domingo, 30 de maio de 2021

A Carraça

 


Nos meus passeios matinais em época primaveril, a inspeção periódica das coxas em busca de carraça invasora, é uma das rotinas que cumpro de forma repetida. Num destes dias verifiquei que tinha 4 desses espécimes subindo desenfreadamente perna acima agarrados às minhas pilosidades com o mesmo vigor do Tarzan   agarrado às lianas em busca da sua Jane. Tratei de as despachar com a rudeza de 4 implacáveis dedadas em direção ao solo, sem qualquer tipo de compaixão. Aquilo pesou-me na consciência. A carraça é um ser enigmático e, de alguma forma, admirável. Vive toda a sua vida agarrada à erva daninha na esperança de que, naquele inóspito terreno, passe por breves instantes uma coxa peluda para lhe lançar a unha. No entanto, algumas morrem sem sentir a sensação prazerosa para  qualquer parasita de  sugar um pouco da hemoglobina alheia. Percebia-se que a última carraça que despachei vinha feliz na sua ascensão. A longa espera ao sol, ao vento, à chuva, tinha finalmente compensado. Dentro de momentos já teria a dentição a trabalhar na epiderme do humano e a ganhar corpo de atleta. A minha unha retirou-lhe esse prazer, qual tampa da miúda mais gira do liceu na época da adolescência. Não conseguiu sequer consumar um breve momento parasitário, uma ténue gota de sangue,  levou logo uma nega em direção ao pó. Há quem ache que a carraça um ser repugnante, eu acho-a persistente e crente. Permanece impávida convencida que a sua hora chegará. E as que veem a sua hora chegar, não perdem tempo com preliminares, vão logo à ação. Poder-se-á achar que a carraça, uma vez instalada, poderia ser um pouco mais lúcida e permanecer escondida no anonimato, em vez de ostentar a sua barriga proeminente de leucócitos sugados a jorro e rapidamente se denunciar. Depois de uma espera tão longa e penosa, queriam o quê? Que a bicha deglutisse o banquete ao ritmo deprimente de um restaurante gourmet? Claro que iria encher o bandulho à fartazana. Não podemos pedir discernimento a uma carraça que passou por tanto para ali chegar.  Não sei porquê mas lembrei-me agora do fabuloso ministro Cabrita, o tal da administração (e)interna. Se me lembrei por causa dos milhares de ingleses que encheram o bandulho de cerveja nas ruas do Porto e se divertiram a partir tudo por onde passavam, depois de uma longa espera em abstinência anti-covid,  pendurados nas suas lianas britânicas? Não. Lembrei-me do ministro Cabrita por continuar agarrado à coxa peluda do ministério depois de tanta patetice.  Tenho de lhe tirar o chapéu. O Tipo é persistente. Mas percebe-se. Depois de tanto tempo a vaguear nas ervas daninhas dos corredores partidários em busca da tal coxa salvadora, eis que chegou a sua oportunidade que tratou de a agarrar com unhas, dentes e alguma falta de senso. Depois da primeira gafe das golas inflamáveis que pegavam fogo, poder-se-ia ter mantido quietinho no seu canto sem encher muito o bandulho, para não darem por ele, mas não. Atacou à bruta o banquete de alarvidades.  Desde o caso do SEF, a gafe dos vacinados com 80 mil anos, passando pelos imigrantes ilegais de Odemira , os festejos espampanantes dos adeptos do sporting e culmina agora na invasão “controlada” de holligans ingleses nas ruas do porto a partir tudo o que é cadeira e paz social.  Mas atenção que a proteção civil tomou medidas eficazes no combate ao caos. Enviou SMS a todas as pessoas para colocarem máscara, manterem distância social e não beberem álcool. Só falhou, porque os ingleses deixaram os telefones em Manchester. A Dona Júlia, vendedora de toalhas na ribeira, depois de assistir a umas murraças e cadeiras voadoras soltou um clarividente sotaque  nortenho “Eu estou admirada com isto! Então nesta multidão ninguém usa máscara? Até colocaram ecrãs gigantes para ver a bola e depois queriam o quê?”.  Ó dona Júlia, eu próprio também estou admirado, não só com as palermices do Cabrita, como de todos os outros palermas que dizem governar isto e não têm qualquer plano estratégico lúcido, que não seja mandar vir mais barris de cerveja e deixar as golas a arder.  Mas nem tudo é descontrolado. Na semana passada, vi a notícia do controlo do caos de 5 miúdas  estudantes de Erasmus que foram multadas na hora por estarem a beber um copo de vinho num dos miradouros da capital.  Firmeza nisso Cabrita! É Disso que o país precisa, pulso firme!

Agora percebi como ainda ninguém conseguiu mandar uma dedada ao Cabrita em direção ao pó e remetê-lo de novo à erva daninha. Simplesmente chegámos ao ponto em que as múltiplas carraças se apoderaram do próprio e passivo pedaço de coxa. Estão todas bem nutridas e firmemente seguras, esperando que não apareça a tal febre da carraça que acabe com todo este regabofe. Até lá, venha daí uma cerveja  e uma cadeirinha para o que der e vier.

domingo, 25 de abril de 2021

A liberdade da corrente


Esta imagem foi tirada há 32 anos. Eu sei que está pouco nítida, mas é a única  que assinala a primeira vez que desci o desfiladeiro do rio Paiva, um dos mais majestosos e bonitos rios do nosso país. Foi uma aventura fabulosa, num dia bem invernoso de geada, chuva e muito frio. Essa entrada num rio caudaloso de águas bravas, totalmente desconhecido para os três que se aventuraram nesse dia,  pode ser um verdadeiro ensinamento de vida. Fui  usufruindo do rio Paiva ao longo dos anos. O gozo do desafio, da comunhão com a natureza, do convívio, da gastronomia local e  da magnitude desse fenómeno que nasce debaixo de umas pedras e desagua algures no mar.  O facto de escrever estas linhas no dia 25 de abril, o denominado dia da liberdade, não é inusitado. O rio Paiva,  juntamente com todos os rios de águas bravas que fui conhecendo dentro de um caiaque, simboliza a faceta da liberdade que eu considero mais saudável: a liberdade natural. E a liberdade natural não está isenta de condicionalismos. “Epá mas então o que é isso? Queres ver  que um gajo não pode ter liberdade plena? “ Não. Voltamos à ideia do rio de águas bravas. O rio dá-te a possibilidade do livre arbítrio. Abre-te a porta e diz que podes usufruir do seu leito cristalino e desafiante. Nas passagens mais turbulentas dá-te alguns sinais de opções que podes tomar. “Estás a falar em opções, condicionalismos, perda de liberdades e garantias? “ Não. O rio dá-te todas as liberdades, mas não te dá todas as garantias. Dá-te a liberdade para avançares por aquela cascata limpa e gritares de contentamento depois; dá-te a opção de escolheres a passagem do calhau duro e gritares de dor depois; dá-te a possibilidade de não fazeres a passagem, acartares com o caiaque de 20 quilos às costas e gritares de alívio depois; dá-te a  liberdade de entrares direito naquele sifão e gritares debaixo de água depois. “Mas o 25 de abril deu-nos as ferramentas para podermos fazer tudo o que nos dá na veneta, isso não tem nada a ver com a imagem condicionada que passas do rio!” . Tem tudo a ver. Na liberdade natural do rio também podes fazer tudo o que te dá na veneta, simplesmente podes levar na corneta.   Nas comemorações do 25 de abril, vi alguns personagens envolvidos em escândalos de corrupção que continuam a sorrir com o cravo de abril na lapela. Para eles, abril representou de facto esse sentimento do fazer tudo o que lhes dá na veneta, sem olhar a meios. As suas ações criminosas não acarretam consequência dolorosas. A pedagogia do rio não os deixaria incólumes escondidos atrás de subterfúgios legais, recursos e prescrições. Levariam umas chapadas valentes do duro granito. No rio, as pedras não prescrevem, nem tão pouco as correntes rumo ao mar; estão lá à espera das opções mais inusitadas. No rio, se se cair num sifão, fica-se numa espécie de prisão. Os tipos dos cravos na lapela que eu vi a sorrir depois de terem caído nos sifões das escutas, dos favores ocultos, do compadrio, do enriquecimento ilícito, não sentiram sequer o cheiro das ervas daninhas dos arredores da cadeia de Pinheiro da Cruz.  E para não haver espaço para se ouvir os ensinamentos dos rios de águas bravas sobre a consequência de algumas das ações menos pensadas, alguns destes tipos, aproveitaram o embalo para calar a voz do rio Tua erguendo a tal barragem que encheu os bolsos de algumas empresas dos amigos e cujo ganho económico para o país se resume… a 1 mês de produção energética(?). Todos os outros ganhos  seguem no caudal “natural” para desaguar nos bolsos dos amigos.

               Neste dia da liberdade, continuo a usufruir da imagem da liberdade natural do rio de águas bravas. Sentir a água fria nas mãos, a corrente debaixo do caiaque,  a passagem ruidosa entre os dois calhaus, a sensação de desafio constante nas opções tomadas. Fatigado, aproveito a margem para descansar e, quando me preparo para partilhar uma fila de chocolate com os amigos, vislumbro ao longe um tipo muito parecido com  aquele  político das  opções extremamente  duvidosas. Rema desenfreado rumo ao sifão do lado esquerdo do rápido. Acenamos de forma vigorosa para o avisar que ali existe perigo real, mas ele ignora o aviso e acelera cada vez mais para dentro do buraco.  A sua confiança de que nada o pode parar, parece inabalável…   

 

domingo, 28 de março de 2021

2,36 euros extra...ordinários




Num momento em que o sentimento generalizado sobre os chineses é de alguma desconfiança, preparo-me aqui para  contrapor e dar uma oportunidade aos tipos. Eu sei que nos foram mandando com a peste bubónica, a gripe asiática, a gripe das aves, o corona vírus. Além disso mandaram também  pelo AliExpress um par de sapatilhas  que demoraram 5 meses a chegar e  2 dias a romper. Mas neste momento sinto que tenho de fazer essa catarse de sentimentos negativos e transformá-los em palavras de compreensão e carinho .  Deve ter sido do isolamento que fiquei mais sensível ou então foi daquela carta que recebi no correio que dizia “Apoio Social Extraordinário”.   Vi uma luz ao fundo do túnel no meio do nevoeiro com as 3 palavras de apreço, como que a dizer: “Amigo, nós estamos contigo nesta luta difícil e enviamos esta ajuda para mitigar de alguma forma esse desalento”. Abri o envelope da EDP com as mãos trémulas de tanta emoção e lá bem em baixo vinha esse apoio social extraordinário materializado em 2,36 euros…(?). Por momentos pensei que faltava ali um zero, mas logo me penitenciei e retorqui “epá não sejas mal agradecido perante esta prova de generosidade da EDP”. Eles tiveram a hombridade de perceber que o facto de ficarmos sempre fechados por causa do vírus chinês, aumentou um pouco o consumo elétrico e tiveram essa comovente atenção. Percebi esse incremento pelos 160 euros de luz extraordinária que terei de pagar à EDP de acerto anual. Mas temos de ser uns para os outros. Eles mandam-nos unidades e nós mandamos centenas. Uma troca, mais do que meramente comercial, realmente solidária. E é aqui que aparecem os chineses extraordinários, os maiores acionistas da EDP, essa empresa quase irrelevante para o nosso quotidiano. Foi  graças aos chineses que hoje tenho mais 2,36 euros a embelezar a minha conta bancária e estou grato por isso. Por isso e por serem gestores a sério; gestores que agem de forma diferenciada em prole da eficácia,  aplicando um câmbio lógico: dão apoio, utilizando a bitola do que pagam a um operário na China e recebem lucros, de acordo com o que pagam a um CEO de uma das suas empresas europeias. Os políticos portugueses que nos foram vendendo ao capital chinês foram visionários.  “Estes chinocas é que sabem como se gere um país e ainda nos dão uns milhões para pagarmos as casas na quinta da marinha e nos colocam em cargos de chefia para fazer número e mover algumas influências.”

Existe uma dúvida que sempre me perseguiu, que se prende com o facto de um país comunista se ter transformado no maior acionista do capitalismo mundial(?). E percebi que esta coisa do comunismo capitalista funciona com a mesma destreza do que uma finta do Ronaldo; simula que vai para a esquerda e  chuta um balázio com a direita. Os tipos ergueram as bandeiras vermelhas com as foices e martelos, acenaram com a ideologia da libertação do proletariado, da abolição da propriedade privada e igualdade das classe sociais e depois mandaram o proletariado trabalhar dia e noite a cozer bolas para o Ronaldo, ganhando 2,36 euros à hora, com os lucros milionários a serem guardados nos cofres dos empresários ligados ao comité central do partido.  Onde investiram eles esses lucros? Nas dívidas externas que os chicos espertos europeus foram acumulando para importar as bolas, os Rolex, os Lenovo, os Xiaomi, as sapatilhas do AliExpress, produzidos pelo proletariado chinês. Utilizaram assim a filosofia do “Deix’ós poisar!”. Os capitalistas pousaram seguros em solo comunista, esperando retornos faraónicos nas mãos dos pobres chineses e depois tiveram de gramar com eles na gestão das suas casas. E foi assim que recebi os 2,36 euros em minha casa.   Eles estão a tomar conta de nós com afeto, podemos ficar descansados. Depois da EDP, da REN, da banca, da saúde privada, dos seguros, das telecomunicações, da imobiliária, da agricultura, ainda falta a gestão da água, um dos outros bens pouco essenciais, passar para as mãos dos filantropos chineses. Mas eles já controlam as barragens?...então tu queres ver que a água… ?...

Tenho de tirar o chapéu a Marcelo na sua deslocação recente à China, quando vestiu o fato de  super-soberano e discursou de peito feito “Queremos exportar mais  aqui, queremos investir mais aqui!”. Parece que um dos chineses soltou uma risada lá atrás, mas eu acho que Marcelo esteve em grande. Decidiu finalmente equilibrar a balança dos 354 milhões de importação/ 1,7 milhões de exportação. “Ó Xi Jinping, dá lá mais um milhão ao homem e ele cala-se! Não podemos é pagar os 110 milhões de impostos na vendas das barragens, para a balança continuar equilibrada”.  Quanto ao querer “investir mais aqui” é que é estranho. Investir o quê? O capital que recebemos pelas vendas das empresas nacionais aos chineses. Jogada de mestre Marcelo! E conseguiste tirar uma Selfie com o Jinping? Apanhaste o Lu Chun a rir-se lá atrás?

Assumindo que a nossa soberania está bem entregue aos gestores Chineses, enquanto espero para saber como os tipos irão gerir os “nossos” bazucados milhões, já me sentei à mesa em frente a um belo prato de shop suey com arroz chao-chao. Agora só me falta tirar a máscara importada da china e comer aquilo com uns pauzinhos. Eu chego lá...


domingo, 21 de fevereiro de 2021

A Amona

 


Encontro-me neste momento  a tentar escrever num artigo de opinião sem grande opinião…(?).  Esta constatação parece um claro contrassenso no contexto atual, uma vez que toda a malta consegue opinar sobre o  covid 19, esse malfadado vírus que nos remeteu ao enclausuramento coletivo. Com a proliferação de tantas fontes de informação,  a minha opinião tornou-se frouxa; foi perdendo pujança, até  chegar a um estado pré-catatónico no qual mergulhou de forma quase irreversível. “Epá aquele virologista da TVI disse que agora é que é! Temos todos de nos fechar em casa porque as variantes britânica, brasileira e africana matam comó caneco!”. O Tipo parece saber do que fala. Vou já encomendar mais 30 pacotes de massa, 6 packs de papel higiénico e 40 latas de atum, para podermos ficar aqui no bunker enquanto essas estirpes andam por aí. Mas não ouviste a opinião daquele médico conceituado alertando que o covid é mais um vírus, que a vida tem de continuar, temos de proteger os mais vulneráveis e meter os hospitais privados ao barulho;  que os casos da Suécia são os mesmos dos que confinaram e que tudo não passa de um interesse das farmacêuticas na produção milionária de vacinas? Mau, mau…então em que é que ficamos? Saímos ou entramos? Abrimos ou fechamos? Com máscara ou de boca ao léu? Escolarizamos ou fingimos ensinar? testamos ou ficamos com os narizes mais intactos? Libertamos ou enclausuramos? Vacinamos ou quinamos?  E foi assim que a minha opinião se foi afogando num mar de outras opiniões, muitas vezes antagónicas. Quando se coloca a cabeça de fora para se começar a opinar, eis que se leva uma chapada de opinião abalizada pela boca dentro, faltando oxigenação para sobreviver. O que lixa a minha pretensão de opinar é que  todas as opiniões aparentam ser devidamente fundamentadas. Foi então que decidi deixar a minha opinião em banho maria, ali quietinha, esperando que os catastrofistas e os negacionistas se juntassem e tentassem chegar a uma posição de algum equilíbrio. Esperei muito e percebi que as opiniões além de antagonicamente fundamentadas são também persistentes; não afrouxam com qualquer antibiótico; prolongam-se no tempo de forma ininterrupta sem perder fulgor.  Todos os assuntos marginais são devorados pelo vírus. Mas também a quem é que interessa saber das nomeações feitas na Procuradoria Geral da República, no Banco de Portugal e no Tribunal de Contas para se receber condignamente a bazuca dos 58 mil milhões de euros com a “fiscalização” adequada? Fale-se dos vírus todos os dias, a todas as horas, a todos os minutos, que o espaço fica curto até para dedicar algum tempo àquele embaraço por que passou a ministra Van Dummen, depois do tal currículo forjado  enviado para a união europeia. Mostram-se os gráficos, os doentes,  os ventiladores, as filas das ambulâncias, as vacinas gamadas.  Estava aqui a minha opinião muito sossegadinha, quando o meu organismo decidiu opinar por conta própria e abriu a porta ao  covid. É verdade!  Até um tipo com a opinião hibernada pode apanhar o tal vírus. E já que o tinha no corpo, tentei construir alguma opinião sobre o mesmo. É transmissível porque peguei à malta toda aqui de casa. Bate certo. Sintomas de gripe e não de uma gripezinha,…senão olham-me de lado e chamam-me Bolsonaro. Afortunadamente estivemos fora do circuito da febre alta, falta de ar, fila de ambulâncias, cuidados intensivos. Descobri no entanto um sintoma de que não ouvi nenhum opinante a falar: o sintoma da “reação  ao tipo infetado pelo vírus”. Ao  comentar com alguém que tive covid, senti um suster respiratório, um ligeiro deslocamento à retaguarda e um olhar de quem está prestes a ser placado por um avançado da Nova Zelândia (não vá o gajo ainda ter resquícios do covid e espilrar-me para as vias aéreas através dos buracos da máscara). Afinal eu faço parte daqueles números terríveis anunciados todos os dias no ecrã televisivo, antes das filas das ambulâncias, dos ventiladores e das vacinas da Pfeizer.   Nesse momento a minha opinião sobre o vírus parece começar a despertar. Não sobre o vírus  do covid, mas sobre o vírus do ecrã. O ecrã que nos bombardeia com o medo; um medo que se entranha no subconsciente  e que está para ficar. O medo de pegar o vírus aos pais que se isolam cada vez mais; o medo do convívio com os amigos que se afastam cada vez mais; o medo cada vez maior de sair à rua sem respirar pela frecha do algodão.  Já não tenho pachorra para tanto ecrã que alimenta este medo que tolhe o discernimento e acomoda a resignação. Decidi apagar o ecrã da TV na hora das notícias e desligar-me das publicações do Facebook . No silêncio, longe da bazuca opinante, talvez uma opinião lúcida sobre tudo isto consiga emergir de novo. E eis que surge o teletrabalho e o ensino à distância em frente ao… ecrã.  Depois do surto de covid 19,  os quatro cá de casa mergulharam de cabeça no vírus do outro ecrã. O cenário de 4 pessoas na crença do ensino à distância partilhando as 2 divisões da casa bafejadas pela net, cruzando matérias sonoras de Matemática, Educação Física, Inglês, Atelier de Narrativas e Linguagens Audiovisuais e vídeos no instagram, é claramente um teste às equações de equilíbrio familiar mais complexas para o qual ainda não há vacina no horizonte. Ainda bem que a minha opinião voltou a submergir e a esperar por melhores dias. Senão corria o risco de opinar à bruta neste espaço de opinião.


domingo, 20 de setembro de 2020

A Bolha

 


O início das aulas em época de Covid exigia medidas drásticas para que o descalabro pandémico não surgisse em todo o seu esplendor. As equipas especializadas do ministério da educação em estreita ligação com as equipas especializadas da DGS montaram uma estratégia especializada infalível baseada num único conceito: A Bolha…!? Eu sei que o nome não tem um grande impacto sonoro, é um pouco mortiço até, mas interessa sobretudo o seu conteúdo em termos operacionais. E o conteúdo da bolha é a turma do 5ºB. Expliquemos por miúdos em que pressupostos assenta esta fabulosa ideia. Os alunos quando entram na escola são impelidos de forma magnética a operarem uma junção com os outros colegas da mesma turma e permanecem nesse estado de molhada seletiva durante todo o dia. A este estado molecular  os especialistas chamaram de “Bolha”. E essa bolha é criada com o intuito de não propagar vírus às outras bolhas vizinhas do 5ºA e do 5ºC que não têm a culpa da bolha propagadora ser descuidada.   Como qualquer invenção feita em cima do joelho, perdão, feita assente numa consistente base científica, precisa de limar algumas arestas para que fique verdadeiramente perfeita. A ideia inicial de que, em princípio, turmas com menos alunos teriam menor taxa de propagação caiu por terra, uma vez que poderia descambar num conceito de “Bolhinha”, designação que daria um cunho pouco sério a este plano. Optou-se por se seguir uma linha mais impactante e manter 30 alunos por turma para se poder fugir com propriedade para uma designação de “Bolhona” . Uma coisa em grande; uma bolha bem nutrida. Só assim se avalia a resistência das paredes que envolvem essa bolha; com muita malta dentro a gritar que quer sair para ir dar um amasso na miúda do 7ºF . E quando poderíamos pensar que a parede da bolha teria uma resistência superior à do latex, eis que surge a constatação de que a bolha ao ar livre pode rebentar em menos de um fósforo. Parece que é dos raios ultravioletas ou da brisa de noroeste.  Optou-se então por deixar a bolha de alunos o maior tempo possível dentro da sala de aula, o espaço ideal para que o vírus não tenha muito ar para respirar.  Saídas fugazes da bolha ao ar livre, só para espaços territoriais bem definidos, se possível encostados ao pilar da sala onde o 5ºC está a ter aula de ciências naturais.  Está quase tudo perfeito com esta hermética bolha, não fossem duas balas que furam essa parede celular em sentidos inversos. O tipo que invade essa bolha vindo do exterior chamado professor e o   que foge dessa bolha para o exterior chamado o tipo à rasquinha para uma mijinha.  O professor entra na bolha do 5ºB, depois de ter mergulhado de cabeça nas bolhas do 5ºA, do 7ºE, do 9ºD e do 5ºF. Em princípio não tem problema porque é sabida a resistência molecular da bolha do docente, que aguenta sem problema viagens de 240 km para conseguir dar 11 horas de aulas numa escola em Penamacor. São tipos habituados a dar a bolha às balas; o vírus não penetra nessas carapaças atléticas. Já o tipo à rasquinha para uma mijinha é mais problemático por ser menos resistente. Deveria ser capaz de aguentar todo o dia com a bexiga firme, sem pestanejar, ali na bolhona da sala de aula com os seus 29 colegas átomos aos saltos.

As equipas especializadas do ministério da educação estão embevecidas com a sua criação e com razão. A bolha tem tudo para dar certo. Basta ver o grau de contentamento dos alunos que entram radiantes na bolha onde permanecerão todo o dia de máscara, dentro da sala de aula a maior parte do tempo, longe dos amigos das outras bolhas e sem qualquer vontade de saltar a vedação. Não entendo a expressão “Estar com a bolha” como uma estado de má disposição, quando  “Estar na bolha” espelha uma sensação de total segurança e harmonia.   A coisa fará de tal maneira sucesso que serão os alunos que prolongarão esta bolha para o exterior, onde até agora reinava uma inconsciente libertinagem de contactos com outros amigos. Hoje mesmo estou a pensar organizar o jantar para os  25 colegas do meu filho cuja bolha circulou durante todo o dia . Só tenho de planear as rotas de entrada e de saída, para que não se cruzem com a bolha dos 35 colegas de faculdade da minha filha que vieram passar o fim de semana juntos. Em princípio vai cada bolha para o seu quarto e só saem à vez quando estiverem à rasquinha.

sábado, 13 de junho de 2020

Padaria em tempo de epidemia




Depois de 3 meses com o cérebro enclausurado, decidi desconfinar e escrever finalmente sobre esta fase isolamento forçado. Aproveitando a loucura geral da libertação  da malta que, de súbito, decidiu invadir esplanadas, praias e praças, também eu comecei meter a cabeça de fora. Vê-se que o portuga não foi feito para grandes tempos de apneia; isso é tarefa para os mergulhadores de ostras do Golfo Pérsico. Cá nós, aguentamos um bocadinho a suster o ar, mas quando nos dizem que podemos subir devagar para garantir a descompressão equilibrada, saímos a toda a gáspia em busca do oxigénio perdido sem tempo para essas mariquices. Mas olha, que parece que a malta continua a falecer… Eu quero é que se lixe, pá! Já estava a ficar roxo de tanto ensino à distância! Eu preciso é de vitamina D em barda; parece que reforça o sistema imunitário.  E sempre posso levar o iphone para o Baleal  e, antes de me banhar nas águas do oceano, ou de beber umas jolas, marco presença na aula de Matemática.
Mas comecemos pela fase inicial da pandemia, em que o vírus mortal nos perseguia de forma voraz por via aérea ou terrestre. Uma das constatações mais enigmáticas dessa fase para mim, foi  a pá da padaria do Lidl …?! Eu sei que parece estúpido, mas terão de me dar um desconto, afinal estive sem oxigenar o encéfalo durante muito tempo. Saímos de casa , munidos de todo o material de proteção, até aquele gel desinfectante viscoso que comprámos por 15 euros. Assamos dentro do carro com os vidros fechados, porque nos iremos cruzar no caminho com o camionista contaminado que veio com produtos alimentares de Itália; Chegamos ao Lidl, cruzamo-nos com um tipo  que tem olhos de chinês (vê-se logo que fugiu da província de Wuhan para nos tentar fazer a folha), sustemos a respiração não vá a bicheza entrar. Vamos para a secção do pão. Esperamos que a senhora , que parece querer levar pão para armazenar durante 3 meses no seu bunker , saia da frente dos sacos de papel e vá para a secção do papel higiénico, para podermos passar ao ataque.  A senhora saiu, calçamos a luva, pegamos no saco e seguramos radiantes na pá. Dizem-nos que o Covid gosta de esperar por mãos desprotegidas nas superfícies metálicas e de plástico e o que é que os alemães criadores do Lidl inventaram? Uma pá metálica  com uma pega de plástico onde o vírus pulula de alegria. Então os tipos criam a Mercedes, a Volkswagen, a BMW, a Siemens e depois enterram-se com esta deprimente pá recolhedora de pão ? Pegamos na pá com a luva e tentamos “pescar” o pão certo com um refinado trabalho de pulso ao nível dos melhores praticantes de matraquilhos. Lembramo-nos das máquinas da feira com aquela garra para apontarmos e tentar apanhar o ursinho que nunca vem e nos engole o euro. Aqui o processo é inverso, a colherada agarra sempre mais 3 paposecos do que os desejados. Seguramos no saco com a mão e vamos buscar o pão desejado mais os três extra. Chiça! Peguei no pão com a mão com que tinha segurado na pega de plástico cheia de vírus!  Não memorizei bem o procedimento complexo associado àquele momento. Volto atrás, ou opto pelo “que se lixe” ? A minha veia anti-desperdício e a pressão do homem que está com o ombro  encostado ao meu em busca dos croissants  de manteiga, levam-me a optar pelo “que se lixe” e a fugir com os paposecos contaminados na sacola. As compras restantes são feitas em passo de corrida, a arrastar o fardo na consciência por não ter tido a concentração necessária na secção do pão, nem o trabalho prévio para que os passos da anti-contaminação batessem certo. Chego extenuado à caixa de pagamento e tenho dificuldade em estabelecer comunicação com a funcionária (que ainda não usa máscara obedecendo ao conselho inicial da senhora da DGS) pelos  4 metros de distância e o olhar enviesado para evitar inalar espilros mais enérgicos da funcionária que já tinha dado troco ao chinês de Wuhan. Depois de decifrar a frase  “já pode pôr o cartão na ranhura”, teria a tarefa de tentar realizar esse desígnio, cumprindo uma distância de segurança com a solícita senhora, que  teimava em manter acesa uma inadequada conversa de circunstância em tempo viral.   Chego ao carro, despejo uma quantidade generosa de gel por tudo o que é epiderme  e volto para casa com a segurança proporcionada pelo hermético e ardente veículo.
Felizmente que ao fim de 3 meses esta loucura profiláctica já lá vai. Eu sei que temos de continuar a ter de levar com a senhora  da DGS todos os dias, mas o panorama está claramente no desconfinamento à grande. Os comboios da Amadora voltam a abarrotar, as manifestações anti-racismo juntam milhares nas ruas, os espectáculos com 2000 espectadores na plateia são partilhados pelos chefes de estado, a água do mar já convida muita malta ao mergulho e até o ministro Centeno se decidiu desconfinar dos cargos das finanças que vão dar pouco trabalho nesta fase. Ainda bem que o número de infectados por covid desceu de uma maneira abrupta e já podemos fazer a “fiesta”…Ai não?....o número continua igual?.... Então, pá!? Parece que já passámos  para a fase do “que se lixe”…a falta de ar e de sol. Acho bem, até porque já não aguento a sauna do habitáculo do meu carro com os vidros fechados. Já agora e aproveitando a embalagem, será possível nesta fase, desconfinarmos o ensino à distância e pararmos de fingir que este método educativo funciona melhor do que a pá que tenta tirar o pão na padaria do Lidl?  

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

Caixote Geral de Depósitos


Não percebo nada de bancos. Mas percebo alguma coisa de como o funcionamento dos bancos pode afectar as minhas rotinas diárias.  Decidi ir ao balcão da Caixa Geral de Depósitos (CGD). Depois de algumas voltas para parar o carro bem no centro, lá cheguei e tirei a senha. Um Funcionário no balcão, várias pessoas com a senha na mão. A espera até foi rápida, atendendo ao número de pessoas recebidas. Chegou à minha vez e expliquei que a operação seria simples: passar dinheiro de uma conta a prazo para uma conta à ordem, operação que fazia de forma célere até então com a caderneta, mas parece que a caderneta já não dá para isso. A funcionária disse que, para eu conseguir fazer essa operação, teria de preencher os dados numa folha A4; Não me disse mais nada,  e deixou-me ali entregue à minha sorte, a tentar resolver aquele espécie de exame final de Geometria. Depois de conseguir concretizar a tarefa, disse-lhe que não fazia qualquer nexo aquela trabalheira, ao que ela abanou afirmativamente a cabeça, respondendo entre dentes “São as ordens que temos agora, e para o processo inverso (conta a ordem para conta a prazo(?) também é preciso preencher outra folha, sabia? Apesar do silêncio, vi na cara dela vontade de ter dito, “sabe, nós temos de dar a cara e estas folhas A4, porque um energúmeno qualquer se lembrou disto”. 
Vejamos se consigo resumir o processo de transformação da Caixa, no Caixote que conhecemos hoje. Até 2017 a CGD dava muito prejuízo. Nesse buraco encaixam os 1,2 mil milhões de euros em prejuízos resultantes de vários empréstimos de risco sem garantias (Berardo e companhia) e compra de ações ruinosas (BCP) que aconteceram entre 2000 e 2015, levando o estado, com o dinheiro dos contribuintes, a injetar 4 mil milhões de euros no banco público. Dessa gestão ruinosa, quase todos os responsáveis saíram incólumes, excepto o tal do Vara que cumpre 5 anos de cadeia por tráfico de influências num outro processo(?). Chegou o Salvador Macedo (não o bispo da IURD), mas alguém com igual apetência para o negócio e tratou de reequilibrar as equações. Parece que eliminou a corrupção dos corredores e fez algo tão simples como reduzir os custos (despedindo à bruta e fechando balcões) e aumentar os lucros (carregando nas comissões das várias operações). E a coisa foi meteórica, qual espetáculo de fogo de artifício na Madeira. Em 2017 passa de prejuízo, para 51 milhões de lucro, em 2018 para 496 milhões de receita positiva e nos 1ºs 9 meses de 2019 para 640 milhões de ganhos. Um verdadeiro milagre da múltipla multiplicação. Ah grande Macedo! Macedo teve o mérito de criar esta sensação de segurança: a malta guarda-te aqui o teu dinheiro bem guardadinho (só o utilizaremos para empréstimos a outros e faturaremos massa com os spreads que sacamos), tu pagas uma taxa irrisória  de manutenção da conta como agradecimento e quando te apetecer utilizar esse dinheiro, nós criaremos as condições ideais …para te  fazer a vida num inferno(?). Deslocalizamos o balcão para uma zona onde não possas estacionar (já estamos a pensar em rolos de arame farpado a ocupar os poucos lugares existentes) , impedimos operações com as funcionais cadernetas  obrigando-te a ir ao balcão, despedimos funcionários para ficares 2 h à espera e,  quando, finalmente chegares ao balcão a definhar, trataremos de te entregar um exame de geometria para preencheres com sucesso, sem falhares uma alínea. Depois disto talvez possamos libertar o teu dinheiro.  
Acho muito bem que o banco do estado pare finalmente  de dar prejuízo e alguém ponha ordem na casa. Até porque o prejuízo não tinha a ver com o volume de depositantes, mas com a magnitude de negócios fraudulentos permitidos por gestores corruptos. Acho menos bem a transformação da CGD, banco público, num banco de carácter low cost com custos high cost; paga-se cada vez mais para se ter um serviço cada vez pior. Mas fique-se descansado que em breve teremos ao dispor a possibilidade de aceder a serviços extra, a preços também extra:  atendimento prioritário, utilização de poltronas com maior espaço para as pernas; pequenas refeições volantes  para amenizar a eventual espera excessiva; ajuda no preenchimento do exame dos requerimentos complexos; possibilidade de aceder em menos de 1 minuto ao nosso dinheiro a prazo (esta será a versão Premium dos extras).  
Ao fim de 32 anos a depositar o meu dinheiro na CGD, fui vivendo este processo de desconforto progressivo; o desconforto de nos sentirmos uma pera madura que passou de uma Caixa devidamente acondicionada e bem tratada, para  os confins de um Caixote afogado numa montanha de peras e carregada à bruta para cima de uma prateleira.    Senhor Macedo, agora que já chegou aos 640 milhões de lucro, acha que já pode aliviar um pouco as pobres peras maduras do acondicionamento à molhada nos confins de um caixote?...ou para isso será preciso  pagar mais um extra???