sábado, 18 de outubro de 2014
Da Serra Leoa para Portugal...com admiração...
Somos um dos três países mundiais com maior competência no sector. Fiquei estupefacto com a fabulosa notícia. Nós, que perdemos tempo com fatigantes lamúrias e maledicência barata, aprendemos hoje que fazemos parte de uma restrita elite na vanguarda do conhecimento. Pensarão os leitores de que sector se trata, e não adianta perderem tempo a divagar pela pesca, agricultura, economia, justiça e irem logo directos para a área da saúde. Descobrimos que estamos na vanguarda da despistagem do vírus mais falado no momento: o ébola. Mas não confundamos despistagem com …despistagem. A despistagem da qual falamos não termina com o chassis do carocha amolgado na cortiça de um sobreiro; trata-se sim da investigação laboratorial que atesta se o líquido do frasquinho tem vestígios do tal vírus mortal. E sermos um dos três países de referência na despistagem do ébola, resulta em quê?...na escolha dos nossos laboratórios como local privilegiado aonde chegarão amostras de todo o mundo em busca de diagnóstico. Um orgulho nacional. Finalmente o reconhecimento exterior pelos nossos serviços. Numa altura em que tanto se fala de exportação, era disso que nós precisávamos: de importar o vírus ébola. Estava longe do nosso território, mas nós fizemos questão de o chamar para pertinho de nós. Não sei bem como conseguimos ser escolhidos no meio de tantos, mas aproveitemos para cumprir essa função com brio e dedicação. A senhora do laboratório dizia que se despedia dos filhos e encarava a estóica tarefa como um combatente na linha de fogo, sem pensar numa bala perdida, numa luva furada, numa galocha rasgada. À primeira vista, poderíamos esperar a importação de outro tipo de serviços e bens como barcos de pesca noruegueses, organização suíça, tecnologia japonesa, economia alemã, pizzas italianas…o quê?...essas já importámos?... fiquemos pela economia. Mas importamos o Ébola e exportamos o diagnóstico para todo o mundo; um serviço público de valor humanitário. Poderíamos ter ficado na vanguarda das análises do colesterol, da glicemia, da Alina Aminotransferase , mas nós gostamos de fazer as coisas em grande (eu sei que a última designação técnica soava a algo grandioso mas não é nada de especial) e apostámos num vírus que tem uma taxa de mortalidade de 70%, ou seja, mata comó caneco. Não questionamos porque razão são só três os países de referência para a análise do ébola (não sei quais são os outros dois, mas não devem ser os alemães que já têm a economia, nem os noruegueses que já têm os barcos de pesca...), e encaramos a tarefa com o empenhamento e o desprendimento do montanhista que escala nos Himalaias, do pára-quedista que se atira do avião, do piloto que acelera a 300km/h antes da curva, do canoísta que enfrenta os rápidos do rio Zambeze. Recebemos o frasquinho vindo da Serra Leoa em busca de respostas e seremos nós os portadores das mesmas. Temos esse poder entre mãos, esse e o frasquinho que não pode cair ao chão. E é no fio da navalha, com a adrenalina a pulsar nas veias, que trabalhamos em prole dos outros; uma tarefa de pura abnegação. O fato foi bem vestido, as luvas bem colocadas, os óculos acondicionados, as galochas coladas às canelas, a análise realizada, a desinfecção concretizada, os resultados obtidos. E eis que chega o culminar magnânime desta tarefa: a comunicação ao doente se este tem ou não tem o vírus. No caso da análise ser negativa, o doente saltará de alegria e jamais se esquecerá dos portadores da boa nova e ainda acabará a comer sardinhas nas docas de Peniche. No caso da existência do vírus se confirmar , teremos a dolorosa tarefa de dizer ao doente que apanhou ébola e, no caso dele perguntar pelo outro diagnóstico, o da cura, conseguirmos dizer-lhe que: “Cura, cura, ainda não se descobriu,…, mas parece que os americanos estão a testar um medicamento que pode ser que faça qualquer coisinha…”. A nossa tarefa restringe-se pois à despistagem…sim, a despistagem: a do carocha que se estampa contra o sobreiro. Chegamos ao local com a fita métrica debaixo do braço e, depois de várias medições e análises, afiançamos o diagnóstico com propriedade: “O senhor tem a chaparia do seu Volkswagen em estreita comunhão com a cortiça do sobreiro; basicamente tem o carro feito num oito e acaba de destruir uma árvore centenária”. Ao que o acidentado responde: “Isso dá para ver com facilidade; mas acha que tem solução???”. “Solução, solução,..., olhe tenho aqui o contacto de um bate chapas; pode ser que lhe resolva isso.”
O que não me sai da cabeça é a imagem da investigadora do laboratório, acondicionada dentro de todo aquele aparato de isolamento, com a mão trémula segurando o frasco com o possível líquido mortal; sem margem para erro, ou vacilação. O que acontecerá no caso da senhora não conseguir conter um espirro?..... alguém tem o contacto do bate-chapas?....
quarta-feira, 29 de janeiro de 2014
Vencimento Nostalgia
Troquei de carro. Ou antes, fui
obrigado a trocar de carro, uma vez que o meu veículo decidiu falecer à revelia do dono. Ainda
tentei reanimá-lo, com umas festinhas no capô e uns pontapés nas jantes, mas
ele claudicou. Mas não se limitou a claudicar de forma passiva; até chegarmos
às festinhas no capô, já ele tinha feito grandes festinhas na carteira do dono,
entre tubagens, embraiagens, motor de arranque, correia de distribuição. Mas os
laços que nos uniam eram de tal maneira fortes, que ele decidiu que gostaria de
levar o dono para a cova com ele. Percebe-se que nunca esqueceu os momentos
fraternos que vivemos juntos, das peúgas suadas debaixo dos bancos, dos caminhos
em terra batida que percorremos, dos iceteas
espalmados no banco do passageiro, das cascas de banana em compostagem
no guarda-luvas. Decidiu então falecer neste momento de prosperidade económica
em que vivemos, para que o dono esbanjasse também ele a sua própria prosperidade. Em sua memória fiz-lhe a vontade e adquiri um
veículo afogado em tecnologia onde tudo apita e nos faz pensar que prevaricamos
a toda a hora. Apita quando não se põe o cinto, apita quando se tira o cinto,
apita quando as luzes estão ligadas, apita quando é preciso fazer a revisão,
apita quando não pressionamos o travão de mão, apita quando saímos do carro em
andamento…?...(já um tipo não pode saltar do carro). Este árbitro de futebol de
quatro rodas, tem, contudo, uma apitadela que me faz babar de contentamento: o
apito do sensor da marcha atrás. E não se limita a apitar quando estamos
prestes a embater na oliveira lá de casa. Avisa com uma luz que vai passando de
verde para vermelho à medida que o pára choques se aproxima do estado de
espalmamento, terminando com um enorme e reluzente STOP antes do impacto. Bem
sei que nesta fase deveria estar a fazer o luto pelo meu falecido carro, mas
estou naquela fase de afogamento tecnológico, qual criança inebriada com a
playstation recebida no Natal, e sem qualquer sinal de nostalgia das avarias do meu chaço anterior.
Decidi então pegar no meu
compacto amovível de tecnologia e ir até ao multibanco ver o recibo de
vencimento. Olhei para o tal recibo e , depois de soltar um termo imperceptível,
consegui sentir um misto de alegria e tristeza. Por um lado, ao fim de 25 anos
a trabalhar, nunca o meu salário se aproximou tanto daquele que eu recebia no
meu primeiro ano de vencimento. E essa sensação nostálgica transportou-me à minha primeira ferrugenta renault 4L, aos
0,6 cêntimos do litro de gasolina, aos 0,4 escudos do preço da bica, ao meu ano
de jovem estagiário, que não pensava em custos do rolo de papel higiénico. Mas
o recibo do meu “vencimento nostalgia” deixou-me com alguma pena dos nossos decisores políticos por, no meio
de tanto Mercedes e BMW onde sentam as majestosas bundas, ainda não terem adquirido um veículo daqueles
à séria, com sensores de marcha atrás. A atestar pela velocidade de recuo a que
sujeitam as economias familiares, que nos levam a sentir os costázios a furar
sucessivos muros de betão, decerto que não têm o apito milagroso nem a luzinha
vermelha a acender. Ei, Meus senhores!...comprem lá o tal sensor, que a minha
carroçaria de retaguarda não aguenta
muito mais espalmamento!!... Quando pensava que não me ouviam, eis que surgem
os primeiros sinais de se querer inverter a tendência de regressão económica.
Uma medida de fundo, que revolucionará o panorama de desenvolvimento nacional
concertado: Um referendo!...Isso!...consulte-se o povo para que esta carroça
ande para a frente! O tema do referendo?...É…?...Vamos lá, deixem-se de suspense…(decerto
um dos grandes temas aglutinadores do desenvolvimento nacional e social como a privatização
da energia, a regularização dos impostos, o funcionamento da justiça,…)…a
Co-adopção por casais homossexuais!? Muito bem! Finalmente alguém com clarividência
para pôr isto a andar para a frente. Eu
compreendo o pensamento do tipo que teve essa “holofótica” ideia. “Deixa cá
ver; podíamos legislar directamente sobre a co-adopção por casais homossexuais,
mas gastando 10 milhões de euros é outra coisa! Tem mais impacto, faz com que
os cidadãos sintam essa medida como sua!...” De impacto a nossas carroçaria de
retaguarda percebe, depois de vários estampanços contra oliveiras no caminho.
Aguardo ansioso pela próxima ideia de referendo sobre a proibição de lançamento
de cascas de amendoim pela janela do carro, ou sobre a limitação do consumo de
bolacha Maria a partir das 23 h, ou a imprescidível abolição das brocas dos
dentistas.
A avaliar pelo ritmo da marcha
atrás ininterrupta que este veículo assumiu, rapidamente a magnitude do meu
salário, encontrar-se-á com a nostalgia da mesada que a minha mãe me dava nos
tempos de adolescente. Mas, mas,.... já há malta de 40 anos que voltou a viver
com a mesada das mães???... Grandes malandros, vão comprar os livros do Tex e
pacotes de batatas Pala-pala antes de eu lá chegar.
domingo, 10 de novembro de 2013
As broas pelo canudo da produção
“Meninos cheguem aqui para
prepararmos o dia dos bolinhos!...”… “mas ó pai …” “Shiu não me interrompam. Tu podes levar aquele saco às riscas e tu o
saco com as galinhas desenhadas..” “ Mas pai, tu não sabias que…”, “Esperem,
que agora temos de planear o roteiro. Poderíamos apostar na rua da avó, que tem
aquela senhora simpática…”, “ Ouve, ainda não percebeste que…”, “Mas deixam-me
acabar ou não??? Íamos naquela senhora simpática, das broas de mel e no senhor de
bigodes das nozes e dos rebuçados de frutas…” “Pai, já podemos falar?...Tu
queres saber que…” “ E temos de saber onde espalhamos as guloseimas, se em
nossa casa ou na casa da avó…”. De forma contundente e sincronizada, os miúdos
gritaram, interrompendo o périplo imaginário : “Paiiii! Já não vai haver o dia dos bolinhos!!!” …(silêncio
aterrador)….. “Que raio estão a dizer?...” “É verdade, já não existe o feriado
do dia 1 de Novembro, para podermos encher os sacos de guloseimas”. Os meus
filhos lançaram um olhar de piedade perante o olhar de desilusão do progenitor.
“E, e,…então e os bolinhos? As broas de mel e de canela? As nozes e os
chocolates? Os toques nas campainhas e nos batentes? O sorriso das pessoas
simpáticas e o silêncio das pessoas enclausuradas atrás das cortinas? O
enfartamento pós enfardamento?”…Grandes estafermos! Transformar este fabuloso e doce feriado, num
deprimente dia útil, para quê?...para aumentar a produção laboral. Ah, assim está bem! E de
facto a produção subiu em flecha. O
suficiente para exportarmos mais 20 pares de sapatos , 100 embalagens de
sardinhas enlatadas e 40 pistões para a indústria automóvel. Aliás, dando
seguimento à invulgar capacidade de produção dos nossos governantes. Conseguem
produzir cortes à catanada como ninguém, produzir ministros que gostam dos
açoites angolanos nas nalgas como ninguém, produzir impostos como ninguém,
produzir dívida como ninguém, produzir cálculos matemáticos como ninguém,
produzir riqueza como ninguém…???..., desculpem confundi-os com aqueles tipos que
estão mais a norte,… p´rós lados da Noruega. Temos pois os mestres da produção ao leme do
barco lusitano. Basta olhar para a aglomeração de deputados que inundam todos
os dias a assembleia, que se empurram em busca do melhor lugar sentado,
rivalizando com o acotovelamento dentro do metro à hora de ponta, para
percebermos a vontade quase esquizofrénica de produzir trabalho. E essa
produção de trabalho é de tal forma assertiva que conseguiram fazer
corresponder na perfeição (através dos tais cálculos matemáticos) toda a massa
da redução salarial, ao valor dos encargos para o próximo ano com as PPPs. Ou seja o dinheiro que retiram todos os meses
a quase 10 milhões de portugueses, entra directamente nos bolsos dos blasers
das chefias das…26(?) PPPs, negociadas
pelos amigos das chefias. A proporcionalidade do números (10 milhões para
26) poderá reforçar a sigla das ditas
sugadoras de capital: muitos Produzem
Para Poucos comerem (e não serão broas de mel). Com o incremento
exponencial da produção gerada neste dia dos bolinhos, poderemos continuar a
aspirar a pequenos luxos como suportar o aumento das despesas dos gabinetes
ministeriais para este ano em 3,8 milhões de euros. Parece que os tipos já nem
tinham verba para um cafezito a meio da manhã. Ou a manutenção das escolas privadas
suportadas por dinheiros públicos, junto de escolas públicas…confusos??...eu
também, mas eles é que são os especialistas na produção.
Apesar de todos os ganhos
inerentes à conversão do dia dos bolinhos em dia de trabalho (todos trabalhámos
cheios de vontade e produzimos à bruta) , continuo a não me conformar com o
facto dos meus filhos, não terem trincado as broas de mel da senhora simpática.
E se as broas tivessem contribuído para o aumento da produção de alguns nichos
do mercado empresarial?…aumento da produção? Onde, onde?? No trabalho dos
pasteleiros de broas; no trabalho dos dentistas tratando das cáries produzidas
pelas broas deliciosas e no trabalho dos médicos resolvendo problemas de
obesidade infantil produzidos pelas broas. Mas estes pequenos nichos serão
insignificantes quando comparados com enormes ganhos de produtividade. Como tal, ainda bem que os miúdos não tiveram
o fugaz prazer de falar com a senhora simpática, uma vez que o trocaram por algo mais grandioso. O final
deste feriado dos bolinhos foi, adulterando a emblemática frase lunar, Um
pequeno passo para o Homem, mas um grande passo para a…Produtividade.
sexta-feira, 25 de outubro de 2013
sábado, 28 de setembro de 2013
O milagre da transformação segundo o outro Jesus
Sempre tive
algum fascínio pelo filho com “nome do ídolo”. A decisão de baptizar os filhos
com nomes de pessoas que se admiram, traz a esperança de que o descendente consiga
trilhar um caminho de sucesso similar ao dos seus inspiradores. Chamar a um
filho Viriato, é aspirar a que o petiz herde alguma da virilidade desse bravo
guerreiro lusitano, que despachou à pedrada os invasores romanos. Na década de
60, muitos foram os Eusébios que cresceram na ambição de aplicarem nas bolas de
rua a potência de remate do rei da bola moçambicano. O pai de Cristiano Ronaldo inspirou-se no nome
do presidente americano Ronald Reagan, o actor/político, na hora de escolher o
nome para o filho. Parece que o rapaz não deu em político, mas aos pontapés na
chicha, comprou mais casitas e Ferraris do que o tal do Ronald original. Muitos serão os Tonys nascidos na última
década, fruto das barrigas saltitantes das mães nos concertos do pavilhão
atlântico ao som do “Sonho de menino” do seu ídolo musical. Aquele comentador
político de televisão, que outrora foi primeiro ministro, carregou sobre os
seus ombros o apelido de um dos maiores filósofos Gregos. Sócrates, o Filósofo,
colocou ao dispor do seu herdeiro de apelido uma vasta obra de sábios
pensamentos, para que ele pudesse ter uma ajuda na hora de construir a sua
personalidade. Pensamentos como “Sábio
é aquele que conhece os limites da própria ignorância.” ou “A maneira mais fácil e mais segura de
vivermos honradamente, consiste em sermos, na realidade, o que parecemos ser.”,
retratam de forma fidedigna como
Sócrates, o político, quis levar à letra a sabedoria de tais ensinamentos…
Passemos então ao top da tabela de ídolos seguidos.
O apelido Jesus. Uma pessoa que decide apelidar os seus descendentes, com um
nome desta magnitude bíblica, deverá alimentar dois tipos de ilusão: a de que o
nome trará sorte e bênção ou de que o nome servirá de inspiração para que os
seus utilizadores consigam seguir os ensinamentos de Jesus Cristo. Olhando para Jesus, o outro, o treinador de
futebol, à partida nada nos faz lembrar Jesus de Nazaré. Começa logo porque na
altura não havia pastilhas gorila e caso houvesse deveria ser proibido roê-las
com a boca aberta ; depois a pronúncia hebraica tinha pouca similitude com os
“prontos” do dialecto da Amadora; poderíamos
tentar ir pelas semelhanças do discurso de Jesus Cristo nas suas palestras de
evangelização: “Deus não lhe dá mais do que pode carregar”. Jesus, o treinador
riposta: “Vocês os quatro, formem aí um triângulo!”…não me parece…
Finalmente descobri uma luz ao fundo do
túnel. A luz apareceu depois das declarações de Jesus, o outro, no rescaldo da
cena de pugilato com um polícia para libertar um adepto. Já que não conseguia comer pastilhas de boca
fechada, falar dialecto hebraico, nem articular frases com algum sentido,
decidiu ser verdadeiramente ambicioso e operar um milagre ao nível do seu ídolo.
Tal como Jesus de Nazaré conseguiu devolver a visão ao cego de Jericó e
transformar água em vinho, Jesus, o outro, decidiu também adoptar o seu próprio
milagre da transformação. O milagre do vinho até lhe daria algum jeito, mas
optou por outro de maior amplitude. Conseguiu transformar aquele personagem de
cabelos brancos enraivecido, aos berros e aos murros a um polícia, num herói e
guerreiro Viriato aos murros a um malfeitor polícia,…(mas não pode mandar
murros no polícia?)…, bom,…num arcanjo de cabelos celestiais passando
suavemente a epiderme da palma da mão nos braços vigorosos do agente da
autoridade. “Mas Jesus, as imagens foram explícitas. Viu-se que o senhor
espetou uns valentes selos no braço do polícia, que até lhe saltaram os
óculos!”….”Só lhe saltaram os óculos? Eu queria era que saltassem os olhos a
esse filho da p***a do bófia!”. “Mas sabe que pode ser punido na
justiça?”...“Bom, antes de mais não foi agressão (aqui está o milagre), foi
apenas uma ligeira exaltação com o intuito de proteger o adepto (aqui está a
solidariedade). Mas desde já peço desculpa ao senhor agente (aqui está o
arrependimento cristão) se levou a mal as festinhas que lhe fiz”. Mas Jesus
promete não ficar por aqui em questões de milagres e fazer jus ao nome que
enverga. Já estão na forja outros, tais como deixar perder campeonatos nos
últimos minutos, ou transformar pães em rosas…Esses já existem??...que pena…
Por falar em milagres no mundo do futebol,
eu próprio assisti a um milagre da transformação, que pela sua finura, não
consigo deixar partilhar com os leitores. Ao acompanhar o meu filho a um dos
seus jogos infantis, a equipa da casa, antes do início do jogo uniu-se para presentear
os pais e espectadores com o seu grito colectivo. A disposição prometia algo de
arrojado, e arrojada a coisa fluiu. O capitão gritava a palavra de ordem e a
equipa iria atrás: “Somos as malta da Picha de aço! Aço,aço,aço! Com os co**ões
a marcar passo! passo, passo, passo!”. Quando a perplexidade me invadia o pensamento,
no sentido de perceber quem tinha sido a besta que punha miúdos a gritar
aquilo, olhei para o lado e, os pais, ao invés de indignados, aplaudiam de
forma orgulhosa e efusiva os seus petizes. Eis o milagre da transformação: A transformação de putos malcriados em crianças
motivadas. Já haverá alguém a sugerir a
Jesus que importe este tipo de milagre para a sua equipa. Obviamente ele
responderá: “não te esqueças que o meu nome é Jesus. Esse milagre é
p’ra…meninos!!!”
terça-feira, 10 de setembro de 2013
No país do Ao Menos
Estava a tomar a bica matinal e a minha orelha esquerda foi ao encontro da conversa dos dois tipos que mandavam abaixo duas bejecas também elas matinais. Dizia um para o outro: “Epá o meu primo Manecas, já está desempregado há mais de um ano e não arranja nada!”. Depois de limpar a espuma da cerveja dos pêlos do bigode, o amigo responde: “Eu ao menos ainda tenho o meu empregozito, que me paga 400 euros ao mês… Espero não ter o azar de ser despedido.” Aqui está o “Ao menos” metido no meio da frase e que traduz esse sentimento de relativização bem português. Roubaram-te a carteira e o telemóvel à saída do eléctrico? Ao menos deixaram-me a roupa e o boné; Foste espancada pelo teu marido bêbado depois da derrota do Benfas? Ao menos só me partiu 5 dentes e o maxilar inferior; O presidente da Câmara não paga 100 milhões de euros aos fornecedores? Ao menos fez umas avenidas e umas rotundas espectaculares. A ministra das Finanças esteve envolvida no negócio das Swaps que lesou o país em grande? Ao menos veste uns blasers beges muito elegantes. A justiça não mete na cadeia os tipos do BPN? Ao menos a malta sabe quem eles são. Os incêndios continuam a queimar a nossa floresta todos os anos? Ao menos ainda nos restam os relvados dos jardins públicos. O dono do restaurante ganha 50 cêntimos por cada refeição económica que vende? Ao menos ganha 50 cêntimos por cada refeição. Trabalhas 10 horas por dia a 400 euros mensais? Ao menos não estás desempregado. E voltámos ao início da conversa. A conversa do “Ao menos” tenho um emprego, com tudo o que de subversivo transporta. Parece que os ordenados baixam porque existe muito desemprego e as pessoas em desespero sujeitam-se ao “Ao menos” que vier. A coisa funciona assim: um patrão comunica ao empregado com 20 anos de casa que vai ter de lhe baixar o ordenado para metade se quer continuar a trabalhar ali. O empregado incrédulo pergunta “Mas existem menos encomendas? …existe prejuízo?” o patrão responde eloquente “tenho 100 jovens desempregados que se ofereceram para a tua função e a ganhar metade”. E continua “São as leis da liberalização do mercado, os custos de produção diminuem, competimos com a China e o meu lucro será maior! Tens de pensar que reduzes o salário, mas ao menos continuas connosco!...”. Neste “Ao menos” surge o que de pior tem a condição humana: A exploração voluntária das debilidades alheias. Vendem-se garrafas de água a 20 euros o litro para quem vive no deserto; Vendem-se medicamentos a 100 euros a caixa para quem tem dores reumáticas crónicas. Vendem-se cadeiras de rodas a preços de automóveis, a quem fica paraplégico; Vende-se a casa por 1/10 do seu valor, para se poder comprar comida para casa. Trabalha 10 horas por dia a 400 euros mensais, porque precisa de um emprego para sobreviver. Voltámos de novo ao nosso “Ao menos” tenho este emprego. E o “Ao menos” tem hoje um aliado de peso, a “Troika”. “Ó António, eu até te queria pagar mais, mas sabes…a Troika está a dar cabo disto; ao menos sempre ganhas qualquer coisita…”. Ou seja a “Troika” funciona aqui como a grande responsável do “ao menos”.
Gostaria de trocar, sem ter de emigrar, este país do “Ao menos” , por um país do “Eu quero mais”. Eu quero mais competência na gestão do país; Eu quero mais tempo livre para estar com os meus filhos; Eu quero mais patrões que percebam os benefícios de terem funcionários satisfeitos; Eu quero mais políticos independentes de interesses ocultos; Eu quero mais pudor e responsabilidade; Eu quero mais ordenados que possibilitem viver com dignidade. Mas é a tal liberalização dos mercados… E com a liberalização económica chegou a liberalização moral, onde tudo é aceitável, desde que o lucro financeiro esteja garantido.
Tento fugir da sina da resignação implícita ao “ao menos”. Para começar a minha terapêutica do “eu quero mais” decidi que não voto mais em partidos políticos. “Epá, mas não percebes que há algumas pessoas boas dentro dos partidos políticos e que eles é que têm de nos governar!” . É verdade sim senhor, mas ao menos eles ficarão a saber que eu quero mais…
sábado, 1 de junho de 2013
A fronteira da rede ovelheira
Tenho onze
ovelhas a comer a erva do meu terreno. Fiquem os benfiquistas descansados que
não se trata de qualquer referência ovina a uma tal equipa bafejada pelo azar
dos momentos finais. Até porque ser ovelha não é sinónimo de azar; a não ser
quando a metem na carrinha rumo ao matadouro. Por falar em matadouro, afinal já
não são onze ovelhas, porque uma teve o azar de embarcar na tal carrinha. Não,
e não foi porque se portou mal ou por
ter sido agressiva (parece que existe uma raça de ovelhas paraguaias que
costumam investir sobre os donos); o animal estava muito doente e cabisbaixo.
Naquela tarde
serrei alguns ramos, mas só enviei para a boca das ovelhas alguns deles, não
fossem elas habituarem-se ao bem bom do verdinho e deixarem o prado seco para
outro ruminantes. Ao fazer uma fogueira com outros dos ramos serrados, senti-me
mal. Ali estavam elas de cabeças espetadas na vedação com o olhar colado na
rama verde e eu, queimando o seu sonho alimentar. Senti-me um malvado “Merkel”
, que grita: “Queriam estas folhas verdinhas no bucho?...vão mas é rapar o
pasto seco que paparam em menos de um fósforo!...Quando o pasto seco
acabar?...pode ser que vos envie mais uns quantos raminhos de oliveira, mas
poucos, para não se habituarem à fartura…”.
A crueldade
suprema é que a ovelha vê, pelos buracos da vedação, que logo ali tão pertinho
o petisco existe. E se se erguesse um
muro que impossibilitasse a visão do bicho? Ou então uns óculos pintados de
verde para que o animal visse o amarelo em tons esverdeados?...Não resulta,
porque a ovelha tem olfacto e porque já viu, cheirou e trincou o que existe do
outro lado da vedação. O curioso é que a ovelha permanece ali passiva, sem
empurrar a vedação, roendo desconsolada a erva seca e o torrão, à espera que
alguém lhe lance um raminho cheio de folhas verdes.
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