terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Cronologia da fivela

           
Dei um abraço caloroso a um primo que já não via há mais de um ano. Ele olhou-me com atenção e lançou um “Epá, estás muito mais gordo!”.  Fiquei extremamente sensibilizado; aliás não esperava frase mais fraternal do que esta para início de reencontro. Ainda bem que não perdeu tempo com lamechices do género “que saudades” ou “gosto muito de te rever” e passou logo para o plano da genuinidade sem filtros. Haverá adjectivação  mais adequada a um reencontro de primos? Poderá haver. Em vez do “muito mais gordo” , aparecer um “muito mais velho”, “muito mais careca”, “muito mais desdentado” , “muito mais surdo”, “muito mais senil”.  Tudo piropos da mais alta estirpe lançados a quem se nutre um carinho especial. Esqueci-me de dizer ao meu primo que também o achava “muito mais simpático” e que tinha ficado com vontade de o rever “muito mais tempo depois”.  Anda um tipo a remar contra as correntes cronológicas do metabolismo e depois leva com esta avaliação. As corridas matinais para queimar calorias, a ingestão de queijo fresco para reduzir  calorias, têm como resultado prático…a acumulação das calorias no diâmetro abdominal(?). Ainda por cima o “muito mais” aparece ali para não dar margem de erro e eliminar desde logo a dúvida “se calhar ele achou que eu estou apenas um pouco mais cheiinho”. Na realidade não preciso de primos para perceber que estou mais “composto”. O meu cinto trata de me lembrar. Tenho de trocar de cinto. O meu tem 20 anos.  Consigo ver de forma tristemente evidente as diversas marcas da fivela ao longo dos anos. E pensar que a fivela já espetou em 3 orifícios abaixo. Na verdade, com a idade também começamos a ficar mais sábios, aliás “muito mais sábios” (podias ter começado por aqui, primo…). E que mal têm as adiposidades? É sinal dos tempos, vividos numa sociedade moderna, onde felizmente existe paparoca da boa, para a confrontarmos com o metabolismo dos “entas”.  Dizia-me no outro dia um amigo: “sabes porque não engordo? Porque nunca paro, estou sempre a fazer coisas; nem tenho tempo de ver televisão...”. Mas ó amigo, eu cá quero parar! Quero embrenhar-me no ócio com todas as minhas forças. Quero não fazer coisas quando não me apetece e quando me permitem não fazê-las.  Quero sentar-me a ver um bom filme sem pensar em fazer coisas, quero dormir uma soneca sem pensar em fazer coisas, quero comer um bom prato de feijoada sem pensar em ouvir coisas sobre  o incremento do volume da minha barriga. E as evidências dos orifícios do meu cinto não me fazem confusão? Fazem, se não aceitar de forma ponderada o curso natural do envelhecimento. E o cinto?...O cinto cá está para nos lembrar, que nesta idade é natural termos uns quilos a mais dos que tínhamos com 20 anos. Como é natural termos menos cabelo, nos cansarmos mais a subir 5 lanços de escadas,  acordar com mais dores nos joelhos,  adormecermos no sofá antes de começarmos a ver o filme nocturno. As marcas da fivela no cinto são como as camadas cronológicas dos troncos das árvores, que servem para perceber a sua idade real.  O meu cinto está a cumprir a sua função na perfeição. A inexistência de barriga depois dos 40 significa que algo não está bem: ou padece de depressão, ou fuma, ou está com uma doença urinária, ou passa por um processo de divórcio, ou vive no Uganda, ou corre ultra-maratonas. A propósito, conheço um tipo de 50 anos que começou nas ultra-maratonas para não engordar e já troca de cinto com o filho adolescente. Se calhar também eu deveria começar nas ultra-maratonas. Estava todo o tempo livre a correr e quando não estivesse a correr estaria a fazer coisas, muitas coisas para enganar a fivela do meu cinto. Talvez assim, já pudesse encontrar o meu primo daqui a 5 anos, de forma totalmente relaxada, porque iria ouvir “Epá estás muito mais magro!  Parece que envelheceste 10 anos…”

sábado, 26 de dezembro de 2015

Um bitoque p'rá supervisão!


Ao quarto banco falido, já começo a ficar um bocadinho farto. Sobretudo, depois de saber  que cá em casa, teremos de desembolsar um subsídio que já não existe, não para comprar prendas de natal para os amigos, mas para enterrar num Banif enterrado .  Eu sei que no Natal deveria estar a falar no banco de madeira junto da lareira, a aquecer as mãos, a ajeitar as meias e a confraternizar com a família. Mas aquele banco, o outro, a arder, não me sai da cabeça.  No meio de toda esta penumbra de bancos falidos e governos pactuantes com o silêncio, existe um personagem que me inquieta o espírito pelo seu inabalável e permanente estado de letargia perante verdadeiros terramotos financeiros: um tal de governador do banco de Portugal. E qual a função desse personagem? Vejam bem: “Supervisionar o sistema bancário nacional”. E de que forma supervisionaram os 2 últimos governadores a saúde dos nossos bancos?... na paz da soneca. Penso mesmo que quem acompanha esses supervisores, deveria substituir a prescrição desenfreada de lorenin, por 4 cafés delta “selecção intensa” logo no pequeno almoço. Mantinha os tipos devidamente acordados, quase eufóricos, para que pudessem apanhar a falência antes dela chegar. Vítor Constâncio tinha assistido em impávido sonambulismo, à queda do BPP, BPN e BCP, e em vez de receber um tratamento intensivo numa clínica de recuperação do estado de vigília, entrou em apoteose no Banco Central Europeu, com direito a cafés fraquinhos tirados nos bares de Frankfurt.  Depois os europeus que não se queixem se o tipo ressonar durante o expediente. Ah, nós também somos europeus?... ninguém pode levar um cafezito a sério ao homem? O seu sucessor, Carlos Costa, iria fazer melhor. Encaminha-se a passos largos para esse difícil objectivo. Já vai nos dois bancos falidos. Parece que até nem toma grandes coisas para dormir em trabalho, porque não precisa; o sono surge-lhe naturalmente. É um dom hereditário. Depois acorda “arrelampado” e diz:    Eu avisei! Eu avisei! E ninguém me ouviu!?... É o chamado síndrome do voyeur da autoestrada: o tipo que se coloca em cima dos viadutos, assistindo aos carros a acelerar, em busca de acidentes e grita para a mulher: “viste aquele porsche, que passou aqui? devia ir a 200Km/h? Eu ainda gritei: ande mais devagar!  depois diga que eu não avisei quando se espetar contra um separador de betão…”  

Há muito que se fala da falta de auto-regulação dos poderes em Portugal.  Parece que o sistema de ignição da auto-regulação está sem sinal de arranque há algum tempo. A justiça não se consegue auto-regular, a banca não se consegue auto-regular, o sistema político não se consegue auto-regular e eu próprio não me consigo auto-regular e deixar de pensar em asneiredo sempre que me lembro da falta de auto-regulação. Encontrei finalmente a solução para o problema da auto-regulação, sem ter de recorrer a um novo lote de café delta mais enérgico. Trata-se do Bitoque, o meu cão.  Poderão pensar que estou aqui a entrar no domínio  ofensivo da condição humana, com a inusitada proposta de substituição do governador do Banco de Portugal, por um canídeo chamado Bitoque, ainda por cima sem ovo a cavalo.  Mas trata-se apenas de escolher as pessoas,…bem,…os seres certos, para os lugares certos. O Bitoque é um mestre da auto-regulação; uma máquina de supervisão actuante. A conta da água disparou em flecha com as regas de verão. O Bitoque roeu numa hora todos os tubos da rega. Passei a gastar menos água. Andava cansado de tanto correr. O Bitoque estraçalhou os ténis de corrida. Deixei de correr e de me cansar tanto.  A minha filha tinha de perder tempo a passar o cartão magnético para fazer qualquer coisa na escola. O Bitoque roeu o cartão. A minha filha…teve de comprar outro(?).  Uns tipos acordavam-me aos domingos de manhã para me falarem da origem da Terra. O Bitoque roeu o fio da campainha.  O que poderíamos desejar mais para supervisionar o sistema bancário em Portugal? O Bitoque ladra alto quando a coisa não lhe cheira bem; urina no seu território não deixando outros cães opinarem no seu espaço; rói  de forma veemente o que não lhe parece correcto; morde quem não perceber as suas abordagens menos agressivas e sobretudo consegue manter-se em vigília sem recurso a cafés intensos.  Acham que o Banif e o poder político  teriam escapado aos dentes aguçados do Bitoque? Ele está aqui ao lado a abanar a cauda e a querer abocanhar o computador. Não me parecer que seja um grande sinal…

domingo, 22 de março de 2015

O Eclipse


 
Fui assolado pela loucura do eclipse solar.  Um fenómeno único, que só daqui a 11 anos poderemos ver outra vez. “Então e onde vamos ver o tal eclipse?” ; “Disseste ver?...olhar para o acontecimento com atenção?... Não podes! Causa cegueira!”. Digam-me lá se faz algum nexo; publicita-se um acontecimento espectacular, deixa-se a malta em polvorosa, combinam-se festarolas, compram-se as moelas e as cervejas e depois dizem que não se pode olhar, que podemos ficar cegos. Ontem a minha mulher relatou-me que tinha feito um óptimo bolo de chocolate, dirigi-me à cozinha e trinquei 3 fatias de forma festiva e alarve. “Sabes o bolo era espectacular mas utilizei uns ovos que tinha aí guardados há uns meses…pode ser que te cause algum desarranjo intestinal”. “E cegueira, e cegueira???” ; “Fica descansado que a diarreia não chegará à retina”.  O que os tipos conseguiram com a notícia “é espectacular, mas não pode olhar”, é que passei toda a manhã de olhos no chão, com vontade de olhar, para onde não podia olhar, por causa da cegueira. Mais valia terem ficado caladinhos, até porque o fenómeno nem foi assim tão espectacular, digo eu, que só consegui olhar até ao rebordo superior do volante. Eu entendo o pobre do Sol. Também eu ficaria lixado se um insignificante satélite me impedisse de espalhar o brilho nas horas em que o espectáculo de luz é meu. Então tomem lá uma cegueirazita que é para aprenderem. Existem uns filtros que se compram e se colocam nos olhos. Mas o sol não é p’ra todos? Primeiro dão-me o fenómeno como acessível e espectacular, depois cobram entradas para nos salvarem das cataratas? Já agora expandam o negócio para a doçaria infantil e avancem nessa estratégia “Minha menina queres este fabuloso chupa-chupa às riscas amarelas e azuis? Então toma, querida! Quando a criança se prepara para colocar o dente na bola de açúcar, ouve as entrelinhas: “Mas  não te esqueças de dizer à tua mamã que vá ali comprar o antídoto para o cianeto.” Ao ver todos aqueles astrónomos de binóculos especiais, com filtros especiais apontando para o céu, em busca de um acontecimento espectacular, saiu-me um: “E então?”. A lua passou à frente do sol e ofuscou o seu brilho; e depois? Todos os dias nos deparamos com eclipses e não fazemos este regabofe todo. O eclipse da espectacular lista dos contribuintes Vip, perdão, os não contribuintes vip. A lista saiu a brilhar cá para fora e rapidamente alguém a empurrou com a barriga para os confins da decomposição. O eclipse na minha espectacular peúga nos dentes do meu obscuro cachorro novo. Mas o eclipse que me chateou hoje, foi o eclipse na nossa língua materna. Já tinha sido ofuscada pelo abjecto acordo ortográfico e agora  é assombrada pelo satélite anglo-saxónico de Cambridge. A minha filha teve de pagar um exame de certificação de Cambridge que chegou à escola pública. Porquê? Porque Cambridge saiu do seu cantinho, embrenhou-se nos institutos particulares de todo o mundo e agora chegou ao ensino público português.  Tens a certificação de Cambridge? És um tipo espectacular! Não conseguiste passar no exame de Cambridge?...coitado, estás perto do estado de sem-abrigo.  Disseram-me que os professores de inglês em Portugal, estão a esta hora, a testar os seus conhecimentos em frente aos computadores de Cambridge. “You need improvement” respondem as máquinas na sobranceria inglesa, sempre que o profe tecla na tecla errada. Os mesmos profes que todos os dias se fecham numa sala de aula com 28 alunos, tentando que os miúdos fiquem a saber, no meio da algazarra, que o “to be”  é um verbo e não o Tobias, o cão do vizinho. São esses alunos que terão agora acesso ao fabuloso exame de Cambridge e à tal certificação. O satélite Cambridge entra de rompante e vende ele próprio os óculos que impedem que se fique cego por se olhar para a estrela da língua portuguesa. Porque em todo o mundo se fala inglês…de Cambridge. Sem o inglês de Cambridge não entra em lado nenhum. Aliás pela dicção inglesa de José Mourinho, um dos portugueses de maior sucesso no mundo, percebe-se que Cambridge fez parte integrante do seu currículo na escola básica de Setúbal.  Agora afastem lá o rabo do Cambridge aí da frente e deixem-me espreitar para o brilho da minha língua portuguesa descansado. Estou tão farto de eclipses, que se me falarem novamente da lua ou de Cambridge, ainda vos mando com as espectaculares declarações de José Mourinho: Ai sink ai m a special one!...

domingo, 18 de janeiro de 2015

Pai Ambrósio




Hoje irei debruçar-me sobre a complexa temática do “Pai Ambrósio”, espécime antropológico esquecido de forma injusta em todos os manuais de taxonomia do reino animal. Já tinha aflorado este tema de forma superficial, baseado apenas na constatação da vida desenfreada de alguns amigos, na tentativa chegarem a tempo às aulas de violino, de equitação, de ténis e de inglês dos filhos. Como desejava comprovar a minha teoria do “Pai Ambrósio” com sustentação científica, nada melhor do que mergulhar de cabeça na loucura da experimentação. E tudo começa de uma forma muito singela, com uma frase também ela inofensiva: “Querida, não achas que os miúdos deviam fazer um desporto qualquer?...”.  Se a querida da esposa responde afirmativamente, a nossa vida sofre uma fabulosa alteração, que tinha dificuldade em classificar, até que a minha mãe tratou de facilitar a conceptualização da coisa, lançando a expressão: “Filho, já viste que tens os pneus do carro carecas!...”.  Armei-me em cientista e agora tenho de me aguentar à bronca. E a dimensão da bronca tem uma relação directa com a magnitude do mergulho em forma de bomba, que mandei da última prancha, rumo às exigentes actividades dos miúdos.  Moro longe da urbe, mas decidi levar em simultâneo a filha para o Basquetebol e o filho para o futebol. Como achei que, eventualmente, não experienciava  a tese de forma plena, aumentei o grau de dificuldade e de quilómetros, levando o miúdo para uma terra ainda mais distante. No final de 4 anos de experimentação como “Pai Ambrósio”, sinto-me com a propriedade académica para  tirar algumas das principais conclusões deste estudo. Em primeiro lugar, a certeza de que os accionistas da Galp  e da Michelin gostam mais de mim, do que Soares gostará de Sócrates. A quantidade de litros de gasóleo que entra no depósito do veículo de qualquer “Pai Ambrósio” por mês, rivaliza com a que enche os camiões TIR que transportam cebolas entre Sever do Vouga e Bruxelas. Em segundo lugar, a ligação entre o Pai Motorista e as instituições desportivas é similar à que  um trabalhador  estabelece com a segurança social;  à medida que o tempo passa, a esperança de que o trabalho vá diminuindo e a reforma chegando, afasta-se como uma miragem no deserto do Atacama. É um mergulho sem retorno a terra firme; quanto mais nadamos para a margem, mais ela se afasta. Avançamos nos anos e aumenta o número de treinos, o número de jogos e, os horários, são empurrados para horas próprias da entrada nas discotecas da Praia da Rocha. A hora de jantar em família vagueia ao sabor dos treinos nocturnos, quase sempre com o arroz empapado e frio. Mas o pai Ambrósio não baixa os braços; coloca-os no volante e acelera entre campos da bola e de basquete. Mete um às 18, a outra às 19.30, pega no primeiro e trá-lo às 20; vai buscar a outra às 21, chega a casa às 21.30. Levanta-se às 7 da matina de sábado para levar um ao Cartaxo, porque o jogo só começa às 9, mas o “mister” tem de dar uma palestra de meia hora antes da hora de aquecimento que antecede o jogo. A outra joga em Rio Maior às 15. Tem de sair de casa às 13 para chegar às 14. O jogo termina às 17.30. Chegamos a casa às 18.30. No domingo, outro jogo, porque é jornada dupla. Não queremos saber; queremos ficar na cama a descansar; “levanta-te pai que vou chegar atrasada!...” o “Pai Ambrósio” levanta e acelera…a um domingo (?).  O treinador diz que a miúda ganharia mais argumentos técnicos se não faltasse aos treinos das 20, mas o pai Ambrósio balbucia com algum embaraço que, apesar de ser multicelular não consegue dividir-se em 2 organismos distintos e estar em 2 locais à mesma hora. “Achas que podemos ir passar o fim de semana ao Alentejo?” pergunta a esposa em busca de um retiro em família. “Já te esqueceste que o miúdo tem jogo na Freixianda?”. O Pai Ambrósio acaba de poupar umas massas num Hotel alentejano. Os amigos telefonam para irem descer juntos um rio em Arouca. “No fim de semana do jogo com o Ouriense que decide o 3º lugar? Impossível…”. Também, o bife de vaca arouquesa está pela hora da morte. Ainda bem que desporto faz bem aos miúdos; desenvolve as competências físicas e sociais. Em compensação as competências sociais e físicas do “Pai Ambrósio” estão perto do vegetativo. E nas férias da Páscoa? Os treinos continuam? Ah, vai haver um torneio com equipas muito boas, como o Atalaiense e o Caxarias?...Então e os 4 dias que planeámos sair até ao Gerês???...Deixa lá que aquilo é só árvores, erva, chuva e burros selvagens!...
Numa das inúmeras viagens que fazem juntos, o filho tocou no ombro do pai e disse-lhe: “Ó Pai, apetece-me algo!…Que o Sporting me faça o tal convite. Íamos só 3 vezes por semana a Lisboa. O que te parece? ” O “Pai Ambrósio” respondeu: “Toma lá esta caixa de Ferrero Roché e já vais com sorte…”

domingo, 28 de dezembro de 2014

Meteorologia natalícia



Estava a minha dentição entretida a trucidar os coscorões e todas as iguarias que o metabolismo merece enfardar no dia de natal, quando alguém teve a genial ideia de ligar a televisão. Em uníssono, ouvimos um apelo colectivo: “Esse tipo é que não!...desliga isso, senão a fruta cristalizada não passa no esófago!!” Entre o ligar, o apelo e o desligar, sobraram alguns segundos, suficientes para ficar colada aos nossos coscorões a mítica frase “desde há muitos anos que os portugueses não terão a acumulação de nuvens negras no seu horizonte”.  Várias dúvidas me assaltaram e nenhuma tinha a ver com a carga calórica dos coscorões. A primeira questão prendia-se com o facto de, no dia em que comemoramos o nascimento do menino Jesus, aparecer o primeiro ministro a falar ao país. Não sei se a ideia seria colar-se ao  nascimento do salvador e ele próprio apanhar essa onda deixando no ar a imagem de que também nasceu o redentor económico “sabem, eu não tive uma vaquinha nem um burrinho para me aconchegar o berço, mas tive uns tipos do banco central europeu muito simpáticos que me deram aconchego nos momentos em que eu mais precisei; esses e os chineses que nos compraram a energia; esses e os brasileiros que nos compraram e venderam as comunicações aos franceses; esses e outros que não sabemos bem quem, a que entregámos os correios” . Nasce assim,  Passos como o salvador de todos os nossos pecados da gula, afastando o espectro do terror e da falência. Por falar em falência, “Ó Passos, então e aquela história do BES? Da solidez dos investimentos?” Da regulação fictícia do Banco de Portugal?...”  “Banco? Qual banco?...hoje vim aqui falar de prosperidade!!!...já de propósito, para evitar mal entendidos, troquei um banco de madeira por esta  cadeira vermelha igual à que o pai natal utiliza nos centros comerciais  para vender fotografias aos meninos que se conseguirem sentar ao seu colo.”.
Voltemos à frase meteorológica lançada pelo primeiro ministro sobre a acumulação de nuvens negras no horizonte.  Um claro sinal de que o tipo tem poderes maiores do que o malogrado Anthímio de Azevedo, que só conseguia prever as baixas pressões para um período de 5 dias com alguma segurança. Passos lança-se seguro para a certeza de uma baixa acumulação de nuvens negras nos próximos tempos, ou seja, entre o dia de Natal e as eleições legislativas. É d’homem! Ou antes, é d’homem poderoso! Ou melhor é d’homem poderoso a puxar para o milagroso!
Trincamos o peito do peru ao memo tempo que ouvimos a notícia de que a idade da reforma irá aumentar para os 66 anos e 2 meses. Lembramo-nos da nuvem negra na fase dos coscorões, engolimos o peru à pressa e começamos a fazer a nossa análise introspectiva: “Grande mentiroso!  Então que tudo iria ser melhor; que faria um sol radioso e dá-nos a perspectiva de gozar a reforma a trabalhar?” . “Disseste mentiroso? Não confundiste com poderoso e milagroso? Pensa bem no “oso” que colocas no final do adjectivo.” Na verdade Passos não mentiu, porque domina a metáfora meteorológica como ninguém. Lança a redução da acumulação nuvens negras como uma coisa boa, sabendo que, para um alentejano, assolado pela seca e falta de água, e ansioso por uma bela carrada de chuva e negridão no horizonte, a redução das nuvens revela-se como uma má notícia. A metáfora meteorológica não compromete; a nuvem pode ser má para um minhoto ou boa para um algarvio. “Quem disse que as coisas iriam melhorar?...eu só falei em nuvens negras, mais nada!”. Mais nada?...falou também que “Será o primeiro Natal desde há muitos anos em que temos o futuro aberto diante de nós.”. Aqui já ultrapassa a previsão meteorológica e entra no domínio do consideravelmente estúpido. Talvez por um erro de sintaxe. O nosso futuro sempre esteve aberto diante de nós; aberto e repleto de figuras, cujas competências deveriam estar ao dispor do Instituto do Mar e da Atmosfera e nunca aos comandos da complexa gestão de um país. Se tivesse dito “temos mais futuro aberto diante de nós”,  a coisa já faria algum sentido; de facto percebo que tenho cada vez mais futuro a trabalhar, mesmo que para isso tenha de levar comigo as artroses e o andarilho. 
Acabei agora de consultar a previsão meteorológica  para os próximos dias e fiquei a saber que não haverá nuvens no horizonte. Ufa, ainda bem.  Seremos brindados com um fabuloso frio glaciar para testar as nossas adiposidades. Enquanto a nuvem não vai e o frio não vem, vou continuar agarrado aos coscorões e ao peito de peru, com a certeza de que só abrirei a televisão para conferir os números do euromilhões, que desta vez me lembrei de fazer. Pode ser que o futuro se abra perante nós com a nebulosidade adequada.

sábado, 18 de outubro de 2014

Da Serra Leoa para Portugal...com admiração...

Somos um dos três países mundiais com maior competência no sector. Fiquei estupefacto com a fabulosa notícia. Nós, que perdemos tempo com fatigantes lamúrias e maledicência barata, aprendemos hoje que fazemos parte de uma restrita elite na vanguarda do conhecimento. Pensarão os leitores de que sector se trata, e não adianta perderem tempo a divagar pela pesca, agricultura, economia, justiça e irem logo directos para a área da saúde. Descobrimos que estamos na vanguarda da despistagem do vírus mais falado no momento: o ébola. Mas não confundamos despistagem com …despistagem. A despistagem da qual falamos não termina com o chassis do carocha amolgado na cortiça de um sobreiro; trata-se sim da investigação laboratorial que atesta se o líquido do frasquinho tem vestígios do tal vírus mortal. E sermos um dos três países de referência na despistagem do ébola, resulta em quê?...na escolha dos nossos laboratórios como local privilegiado aonde chegarão amostras de todo o mundo em busca de diagnóstico. Um orgulho nacional. Finalmente o reconhecimento exterior pelos nossos serviços. Numa altura em que tanto se fala de exportação, era disso que nós precisávamos: de importar o vírus ébola. Estava longe do nosso território, mas nós fizemos questão de o chamar para pertinho de nós. Não sei bem como conseguimos ser escolhidos no meio de tantos, mas aproveitemos para cumprir essa função com brio e dedicação. A senhora do laboratório dizia que se despedia dos filhos e encarava a estóica tarefa como um combatente na linha de fogo, sem pensar numa bala perdida, numa luva furada, numa galocha rasgada. À primeira vista, poderíamos esperar a importação de outro tipo de serviços e bens como barcos de pesca noruegueses, organização suíça, tecnologia japonesa, economia alemã, pizzas italianas…o quê?...essas já importámos?... fiquemos pela economia. Mas importamos o Ébola e exportamos o diagnóstico para todo o mundo; um serviço público de valor humanitário. Poderíamos ter ficado na vanguarda das análises do colesterol, da glicemia, da Alina Aminotransferase , mas nós gostamos de fazer as coisas em grande (eu sei que a última designação técnica soava a algo grandioso mas não é nada de especial) e apostámos num vírus que tem uma taxa de mortalidade de 70%, ou seja, mata comó caneco. Não questionamos porque razão são só três os países de referência para a análise do ébola (não sei quais são os outros dois, mas não devem ser os alemães que já têm a economia, nem os noruegueses que já têm os barcos de pesca...), e encaramos a tarefa com o empenhamento e o desprendimento do montanhista que escala nos Himalaias, do pára-quedista que se atira do avião, do piloto que acelera a 300km/h antes da curva, do canoísta que enfrenta os rápidos do rio Zambeze. Recebemos o frasquinho vindo da Serra Leoa em busca de respostas e seremos nós os portadores das mesmas. Temos esse poder entre mãos, esse e o frasquinho que não pode cair ao chão. E é no fio da navalha, com a adrenalina a pulsar nas veias, que trabalhamos em prole dos outros; uma tarefa de pura abnegação. O fato foi bem vestido, as luvas bem colocadas, os óculos acondicionados, as galochas coladas às canelas, a análise realizada, a desinfecção concretizada, os resultados obtidos. E eis que chega o culminar magnânime desta tarefa: a comunicação ao doente se este tem ou não tem o vírus. No caso da análise ser negativa, o doente saltará de alegria e jamais se esquecerá dos portadores da boa nova e ainda acabará a comer sardinhas nas docas de Peniche. No caso da existência do vírus se confirmar , teremos a dolorosa tarefa de dizer ao doente que apanhou ébola e, no caso dele perguntar pelo outro diagnóstico, o da cura, conseguirmos dizer-lhe que: “Cura, cura, ainda não se descobriu,…, mas parece que os americanos estão a testar um medicamento que pode ser que faça qualquer coisinha…”. A nossa tarefa restringe-se pois à despistagem…sim, a despistagem: a do carocha que se estampa contra o sobreiro. Chegamos ao local com a fita métrica debaixo do braço e, depois de várias medições e análises, afiançamos o diagnóstico com propriedade: “O senhor tem a chaparia do seu Volkswagen em estreita comunhão com a cortiça do sobreiro; basicamente tem o carro feito num oito e acaba de destruir uma árvore centenária”. Ao que o acidentado responde: “Isso dá para ver com facilidade; mas acha que tem solução???”. “Solução, solução,..., olhe tenho aqui o contacto de um bate chapas; pode ser que lhe resolva isso.” O que não me sai da cabeça é a imagem da investigadora do laboratório, acondicionada dentro de todo aquele aparato de isolamento, com a mão trémula segurando o frasco com o possível líquido mortal; sem margem para erro, ou vacilação. O que acontecerá no caso da senhora não conseguir conter um espirro?..... alguém tem o contacto do bate-chapas?....

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Vencimento Nostalgia


Troquei de carro. Ou antes, fui obrigado a trocar de carro, uma vez que o meu veículo  decidiu falecer à revelia do dono. Ainda tentei reanimá-lo, com umas festinhas no capô e uns pontapés nas jantes, mas ele claudicou. Mas não se limitou a claudicar de forma passiva; até chegarmos às festinhas no capô, já ele tinha feito grandes festinhas na carteira do dono, entre tubagens, embraiagens, motor de arranque, correia de distribuição. Mas os laços que nos uniam eram de tal maneira fortes, que ele decidiu que gostaria de levar o dono para a cova com ele. Percebe-se que nunca esqueceu os momentos fraternos que vivemos juntos, das peúgas suadas debaixo dos bancos, dos caminhos em terra batida que percorremos, dos iceteas  espalmados no banco do passageiro, das cascas de banana em compostagem no guarda-luvas. Decidiu então falecer neste momento de prosperidade económica em que vivemos, para que o dono esbanjasse também ele a sua própria prosperidade.  Em sua memória fiz-lhe a vontade e adquiri um veículo afogado em tecnologia onde tudo apita e nos faz pensar que prevaricamos a toda a hora. Apita quando não se põe o cinto, apita quando se tira o cinto, apita quando as luzes estão ligadas, apita quando é preciso fazer a revisão, apita quando não pressionamos o travão de mão, apita quando saímos do carro em andamento…?...(já um tipo não pode saltar do carro). Este árbitro de futebol de quatro rodas, tem, contudo, uma apitadela que me faz babar de contentamento: o apito do sensor da marcha atrás. E não se limita a apitar quando estamos prestes a embater na oliveira lá de casa. Avisa com uma luz que vai passando de verde para vermelho à medida que o pára choques se aproxima do estado de espalmamento, terminando com um enorme e reluzente STOP antes do impacto. Bem sei que nesta fase deveria estar a fazer o luto pelo meu falecido carro, mas estou naquela fase de afogamento tecnológico, qual criança inebriada com a playstation recebida no Natal, e sem qualquer sinal de nostalgia  das avarias do meu chaço anterior.
Decidi então pegar no meu compacto amovível de tecnologia e ir até ao multibanco ver o recibo de vencimento. Olhei para o tal recibo e , depois de soltar um termo imperceptível, consegui sentir um misto de alegria e tristeza. Por um lado, ao fim de 25 anos a trabalhar, nunca o meu salário se aproximou tanto daquele que eu recebia no meu primeiro ano de vencimento. E essa sensação nostálgica transportou-me  à minha primeira ferrugenta renault 4L, aos 0,6 cêntimos do litro de gasolina, aos 0,4 escudos do preço da bica, ao meu ano de jovem estagiário, que não pensava em custos do rolo de papel higiénico. Mas o recibo do meu “vencimento nostalgia” deixou-me com alguma pena  dos nossos decisores políticos por, no meio de tanto Mercedes e BMW onde sentam as majestosas bundas,  ainda não terem adquirido um veículo daqueles à séria, com sensores de marcha atrás. A atestar pela velocidade de recuo a que sujeitam as economias familiares, que nos levam a sentir os costázios a furar sucessivos muros de betão, decerto que não têm o apito milagroso nem a luzinha vermelha a acender. Ei, Meus senhores!...comprem lá o tal sensor, que a minha carroçaria de retaguarda  não aguenta muito mais espalmamento!!... Quando pensava que não me ouviam, eis que surgem os primeiros sinais de se querer inverter a tendência de regressão económica. Uma medida de fundo, que revolucionará o panorama de desenvolvimento nacional concertado: Um referendo!...Isso!...consulte-se o povo para que esta carroça ande para a frente! O tema do referendo?...É…?...Vamos lá, deixem-se de suspense…(decerto um dos grandes temas aglutinadores do desenvolvimento nacional e social como a privatização da energia, a regularização dos impostos, o funcionamento da justiça,…)…a Co-adopção por casais homossexuais!? Muito bem! Finalmente alguém com clarividência para pôr isto a andar para a frente.  Eu compreendo o pensamento do tipo que teve essa “holofótica” ideia. “Deixa cá ver; podíamos legislar directamente sobre a co-adopção por casais homossexuais, mas gastando 10 milhões de euros é outra coisa! Tem mais impacto, faz com que os cidadãos sintam essa medida como sua!...” De impacto a nossas carroçaria de retaguarda percebe, depois de vários estampanços contra oliveiras no caminho. Aguardo ansioso pela próxima ideia de referendo sobre a proibição de lançamento de cascas de amendoim pela janela do carro, ou sobre a limitação do consumo de bolacha Maria a partir das 23 h, ou a imprescidível abolição das brocas dos dentistas.

A avaliar pelo ritmo da marcha atrás ininterrupta que este veículo assumiu, rapidamente a magnitude do meu salário, encontrar-se-á com a nostalgia da mesada que a minha mãe me dava nos tempos de adolescente. Mas, mas,.... já há malta de 40 anos que voltou a viver com a mesada das mães???... Grandes malandros, vão comprar os livros do Tex e pacotes de batatas Pala-pala antes de eu lá chegar.