domingo, 28 de dezembro de 2014

Meteorologia natalícia



Estava a minha dentição entretida a trucidar os coscorões e todas as iguarias que o metabolismo merece enfardar no dia de natal, quando alguém teve a genial ideia de ligar a televisão. Em uníssono, ouvimos um apelo colectivo: “Esse tipo é que não!...desliga isso, senão a fruta cristalizada não passa no esófago!!” Entre o ligar, o apelo e o desligar, sobraram alguns segundos, suficientes para ficar colada aos nossos coscorões a mítica frase “desde há muitos anos que os portugueses não terão a acumulação de nuvens negras no seu horizonte”.  Várias dúvidas me assaltaram e nenhuma tinha a ver com a carga calórica dos coscorões. A primeira questão prendia-se com o facto de, no dia em que comemoramos o nascimento do menino Jesus, aparecer o primeiro ministro a falar ao país. Não sei se a ideia seria colar-se ao  nascimento do salvador e ele próprio apanhar essa onda deixando no ar a imagem de que também nasceu o redentor económico “sabem, eu não tive uma vaquinha nem um burrinho para me aconchegar o berço, mas tive uns tipos do banco central europeu muito simpáticos que me deram aconchego nos momentos em que eu mais precisei; esses e os chineses que nos compraram a energia; esses e os brasileiros que nos compraram e venderam as comunicações aos franceses; esses e outros que não sabemos bem quem, a que entregámos os correios” . Nasce assim,  Passos como o salvador de todos os nossos pecados da gula, afastando o espectro do terror e da falência. Por falar em falência, “Ó Passos, então e aquela história do BES? Da solidez dos investimentos?” Da regulação fictícia do Banco de Portugal?...”  “Banco? Qual banco?...hoje vim aqui falar de prosperidade!!!...já de propósito, para evitar mal entendidos, troquei um banco de madeira por esta  cadeira vermelha igual à que o pai natal utiliza nos centros comerciais  para vender fotografias aos meninos que se conseguirem sentar ao seu colo.”.
Voltemos à frase meteorológica lançada pelo primeiro ministro sobre a acumulação de nuvens negras no horizonte.  Um claro sinal de que o tipo tem poderes maiores do que o malogrado Anthímio de Azevedo, que só conseguia prever as baixas pressões para um período de 5 dias com alguma segurança. Passos lança-se seguro para a certeza de uma baixa acumulação de nuvens negras nos próximos tempos, ou seja, entre o dia de Natal e as eleições legislativas. É d’homem! Ou antes, é d’homem poderoso! Ou melhor é d’homem poderoso a puxar para o milagroso!
Trincamos o peito do peru ao memo tempo que ouvimos a notícia de que a idade da reforma irá aumentar para os 66 anos e 2 meses. Lembramo-nos da nuvem negra na fase dos coscorões, engolimos o peru à pressa e começamos a fazer a nossa análise introspectiva: “Grande mentiroso!  Então que tudo iria ser melhor; que faria um sol radioso e dá-nos a perspectiva de gozar a reforma a trabalhar?” . “Disseste mentiroso? Não confundiste com poderoso e milagroso? Pensa bem no “oso” que colocas no final do adjectivo.” Na verdade Passos não mentiu, porque domina a metáfora meteorológica como ninguém. Lança a redução da acumulação nuvens negras como uma coisa boa, sabendo que, para um alentejano, assolado pela seca e falta de água, e ansioso por uma bela carrada de chuva e negridão no horizonte, a redução das nuvens revela-se como uma má notícia. A metáfora meteorológica não compromete; a nuvem pode ser má para um minhoto ou boa para um algarvio. “Quem disse que as coisas iriam melhorar?...eu só falei em nuvens negras, mais nada!”. Mais nada?...falou também que “Será o primeiro Natal desde há muitos anos em que temos o futuro aberto diante de nós.”. Aqui já ultrapassa a previsão meteorológica e entra no domínio do consideravelmente estúpido. Talvez por um erro de sintaxe. O nosso futuro sempre esteve aberto diante de nós; aberto e repleto de figuras, cujas competências deveriam estar ao dispor do Instituto do Mar e da Atmosfera e nunca aos comandos da complexa gestão de um país. Se tivesse dito “temos mais futuro aberto diante de nós”,  a coisa já faria algum sentido; de facto percebo que tenho cada vez mais futuro a trabalhar, mesmo que para isso tenha de levar comigo as artroses e o andarilho. 
Acabei agora de consultar a previsão meteorológica  para os próximos dias e fiquei a saber que não haverá nuvens no horizonte. Ufa, ainda bem.  Seremos brindados com um fabuloso frio glaciar para testar as nossas adiposidades. Enquanto a nuvem não vai e o frio não vem, vou continuar agarrado aos coscorões e ao peito de peru, com a certeza de que só abrirei a televisão para conferir os números do euromilhões, que desta vez me lembrei de fazer. Pode ser que o futuro se abra perante nós com a nebulosidade adequada.

sábado, 18 de outubro de 2014

Da Serra Leoa para Portugal...com admiração...

Somos um dos três países mundiais com maior competência no sector. Fiquei estupefacto com a fabulosa notícia. Nós, que perdemos tempo com fatigantes lamúrias e maledicência barata, aprendemos hoje que fazemos parte de uma restrita elite na vanguarda do conhecimento. Pensarão os leitores de que sector se trata, e não adianta perderem tempo a divagar pela pesca, agricultura, economia, justiça e irem logo directos para a área da saúde. Descobrimos que estamos na vanguarda da despistagem do vírus mais falado no momento: o ébola. Mas não confundamos despistagem com …despistagem. A despistagem da qual falamos não termina com o chassis do carocha amolgado na cortiça de um sobreiro; trata-se sim da investigação laboratorial que atesta se o líquido do frasquinho tem vestígios do tal vírus mortal. E sermos um dos três países de referência na despistagem do ébola, resulta em quê?...na escolha dos nossos laboratórios como local privilegiado aonde chegarão amostras de todo o mundo em busca de diagnóstico. Um orgulho nacional. Finalmente o reconhecimento exterior pelos nossos serviços. Numa altura em que tanto se fala de exportação, era disso que nós precisávamos: de importar o vírus ébola. Estava longe do nosso território, mas nós fizemos questão de o chamar para pertinho de nós. Não sei bem como conseguimos ser escolhidos no meio de tantos, mas aproveitemos para cumprir essa função com brio e dedicação. A senhora do laboratório dizia que se despedia dos filhos e encarava a estóica tarefa como um combatente na linha de fogo, sem pensar numa bala perdida, numa luva furada, numa galocha rasgada. À primeira vista, poderíamos esperar a importação de outro tipo de serviços e bens como barcos de pesca noruegueses, organização suíça, tecnologia japonesa, economia alemã, pizzas italianas…o quê?...essas já importámos?... fiquemos pela economia. Mas importamos o Ébola e exportamos o diagnóstico para todo o mundo; um serviço público de valor humanitário. Poderíamos ter ficado na vanguarda das análises do colesterol, da glicemia, da Alina Aminotransferase , mas nós gostamos de fazer as coisas em grande (eu sei que a última designação técnica soava a algo grandioso mas não é nada de especial) e apostámos num vírus que tem uma taxa de mortalidade de 70%, ou seja, mata comó caneco. Não questionamos porque razão são só três os países de referência para a análise do ébola (não sei quais são os outros dois, mas não devem ser os alemães que já têm a economia, nem os noruegueses que já têm os barcos de pesca...), e encaramos a tarefa com o empenhamento e o desprendimento do montanhista que escala nos Himalaias, do pára-quedista que se atira do avião, do piloto que acelera a 300km/h antes da curva, do canoísta que enfrenta os rápidos do rio Zambeze. Recebemos o frasquinho vindo da Serra Leoa em busca de respostas e seremos nós os portadores das mesmas. Temos esse poder entre mãos, esse e o frasquinho que não pode cair ao chão. E é no fio da navalha, com a adrenalina a pulsar nas veias, que trabalhamos em prole dos outros; uma tarefa de pura abnegação. O fato foi bem vestido, as luvas bem colocadas, os óculos acondicionados, as galochas coladas às canelas, a análise realizada, a desinfecção concretizada, os resultados obtidos. E eis que chega o culminar magnânime desta tarefa: a comunicação ao doente se este tem ou não tem o vírus. No caso da análise ser negativa, o doente saltará de alegria e jamais se esquecerá dos portadores da boa nova e ainda acabará a comer sardinhas nas docas de Peniche. No caso da existência do vírus se confirmar , teremos a dolorosa tarefa de dizer ao doente que apanhou ébola e, no caso dele perguntar pelo outro diagnóstico, o da cura, conseguirmos dizer-lhe que: “Cura, cura, ainda não se descobriu,…, mas parece que os americanos estão a testar um medicamento que pode ser que faça qualquer coisinha…”. A nossa tarefa restringe-se pois à despistagem…sim, a despistagem: a do carocha que se estampa contra o sobreiro. Chegamos ao local com a fita métrica debaixo do braço e, depois de várias medições e análises, afiançamos o diagnóstico com propriedade: “O senhor tem a chaparia do seu Volkswagen em estreita comunhão com a cortiça do sobreiro; basicamente tem o carro feito num oito e acaba de destruir uma árvore centenária”. Ao que o acidentado responde: “Isso dá para ver com facilidade; mas acha que tem solução???”. “Solução, solução,..., olhe tenho aqui o contacto de um bate chapas; pode ser que lhe resolva isso.” O que não me sai da cabeça é a imagem da investigadora do laboratório, acondicionada dentro de todo aquele aparato de isolamento, com a mão trémula segurando o frasco com o possível líquido mortal; sem margem para erro, ou vacilação. O que acontecerá no caso da senhora não conseguir conter um espirro?..... alguém tem o contacto do bate-chapas?....

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Vencimento Nostalgia


Troquei de carro. Ou antes, fui obrigado a trocar de carro, uma vez que o meu veículo  decidiu falecer à revelia do dono. Ainda tentei reanimá-lo, com umas festinhas no capô e uns pontapés nas jantes, mas ele claudicou. Mas não se limitou a claudicar de forma passiva; até chegarmos às festinhas no capô, já ele tinha feito grandes festinhas na carteira do dono, entre tubagens, embraiagens, motor de arranque, correia de distribuição. Mas os laços que nos uniam eram de tal maneira fortes, que ele decidiu que gostaria de levar o dono para a cova com ele. Percebe-se que nunca esqueceu os momentos fraternos que vivemos juntos, das peúgas suadas debaixo dos bancos, dos caminhos em terra batida que percorremos, dos iceteas  espalmados no banco do passageiro, das cascas de banana em compostagem no guarda-luvas. Decidiu então falecer neste momento de prosperidade económica em que vivemos, para que o dono esbanjasse também ele a sua própria prosperidade.  Em sua memória fiz-lhe a vontade e adquiri um veículo afogado em tecnologia onde tudo apita e nos faz pensar que prevaricamos a toda a hora. Apita quando não se põe o cinto, apita quando se tira o cinto, apita quando as luzes estão ligadas, apita quando é preciso fazer a revisão, apita quando não pressionamos o travão de mão, apita quando saímos do carro em andamento…?...(já um tipo não pode saltar do carro). Este árbitro de futebol de quatro rodas, tem, contudo, uma apitadela que me faz babar de contentamento: o apito do sensor da marcha atrás. E não se limita a apitar quando estamos prestes a embater na oliveira lá de casa. Avisa com uma luz que vai passando de verde para vermelho à medida que o pára choques se aproxima do estado de espalmamento, terminando com um enorme e reluzente STOP antes do impacto. Bem sei que nesta fase deveria estar a fazer o luto pelo meu falecido carro, mas estou naquela fase de afogamento tecnológico, qual criança inebriada com a playstation recebida no Natal, e sem qualquer sinal de nostalgia  das avarias do meu chaço anterior.
Decidi então pegar no meu compacto amovível de tecnologia e ir até ao multibanco ver o recibo de vencimento. Olhei para o tal recibo e , depois de soltar um termo imperceptível, consegui sentir um misto de alegria e tristeza. Por um lado, ao fim de 25 anos a trabalhar, nunca o meu salário se aproximou tanto daquele que eu recebia no meu primeiro ano de vencimento. E essa sensação nostálgica transportou-me  à minha primeira ferrugenta renault 4L, aos 0,6 cêntimos do litro de gasolina, aos 0,4 escudos do preço da bica, ao meu ano de jovem estagiário, que não pensava em custos do rolo de papel higiénico. Mas o recibo do meu “vencimento nostalgia” deixou-me com alguma pena  dos nossos decisores políticos por, no meio de tanto Mercedes e BMW onde sentam as majestosas bundas,  ainda não terem adquirido um veículo daqueles à séria, com sensores de marcha atrás. A atestar pela velocidade de recuo a que sujeitam as economias familiares, que nos levam a sentir os costázios a furar sucessivos muros de betão, decerto que não têm o apito milagroso nem a luzinha vermelha a acender. Ei, Meus senhores!...comprem lá o tal sensor, que a minha carroçaria de retaguarda  não aguenta muito mais espalmamento!!... Quando pensava que não me ouviam, eis que surgem os primeiros sinais de se querer inverter a tendência de regressão económica. Uma medida de fundo, que revolucionará o panorama de desenvolvimento nacional concertado: Um referendo!...Isso!...consulte-se o povo para que esta carroça ande para a frente! O tema do referendo?...É…?...Vamos lá, deixem-se de suspense…(decerto um dos grandes temas aglutinadores do desenvolvimento nacional e social como a privatização da energia, a regularização dos impostos, o funcionamento da justiça,…)…a Co-adopção por casais homossexuais!? Muito bem! Finalmente alguém com clarividência para pôr isto a andar para a frente.  Eu compreendo o pensamento do tipo que teve essa “holofótica” ideia. “Deixa cá ver; podíamos legislar directamente sobre a co-adopção por casais homossexuais, mas gastando 10 milhões de euros é outra coisa! Tem mais impacto, faz com que os cidadãos sintam essa medida como sua!...” De impacto a nossas carroçaria de retaguarda percebe, depois de vários estampanços contra oliveiras no caminho. Aguardo ansioso pela próxima ideia de referendo sobre a proibição de lançamento de cascas de amendoim pela janela do carro, ou sobre a limitação do consumo de bolacha Maria a partir das 23 h, ou a imprescidível abolição das brocas dos dentistas.

A avaliar pelo ritmo da marcha atrás ininterrupta que este veículo assumiu, rapidamente a magnitude do meu salário, encontrar-se-á com a nostalgia da mesada que a minha mãe me dava nos tempos de adolescente. Mas, mas,.... já há malta de 40 anos que voltou a viver com a mesada das mães???... Grandes malandros, vão comprar os livros do Tex e pacotes de batatas Pala-pala antes de eu lá chegar.

domingo, 10 de novembro de 2013

As broas pelo canudo da produção


“Meninos cheguem aqui para prepararmos o dia dos bolinhos!...”… “mas ó pai …” “Shiu não me interrompam.  Tu podes levar aquele saco às riscas e tu o saco com as galinhas desenhadas..” “ Mas pai, tu não sabias que…”, “Esperem, que agora temos de planear o roteiro. Poderíamos apostar na rua da avó, que tem aquela senhora simpática…”, “ Ouve, ainda não percebeste que…”, “Mas deixam-me acabar ou não??? Íamos naquela senhora simpática, das broas de mel e no senhor de bigodes das nozes e dos rebuçados de frutas…” “Pai, já podemos falar?...Tu queres saber que…” “ E temos de saber onde espalhamos as guloseimas, se em nossa casa ou na casa da avó…”. De forma contundente e sincronizada, os miúdos gritaram, interrompendo o périplo imaginário : “Paiiii!  Já não vai haver o dia dos bolinhos!!!” …(silêncio aterrador)….. “Que raio estão a dizer?...” “É verdade, já não existe o feriado do dia 1 de Novembro, para podermos encher os sacos de guloseimas”. Os meus filhos lançaram um olhar de piedade perante o olhar de desilusão do progenitor. “E, e,…então e os bolinhos? As broas de mel e de canela? As nozes e os chocolates? Os toques nas campainhas e nos batentes? O sorriso das pessoas simpáticas e o silêncio das pessoas enclausuradas atrás das cortinas? O enfartamento pós enfardamento?”…Grandes estafermos!  Transformar este fabuloso e doce feriado, num deprimente dia útil, para quê?...para aumentar  a produção laboral. Ah, assim está bem! E de facto a produção  subiu em flecha. O suficiente para exportarmos mais 20 pares de sapatos , 100 embalagens de sardinhas enlatadas e 40 pistões para a indústria automóvel. Aliás, dando seguimento à invulgar capacidade de produção dos nossos governantes. Conseguem produzir cortes à catanada como ninguém, produzir ministros que gostam dos açoites angolanos nas nalgas como ninguém, produzir impostos como ninguém, produzir dívida como ninguém, produzir cálculos matemáticos como ninguém, produzir riqueza como ninguém…???..., desculpem confundi-os com aqueles tipos que estão mais a norte,… p´rós lados da Noruega.  Temos pois os mestres da produção ao leme do barco lusitano. Basta olhar para a aglomeração de deputados que inundam todos os dias a assembleia, que se empurram em busca do melhor lugar sentado, rivalizando com o acotovelamento dentro do metro à hora de ponta, para percebermos a vontade quase esquizofrénica de produzir trabalho. E essa produção de trabalho é de tal forma assertiva que conseguiram fazer corresponder na perfeição (através dos tais cálculos matemáticos) toda a massa da redução salarial, ao valor dos encargos para o próximo ano com as PPPs.  Ou seja o dinheiro que retiram todos os meses a quase 10 milhões de portugueses, entra directamente nos bolsos dos blasers das chefias das…26(?)  PPPs, negociadas pelos amigos das chefias. A proporcionalidade do números (10 milhões para 26)  poderá reforçar a sigla das ditas sugadoras de capital: muitos Produzem Para Poucos comerem (e não serão broas de mel). Com o incremento exponencial da produção gerada neste dia dos bolinhos, poderemos continuar a aspirar a pequenos luxos como suportar o aumento das despesas dos gabinetes ministeriais para este ano em 3,8 milhões de euros. Parece que os tipos já nem tinham verba para um cafezito a meio da manhã. Ou a manutenção das escolas privadas suportadas por dinheiros públicos, junto de escolas públicas…confusos??...eu também, mas eles é que são os especialistas na produção.

Apesar de todos os ganhos inerentes à conversão do dia dos bolinhos em dia de trabalho (todos trabalhámos cheios de vontade e produzimos à bruta) , continuo a não me conformar com o facto dos meus filhos, não terem trincado as broas de mel da senhora simpática. E se as broas tivessem contribuído para o aumento da produção de alguns nichos do mercado empresarial?…aumento da produção? Onde, onde?? No trabalho dos pasteleiros de broas; no trabalho dos dentistas tratando das cáries produzidas pelas broas deliciosas e no trabalho dos médicos resolvendo problemas de obesidade infantil produzidos pelas broas. Mas estes pequenos nichos serão insignificantes quando comparados com enormes ganhos de produtividade.  Como tal, ainda bem que os miúdos não tiveram o fugaz prazer de falar com a senhora simpática, uma vez que  o trocaram por algo mais grandioso. O final deste feriado dos bolinhos foi, adulterando a emblemática frase lunar, Um pequeno passo para o Homem, mas um grande passo para a…Produtividade.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

sábado, 28 de setembro de 2013

O milagre da transformação segundo o outro Jesus




Sempre tive algum fascínio pelo filho com “nome do ídolo”. A decisão de baptizar os filhos com nomes de pessoas que se admiram, traz a esperança de que o descendente consiga trilhar um caminho de sucesso similar ao dos seus inspiradores. Chamar a um filho Viriato, é aspirar a que o petiz herde alguma da virilidade desse bravo guerreiro lusitano, que despachou à pedrada os invasores romanos. Na década de 60, muitos foram os Eusébios que cresceram na ambição de aplicarem nas bolas de rua a potência de remate do rei da bola moçambicano.  O pai de Cristiano Ronaldo inspirou-se no nome do presidente americano Ronald Reagan, o actor/político, na hora de escolher o nome para o filho. Parece que o rapaz não deu em político, mas aos pontapés na chicha, comprou mais casitas e Ferraris do que o tal do Ronald original.  Muitos serão os Tonys nascidos na última década, fruto das barrigas saltitantes das mães nos concertos do pavilhão atlântico ao som do “Sonho de menino” do seu ídolo musical. Aquele comentador político de televisão, que outrora foi primeiro ministro, carregou sobre os seus ombros o apelido de um dos maiores filósofos Gregos. Sócrates, o Filósofo, colocou ao dispor do seu herdeiro de apelido uma vasta obra de sábios pensamentos, para que ele pudesse ter uma ajuda na hora de construir a sua personalidade. Pensamentos como “Sábio é aquele que conhece os limites da própria ignorância.” ou  “A maneira mais fácil e mais segura de vivermos honradamente, consiste em sermos, na realidade, o que parecemos ser.”, retratam  de forma fidedigna como Sócrates, o político, quis levar à letra a sabedoria de tais ensinamentos…
Passemos então ao top da tabela de ídolos seguidos. O apelido Jesus. Uma pessoa que decide apelidar os seus descendentes, com um nome desta magnitude bíblica, deverá alimentar dois tipos de ilusão: a de que o nome trará sorte e bênção ou de que o nome servirá de inspiração para que os seus utilizadores consigam seguir os ensinamentos de Jesus Cristo.  Olhando para Jesus, o outro, o treinador de futebol, à partida nada nos faz lembrar Jesus de Nazaré. Começa logo porque na altura não havia pastilhas gorila e caso houvesse deveria ser proibido roê-las com a boca aberta ; depois a pronúncia hebraica tinha pouca similitude com os “prontos” do dialecto da Amadora;  poderíamos tentar ir pelas semelhanças do discurso de Jesus Cristo nas suas palestras de evangelização: “Deus não lhe dá mais do que pode carregar”. Jesus, o treinador riposta: “Vocês os quatro, formem aí um triângulo!”…não me parece…
Finalmente descobri uma luz ao fundo do túnel. A luz apareceu depois das declarações de Jesus, o outro, no rescaldo da cena de pugilato com um polícia para libertar um adepto.  Já que não conseguia comer pastilhas de boca fechada, falar dialecto hebraico, nem articular frases com algum sentido, decidiu ser verdadeiramente ambicioso e operar um milagre ao nível do seu ídolo. Tal como Jesus de Nazaré conseguiu devolver a visão ao cego de Jericó e transformar água em vinho, Jesus, o outro, decidiu também adoptar o seu próprio milagre da transformação. O milagre do vinho até lhe daria algum jeito, mas optou por outro de maior amplitude. Conseguiu transformar aquele personagem de cabelos brancos enraivecido, aos berros e aos murros a um polícia, num herói e guerreiro Viriato aos murros a um malfeitor polícia,…(mas não pode mandar murros no polícia?)…, bom,…num arcanjo de cabelos celestiais passando suavemente a epiderme da palma da mão nos braços vigorosos do agente da autoridade. “Mas Jesus, as imagens foram explícitas. Viu-se que o senhor espetou uns valentes selos no braço do polícia, que até lhe saltaram os óculos!”….”Só lhe saltaram os óculos? Eu queria era que saltassem os olhos a esse filho da p***a do bófia!”. “Mas sabe que pode ser punido na justiça?”...“Bom, antes de mais não foi agressão (aqui está o milagre), foi apenas uma ligeira exaltação com o intuito de proteger o adepto (aqui está a solidariedade). Mas desde já peço desculpa ao senhor agente (aqui está o arrependimento cristão) se levou a mal as festinhas que lhe fiz”. Mas Jesus promete não ficar por aqui em questões de milagres e fazer jus ao nome que enverga. Já estão na forja outros, tais como deixar perder campeonatos nos últimos minutos, ou transformar pães em rosas…Esses já existem??...que pena…
Por falar em milagres no mundo do futebol, eu próprio assisti a um milagre da transformação, que pela sua finura, não consigo deixar partilhar com os leitores. Ao acompanhar o meu filho a um dos seus jogos infantis, a equipa da casa, antes do início do jogo uniu-se para presentear os pais e espectadores com o seu grito colectivo. A disposição prometia algo de arrojado, e arrojada a coisa fluiu. O capitão gritava a palavra de ordem e a equipa iria atrás: “Somos as malta da Picha de aço! Aço,aço,aço! Com os co**ões a marcar passo! passo, passo, passo!”.   Quando a perplexidade me invadia o pensamento, no sentido de perceber quem tinha sido a besta que punha miúdos a gritar aquilo, olhei para o lado e, os pais, ao invés de indignados, aplaudiam de forma orgulhosa e efusiva os seus petizes. Eis o milagre da transformação:   A transformação de putos malcriados em crianças motivadas.   Já haverá alguém a sugerir a Jesus que importe este tipo de milagre para a sua equipa. Obviamente ele responderá: “não te esqueças que o meu nome é Jesus. Esse milagre é p’ra…meninos!!!”        

terça-feira, 10 de setembro de 2013

No país do Ao Menos

Estava a tomar a bica matinal e a minha orelha esquerda foi ao encontro da conversa dos dois tipos que mandavam abaixo duas bejecas também elas matinais. Dizia um para o outro: “Epá o meu primo Manecas, já está desempregado há mais de um ano e não arranja nada!”. Depois de limpar a espuma da cerveja dos pêlos do bigode, o amigo responde: “Eu ao menos ainda tenho o meu empregozito, que me paga 400 euros ao mês… Espero não ter o azar de ser despedido.” Aqui está o “Ao menos” metido no meio da frase e que traduz esse sentimento de relativização bem português. Roubaram-te a carteira e o telemóvel à saída do eléctrico? Ao menos deixaram-me a roupa e o boné; Foste espancada pelo teu marido bêbado depois da derrota do Benfas? Ao menos só me partiu 5 dentes e o maxilar inferior; O presidente da Câmara não paga 100 milhões de euros aos fornecedores? Ao menos fez umas avenidas e umas rotundas espectaculares. A ministra das Finanças esteve envolvida no negócio das Swaps que lesou o país em grande? Ao menos veste uns blasers beges muito elegantes. A justiça não mete na cadeia os tipos do BPN? Ao menos a malta sabe quem eles são. Os incêndios continuam a queimar a nossa floresta todos os anos? Ao menos ainda nos restam os relvados dos jardins públicos. O dono do restaurante ganha 50 cêntimos por cada refeição económica que vende? Ao menos ganha 50 cêntimos por cada refeição. Trabalhas 10 horas por dia a 400 euros mensais? Ao menos não estás desempregado. E voltámos ao início da conversa. A conversa do “Ao menos” tenho um emprego, com tudo o que de subversivo transporta. Parece que os ordenados baixam porque existe muito desemprego e as pessoas em desespero sujeitam-se ao “Ao menos” que vier. A coisa funciona assim: um patrão comunica ao empregado com 20 anos de casa que vai ter de lhe baixar o ordenado para metade se quer continuar a trabalhar ali. O empregado incrédulo pergunta “Mas existem menos encomendas? …existe prejuízo?” o patrão responde eloquente “tenho 100 jovens desempregados que se ofereceram para a tua função e a ganhar metade”. E continua “São as leis da liberalização do mercado, os custos de produção diminuem, competimos com a China e o meu lucro será maior! Tens de pensar que reduzes o salário, mas ao menos continuas connosco!...”. Neste “Ao menos” surge o que de pior tem a condição humana: A exploração voluntária das debilidades alheias. Vendem-se garrafas de água a 20 euros o litro para quem vive no deserto; Vendem-se medicamentos a 100 euros a caixa para quem tem dores reumáticas crónicas. Vendem-se cadeiras de rodas a preços de automóveis, a quem fica paraplégico; Vende-se a casa por 1/10 do seu valor, para se poder comprar comida para casa. Trabalha 10 horas por dia a 400 euros mensais, porque precisa de um emprego para sobreviver. Voltámos de novo ao nosso “Ao menos” tenho este emprego. E o “Ao menos” tem hoje um aliado de peso, a “Troika”. “Ó António, eu até te queria pagar mais, mas sabes…a Troika está a dar cabo disto; ao menos sempre ganhas qualquer coisita…”. Ou seja a “Troika” funciona aqui como a grande responsável do “ao menos”. Gostaria de trocar, sem ter de emigrar, este país do “Ao menos” , por um país do “Eu quero mais”. Eu quero mais competência na gestão do país; Eu quero mais tempo livre para estar com os meus filhos; Eu quero mais patrões que percebam os benefícios de terem funcionários satisfeitos; Eu quero mais políticos independentes de interesses ocultos; Eu quero mais pudor e responsabilidade; Eu quero mais ordenados que possibilitem viver com dignidade. Mas é a tal liberalização dos mercados… E com a liberalização económica chegou a liberalização moral, onde tudo é aceitável, desde que o lucro financeiro esteja garantido. Tento fugir da sina da resignação implícita ao “ao menos”. Para começar a minha terapêutica do “eu quero mais” decidi que não voto mais em partidos políticos. “Epá, mas não percebes que há algumas pessoas boas dentro dos partidos políticos e que eles é que têm de nos governar!” . É verdade sim senhor, mas ao menos eles ficarão a saber que eu quero mais…