sexta-feira, 13 de novembro de 2009

E o cromo do Marinho?...


O meu filho faz colecção de Gormitis, uns bonecos de plástico em miniatura, com aspecto a puxar para o aterrador. Uns com cornos, outros com escamas, uns com martelos no lugar das mãos, outros com focinho de jacaré, uns com cauda de réptil a substituir os braços, outros com buracos na cabeça. Mas os miúdos gostam daquilo, porque aquilo se colecciona. O enigma do coleccionismo voltou para me atazanar. Eu, que já coleccionei de forma aguda, decidi voltar a ostracizar os fantasmas dos cromos da bola que ainda faltam na minha colecção do campeonato 75/76. Qualquer colecção tem o seu quê de inglório. Toda a malta colecciona em algum momento da sua vida e a maioria não consegue chegar ao fim da colecção. Existe qualquer coisa de contraproducente nisto. Um indivíduo investe tempo e dinheiro numa colecção que não tem qualquer hipótese de ser completada. Pedagogicamente o coleccionismo é um estímulo à obra inacabada. É como dizer a um miúdo “Vê lá se te entreténs a correr atrás daquela colega gira; mas sabes, nunca vais conseguir deitar-lhe a mão!” O que é que um indivíduo com dois dedos de testa faz? Desiste. E é assim que terminam todas as colecções; a meio do caminho. O que é que fica no final de tudo isto? Quinquilharia. Existem pessoas que fazem colecção de esferográficas e ainda por cima daquelas rascas. Podiam-se abotoar a umas Parker ou Schiffer com revestimento a prata, sempre tinha algum valor patrimonial, mas enchem a casa com pendericalhos de plástico com logótipos das rações Fonseca. E o esforço não tem um fim à vista, uma vez que o ritmo de aquisição é trucidado pelo ritmo de produção diário de objectos da colecção, diferentes dos que já adquiriu. Eu próprio nunca percebi por que razão não coleccionei lingotes de ouro em vez de cromos com uns tipos gadelhudos. Agora estaria num resort de luxo sem pensar no cromo do Marinho do Braga que era muito difícil encontrar.
Existe um factor que anda muitas vezes a par da colecção e contribui para que um tipo não consiga fugir dela. É o chamado factor surpresa ou factor raspadinha . Se eu chegar a casa e mostrar ao miúdo o Gormiti do Devil Fenix, o Senhor dos Céus que lhe consegui arranjar, ele olha-me de forma displicente e, na melhor das hipóteses liberta um “ah” . Agora se eu lhe oferecer um pacote fechado de onde sairá um Gormiti misterioso que, com sorte, poderá ser o do Devil Fenix, o Senhor dos Céus , aí sim sairá um “Espectacular pai!”. É este misticismo oculto que pode transformar o coleccionismo num inferno difícil de evitar. Raspar com a moeda num espaço opaco à espera de ganhar dinheiro ou não ganhar nada, é tão estimulante como abrir o pacote do Gormiti à espera do Senhor do Vulcão e ficar-se por um “Gaita! lá me saiu pela 5ª vez o Horror Profundo!”. E enquanto sai e não sai, os pais vão desembolsando pequenas montas num monte de pacotes surpresa da colecção. Os Gormitis representam um tipo de colecção ainda mais violenta para a carteira de quem adquire. Quando um tipo decide comprar um pacotinho para ver o sorriso na criança, a criança diz-lhe “Mas ó pai este é o da 1ª série!”. No meu tempo não havia essa coisa das séries. Um gajo coleccionava berlindes de várias cores e feitios mas sempre da mesma série; coleccionávamos caricas de diferentes refrigerantes, mas as séries eram basicamente… as mesmas…???. Os Gormitis não. Quando um tipo adquire um da 1ª série; já existe a colecção da 2ª; se tem a sorte de encontrar um da 2ª são os da 3ª é que brilham no escuro. Isto tem haver com a sofreguidão e ritmos actuais, que nos deixam baralhados. Como sou do tempo da colecção da carica ou da caixa de fósforos, tenho alguma dificuldade em acompanhar a mudança repentina de séries. “Mas os Gormitis da 3ª série são espectaculares, apesar de existirem uns da 2ª que ainda me faltam. O João lá da escola já tem a colecção toda!”. Mas ninguém tem a colecção toda! A colecção é mesmo para não se ter toda. Felizmente que a minha irmã interrompeu há 20 anos a colecção de porcos. Toda a malta lhe dava porcos; e se o porco ocupa espaço. Um dia fartou-se de porcos e toda a malta já não sabia o que lhe oferecer. Hoje olho para a sua inacabada colecção e imagino o que custará limpar o pó a tanto porco. E se,…por um acaso,… se pusessem os porcos a andar?...Não! porque existe a questão afectiva do coleccionismo. Então aquilo demorou tanto tempo a coleccionar…
Não bastava a praga dos Gormitis e agora renasceu a colecção dos cromos da bola para reforçar o meu trauma de infância. Os tipos oferecem a caderneta com 6 cromos dentro para agarrarem, o miúdo ao vício. Eu é que não dei baldas ao cachopo e olhei logo para o número 320 da colecção. Um tal de Matos do Vitória de Setúbal. É a última equipa representada. Não?,…ainda há os “Craques”, e os “Top jovens”, e as “Últimas Aquisições” que acabam no número 388. Desta vez eu não vou deixar que o meu filho me culpe daqui a 20 anos, por nunca ter conseguido acabar a colecção dos cromos da época 2009/2010. É por isso que não vai colar nem um cromozito na caderneta. É que para não se acabar uma colecção, tem, em primeiro lugar, de impedir que ela comece.

Aqui está ele...

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Desratização


Estava aqui a ouvir as declarações de um responsável político sobre a operação "Face Oculta" que descobriu um envolvimento de gestores de empresas públicas em casos de corrupção. Das declarações emergiu a frase “Temos de avançar com um processo de averiguação para clarificar a situação!”. O “processo de averiguação” tem este efeito fantástico de acalmar de forma instantânea os ânimos mais indignados. “Eu agora sempre quero ver como os tipos se vão safar, depois de terem sido apanhados com a mão na massa…”. Ao que alguém responde “O que vale é que vão abrir o Processo de Averiguação…” e já está. A malta fica logo mais sossegadinha porque se iniciou o processo. Que processo??? O de averiguação. A grande vantagem da averiguação é que liga muito bem com processo; ambos dão a ideia de se prolongarem no tempo; o tempo necessário para a exaltação perder o fôlego. Eu próprio descobri que estão ratazanas no canil dos meus cães. Vi as caganetas, encontrei vestígios de roeduras e já me deparei com a cauda de uma oscilando junto ao telhado. A minha mulher que não acha muita piada aos roedores saidos de fossas, disse-me para eu me livrar dos bichos. Aproveitei a deixa e lancei-lhe com o processo de averiguação para cima “Fica descansada porque eu vou iniciar as averiguações…” ao que me respondeu sem clemência “então averigua rápido porque eu não quero ratazanas a roerem os sacos do arroz na despensa!”. Lá se foi a minha margem de averiguação. Se repararem, apesar da confusão, o termo “averiguar” não tem a mesma contundência de um “descobrir”. Quando alguém diz “Eu vou descobrir o gatuno!” não tem margem de erro possível. O gatuno tem mesmo de ficar com medo. Porém, se a mesma pessoa disser “Eu vou averiguar sobre quem roubou as jóias da Dona Odete…” será a Dona Odete que deve ficar com medo… por nunca mais pôr os olhos nas jóias. Averiguar fica-se por uma tentativa de descobrir. E um indivíduo que diz que vai “tentar descobrir”, nunca se compromete, sabendo de antemão que nunca irá mergulhar na investigação tão de cabeça como aquele que assume de forma inequívoca que vai descobrir. O Averiguador manda-se cauteloso de pés com a mão a apertar a narina, esperando que a malta acredite que consegue apanhar a moeda no fundo da piscina. O que me espanta é a capacidade que temos em sermos ludibriados pelo engodo do Processo de Averiguação. A rapaziada fica mesmo mais aliviada porque alguém vai averiguar o caso. Se pensarmos um pouco, o “processo de averiguação” é a nova colecção primaveril da moda do “processo de inquérito”. Como no “Processo de Inquérito” já ninguém cai depois da… queda da ponte de Entre-Rios sem responsáveis, dos erros médicos sem responsáveis, das violações na Casa Pia sem responsáveis, alguém se lembrou de um substituto à altura. Um termo igualmente pomposo e inútil. O processo de averiguação está para a opinião pública como o colete salva-vidas está para o passageiro da aviação civil. Sossega espíritos mais inquietos, apesar da inócua utilidade. E todos ficam contentes. Os administradores corruptos porque sairão impunes do processo e os cidadãos ingénuos por pensarem que os administradores corruptos não sairão impunes do processo.
As ratazanas, essas, não terão a mesma sorte. Tudo porque não tive a hipótese de averiguar sossegadinho… "Tu vais eliminar as ratazanas e é JÁ!!!”. Lá saí cabisbaixo para comprar o "racumim". Desta vez as gulosas ratazanas vão ter uma surpresa desagradável quando se prepararem para se deliciar com os processos de averiguação …em forma de granulado.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

A sociedade do enchido


Preparava-me para deitar o dente na rodela de chouriço afogada entre feijões e chispe que sobressaía no meio daquela calórica dobrada à transmontana. Espetei-lhe o garfo e olhei-a com um sentimento misto de apetite e complacência. O apetite venceu a complacência, e o paladar saboreou de forma alarve os seus ingredientes. A complacência deu lugar à compaixão, mas já era tarde; a essa hora já o pobre do enchido estava a ser trucidado pelo poder corrosivo dos sucos gástricos. Essa sensação de algum constrangimento surgiu porque por momentos coloquei-me na pele do chouriço, ou melhor dentro da pele do chouriço. Eu sei que pode parecer bizarro, que tinha muito mais dignidade colocar-me na pele de um eminente cientista, de um reconhecido ensaísta, mas todos temos uma faceta deprimente e a minha manifestou-se no interior do próprio do enchido. Pus-me no lugar de um daqueles pedaços de carne que são empurrados à força pela tripa adentro. Está-se ali com o nariz encostado às paredes internas da tripa e mandam-nos com infindáveis pedaços de carne para cima criando uma sensação similar à dos utilizadores de um autocarro da Carris em hora de ponta . Quando se pensa que não existirá maior compressão possível, alguém diz “Dêem aí mais um jeitinho!” e manda com mais uns bocados de toucinho, de gordura hidrogenada, de sangue de suíno, cebola, “Elá! Agora pisaste-me os joanetes! Já chega de empurrão, não?...”. “Não! É só mais um bocadinho!”. Ainda faltam mais uns apertões. Vem lá o sal, muitos grãos de sal, quais miúdos da creche invadindo histéricos a tripa. Já não respiramos e estamos quase surdos com os grãos de sal invadindo-nos as carnes e ainda mandam os antioxidantes. Não valia a pena, até porque com o aperto, as carnes não têm qualquer hipótese de se oxigenar. Chegámos ao limite. Estamos colados uns aos outros no meio daquela massa gordurosa e ouvimos ao longe “Aperta aí mais um bocadinho! É só mais um jeitinho!” e, como machadada final mandam os conservantes. “Conservantes é que não! Não quero ser conservado aqui colado ao toucinho!” E parece que os conservantes são só veneno. A toxicidade de um E333 está ao nível de um indivíduo que entra a fumar charuto numa casa de banho apinhada de gente.
Pensarão os leitores se este tipo não poderia limitar-se a digerir a rodela do chouriço em paz e deixá-los a eles em paz, com dissertações sobre os meandros do enchido. Lembrei-me das carnes compactadas dentro da tripa quando estive à conversa com uma senhora amiga. Dizia-me ela que o patrão lhe pediu para que fizesse mais umas horitas extras. Agora sairia de casa às 6.30h e chegaria a casa por volta das 21h. Aquilo soou-me mal e saiu-me um indignado “mas que trampa de vida é essa?”. Ela respondeu-me com um sorriso resignado “Ao menos tenho um emprego!...”. E foi aí que eu pensei no enchido como forma de caracterizar a sociedade actual. Uma sociedade cheia de tecnologia que deveria evoluir no sentido de nos facultar mais qualidade de vida, brinda-nos com “Só mais um bocadinho…”. E quando pensamos em mais um bocadinho de lazer, dão-nos mais um bocadinho de trabalho; aspiramos a mais um bocadinho de poder de compra e brindam-nos com mais um bocadinho de impostos; precisamos de mais um bocadinho de espaço e empurram-nos para o interior de uma tripa exígua cheia de gordura hidrogenada . Mas o mais estranho, é o cidadão estar ali todo comprimido dentro daquele preservativo visceral à cunha e, ao invés de dar uma canelada no toucinho que lhe puseram ao colo, acena com a mão, que levanta com dificuldade no meio do aperto, e diz que “com mais um jeitinho ainda cabem aqui à vontade mais duas dúzias de aditivos”. E qual a recompensa para um senhor resignado que é apertado “só mais um bocadinho” todos os dias ao longo da vida, quando pensa que já merece a reforma? Põem-no no fumeiro. Não bastava um tipo aguentar o odor a sovaco das outras compactadas carnes, ver-se afogado no sangue do suíno, asfixiado contra a tripa e ainda o colocam, aos 70 anos, pendurado num pau a inspirar toda aquela fumarada, dizendo-lhe que é desta que vai ficar saboroso.
É por isso que eu nutro uma admiração especial pelas alheiras da minha tia. Ao menos essas carnes, quando começam a sentir o calor da fritura debaixo dos seus pés e os apertões dos outros “bocadinhos” colados a si, tratam de irromper furiosos pela frágil tripa. Apesar de não gostarmos muito de ver a alheira a “rebentar”, deveríamos congratular-nos por termos a sorte de assistir ao vivo a um acto genuíno de revolta, protagonizado por pedaços de carne que deixaram de achar piada ao insistente repto : “É só mais um bocadinho!...”

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Camelos, Malabaristas e Póneis amestrados


Estava a fazer a minha corrida matinal e vi lá ao fundo uma daquelas carrinhas enfeitadas com dois altifalantes a debitar informação com os decibéis no máximo. Já me tinha cruzado com outras duas carrinhas de outros dois partidos em plena campanha para as autárquicas. Não me bastava a dor de pernas, o coração querer fugir pela traqueia e o suor a ensopar a minha t’shirt , tinha de gramar com mais esta estucha estereofónica. A recta era muito longa e lá continuei a arrastar-me na direcção do veículo propagandista sem conseguir manter os meus tímpanos incólumes à berraria libertada pelos sonoros altifalantes. “Hoje temos 2 grandiosos espectáculos!...” Grandes despesistas. Não só estoiram os nossos suados impostos em cartazes, esferográficas e autocolantes, como ainda se dão ao luxo de oferecer 2 grandiosos espectáculos, que é o mesmo que dizer 2 fabulosos comícios?! . E lá continuavam eles a perturbar o meu esforço para chegar a casa vivo “Espectáculos com Fabulosas surpresas….” Elá, isso já me interessa! Uma boa surpresa consegue levantar o ânimo a qualquer atleta moribundo…O que nos reservará? A apresentação de uma nova mandatária da juventude vinda da revista playboy? Uma revelação de última hora do cabeça de lista do partido sobre a descoberta de um campo de petróleo dentro da cidade?... “Um número único com Camelos Africanos”….???...Camelos?...Agora fiquei baralhado. Será que ouvi bem...Ou o esforço da corrida retirou-me discernimento sensorial? Ora bem, a pensar em camelos,… assim de repente não estou a ver nenhuma força partidária em particular que se distinga das outras pela capacidade de aguentar muito com poucos recursos. Sim, porque eu pensei logo no nobre Camelo do deserto e não naquele Camelo que serve de inspiração para o taxista designar o tipo que vai à sua frente a empancar o trânsito. E o nobre camelo contenta-se com uma pinguita de água para vários dias; não exige votos na sua bossa, almoços com champanhe no bucho ou milhõezitos para fundos da campanha. Continuava a pensar no tal do camelo e novas informações surgiram “Trupe de Malabaristas vindos da Geórgia!...” Aqui eu já me entendo. Não sei se vieram da Geórgia, mas que os tipos conseguem fazer malabarismo à cata de votos, lá isso conseguem. Fingir um beijo apaixonado numa peixeira é quase tão difícil como equilibrar duas cadeiras na ponta do nariz; fazer tentativas para convencer a malta que é com eles que o país vai deixar de viver afogado nas teias dos infindáveis tachos políticos, tem o mesmo grau de dificuldade do que lançar oito pratos ao ar e apanhá-los com os dentes. Lá prossegui no meu calvário físico e auditivo em busca de sossego. Mas este tardava em surgir, martelado por aquele som estridente: “E ainda os Iiiinacreditáveis e Iiiiincríveis Póneis Amestrados!...”. Agora é que eu vou parar. Já não aguento mais enigmas. Mas quem foi o idiota que se lembrou de colocar Póneis Amestrados numa campanha? Não, não pode ser um tipo de chalaça de mau gosto que estabelece como alvo aqueles empenhados jovens das juventudes partidárias que, de crina à frente dos olhos, abanam as bandeirinhas e saltam todos com iiiiinesgotável histerismo, mesmo quando o partido está na mó de baixo. A minha curiosidade para saber qual o partido de tão eloquente campanha estava prestes a ser saciada, uma vez que me apressava a cruzar-me com a tal da carrinha. Olhei para os autocolantes e lá vinha em letras garrafais “Israel Modesto Apresenta”… “Circo Merito”. Um doce alívio percorreu-me o corpo fatigado. Afinal aquilo era um circo a sério. Os palhaços eram daqueles com nariz vermelho e sapatos grandes; os trapezistas não voavam de tacho em tacho, mas de trapézio em trapézio; os camelos eram mesmo camelos. Consegui chegar a casa e, na acalmia da recuperação tudo começou a fazer sentido. Não haveria hipótese do Circo “Merito” ser um qualquer circo partidário. Em primeiro lugar só um indivíduo “Modesto” é que se lembraria de um nome tão apagado como “Merito”. As opulentas campanhas são tudo menos modestas, são mais do tipo Cardinalli ou Chen. Por outro lado, o circo Merito, faz jus ao nome e ao camelo que alberga. É poupadinho nos recursos. O Dono será simultaneamente apresentador, amestrador, contorcionista e venderá pipocas nos intervalos. Pelo contrário, as listas de concorrentes autárquicos não têm fim. Estava aqui a ver a lista para uma junta de freguesia local e contei nada mais nada menos do que 21 candidatos. Pus-me a somar todos os candidatos do partido para o concelho(incluindo suplentes), e deu-me um número esclarecedor: 308. Se multiplicarmos por 4 partidos, em cada autarquia teremos 1232 candidatos. Se multiplicarmos este número por todas as autarquias nacionais,…bom, esqueçam lá isso.
Agora que a campanha terminou e a rapaziada teve de voltar ao trabalho, a minha mãe pode ficar mais descansada porque, vai finalmente ver resolvido o problema do lixo à porta de sua casa, provocado por contentor avariado há mais de 2 meses. Com tanta gente eleita, não correrá o risco de voltar a telefonar ao presidente da junta, para este lhe dizer para telefonar ao vereador e o vereador responder indignado “Incomodar um vereador com problemas desses?...”. E se, de entre 308 eleitos não aparecer ninguém que consiga resolver esse problemazito do lixo, sempre poderá contactar o circo “Merito”, que o Sr. Modesto, entre vender bilhetes, lançar umas tochas ao ar e chicotear uns asnos, arranjará decerto um tempinho para fazer aparecer o desejado contentor num iiincrível número de ilusionismo,.
Afinal, parece que já não vai ser necessário. Ao terminar esta crónica, fiquei a saber que o presidente da junta lá conseguiu desencantar um novo contentor. Ainda bem, porque seria no mínimo humilhante, ver a sua competência suplantada por um ilusionista e amestrador de Camelos africanos.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

No país dos confettis

Imagem retirada da net

Estou na ressaca das eleições legislativas e não sei bem o que dizer. Sei que não me sinto lá muito bem, e não cometi nenhum excesso nocturno. Não passei a noite nos copos, nem andei a levar socos com umas luvas esponjosas na fronha. Mas o interior da fronha dói-me como raio. Estou a ver se entendo como é possível que aquele indivíduo venha dizer que ganhou as eleições. Só é possível, porque existiram muitos portugueses que votaram nele…?....não é possível! Neste esforço sobre-humano para eu conseguir entender como uns valentes milhares colocaram a cruzinha no senhor, tenho de me pôr a imaginar uma conversa entre dois portugas, no local privilegiado para que qualquer estudo comportamental tenha algum valor: a tasca da esquina.
Entre um pratinho de tremoços e dois traçados o Alberto e o Júlio discutem as eleições.
“Vê lá tu Júlio, que aquele estupor ganhou outra vez! Estou todo lixado!”
“Pois é, mas sabes, a alternativa também não era lá grand…”
“Não me lixes ó Júlio, pior do que este governo é difícil!”
“Realmente os gajos excederam-se em algumas decisões, mas olha que os outros não são melhores…”
“Ouve lá, mas tu estás a dizer bem do homem ou quê?”
“Eu não. Só estou a dizer que o homem é igual aos outros.”
“Mas, tu , tu não me vais dizer que votaste no malandro, ó Júlio!?”
“Epá, há falta de melhor, tive de votar no mesmo, Alberto.”
“O quê? Então não me tinhas dito na semana passada, quando viemos trincar as petingas, que não podias com o homem. Que o gajo até nem era engenheiro a sério; que estavas cada vez mais teso por causa do tipo,..”
“Epá, mas o gajo fez uma grande campanha,…”
“E depois? Não foste tu que te estavas a queixar dos balúrdios que se esbanjam nas campanhas eleitorais, quando a malta está cada vez mais à rasca?”
“Mas viste o baile que o tipo deu no debate com a Manuela Ferreira Leite? O gajo é mesmo bom.”
“Desculpa Júlio, mas continuo baralhado. Esse senhor do grande paleio não é o mesmo que há uns meses chamavas de “mentiroso dum catano”; que aquela coisa do Freeport estava muito mal explicada?”
“Mas ó Alberto, por acaso assististe ao último comício do PS? Todas aquelas bandeiras cor-de-rosa, muitos gritos, muita gente importante a levantar o punho. Aquilo foi espectacular!”
“Foscasse, tu piraste de vez ó Júlio! Já não te entendo. Este tipo é o chefe do governo que não quis receber 64 milhões da união europeia para ajuda na agricultura…”
“É bem feito para esses malandros dos agricultores não andarem para aí a comprar jipes. E para mais, qual agricultura?...eh,eh,eh”
Depois de acabarem com o prato de tremoços, chegou ao balcão o Rafael que pediu uma mini e meteu-se logo na conversa.
“Ao menos o Sócrates pôs todos os malandros a trabalhar a sério!...”
“Menos os desempregados, tá claro! A esses retirou-lhes o trabalho…a sério!” respondeu Alberto em tom irónico.
“Eu ainda estou a pensar como é que o tipo conseguiu convencer aquela boazona, para mandatária da juventude. Só alguém com muita lábia…”
“Desculpem-me lá os dois, mas têm de admitir que na área da educação o gajo lixou aquilo tudo.”
“Ó Alberto deixa-te de tretas. Então e o “Magalhães”, os quadros interactivos, as novas tecnologias? O problema é que os professores estão mal habituados. Horários de luxo, férias em grande, só para dar umas aulitas a uns miúdos. A ministra pô-los na ordem e fez ela muito bem.”
“Desculpa lá ó Rafael, mas tu quando acabas o trabalho vais continuar a trabalhar até às tantas para melhorar o trabalho do dia seguinte? Vais beber umas minis e comer tremoços p’rá tasca da esquina, não é? Pois é, e o professor que tenta educar o malcriadão do teu filho , aquele miúdo que tu devias educar em casa ao invés de passares a noite a emborcar minis e tremoços, é que é o malandro? ”
“E viram o Figo? O Sócrates tomou o pequeno almoço com o Figo. G’anda homem!... Sportingue, Sportingue, Sportingue!”
“Ó Júlio, eu sou do Benfica mas o tipo pensou em tudo e foi buscar o nosso presidente para o apoiar”
“Quem, o Cavaco?...Não porra! O Luís Filipe Vieira!!!” Benfica! Benfica! Benfica!”
“Sabem que mais, vocês os dois têm a trampa que merecem! Agora eu vou mas é à minha vida que amanhã entro na fábrica às 7 da matina e só saio às nove da noite.”
“E ainda te queixas Alberto? Tens emprego, trabalhas que nem um moiro e recebes 600 euros todos os santos mesinhos? Que mais podes querer?
A resposta do Alberto, ficará no foro íntimo, uma vez que poderia ferir algumas susceptibilidades.
A minha susceptibilidade, essa, foi definitivamente exterminada com a descoberta de que neste país ainda existe muita gente que consegue ser ludibriada por campanhas cheias de confettis.. A minha dúvida, será a de saber, o que será preciso fazer mais de errado, para que a malta consiga combater esse instinto de autoflagelação e deixar de pôr a cruzinha no senhor das campanhas espectaculares.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Novas Oportunidades


Estava na banca dos jornais a dar uma olhadela pela imprensa diária e do meu lado ouvi: “Isto só lá vai a tiro!”. Olhei e era um senhor com aspecto distinto, que folheava um jornal e não conteve a sua indignação quando os olhos absorviam uma qualquer alarvidade que todos os dias vamos lendo. “Mas que país é este que deixa os bandidos impunes?...”. Abanei a cabeça com o habitual “Pois é...” e retirei-me com o jornal debaixo do braço a matutar. O que levará um homem daqueles, aparentemente civilizado, com bom aspecto, dizer que sai por aí aos tiros para parar com os tiros da bandidagem? Cheguei a casa e pus-me a ler o Diário de Notícias. Os olhos não descolavam da notícia do idoso que foi trancado pelo filho numa garagem guardada por um cão feroz durante 14 anos, para lhe ficar com a reforma milionária de …200 euros mensais(?). Foram 14 anos a comer latas de feijão e a defecar dentro da sua prisão de zinco. 14 anos é muito ano; 14 anos é muito dia; muito dia a cheirar as fezes e urina, a coçar as pulgas da barba, a pensar em morrer para se ver livre daquilo. Descobriram o velhote, meteram-no num lar e parece que chora todos os dias. Não sei se chora pela experiência desumana por que passou, se pela condenação de 3 anos e meio de pena suspensa que o carrasco do filho “sofreu” pelo seu acto bárbaro. Aliás, tenho algumas dúvidas em classificar se o acto mais bárbaro foi a barbárie cometida por aquele traste disfarçado de homem, ou a barbárie da impunidade expressa na decisão daquela pessoa disfarçada de Juiz. “Isto só lá vai a tiro!...” eram as palavras que não me largavam as têmporas. Mas, como não queria deixar-me levar por tão primários sentimentos de justiça popular, tentei sair daquela notícia de forma impune mas tropecei logo na que estava por baixo. Um sequestro em tudo semelhante ao anterior, de uma mãe com um filho deficiente que foram mantidos trancados durante um ano, pelo outro filho, que em vez de comida e água lhes dava uns valentes tabefes. “Isto só lá vai a tiro!....”. Vá deixa-te disso e passa mas é para a página seguinte!... “Mulher raptada e mantida sob sequestro por pretendente” . Não! Não quero mais sequestros, não aguento isto sem me vir à memória o som libertado pelo maxilar do senhor com bom aspecto “Isto só lá vai a tiro!”. Ainda bem que o senhor tinha um aspecto distinto; um tipo mais rude diria logo “A esses cabrões era amarrá-los a um poste e enchê-los de porrada!”. Avança, vá,… avança para a notícia seguinte e não deixes que a fúria te cegue. “Brasileiro morto à pedrada em parque de Setúbal” . Epá ao menos este não foi sequestrado pelo filho, só foi apedrejado até à morte por dois indivíduos, aliás, dois jovens (são sempre jovens que matam) que andam a monte para serem apanhados e libertados ao fim de meia dúzia de anos por não terem antecedentes criminais. “Isto só lá vai …com medidas de fundo!” Ufa, pensei que irias voltar àquela coisa dos tiros, mas assim está melhor; medidas de fundo soam a resolução ponderada dos problemas. Na verdade, se a justiça funcionasse viveríamos muito melhor. Atenção que falei em Justiça, daquela a sério, daquela sem a venda nos olhos. Não sei quem foi o iluminado que criou o mito da justiça cega. Para se fazer justiça, não se pode fechar de forma sobranceira os olhos e decidir, sem confrontar o código penal com o olhar das vítimas. Esta sensação de nos apetecer sair por aí aos tiros, despoletada por uma indignação incontrolada, seria resolvida com formação adequada. Os juízes, especialistas em facultar Novas Oportunidades a homicidas, e violadores, poderiam também eles frequentar os cursos de Novas Oportunidades, tão em voga, que têm o mérito de oferecer muitas habilitações em muito pouco tempo. Assim, os Juízes teriam a oportunidade de se colocarem por momentos na pele da vítima. O curso, cujo tema aglutinador seria “Um dia como…”, facultaria aos formandos módulos experimentais divididos em vivências diárias contundentes. “Um dia como um polícia no Bairro da Bela vista”; “Um dia como um velhote fechado numa garagem escura”, “Um dia apedrejado por dois jovens delinquentes”, “Um dia como criança sodomizada nas mãos de um pedófilo”, “Um dia como taxista de navalha encostada à glote”, “Um dia como uma mulher a levar tabefes do marido”. Bastariam poucos dias para que, na hora da decisão, não se deixassem acometer pela tal cegueira judicial, encoberta em códigos e artigos. No caso de muitos magistrados optarem pela não frequência dessas Novas Oportunidades, e continuarem a presentear-nos com as suas aberrantes decisões, dever-se-iam criar cursos de Novas Oportunidades, para todos os cidadãos com algum bom senso, para que estes conseguissem lidar melhor com a indignação. A formação teria a designação de “Como perder a vontade de andar para aí aos tiros perante factos paranormais”, e teria como objectivo levar o cidadão a conseguir transformar os “factos paranormais” em “factos perfeitamente normais”. As aulas consistiriam numa leitura exaustiva de 5 jornais diários seguida de um ritual oratório, onde se teria de repetir durante 3 vezes seguidas a frase: “Não me vou exaltar, porque isto é perfeitamente normal!”. Eu próprio já comecei, de forma autodidacta, neste exercício de autocontrolo. Voltei a folhear o jornal e, na notícia do marido que matou a esposa grávida a tiro, que foi posto em liberdade 6 meses depois e reclama agora a guarda dos filhos que vivem com os avós, já ia conseguindo um certo distanciamento, uma certa compreensão para com aquele marido e pai homicida que só queria estar com os filhos, excepto aquele filho que matou na barriga da mãe…?... Ainda não consigo. Preciso de mais oportunidades para conseguir assimilar isto sem me lembrar do senhor de aspecto civilizado a dizer “Isto só lá vai a tiro!”.


sexta-feira, 28 de agosto de 2009

O início do fim…


“Estamos no início do fim da crise” disse o senhor no alto da sua sapiência, convencido que a frase pegava. E pegou, porque o raio da frase não me deixa em paz, como também não me sai da cabeça a afirmação que se lhe seguiu “mas a crise está longe de ser resolvida!”…???. Passei grande parte das férias a analisar estas duas pérolas desconcertantes da inspiração vocal do Primeiro-Ministro, sem chegar a grandes conclusões. O “início do fim” é um conceito verdadeiramente anti-natura. É o mesmo que dizer “o calor do frio” , “a vertigem do baixo” , “a palidez do moreno” , “o egoísmo do altruísta” ou “a coragem do cobarde”. O fim está numa ponta e o início na outra. Para mais o fim não tem nenhum início. O fim é o fim e pronto. Corresponde ao momento em que alguma coisa acaba; não se prolonga no tempo, nem tem percursos intermédios. Assim como o início é outro momento bem definido. Numa corrida de 100 metros o início é dado pelo tiro de partida e é o início da corrida, não do… fim. O fim é a linha de chegada, é o momento de esticar o pescoço, de levantar os braços, de gritar ufa. Entre o inicio e o fim existe um percurso doloroso a percorrer. Daí eu não perceber muito bem a forma satisfeita como homem disse aquilo. Tenho de confessar que numa primeira análise senti um certo alívio porque me fixei na parte final da frase “…o fim da crise”. Mas quando ele disse que a crise estava longe de ser resolvida percebi que ali havia marosca. Dizer a um maratonista que aquilo é o início do fim da corrida, mas que ainda faltam 42 quilómetros, é de um sadismo a toda a prova. Como também não será de bom tom visitar uma mãe na maternidade e dizer para o recém-nascido, entre bilu-bilus e caretas parvas, que aquela coisinha fofa, está no inicio do fim da vida. Não se faz…Então porque é que o Primeiro- Ministro o faz? Porque não tinha mais nada que fazer. Estava enfadado, ou então enredado pela perspectiva de uma provável derrota eleitoral e lançou esse petardo sinalizador a ver se a coisa pegava. A minha grande dúvida será saber onde está o fim da coisa, se é que a coisa tem fim. Quanto tempo demorará o início a terminar num fim. Das poucas acções onde o tempo entre o inicio e o fim é quase imperceptível será o que dura a explosão de uma bomba num qualquer bairro de Bagdat. Mas longe de mim querer estabelecer analogias entre a cintura cheia de explosivos de um radical islâmico ou o elaborado jogo de cintura utilizado por alguns políticos para dinamitar a clarividência da malta. Teria sido mais agradável ouvir o “fim” sem o “início”. Porque o inicio da crise já eu o senti há muito tempo, mas curiosamente quando isolo a palavra “crise” a única cara de que me lembro é a do próprio senhor que inventou o “inicio do fim…”. O que eu gostaria mesmo era de ouvir que tínhamos chegado ao fim da insegurança, da corrupção, da impunidade, do facilitismo, do trabalho precário, do desrespeito, da pouca vergonha. Dizerem-me que estamos no início do fim do pesadelo é como dizer a um forcado antes da pega que já está no início do fim…da cornada. Não alivia, agrava a ansiedade. Pensando melhor, tenho de admitir que a frase até pode ter o seu quê de positivismo. Eu por exemplo, já não penso no início do trabalho, nem no fim das férias como algo desagradável. Penso que já estou no “início do fim do ano lectivo” e fico logo bem disposto. É preciso é que não apareça nenhum senhor a dizer com um sorriso iluminado “ Chegaste ao inicio do fim, mas tens de ver que o calendário é um pouco…extenso”