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Num momento de agitação social
aguda, de proliferação do desemprego a níveis nunca vistos, de recessão
económica grave, hoje irei escrever sobre a minha… pantufa esquerda. Eu sei que
parece um assunto de leviana futilidade no meio de tanto assunto cheio de
substância, mas aqui vai...a minha reflexão sobre essa coisa que se coloca nos
pés quando se chega a casa à noite, para os manter sequinhos e quentinhos. Na
verdade, são mais chinelos de quarto, mas o termo pantufa é mais carinhoso e
faz-nos lembrar o cãozinho do nosso
imaginário infantil. E é precisamente por pantufa estar associado a algo tão
pueril e fofo, que tenho dificuldade em conformar-me com o facto, da mesma me atazanar o bem
estar. Vamos passar ao enquadramento do problema. O problema é que todas as
noites de inverno, quando me levanto para ir à casa de banho (com a idade a
bexiga minga e a próstata aumenta) procuro com o pé esquerdo a pantufa em falta
e ela nunca está lá! E assim se fazem as
incursões nocturnas ao WC: cambaleando
de forma desequilibrada pelo sono e pelo facto de ir com uma pantufa calçada e
o outro pé cruelmente sujeito às agruras de uma tijoleira fria. Já experimentei
colocá-las geometricamente alinhadas, em local de fácil acesso pedonal, mas nada;
sento-me na cama e o meu pobre pé gelado procura de forma desenfreada um peludo
aconchego e o raio da pantufa deu de frosques. O enigma é que a pantufa é uma
coisa, um objecto, que por definição não tem vida própria, não se ofende, não fala,
não foge, não discute, não diz que a sopa está insonsa. Limita-se a estar,
certo?...Não! a minha pantufa esquerda decidiu reivindicar; não quer pés
dentro; quer permanecer livre de odores indesejados. Até aí a coisa não faz
nexo. Ainda se fossem uns ténis de corrida, sujeitos a inúmeros maus
tratos, lama dos carreiros, manchas de
suor, quilos de chulé, vestígios de micoses, ainda vá. Mas os meus ténis de
corrida são pacíficos e fiéis, obedecem ao dono, não fogem com a amante…bom, só
aquele que fugiu na boca de um cão desconhecido e nunca mais apareceu. Agora
uma pantufa(?), que está todos os dias no aconchego do lar, nem um pingo de chuva apanha no têxtil, que
tem o privilégio de contactar com pés limpinhos acabadinhos de sair da
banheira, às vezes até com cheiro de creme hidratante, tem de se queixar do
quê? Não se queixa?...pois não!...mas foge todas as noites para debaixo da cama
o que, para um ser ensonado, com olhos semi-cerrados, revoltado pela sua
micro-bexiga aniquilar o sonho que estava a ter com praias tropicais
paradisíacas, torna a tarefa de descoberta com um nível de dificuldade
similar ao Indiana Jones em busca do templo perdido.
Estava eu aqui a pensar na pantufa
que deveria estar lá mas não está e lembrei-me das chaves do carro…?...naquele
dia que decidimos não levar o carrinho de compras ao supermercado e trazemos,
qual halterofilista, 15 quilos de compras em cada mão. Numa das mãos o pack de
6 garrafas de litro e meio de água, porque a água do cano sabe a terra e a
cloro, na outra 6 sacos repletos de víveres cuja pressão na palma da mão nos
deixa com mais uma linha que fará as delícias de qualquer quiromante. Chegamos
ao carro, pousamos as garrafas e levamos a mão livre ao bolso esquerdo em busca
da chave que nos libertará da tortura produzida pelos sacos. Nada…a chave está
no bolso errado!...porra!...pousamos os 6 sacos no chão, a lata de salsichas
rebola pelo passeio, o iogurte de frutos silvestres é espalmado com o peso das
massas, o alho francês salta borda fora e nós, perante aquela fuga generalizada dos bens alimentares, insultamos o raio da chave que tinha logo de
estar no bolso errado.
Para dar um cunho de alguma
credibilidade a esta crónica, seria conveniente, estabelecer aqui uma ponte
entre a minha pantufa esquerda e a
situação política do país. Nem seria difícil; Os políticos são como a minha
pantufa esquerda: Confiamos que eles estarão lá
num momento de aflição e de fragilidade ; entregamo-nos à sua hipotética
competência para a função e, quando precisamos deles,…traem-nos, seja fugindo para debaixo da cama ou para dentro de uma qualquer multinacional . Na
realidade o que eu quero mesmo é que a minha pantufa esquerda hoje à noite, não
comece com historietas e trate de se encaixar no meu delicado pezinho, que ele
já começa a sofrer de artroses…