sábado, 27 de novembro de 2010

A minha experiência no cilindro nuclear


Tive de fazer uma ressonância magnética. Talvez existisse coisa mais interessante de partilhar com os leitores do que a minha ressonância magnética, mas apeteceu-me. Era isso ou dizer mal da situação financeira do país. Também poderia falar do esfregão amarelo e verde com que lavo a loiça, mas a relevância da ressonância pareceu-me mais adequada. O que se trata é de partilhar a minha primeira experiência dentro daquela máquina utilizada frequentemente por jogadores de futebol de renome sempre que levam uma canelada mais forte na tíbia. Lá arranjei uma mazela, daquelas difíceis de descobrir, mesmo para ter direito a dizer, que tal como o Cristiano Ronaldo, também eu tinha feito uma ressonância magnética. É o óbvio enriquecimento do currículo ortopédico de um tipo. Temos de admitir que o nome é espalhafatoso; impressiona quando se ouve. Tem muito mais impacto do que dizer “Olha fui ali fazer um Raio X!”. Raio X toda a malta faz. Até lembra a visão apurada do Super-Homem. Agora, a tal da ressonância, ainda por cima magnética e nuclear, isso é só para alguns. Parece que aquilo é caro como raio (não o X) , o estado comparticipa um balúrdio, e os médicos, com medo que o estado lhes dê tau-tau, só passam a receita quando nos mandamos para o chão a chorar ou padecemos de convulsões com perda de consciência. Lá fui eu orgulhoso com o ingresso na mão que me dava direito a entrar na magnética experiência. O senhor recebeu-me com a delicadeza duma hospedeira aérea mediante um passageiro da classe executiva. Vê-se logo que isto é outra coisa! Pensei . Só faltam as gambas e os canapés. Isto não é só meia bola e força. Não basta dizer “Encha o peito de ar! agora não respire! E já está”. Na ressonância magnética existem procedimentos a explicar com mais calma. Como se colocar dentro daquele cilindro; quanto tempo demora; até nos dão uma campainha para tocarmos no caso de nos dar uma enorme vontade fisiológica, de pretendermos uma massagem oriental ou de sermos assaltados por um ataque de pânico…qual pânico? Quando o senhor me falou no ataque de pânico eu fiquei de pé atrás, ou seja, com um ataque de pré-pânico. Não percebi como se pode ter pânico nesta executiva experiência. Quando a cama amovível me levou as narinas para dentro do cilindro apertado, aí comecei a perceber. É que o espaço entre o meu proeminente nariz e o plástico nuclear era quase tão próximo como uma chave no buraco da fechadura. “O senhor vai manter os braços por cima da barriga e não se pode mexer durante o exame.” Mesmo que eu quisesse mexer não haveria grande espaço. O exame começa e lá estou eu apertadinho e quietinho a pensar nos filmes de Stephen King(?)… Naquela posição inerte e compactada com os bracinhos cruzados sobre a barriga, só me vinha à cabeça a experiência de um indivíduo enterrado vivo numa urna…nuclear. Mas a experiência fabulosa não ficava por aqui. Começou o ruído; o raio do ruído que me estremecia os tímpanos. Junta-se assim a sensação da urna debaixo da terra, com a terra de betoneiras industriais por cima da cabeça. “Pode fechar os olhos se quiser” dizia-me o atencioso técnico. Querer eu até queria, mas é impossível um tipo dormir com obras no andar de cima. Continuei a aguentar firme sem querer pensar muito na comichão que me poderia dar na ponta do nariz. Parece que a comichão queria aparecer nos meus pensamentos. Não te podes coçar, nem tão pouco levantar a cabeça. Espera que só faltam mais 20 minutos…. A voz do senhor tentava amenizar a comichão que eu não podia ter, mas que só pensava em ter: “Já falta pouco; já cumprimos a primeira parte do exame!” . Mas, mas,…o exame é composto por quantas partes? Tentei entreter-me com outros pensamentos e só me vinha à cabeça a situação financeira do país, sobre a qual não tinha nenhuma vontade de pensar. “Pensa antes na comichão do nariz!”. Mas era tarde demais; já tinha feito o paralelismo daquela sensação de compactação sem poder mexer a pestana nem conseguir dar um murro em ninguém, com a nossa experiência económica. Está um tipo a suar na urna, com o nariz encostado na madeira, acalentando a esperança que nos venham desenterrar e mandam-nos com a chinfrineira da 3ª ponte sobre o Tejo, do novo aeroporto, do FMI. Socooooorro! Tirem-me daqui! cocem-me o nariz! “Já falta pouco!” Isso também dizia o outro tipo, que depois de nos enterrar, já faltava pouco para sairmos dali…;…até já haviam sinais de crescimento económico, de diminuição do desemprego, de que não precisamos da ajuda de alguém competente….
A ressonância finalmente terminou e com ela acabou a coceira na ponta do nariz. “Vê que não custou nada!” dizia o técnico com o seu sorriso. Pus-me a andar dali, à velocidade de quem escapa com vida a uma experiência aterradora.
De futuro, não escreverei mais crónicas com a relevância desta sobre a minha experiência dentro de uma máquina de ressonância magnética. Da próxima, abordarei a importância da acção do esfregão amarelo e verde na erradicação das nódoas de gordura mais entranhadas no pirex. É que há nódoas mesmo difíceis de limpar…

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

A trela da nossa esperança

Imagem retirada da net

Tinha planeado não ligar nenhuma à cimeira da NATO. Achava totalmente desproporcionado, aquele sugadouro de meios numa altura em que toda a malta se debate com falta de…meios. No entanto, num daqueles tempos mortos, dei por mim a assistir à pomposa chegada das “avionetas” dos chefes de estado. E, enquanto uns iam sendo recebidos à chuva por aquele ministro que disse que o TGV era para continuar, outros iam apertando a mão ao Primeiro Ministro e espetando duas beijocas a uma senhora com um vestido de lantejoulas e de farto decote. “E o Obama? Nós queremos é ver o Obama!”. Finalmente lá chegou o Obama dentro do seu Cadillac anti-míssil e José Sócrates correu na sua direcção, qual Branca de Neve ao encontro do seu príncipe encantado. Achei aquilo esquisito. Momentos antes o tipo tinha recebido o Presidente da Albânia com um ténue aperto de mão, como quem recebe um vendedor de enciclopédias, despachando-o célere para os peitos da senhora de lantejoulas. Com o Obama foi diferente; lançou-se nos seus braços sem qualquer tipo de embaraço. “Mas afinal é o Obama…o todo poderoso…Obama o tipo do Yes, We Can”. A rapariga das lantejoulas bem queria deitar a mão ao homem, mas não foi fácil libertá-lo das mãos do outro. Não ouvi o que disseram um ao outro, mas desconfio que entre sorrisos, Obama lançou uma reprimenda ao tipo, por este não ter providenciado um clima mais ameno para a recepção. “Mas ó Senhor presidente, não vê que até lhe fechámos o trânsito na 2ª circular, selámos os caixotes do lixo todos, convocámos toda a polícia de Lisboa e arredores para tirarmos os manifestantes do caminho…”. E os assaltos no Laranjeiro? Que se lixem. Até aumentámos o número de médicos nos hospitais. Para a população? Não, para os chefes de estado, comitivas e manifestantes. Tudo isso valeria a pena para se ouvir o que mais interessava ouvir na cimeira: “O que Obama pensa sobre o nosso país”. Alguém o ouviu dizer alguma coisa sobre nós? Não??? Há que dar tempo ao tempo. Deixem-no instalar, que mais tarde ou mais cedo o homem nos vai tecer largos elogios. Tivemos de esperar algum tempo, para que, durante uma visita ao palácio de Belém, Obama falasse finalmente de Portugal. É agora! Vamos, diz lá alguma coisita agradável, que a malta precisa de elevar a nossa auto-estima. “A minha ligação a Portugal é feita através…” Do quê?... Dos navegadores portugueses? De uma tia avó de Trás-os-Montes? Do Vinho do porto? Do Escritor Saramago? Do investigador Damásio? “…a minha ligação a Portugal é feita através do Bo….”…do… quem?. Alguém me sabe dizer quem é o Bo? Será que queria dizer Bo…lo Rei e engasgou-se com a fava? Ou quereria dizer que Portugal é um país Bo…nito? “ Bo é o meu cão de água de raça portuguesa, o mais recente membro da família.” Acrescentou. Mais nada?...Nem uma palavrinha sobre o nossa deprimente classe política, …o nosso fabuloso bacalhau,….o nosso pujante Sporting… a nossa crise financeira…? Falou-nos do seu cão português e, o que o nosso presidente Cavaco fez?....Abanou radiante o seu sorriso habitual. Eu não sei se fiquei contente ou deprimido. Então o Obama quando pensa em nós, vem-lhe à cabeça o focinho do seu cão gadelhudo. “Epá mas ele estima muito o cão! É sinal que gosta de nós…”. Não sei bem se me agrada. Qualquer dono que se preze tanto faz festinhas no pêlo, como bate com o jornal no rabo depois de um xixi no canto da cómoda. Mas o cão anda sempre pela Casa Branca, é sinal de que tem acesso a uma área onde poucos entram…Também por lá andou a Mónica Lewinski e quase que ia apanhando com o jornal no rabiosque. A imagem do cãozinho a saltar para apanhar a bola de ténis e vir trazer ao dono é tão ternurenta; e às vezes até dá a patinha. É com essa ternura que Obama fala de Portugal ; a ternura de uma bola de ténis lançada ao lago acompanhada por um “busca!”. O abraço magnético de Sócrates a Obama representa essa relação de amizade com o seu melhor amigo. Até lhe ofereceu uma coleira e trela feitas de cortiça portuguesa com uns brilhantes incrustados. A minha esperança em Obama, é que ele use a trela no pescoço certo e na sua plenitude. É que uma trela tanto tem uma função de não deixar fugir, como de puxar o animal e levá-lo para a rua à força. Se o animal não obedecer? Sempre se pode usar o jornal no rabiosque…

domingo, 17 de outubro de 2010

A Arca do José


Os tipos encostaram-me à parede. Estou sem grande vontade de ripostar. Sinto-me amorfo e derrotado. Apontaram-me todas as armas que tinham e dispararam sem clemência ou pudor. Um tiro de 2% de IVA num joelho, uma flechada de 3,5% na goelha, um torpedo de 2% no coração. Estava espalmado contra a parede há algum tempo, com esperança de encontrar uma brecha de fuga e os tipos trataram de comprimir o que restava, com um enorme cilindro. O peso das toneladas achata-me o toráx e impede-me de os chamar de gatunos, incompetentes, corruptos, mentirosos, energúmenos, bandalhos, filhos dum cão perneta. Fiquei afónico; não consigo gritar. Achatado pelo peso da redução do ordenado, dos benefícios fiscais, das comparticipações da saúde, dos aumentos de todos os bens que consumo, do pagamento de tudo o que não deveria ser pago, veio-me à cabeça o dilúvio…?...Pensei que, pior do que aquela besta que me comprime a esperança, só a sensação de afogamento provocada por um dilúvio incontrolável. E foi assim, sem espaço para mexer mais do que os olhinhos, que me lembrei da história bíblica da Arca de Noé: “Deus decidiu destruir o mundo por causa da perversidade humana, mas poupou Noé, o único homem justo da Terra, mandando-o construir uma arca para salvar a sua família e representantes de todos os animais e aves.” Mas,…será possível?..., querem ver?... De princípio também eu não queria acreditar, mas começou a fazer-se luz. O homem decidiu criar o seu próprio dilúvio,…Quem, Deus?...Não, o tal de José. Quem, o pai de Jesus, o carpinteiro?...Não, o “engenheiro” José, aquele das frases “Nada de alarmismos”, “Já começámos a retoma económica”, “Somos o país com maior crescimento da Europa”. Apeteceu-me gritar “Ah, essa besta quadrada!...” mas não consegui por causa da falta de ar; o cilindro não dava espaço de manobra ao meu diafragma. O tal José decidiu brincar a Deus e toma lá com um dilúvio na cachimónia do Zé Povinho por causa da perversidade humana. Sim, porque só um povo perverso e disprovido de discernimento consegue eleger duas vezes o mesmo incompetente para tomar conta de si. Mas José não fica contente com o seu curto papel na história. Ele queria um protagonismo maior do que o de criador de um mero dilúvio. Ele tinha de ficar com os dois papéis principais - o de Deus e o de Noé. Afinal, Noé era o único homem justo, e a ele cabia a tarefa de salvar a família e todas as espécies de animais na terra.
Antes tinha de se certificar que toda aquela malandragem que trabalha para ganhar a vida, ficava bem afogadinha , sem dar por ela. A estratégia passa por dizer-lhes que está um sol radioso, para depois, apanhá-los desprevenidos e mandar-lhes uma enxurrada de impostos que os deixe sem possibilidade de meter o nariz à tona da água. O segundo passo é seleccionar criteriosamente quem serão os ocupantes da Arca. O critério principal passa pela ideia de “O mundo à minha imagem”. Seleccionar todos aqueles que têm habilidades semelhantes à sua. Começa pela família e percebe o quanto a família é grande. São os primos e os tios; os amigos do partido que são como irmãos; os filhos e os primos dos irmãos do partido; os amigos dos partidos oponentes que são como primos …ou tios; os filhos e os primos dos primos dos partidos oponentes; os amigos que foram colocados a chefiar as empresas públicas que são como cunhados; os amigos dos cunhados e os filhos destes que são postos em empresas públicas assim que saem das faculdades com média de 10 valores; os deputados e presidentes de qualquer coisa, que são como primos em 2º grau; os ex-deputados e ex-presidentes que acumulam múltiplas reformas vitalícias à custa dos favores dos primos que deixaram lá a resolver-lhes os assuntos. Depois de esgotar todos os irmãos, primos e tios, vem a outra família, a família por afinidade. Todos os que lhe seguem o exemplo na patranha. Os inteligentes que têm rendimentos milionários e os filhos pertencem ao escalão B nas escolas para não pagar os livros; os que andam de carrinhas BMW e recebem o subsídio de reinserção social. Os que compram bens sem os pagar. Esses são como os irmãos de sangue, que terão lugar garantido na Arca. O problema é que o espaço começa a escassear e a Arca não dá para todos. Ainda faltam os carros de luxo e os animais. Como é José quem manda, embarcam-se 20 Mercedes topo de gama e cortam-se alguns animais. Embarcam estritamente as espécies com as quais lhe dá algum prazer conviver. Entram casais de abutres, hienas, asnos, piranhas, tarântulas, varejas, alforrecas e camelos. Pensamos se a Arca não poderia ter pertencido a outro senhor. É certo que outros tentaram, até desbravaram algum caminho. Poderíamos ter tido a Arca do Mário, do Aníbal, do António, do Durão, mas o José, com a sua mania das grandezas, superou-os a todos. Concretiza um dilúvio a sério e arranja forma de se pirar a tempo com os seus primos, Mercedes e alforrecas. De mestre. Eu é que continuo aqui espalmado entre a parede e o cilindro, sem espaço de manobra para um suspiro. Alimento a mórbida dúvida, se quero um fim por esmagamento ou por afogamento. Como pequena consolação, resta-me a imagem da Arca do José deslocando-se em direcção a um Icebergue algures no Atlântico. Se já aconteceu com o Titanic, quem sabe se….

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Fadinha dos Dentes



O meu filho ainda acredita na Fadinha dos Dentes. Acredita piamente e sem reservas. Acha que depois de ser ver privado da dentição, deverá haver alguma alma que o possa ressarcir de tão traumático dano. O dente cai, coloca-o debaixo da almofada e no outro dia o milagre da transformação acontece: o incisivo ensanguentado dá lugar a uma saqueta de cartas Yu-Gi-Oh. Desta vez a coisa não se deu bem assim. A Fadinha teve alguma dificuldade em descobrir as cartas com nome oriental e foi adiando a magia. Todos os dias, o miúdo espreitava para debaixo do travesseiro e nada. A Fada tinha-se esquecido do seu pedido. Expliquei-lhe que talvez não conseguisse encontrar essas cartas e ele, num acto desesperado, reescreveu o seu pedido dizendo “Querida fadinha, se não arranjares as cartas Yu-Gi-Oh, podes meter debaixo da almofada outra coisita qualquer…”. Aquilo emocionou-me. Revelou que o miúdo nem é muito exigente; só queria que o milagre acontecesse, fosse com cartas ou com …uma coisita qualquer.
Estava a ver na televisão um debate sobre a dívida pública. Parece que o país pede por hora ao Banco Central Europeu qualquer coisa como 2,5 milhões de euros, o que dará a arredondada quantia de 60 milhões de euros por dia. Toda a malta ficou admirada com esta dívida brutal e eu não percebo bem porquê. Nós somos o paradigma do país do fiado. Qualquer portuga que se preze tem de dever alguma coisa a alguém. A casa, o carro, a mercearia, as jóias, o plasma, a máquina fotográfica. Assentamos no princípio do “Leve já e pague depois”. O grande drama é quando já se levou e não se consegue pagar. Existem municípios portugueses que se orgulham da obra que empreenderam e depois devem 6.000 milhões de euros a… alguém. E aqui é que entra a história da Fadinha do Dentes. A crença de que surgirá uma criatura mágica que tratará de pagar o que nós devemos. Ao comum cidadão essa crença cairá por terra quando deixar de pagar a prestação e o banco lhe ficar com a casa. Já os grandes devedores, alimentaram a ideia de que alguma fadinha aparecerá algum dia para pagar as dívidas obscenas que foram contraindo. Essa crença também assalta os credores que acreditam receber o dinheiro antes da sua empresa ir à falência. “Epá, hoje consegui um negócio fabuloso com a Câmara Municipal! Vou fornecer gasolina aos tipos nos próximos 20 anos!”…”Mas os gajos já te pagaram os 100.000 euros que te devem?”… ”Não, mas acredito que brevemente venha uma fadinha e mos ponha à noite debaixo do travesseiro”. A ideia de que alguém pagará a nossa dívida é algo que me deixa também com uma certa esperança. Fui no outro dia às compras a um hipermercado e depois do valor que me pediram, tive uma enorme vontade para dizer que a 6ª senhora da fila é que pagaria a minha conta. E o país funciona agora assim. Gastam-se quantias megalómanas esperando que o último tipo da fila pague. Antigamente existia a ideia peregrina de se fazer obra apenas com o dinheiro que se tinha. Agora faz-se obra à custa do dinheiro que outro tem. A par desta notícia dos 60 milhões de dívida por dia, vem a outra de que já ninguém nos empresta dinheiro a não ser o BCE com juros de 4%, que quererá dizer que a fadinha dos dentes terá de pagar mais 2,4 milhões em juros, por dia. As outras instituições financeiras já adoptaram a personagem do Zé Povinho “Queres fiado? Toma!” . À medida que o país vai ficando cada vez mais desdentado, a fadinha dos dentes tarda em colocar o presente debaixo do travesseiro, mesmo que seja apenas uma coisita qualquer. E já que a fada não aparece o que se faz? Arrancam-se os molares sem anestesia…é p’ra desgraça é p’rá desgraça. Daí a despesa pública ter aumentado 2,7%, mesmo depois de todos os aumentos de impostos, despedimentos e congelamentos de carreiras. É que ainda há muito BMW série 7 para abastecer os ministérios… O tipo sabe que a inflação em 2013 terá de aumentar 4%, quando se descobrir que a Fadinha não existe; o tipo sabe que o país vai dar o berro e nem dinheiro haverá para uma saqueta de cartas Yu-Gi-Oh, e o tipo vem dizer “Não é necessário entrar em alarmismos!...”. A minha fadinha dos dentes é o FMI, para vir mandar um pontapé nos dentes do tipo, para ver se o tipo se cala, que já não há pachorra.
O me deixa mais transtornado é que os últimos tipos da fila da caixa, aqueles que terão de pagar todas as imbecilidades que toda esta corja política cometeu ao longo dos anos, poderão ser os meus filhos. A minha quota parte de responsabilidade, foi ter alimentado a história da fadinha dos dentes, colocando debaixo do travesseiro uma saqueta de cartas Yu-Gi-Oh. O Miúdo escreveu um bilhete que colocou na mesinha de cabeceira no dia seguinte: “Obrigado pelo presente, Fadinha dos Dentes”. O Meu filho tem 7 anos...

terça-feira, 31 de agosto de 2010

A crise da meia-idade

Imagem retirada da net


Estava aqui a pensar na crise da meia-idade que ataca o homem numa determinada altura da sua vida, levando-o a sair de casa à procura de tabaco e encontrar amantes 20 anos mais novas do que ele. O macho começa a temer pelas suas reservas de testosterona e decide desbaratá-las antes que seja tarde de mais. É altura para mandar tudo às malvas e enfiar-se na discoteca até às tantas, percorrer todas as estâncias de Ski dos Alpes, viajar pelas praias do Brasil mais movimentadas. À primeira vista, um tipo fica baralhado com a classificação de “crise”…(?). Numa crise vulgar, um tipo desce sempre para um patamar inferior: na crise financeira um tipo perde dinheiro; na crise da vesícula um tipo tem umas dores do catano; na crise empresarial um individuo perde o seu emprego; na crise da meia-idade um homem ganha o que sonhava ter com 20 anos : uma mulher de 25 e uma conta bancária de 50. Já ouvi alguém dizer que em linguagem informática representa uma espécie de up-grade; uma troca entre o velho e gasto sistema operativo por um sistema cheio de virtudes e energia renovada. Não sei bem aos quantos anos aparece a meia-idade. Fala-se dos 50, mas isso são os inebriados optimistas que esperam chegar aos 100 a comer todos os dias carradas de emulsionantes, conservantes e pesticidas. Basicamente, corresponde à idade em que o homem se perde na comparação das coxas com celulite e as mamas descaídas da mulher que tem em casa, com as coxas firmes e os bustos espetados das jovens que passam na rua. Aquilo é de mais para o seu sistema hormonal, apesar de arranjar justificações no desgaste emocional do casamento, na falta de diálogo, nas rotinas diárias, nas pulgas dos cães, na educação dos filhos. O que o cinquentão quer mesmo, é pôr as mãos noutra mulher que não a sua. Existem mesmo indivíduos que prolongam a crise da meia –idade, até à idade geriátrica. Estava a folhear uma revista e olhei para a imagem de um tipo com 75 anos agarrado a uma mulher de 20. Quando diziam que não se tratava de avô e neta, a imagem incomodou-me. “Mas incomodou-te porquê?” perguntarão alguns. “O tipo é que a sabe toda! A mulher tem tudo no sítio. Já viste bem aquele par de pernas?” . As pernas de facto não eram desprezíveis, a minha dúvida é o que pensará uma mulher com umas pernas daquelas, entrelaçadas num avô daqueles?”. Depois de uma primeira análise à luz do pensamento masculino do “Estes gajos é que são espertos”, penso um pouco melhor e chego à conclusão de que não é inteligente um tipo querer retroceder a uma idade pela qual já passou há muitos anos, quando já não se tem idade para isso. Consciente dos atributos de uma mulher com os mamilos a apontar fulminantes para as nossas retinas, continuo a preferir o invólucro usado da minha mulher. Eu sei que não é muito lógico, mas com a celulite nas pernas, também ela tem a memória dos tempos em que eu tinha os meus vigorosos vinte anos. Ela ainda me atura, ainda suporta o mau hálito matinal, a rabugice nocturna, as bufas malcheirosas, as meias desarrumadas, as adiposidades abdominais, porque ainda se lembra de mim dos tempos em que eu encantaria qualquer mulher de 50 anos com crise de meia-idade. Uma miúda que se deixa caçar por um velhote, conhecê-lo-á sempre com mau hálito matinal, com artroses nos joelhos, com pêlos nas orelhas, com a prótese dentária a boiar no copo da mesa de cabeceira. Nunca poderá dizer: “Lembras-te daquele mortal com pirueta que deste para dentro da piscina, antes de me atacares debaixo de água?”. Mas as mulheres mais jovens têm o pêlo na venta, não têm enxaquecas na hora H, não é necessário um tipo humilhar-se para conseguir dar azo em pleno à sua testosterona. Mas como é que um tipo consegue libertar o seu tigre assanhado sabendo que aquela miúda poderia ser sua filha? Para além desta sensação de pedofilia incestuosa implícita, também é a partir dos 50 anos que um homem começa a ir aos médicos. E quem é que o acompanha às consultas de urologia; a quem é que se queixa da crise hemorroidal; quem é que lhe lembra da toma do remédio para a tensão? O encantamento da jovem conquista diluir-se-ia à primeira pedra na vesícula, a não ser que conseguíssemos pagar o seu tratamento psicológico nos shoppings das redondezas.
Não sei se cheguei já à meia-idade e se a crise da mamoca arrebitada está para se abater sobre a minha retina. De qualquer maneira estou na defensiva até porque sou um tipo curioso e gostaria de saber como eu e a minha mulher nos conseguiremos suportar durante mais uns anitos com a sanidade intacta. Existirão momentos em que talvez possa ser necessário recorrer a alguns truques da juventude. Hoje fui à prancha exibir o meu mortal com pirueta. Caí um pouco torto e acabei no centro de saúde a levar um anti-inflamatório nas nalgas. Quem me segurou na mãozinha?.... Ninguém. Qu' é para a próxima não te armares em puto de 20 anos...

O Bandido "Estrela "


Deu-se finalmente a viragem que todos ansiávamos na dinâmica da criminalidade. Até aqui, alguns de nós tinham alguma dificuldade em aceitar a impunidade dos actos criminosos. Tínhamos a exótica ideia de que se um tipo rouba, incendeia, espanca ou mata, deveria ir para a choldra. Nada mais errado. Começam a circular histórias comovedoras da outra faceta da bandidagem que nos faz mudar de opinião. O enternecedor relato do menino que com os primos pegou fogo a uma mata só para ver os helicópteros da televisão a chegar. A avó da criança dizia que “são crianças inocentes que devemos perdoar e ensinar melhor…”. E lá estava a fotografia do miúdo num jornal diário, exibindo o isqueiro com que mandou fogo aos pinheiros, como se posasse para uma revista da especialidade “Fogos nas Coutadas”. O cachopo não estava era à espera que, com os bombeiros e os helicópteros de televisão, também viriam os repórteres do jornal à sua procura. Ao invés de uns dias de trabalho comunitário, viria um dia de intensa entrevista para que contasse a todos a sua habilidade de mandar fogo aos hectares de pinhal. Eis que aparece novamente o “emplastro” destes cenários, o Psicólogo criminal a defender que “melhor do que reprimir há que educar”. E viva a educação sem repressão! Vamos ouvir mais um bocadinho o psicólogo… “há que educar para a cidadania…explicar que um simples fósforo pode destruir casa e florestas…” algo que uma criança de 11 anos desconhecia de todo; consta-se mesmo que confundiu o fósforo com um violino e que se preparava para produzir uma melodia musical. Não podes mandar fogo ao pinhal, menino. Tens de saber que não é uma atitude correcta… “E atão com’é ca gente chama cá os helicótros???”. A fotografia no jornal é que já ninguém lha tira, até porque representa um registo fidedigno da sua heróica acção que pode mostrar orgulhosamente aos amigos ou colar na parede do quarto junto ao poster do Simão Sabrosa.
Num outro jornal diário, a descrição das aventuras dos carteiristas de Lisboa. Estão identificados 1010 gatunos, que todos os dias ganham a vida a meter as mãos nos bolsos dos turistas. Os heróis têm nomes sugestivos como “Zé do Porto”, “Aníbal dos transportes”, “Cara de Cão” ou “Treinador”. Quase todos já foram apanhados com a mão na botija, mas são sempre soltos porque não conseguem gamar mais do que cem euros de cada vez. Os turistas estão cada vez mais unhas de fome… O conhecido “Zé do Porto” rouba com o filho, a mulher, o primo e o neto(?). Uma empresa familiar de Carteirismo, Lda. Nos 20 anos de “profissão” e, depois de inúmeras detenções, só teve prisão efectiva uma única vez. Depois de ler o relato da vida destes simpáticos carteiristas, com particular ênfase para “O Barrigas” um velhinho de 70 anos que reparte a sua actividade entre o gamanço da carteira alheia e o furto em lojas de Lisboa, sinto que a minha revolta anti-impunidade está a sofrer transformações. A partir de agora podemos dar azo à sensação “Ocean’s Eleven” que temos dentro de nós. A ideia de que uma quadrilha que rouba bancos e casinos pode ser admirada se a história for contada com algum nível e embelezada com actores como Brad Pitt, Julia Roberts ou George Clooney. Tudo depende da forma como a história é contada. Só é necessário transformar o acontecimento numa história. O acontecimento: “Um idoso tem o dinheiro da reforma na carteira que é roubada por um gatuno na fila do autocarro”. A história do acontecimento é contada: “A habilidade de “Johnny das carteiras” conseguiu subtrair de forma imperceptível todo o dinheiro que um palerma tinha no bolso detrás das calças. Depois desta imaculada abordagem, Johnny consegue embrenhar-se na multidão e fugir como uma astuta raposa.”. São as virtudes do desenvolvimento: Passou-se da imagem do criminoso malandro para a do habilidoso malandro. Aproveitando este embelezamento mediático da bandidagem, já está a ser planeada a rodagem da produção cinematográfica caseira “Porto’s Eleven” que retrata as agruras emocionantes da família “ Zé do Porto”, vividas entre o eléctrico 28, o elevador da Glória e o Rossio. Ainda não conseguiram arranjar todos os protagonistas para completar o elenco de onze bandidos, no entanto, no caso dos sobrinhos do Zé se mostrarem indisponíveis, sempre têm mais 1005 candidatos em lista de espera.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Play Station 2


Centena e meia de reclusos da cadeia de Sintra fizeram greve ao almoço como forma de protesto contra a fraca qualidade da comida, mas sobretudo por não poderem utilizar a playstation 2 (?). Claro que a greve apenas durou uma refeiçãozita porque a larica é muita e a paparoca por muito má que seja, não pode ser desperdiçada longe de corpinhos tão desgastados de tanto trabalho que realizam. Ainda houve um deles que gritou “Vamos fazer como aquele gajo cubano, o Guilhermo Fariñas, e só paramos a greve de fome, quando nos meterem no prato uns bifes de lombo!” . Apanhou logo uma “belinha” no toutiço acompanhada da reprimenda “Cala-te ó palerma que a greve de fome custa comó caneco; fazemos um rápido alarido só para nos fazerem a vontade! ”. Saiu o tal comunicado da indignação por não se poderem divertir aos comandos da Playstation, mas que ficasse claro aquilo não era uma greve de fome, …era só um protesto…zito. A reivindicação é justa. Num país onde apenas muito poucos bandidos conseguem chegar às cadeias, o prémio para tal selecção deveria incluir no mínimo uma jogatana com o FIFA 2009. Senão com que é que a malta passa o tempo? A ver televisão? A traficar heroína? A molestar outros presos? A fazer musculação para arrear nos guardas? Mas esta questão não é inocente; é necessário ler nas entrelinhas. As prisões em Portugal não passam de enormes playstations, que traduzidas para a língua de Camões significam “Estações de Reinação”. Quando gatunos condenados têm margem para exigir brincadeiras virtuais como passatempo, porque não ocupam o tempo com trabalho comunitário, ou estão a brincar com toda a malta que roubaram e assassinaram, ou então já perceberam que a punição que sofreram, é assim uma espécie de chicotada dada pelo palhaço “Choné” com folhas de papel celofane colorido. Aliás, o facto de pedirem a playstation 2 para as cadeias é sintomático. A Play Station 1 , já tinha sido solicitada para munir os tribunais, pois é aí que começa toda a brincadeira. Os duelos entre argumentos esgrimidos pelo Ministério Público e recursos disparados por advogados de defesa da bandidagem como quem lava os dentes, passando pelas liberdades condicionais oferecidas a gatunos por divertidos juízes, representa o que de melhor poderá oferecer um qualquer salão de jogos. A notícia de que morre em Portugal uma mulher por semana vítima de violência doméstica, perpetuada por indivíduos anteriormente identificados como agressores, é um exemplo deste “playground” judicial. A jogatana começa com a permissa “Vamos lá libertar este tipo e apostar em quanto tempo consegue voltar a deitar as mãos à mulher”. Na maioria dos casos ganha o jogo quem vaticinou que a vítima seria esfaqueada ao fim de 5 dias. Mas a riqueza da playstation é que se poderão introduzir na consola, vários tipos de jogos com diferentes variáveis. Assim poder-se-á apostar só no tipo de morte (quem apostar à “paulada” tem um bónus extra na pontuação) ou no tipo de personagens (Bandidos do carjacking; assaltantes de ourivesarias; agressores de polícias). Na berra está o jogo “Romenos em fuga 2010”. A acção consiste em libertar 2 romenos que espancaram um senhor velhinho para lhe roubarem o carro, e depois segui-los para ver em quanto tempo conseguem fugir para o lado de lá da fronteira. Este jogo tem uma nova aplicação que representa o percurso inverso dos gatunos, ou seja, depois terem fugido do país, serão acompanhados uns dias depois, no seu retorno a Portugal, para voltar a gamar outro carro e mandar mais umas traulitadas na cabeça de outra vítima.
Parece que já existe a PlayStation 3 cuja virtude é a de poder ser jogada com comandos sem fios, ou seja, o jogador pode estar a jogar sem ficar emaranhado nos fios e fingir que nem está ligado ao ecrã. Esse tipo de consola tem sido utilizada nas mais altas esferas políticas e empresariais e nem mesmo algumas “escutas”, conseguem emaranhar esses hábeis jogadores.
Já me esquecia dos reclusos da cadeia de Sintra. Adivinham o que lhes terá acontecido? Qualquer director com bom senso e sentido de gestão financeira, estimulava mais protestos de greve às refeições como forma de poupar uns cobres valentes na alimentação dos latagões. Na verdade, os presos conseguiram ser transferidos para outros estabelecimentos prisionais, provavelmente munidos com salas de playstation onde se podem divertir à bruta. A esta hora estará o dissidente cubano Fariñas a contorcer-se de inveja, porque em Portugal, não teria tido necessidade de passar tanta fomeca, para conseguir a libertação dos companheiros.
Neste momento, escondo o recorte de jornal com a notícia dos presos da “PlayStation”, com receio que os meus filhos vejam. Há já algum tempo que me andam a pedir o raio da consola e correria o risco de algum deles me perguntar “Ó pai, será preciso eu ir para a cadeia para conseguir jogar o FIFA 2009?”. Para a cadeia talvez não, mas com o apetite que têm e ao preço a que estão os víveres, bem poderiam avançar com um protesto em forma de jejum…