua testosterona. Mas como é que um tipo consegue libertar o seu tigre assanhado sabendo que aquela miúda poderia ser sua filha? Para além desta sensação de pedofilia incestuosa implícita, também é a partir dos 50 anos que um homem começa a ir aos médicos. E quem é que o acompanha às consultas de urologia; a quem é que se queixa da crise hemorroidal; quem é que lhe lembra da toma do remédio para a tensão? O encantamento da jovem conquista diluir-se-ia à primeira pedra na vesícula, a não ser que conseguíssemos pagar o seu tratamento psicológico nos shoppings das redondezas.
Não sei se cheguei já à meia-idade e se a crise da mamoca arrebitada está para se abater sobre a minha retina. De qualquer maneira estou na defensiva até porque sou um tipo curioso e gostaria de saber como eu e a minha mulher nos conseguiremos suportar durante mais uns anitos com a sanidade intacta. Existirão momentos em que talvez possa ser necessário recorrer a alguns truques da juventude. Hoje fui à prancha exibir o meu mortal com pirueta. Caí um pouco torto e acabei no centro de saúde a levar um anti-inflamatório nas nalgas. Quem me segurou na mãozinha?.... Ninguém. Qu' é para a próxima não te armares em puto de 20 anos...

O Bandido "Estrela "


Deu-se finalmente a viragem que todos ansiávamos na dinâmica da criminalidade. Até aqui, alguns de nós tinham alguma dificuldade em aceitar a impunidade dos actos criminosos. Tínhamos a exótica ideia de que se um tipo rouba, incendeia, espanca ou mata, deveria ir para a choldra. Nada mais errado. Começam a circular histórias comovedoras da outra faceta da bandidagem que nos faz mudar de opinião. O enternecedor relato do menino que com os primos pegou fogo a uma mata só para ver os helicópteros da televisão a chegar. A avó da criança dizia que “são crianças inocentes que devemos perdoar e ensinar melhor…”. E lá estava a fotografia do miúdo num jornal diário, exibindo o isqueiro com que mandou fogo aos pinheiros, como se posasse para uma revista da especialidade “Fogos nas Coutadas”. O cachopo não estava era à espera que, com os bombeiros e os helicópteros de televisão, também viriam os repórteres do jornal à sua procura. Ao invés de uns dias de trabalho comunitário, viria um dia de intensa entrevista para que contasse a todos a sua habilidade de mandar fogo aos hectares de pinhal. Eis que aparece novamente o “emplastro” destes cenários, o Psicólogo criminal a defender que “melhor do que reprimir há que educar”. E viva a educação sem repressão! Vamos ouvir mais um bocadinho o psicólogo… “há que educar para a cidadania…explicar que um simples fósforo pode destruir casa e florestas…” algo que uma criança de 11 anos desconhecia de todo; consta-se mesmo que confundiu o fósforo com um violino e que se preparava para produzir uma melodia musical. Não podes mandar fogo ao pinhal, menino. Tens de saber que não é uma atitude correcta… “E atão com’é ca gente chama cá os helicótros???”. A fotografia no jornal é que já ninguém lha tira, até porque representa um registo fidedigno da sua heróica acção que pode mostrar orgulhosamente aos amigos ou colar na parede do quarto junto ao poster do Simão Sabrosa.
Num outro jornal diário, a descrição das aventuras dos carteiristas de Lisboa. Estão identificados 1010 gatunos, que todos os dias ganham a vida a meter as mãos nos bolsos dos turistas. Os heróis têm nomes sugestivos como “Zé do Porto”, “Aníbal dos transportes”, “Cara de Cão” ou “Treinador”. Quase todos já foram apanhados com a mão na botija, mas são sempre soltos porque não conseguem gamar mais do que cem euros de cada vez. Os turistas estão cada vez mais unhas de fome… O conhecido “Zé do Porto” rouba com o filho, a mulher, o primo e o neto(?). Uma empresa familiar de Carteirismo, Lda. Nos 20 anos de “profissão” e, depois de inúmeras detenções, só teve prisão efectiva uma única vez. Depois de ler o relato da vida destes simpáticos carteiristas, com particular ênfase para “O Barrigas” um velhinho de 70 anos que reparte a sua actividade entre o gamanço da carteira alheia e o furto em lojas de Lisboa, sinto que a minha revolta anti-impunidade está a sofrer transformações. A partir de agora podemos dar azo à sensação “Ocean’s Eleven” que temos dentro de nós. A ideia de que uma quadrilha que rouba bancos e casinos pode ser admirada se a história for contada com algum nível e embelezada com actores como Brad Pitt, Julia Roberts ou George Clooney. Tudo depende da forma como a história é contada. Só é necessário transformar o acontecimento numa história. O acontecimento: “Um idoso tem o dinheiro da reforma na carteira que é roubada por um gatuno na fila do autocarro”. A história do acontecimento é contada: “A habilidade de “Johnny das carteiras” conseguiu subtrair de forma imperceptível todo o dinheiro que um palerma tinha no bolso detrás das calças. Depois desta imaculada abordagem, Johnny consegue embrenhar-se na multidão e fugir como uma astuta raposa.”. São as virtudes do desenvolvimento: Passou-se da imagem do criminoso malandro para a do habilidoso malandro. Aproveitando este embelezamento mediático da bandidagem, já está a ser planeada a rodagem da produção cinematográfica caseira “Porto’s Eleven” que retrata as agruras emocionantes da família “ Zé do Porto”, vividas entre o eléctrico 28, o elevador da Glória e o Rossio. Ainda não conseguiram arranjar todos os protagonistas para completar o elenco de onze bandidos, no entanto, no caso dos sobrinhos do Zé se mostrarem indisponíveis, sempre têm mais 1005 candidatos em lista de espera.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Play Station 2


Centena e meia de reclusos da cadeia de Sintra fizeram greve ao almoço como forma de protesto contra a fraca qualidade da comida, mas sobretudo por não poderem utilizar a playstation 2 (?). Claro que a greve apenas durou uma refeiçãozita porque a larica é muita e a paparoca por muito má que seja, não pode ser desperdiçada longe de corpinhos tão desgastados de tanto trabalho que realizam. Ainda houve um deles que gritou “Vamos fazer como aquele gajo cubano, o Guilhermo Fariñas, e só paramos a greve de fome, quando nos meterem no prato uns bifes de lombo!” . Apanhou logo uma “belinha” no toutiço acompanhada da reprimenda “Cala-te ó palerma que a greve de fome custa comó caneco; fazemos um rápido alarido só para nos fazerem a vontade! ”. Saiu o tal comunicado da indignação por não se poderem divertir aos comandos da Playstation, mas que ficasse claro aquilo não era uma greve de fome, …era só um protesto…zito. A reivindicação é justa. Num país onde apenas muito poucos bandidos conseguem chegar às cadeias, o prémio para tal selecção deveria incluir no mínimo uma jogatana com o FIFA 2009. Senão com que é que a malta passa o tempo? A ver televisão? A traficar heroína? A molestar outros presos? A fazer musculação para arrear nos guardas? Mas esta questão não é inocente; é necessário ler nas entrelinhas. As prisões em Portugal não passam de enormes playstations, que traduzidas para a língua de Camões significam “Estações de Reinação”. Quando gatunos condenados têm margem para exigir brincadeiras virtuais como passatempo, porque não ocupam o tempo com trabalho comunitário, ou estão a brincar com toda a malta que roubaram e assassinaram, ou então já perceberam que a punição que sofreram, é assim uma espécie de chicotada dada pelo palhaço “Choné” com folhas de papel celofane colorido. Aliás, o facto de pedirem a playstation 2 para as cadeias é sintomático. A Play Station 1 , já tinha sido solicitada para munir os tribunais, pois é aí que começa toda a brincadeira. Os duelos entre argumentos esgrimidos pelo Ministério Público e recursos disparados por advogados de defesa da bandidagem como quem lava os dentes, passando pelas liberdades condicionais oferecidas a gatunos por divertidos juízes, representa o que de melhor poderá oferecer um qualquer salão de jogos. A notícia de que morre em Portugal uma mulher por semana vítima de violência doméstica, perpetuada por indivíduos anteriormente identificados como agressores, é um exemplo deste “playground” judicial. A jogatana começa com a permissa “Vamos lá libertar este tipo e apostar em quanto tempo consegue voltar a deitar as mãos à mulher”. Na maioria dos casos ganha o jogo quem vaticinou que a vítima seria esfaqueada ao fim de 5 dias. Mas a riqueza da playstation é que se poderão introduzir na consola, vários tipos de jogos com diferentes variáveis. Assim poder-se-á apostar só no tipo de morte (quem apostar à “paulada” tem um bónus extra na pontuação) ou no tipo de personagens (Bandidos do carjacking; assaltantes de ourivesarias; agressores de polícias). Na berra está o jogo “Romenos em fuga 2010”. A acção consiste em libertar 2 romenos que espancaram um senhor velhinho para lhe roubarem o carro, e depois segui-los para ver em quanto tempo conseguem fugir para o lado de lá da fronteira. Este jogo tem uma nova aplicação que representa o percurso inverso dos gatunos, ou seja, depois terem fugido do país, serão acompanhados uns dias depois, no seu retorno a Portugal, para voltar a gamar outro carro e mandar mais umas traulitadas na cabeça de outra vítima.
Parece que já existe a PlayStation 3 cuja virtude é a de poder ser jogada com comandos sem fios, ou seja, o jogador pode estar a jogar sem ficar emaranhado nos fios e fingir que nem está ligado ao ecrã. Esse tipo de consola tem sido utilizada nas mais altas esferas políticas e empresariais e nem mesmo algumas “escutas”, conseguem emaranhar esses hábeis jogadores.
Já me esquecia dos reclusos da cadeia de Sintra. Adivinham o que lhes terá acontecido? Qualquer director com bom senso e sentido de gestão financeira, estimulava mais protestos de greve às refeições como forma de poupar uns cobres valentes na alimentação dos latagões. Na verdade, os presos conseguiram ser transferidos para outros estabelecimentos prisionais, provavelmente munidos com salas de playstation onde se podem divertir à bruta. A esta hora estará o dissidente cubano Fariñas a contorcer-se de inveja, porque em Portugal, não teria tido necessidade de passar tanta fomeca, para conseguir a libertação dos companheiros.
Neste momento, escondo o recorte de jornal com a notícia dos presos da “PlayStation”, com receio que os meus filhos vejam. Há já algum tempo que me andam a pedir o raio da consola e correria o risco de algum deles me perguntar “Ó pai, será preciso eu ir para a cadeia para conseguir jogar o FIFA 2009?”. Para a cadeia talvez não, mas com o apetite que têm e ao preço a que estão os víveres, bem poderiam avançar com um protesto em forma de jejum…

quinta-feira, 1 de julho de 2010

E da Bioquímica? Ninguém fala?


Depois da Espanha ter mandado um torpedo ao navio cheio de valorosos navegadores portugueses, li na primeira página de um jornal desportivo o desabafo irritado de Cristiano Ronaldo: “Explicar aos portugueses? falem com o Carlos Queiroz!”. Tive de comprar o raio do Jornal para ver se entendia o enigma. Procurei mas não vi nada. Queria perceber o que faltava após o “Explicar aos portugueses?”. Poderia ser “Explicar aos portugueses como ganho 30.000 euros por dia e nem uma habilidadezinha consegui fazer com a bola?” ou então “Explicar aos portugueses como ganho 30.000 por dia e não consigo deixar de abrir a boca para dizer baboseira?” ou ainda “Explicar aos portugueses como as mulheres não me deixam os abdominais em paz mesmo com as baboseiras que eu mando pela boca fora?”…O Carlos Queiroz pode explicar? A não ser que… Cristiano quisesse de facto dizer que Carlos Queiroz deveria “Explicar aos portugueses como o próprio Carlos Queiroz não conseguiu pegar na bola, fintar 5 adversários e meter um chapéu ao Iker Casillas com um pontapé de bicicleta?”. Eu acho que Cristiano Ronaldo até revelou alguma humildade assumindo que não consegue explicar nada daquilo aos portugueses. Só acho que não deveria ter descartado a resposta para as explicações do professor. O que ele deveria ter dito era “Ninguém tem de explicar nada aos portugueses!” . E porquê? Porque se trata apenas de um jogo de futebol, onde existe um vencedor e um vencido. A Espanha jogou melhor do que Portugal, ganhou como toda a malta viu pela televisão e agora os jogadores vão à sua vidinha para as ilhas Seichelles e os portugueses vão levar com mais um aumento do IVA. “Epá mas isto não fica assim! A malta quer explicações! Expliquem-me como o gajo tira o Hugo Almeida que, apesar de não ter feito nenhum remate à baliza, naquele momento iria partir para uma grande exibição?”. E é aqui que começa o problema do futebol português: a necessidade de explicar. E toda a malta explica. Mas não se limita a explicar sem mais nem menos ; explica com bases científicas. Aliás, eu penso que todos os cursos superiores e os menos superiores têm uma pós-graduação incorporada de “Como explicar a táctica da bola no relvado” . Da multiplicidade de comentadores desportivos que opinam sobre as opções de Carlos Queiroz já vi de tudo: políticos, escritores, jornalistas, advogados, antigos jogadores, médicos. Até acho que este fenómeno é salutar. Só tenho pena que não se estenda para outras áreas como a Bioquímica, a Genética, a Engenharia Electrotécnica. Se toda a malta opinasse com o mesmo desembaraço sobre a função metabólica dos componentes celulares, a evolução dos cromossomas ou a automação nos sistemas de energia renovável, o país dava o salto em menos de um fósforo. E porque é que a malta não opina sobre a Bioquímica? Porque não faz ideia do que se trata. E porque é que pode opinar sobre o futebol? Porque acha que faz ideia do que se trata. E a vantagem do futebol é que tem duas componentes: A “científica” e a …”outra”. A “científica” tem a ver com todas as componentes do treino (físico, técnico, táctico, psicológico) e a… “outra” tem a ver com os factores não controláveis, como a bola que bate na barra e não entra, o frango do guarda-redes, o pontapé na canela. A primeira componente pode ser explicada, a segunda não. E o que é que todos os comentadores desportivos fazem? Tentam explicar a segunda, recorrendo a termos associados à primeira: “Eu acho que aquela bola passou por entre as pernas do Ricardo Costa porque claramente o jogador está pouco rotinado na posição de lateral!” . Se lhe perguntarem os 4 princípios do ataque, os efeitos do trabalho pliométrico ou os microciclos de treino, o “entendido” responderia “Porque é que não me perguntam antes a vantagem do 4x3x3?”.
Eu sou um admirador do Professor Carlos Queiroz. Ele sabe que não controla os aspectos não explicáveis e focaliza a atenção nos aspectos do treino que pode controlar. Tem pelo menos 25 anos de formação e trabalho na área do treino desportivo em futebol, os mesmos anos que os comentadores que vimos a “explicar” a táctica, dedicaram às suas áreas profissionais que não o futebol. “O Mourinho é que devia vir para a selecção!” O Inter de Mourinho jogou com 11 dentro da baliza contra o Barcelona, para conseguir passar à fase seguinte sem levar 5 golos! “Grande cérebro!” Queiroz jogou com uma equipa ultra-defensiva contra a Espanha para não apanhar 5 golos? “Grande maricas!” Ambos dominam a componente científica do treino mas são separados por essa “outra” componente do jogo , que alguns lhe chamam sorte ou azar. Se tal como Mourinho, que teve o golo do Costinha contra o Manchester a 30 segundos do fim, Queiroz tivesse a sorte de Danny ter marcado na baliza da Espanha…”Grande Queiroz! Ainda bem que o matunga do Hugo Almeida saiu! Este mister tem de ir para o Barcelona, já!”
Agora expliquem aos portugueses com que ânimo voltamos nós aos afazeres da vida sem a esperança de gritar mais “Gooolo de Portugal”, de continuar sem perceber patavina de Bioquímica e ainda por cima com mais 1% de IVA no galão e na bola de Berlim. Isto é que é azar…

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Brincadeirinhas

A Justiça em Portugal continua a ser um mistério para mim. Já várias vezes escrevi, tentando encontrar uma definição para esta “Coisa” mas nunca cheguei a uma conclusão clara. Fiz várias abordagens, desde a Oftalmológica (estes tipos devem ser ceguinhos), passando pela Psiquiátrica (estes tipos deviam ser internados) ou pela Emocional (estes tipos deviam era levar um enxerto para ver se gostavam). Hoje penso ter conseguido finalmente descobrir o que pára na cabeça de alguns iluminados Juízes quando decidem de forma tão surpreendente sobre casos tão surpreendentes. E para tal apresento mais um caso hilariantemente triste, algo que não é difícil encontrar neste farto baú da “justiça” portuguesa (as aspas estão lá mas é mesmo assim). Aqui vai o relato resumido do caso: Um tipo assassinou uma vizinha ex-Freira e mandou-a para um poço. Roubou-lhe os cartões de crédito, tentou levantar dinheiro com eles e foi apanhado. Confessou o crime perante um juiz de instrução e o seu advogado, telefonou a uma amiga confessando o crime e levou a polícia ao poço para onde tinha atirado a senhora. Culpado. Não…?... Parece que no julgamento, o tipo ficou em silêncio e perante esse facto, o juiz decidiu não o poder culpar pelo crime de assassinato, esquecendo todos os procedimentos anteriores. Não querendo voltar às abordagens Psiquiátrica e Emocional, decidi procurar respostas noutros campos. De início pensei que se tratava de uma discriminação positiva; uma palavra de esperança para todos os mudos deste país. És mudo? Então estás safo da prisão! Podes asfixiar à vontade, gamar à vontade, atirar pessoas a poços à vontade que ninguém te ouve confessar. Mas esta teoria tem a falha da abrangência que se materializa em outra pergunta de contornos similares: Não és mudo? Então faz-te de mudo e estás safo da prisão! Parece que o assassino da vizinha ficou mudo depois de ver o juiz. Penso que esta teoria dos distúrbios da voz precisa de ser melhorada. A minha nova explicação para este absurdo, pende mais para o lado da Justiça “Piadola”. O juiz, um tipo cheio de sentido de humor, está sempre a ver se prega uma rasteira aos seus amigos polícias. No fundo é grande brincalhão. Na escola primária também tínhamos essas brincadeiras giras. Apostávamos ao interessante jogo da “meia hora” e, de meia em meia hora lá andávamos à procura do nosso companheiro de aposta para lhe mandar uma murraça acompanhada pelo grito “Meia hora – Foste apanhado”. Era muito divertido, mas também um pouco doloroso. Estes juízes brincalhões prolongaram o síndrome da “meia hora” até à idade adulta. Então, estão sempre escondidos nas esquinas do direito penal, para a qualquer momento mandar uma murraça no investigador e dizer “Foste apanhado!”. O tipo confessou o crime, levou lá a polícia, tinha os cartões de crédito da vítima, …mas espera aí! No local não haviam vestígios do crime? …Eh,Eh,Eh,…foram apanhados! Quem os bandidos? Não, os palermas dos polícias que não chegaram lá no momento em que o tipo tinha o saco de plástico na cabeça da senhora. Mas não seria porque o assassino limpou tudo cuidadosamente? Não há desculpas, para a próxima têm de prever o crime com mais antecedência! Têm de chegar a casa da vítima umas horas antes, deixar o crime acontecer para depois se poder acusar com mais segurança. Aí sim, pode-se condenar o bandido! A não ser que algum de vocês tropece no cadáver durante a perseguição…Nesse caso sempre se poderia alegar que a vítima foi molestada durante a acção policial(?). Hoje em dia o polícia tem dois trabalhos: Descobrir o assassino e tentar livrar-se da rasteira do juiz. Não necessariamente por esta ordem. A polícia, já colocou a hipótese de contratar discípulos do professor Zandinga para todas as esquadras, como forma de garantir a premonição dos crimes que estão prestes a acontecer. Assim, ao salvaguardar o flagrante delito, não há Juiz brincalhão que resista, a não ser, que a polícia use de força excessiva para prender o bandido. Aí, sempre se poderá alegar que… Foi mais uma vez Apanhado. Quem, o assassino? Não, o Polícia.

terça-feira, 15 de junho de 2010

A trombetada do elefante


Venho aqui lançar a minha palavra de apoio ao objecto mais desconsiderado das últimas semanas: A Vuvuzela. Como todos se apressaram em denegrir tão enigmático instrumento de sopro, eu gostaria de enaltecer algumas das virtudes que fui descobrindo na sua doce sonoridade . E começo logo por uma experiência à qual eu próprio me sujeitei, durante o passado fim-de-semana durante um jogo de Andebol. Sentei-me estrategicamente à frente de um tipo com a tal corneta, para me inteirar das consequências nefastas do objecto bem junto dos meus ouvidos. A experiência foi,…como posso verbalizar,…?...arrebatadora. O som daquele trombone selvagem entrou qual ciclone no meu canal auditivo abanando o tímpano violentamente. Mas esta enriquecedora sensação, só a teve o tímpano do ouvido direito, isto porque junto do ouvido esquerdo estava outra espécie de vuvuzela que libertava um ruído extremamente perturbador e que soava assim: Seu filho da P****TA! Sua ovelha ranhoooosa! Eu vou aí e F***** - te todo! Arranco-te o bigode à dentaaaada! Ladrãããão! E aí eu tive de fazer uma difícil comparação. Preferiria o ruído ciclónico da vuvuzela a contribuir para a minha surdez precoce ou o manancial de baboseiras berradas a esbofetear-me o tímpano? Claramente a primeira opção. Se dessem uma vuvuzela ao senhor do insulto gratuito, ele estaria entretido a soprar na corneta e já não saía asneira. Saía apenas um barulho ensurdecedor. Esta é a primeira grande virtude da vuvuzela; uma espécie de terapia por sobreposição. Um tipo que tem uma dor no joelho, se levar tabefe, fica-lhe só a doer a cara. O Barulho da vuvuzela consegue ofuscar todos os outros ruídos igualmente incomodativos. Viajemos para os estádios de África e oiçamos com atenção. Conseguem ouvir os cânticos pornográficos das claques? Conseguem ouvir os jogadores a chamarem nomes ao árbitro? Conseguem ouvir o treinador a discutir com o fiscal de linha? Conseguem ouvir o homem das pipocas? Não, porque só ouvem vuvuzelas. E só esta última opção é que me deixa triste. O homem das pipocas é o único que deveriam deixar vender o produto à vontade. Poderiam parar de tocar quando esse homem passasse, mas não. Aquele ruído é contínuo; não dá espaço para um “Olha a pipoca queeeentinha!”. E esse é o verdadeiro enigma; Como é que os tipos conseguem aquele som ininterrupto durante todo o jogo? Basta que cada grupo de 100 pessoas sopre naquilo durante 2 minutos que o som se prolonga durante todo o jogo. Não é mal pensado.
O aparecimento da Vuvuzela também tem um cunho cultural de relevo. Os africanos quiseram prestar um tributo ao elefante, aquele animal que foram exterminando ao longo dos anos para lhe sacar o marfim. Enternecedor. E a vuvuzela não é mais do que a vingança servida fria e ruidosa do pobre elefante “Ai tiraram-me o marfim para fazer estatuetas de bibelot, atão toma lá com a cornetada que utilizo para avisar as fêmeas que vai haver regabofe!” E como o som do acasalamento pode chegar longe… Só me custa a entender porque é que a chinfrineira de uma manada de elefantes é similar a um enxame de abelhas(?).
A outra grande virtude da Vuvuzela, é que abre novas perspectivas de negócio. Um comerciante local já vendeu 500 tampões para os ouvidos, para protecção daqueles que não têm afinidade auditiva com o som do paquiderme. Para os outros que não usam protector, os médicos otorrinos estarão à espera para lhes receitarem aparelhos auditivos que os façam distinguir o som de uma elefanta com o cio. Não é por acaso que “vu…vu…zela” tem uma sonoridade que nos lembra as pessoas com maiores desgaste auditivo, que são os avós. Quando a Zélia entra em casa do avô e lhe grita ao ouvido “Ó vô-vô é a Zélia!”…Ããã? Vô-vô- Quê???...
Faço desde já um apelo à proliferação da utilização da vuvuzela a outros palcos mediáticos, onde daria jeito uma contínua cornetada como forma de ofuscar baboseiras. Começava logo pelos debates entre comentadores desportivos, naquela parte da análise do sistema 4x4x …Bruuuuuuuu! No parlamento, quando se iniciasse a intervenção de um líder sobre as grandes opções estraté…Bruuuuuuuuu! No discurso do presidente das duas reformas vitalícias e do ordenado chorudo sobre a repartição dos sacrifi…..Bruuuuuuuuuu! Como pode ser aliviadora, a ruidosa trombetada do Elefante…