terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Geringonça Festiva

A indignação invadiu as hostes mais puritanas deste país ao saber-se o ministro das finanças Mário Centeno pediu uma borla de bilhetes, para o dérbi do Benfica/Porto na época passada. Quando questões éticas se levantam nesta associação “bola à borla” estimulando acesas discussões repudiando esse pedido especial, sinto que tenho obrigação de prestar solidariedade para o nosso pobre, quase pobrezinho Mário.
Comecemos pelo início. Quando pela primeira vez, o tal governo geringonça, eleito sem ser eleito, apresentou o “novo” timoneiro financeiro, tenho de confessar que pesquisei durante algum tempo promoções de voos baratos da Ryanair de ida para as ilhas caimão. Não existiam voos baratos; deixei-me estar. Avaliando o seu balbuciante discurso e sua imagem tristonha, quase sofrível, pensei que a coisa não iria longe e o naufrágio económico aconteceria bem antes de se poder apanhar qualquer tipo de avião, barco ou jangada para as ilhas caimão. Enorme equívoco. De repente, o país passou de um estado semi-comatoso, para uma festa de crescimento económico acompanhada de pandeiretas, tamborins e violões. Um fenómeno verdadeiramente enigmático, como, por detrás daquela expressão de pobre “Calimero” , o tipo se conseguiu revelar um mestre no samba da alta finança. Estávamos todos de tanga e no dia seguinte começámos a folhear catálogos da porshe e viagens à noruega. O tipo operou um milagre ao nível da crença. Fez-nos acreditar que tudo é possível; se até ele conseguiu chegar a ministro das finanças, quem somos nós para nos deixarmos abater. E a ideia base é a seguinte: “O meu amigo está impecável!”. Mas ó doutor as análises davam uma taxa de colesterol excessiva… “O meu amigo está impecável!”; e a hérnia inguinal que não me deixa levantar do sofá… “o meu amigo está impecááável!”;...e… as cataratas do meu olho esquerdo que me fazem confundir a Graciete com o ministro Mário Centeno?… “o meu amigo está impecável e a ver cada vez melhor!!!...”. O Senhor Alfredo saiu do consultório aos saltos, pronto para dar uma nova vida aos seus 85 anos e fazer maluqueiras com a sua Graciete. É o chamado efeito placebo; continua na mesma, mas acreditando que está extremamente melhor. No caso do nosso estado económico, estamos perante o efeito Centeno: continuamos a ganhar o mesmo, a perceber a magnitude sofrível do período entre dois vencimentos, no entanto estamos muito melhor, diríamos mesmo... impecáveis. Ai os preços aumentaram agora?… “com estes preços e esse ordenado o meu amigo está impecável!” . O “Efeito Centeno placebo” conseguiu ser passado até às empresas de rating que nos tiraram do lixo e nos deixaram ainda mais...impecáveis. Vai daí voltámos a comprar tudo em barda. Iphones baratos; jeeps a preço de amigo, casas em promoção, afinal são só 48 prestações de meio ordenado mensal. A dívida pública continua a aumentar?… “Ó meu amigo ...a dívida está impecável!”.

O reconhecimento da competência de Mário para a crença interna era óbvia, mas ele queria mais. Queria ser reconhecido no eurogrupo, se possível chegar a presidente. Mas ó Mário isso já é pedir demais. Uma coisa é fazeres o portuga acreditar que está impecável, outra é convenceres os tipos lá de cima que tu és impecável. Surgiu a ideia de génio dos bilhetes para o Benfica. Vou fazer ver àqueles tipos que consigo o impossível. Vou arranjar convites em lugares de luxo, para um jogo onde nem na cave do Madureira existem bilhetes e não vou pagar cheta. E ainda vou levar o meu filho comigo. Basta convencer o meu amigo Luís Filipe que ele é um tipo impecável. Eis o passaporte para a presidência do eurogrupo. Quem não quer um indivíduo desta envergadura; adepto do benfica, utilizador da cunha e praticante da borla. E a borla representa o patamar mais alto de qualquer sistema financeiro. Mais barato não há. Ainda por cima em lugares vipes com canapé de gambas incluído. Este tipo consegue gerir uma casa sem dificuldades. Mário, estamos convencidos; a presidência é tua! Agora só falta responderes a uma pequena questão retórica e o cargo é teu. Sabes alguma coisa da isenção (uma espécie de borla) da taxa de IMI do edifício propriedade dos filhos do teu amigo Luis Filipe atribuída uma semana depois desse fabuloso dérbi acompanhado do canapé de gambas? Epá eu não tenho nada a ver com isso, mas parece que o edifício é extremamente bonito e sobretudo está...impecável!  

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Um snap cheio de chama


Um dos piores exercícios que se pode fazer é o de tentar comunicar com alguém que tem um telemóvel na mão. Mergulhamos de cabeça numa conversa produtiva e o ouvinte retira-nos a piscina de 20 metros cheia de água e substitui por uma borracha insuflável de bebé com 50cm de líquido . Somos votados ao desprezo na parte em que iríamos discutir a génese do problema da corrupção, quando ele recebe um sinal de mensagem da Cláudia Sofia, que entrou em directo no Instagram a passear o cão pela trela. Enquanto ele cola o olhar no ecrã, tentamos disfarçar a importância da conversa, reduzindo progressivamente a intensidade do som expelido pela boca, até ao silêncio total ou ao assobio para o lado. Quando o cão da Cláudia Sofia acabar de fazer a sua necessidade na relva do parque, o nosso interlocutor já está disponível para voltar à conversa e lança um “estavas a dizer?….”. Apesar de nos apetecer mandá-lo ir cheirar de perto as fezes do cão da Cláudia Sofia, optamos por uma de duas opções : prosseguimos a conversa de forma inabalável como se o nosso relevante assunto não tivesse sido enxovalhado pelo cócó do Piruças, ou retiramo-nos educadamente com um “eu não estava a falar de nada muito relevante,...apenas da corrupção que invade a nossa sociedade actual e nos impede de aspirar a um desenvolvimento relevante...sua besta alienada pelas rotinas do cão da Cláudia Sofia!!!” .
A patologia do afogamento ininterrupto nas redes sociais mina qualquer tentativa de uma conversa mais prolongada, uma discussão mais fundamentada, uma troca de impressões mais aprofundada. Basta observar um jovem colado ao Instagram a correr de “gostos” toda a rapaziada que encontra no caminho . Numa primeira análise, esta correria “voyer” através do indicador deslizando no ecrã, poderia indiciar que estaríamos na presença de um ser com muito amor para dar. Quando perguntamos: - Sabes a quem é que colocaste o “gosto” e porque é que colocaste o “gosto”? Correremos o risco de ouvir: - Não! Mas isso interessa para alguma coisa?
Eis o fundamento da escolha criteriosa: “Não sei do que gosto, de quem gosto, porque gosto, mas sei que vou pelo... gosto”. A ideia é que o “amigo” ache que ele gosta mesmo, quando põe lá o “gosto”. Mas o “gosto” tem de ser rápido, na gáspia, se possível com um “double tap” , para se partir a abrir para o “gosto” seguinte. Qualquer frase que o amigo coloque no seu mural com mais de 20 palavras soa a um enfadonho e interminável romance de Vitor Hugo, porque existe ali à frente outro “amigo” para se piscar o coração da aceitação. As possibilidades de um Usain Bolt do “like” acabar de ler esta crónica até ao fim, está ao nível da possibilidade de Donald Trump conseguir ter algum discernimento na hora de pensar nos assuntos de política externa. A verborreia de “gostos” funciona como moeda de troca pelos “gostos” na minha fabulosa fotografia tirada junto ao mar com o casaco comprado na Pull & Bear. Veem?! Tenho 567 amigos que gostam do casaco verde de carapuço!...Fica-me mesmo bem. E a Joana, aquela boazona do São Mamede de Infesta, ainda comentou com um “Uiii, grande gato” e um “emoji” amarelo com 2 corações a piscar no lugar dos olhos.
A evolução das redes sociais vai no sentido de acelerar ainda mais essa correria em busca da meta, aproveitando para ir dando chapadas nas mãos dos “amigos” que se vão colocando ao longo do percurso. Aonde fica essa meta? Coincide mais ou menos com a altura em que o pai irritado grita: “Apaga já essa trampa a que estás ligado há quatro horas e vem aqui ajudar a colocar a loiça suja na máquina!!!” . Para evitar esse cenário apocalíptico de não se conseguir dar um fixe na mão de todos os amigos, tentou-se agilizar a coisa: Passou-se do Facebook (imagens e alguma conversa), para o instagram (avança-se logo para as fotos e que se lixe o paleio) e para o Twitter (sem imagens e com muito pouco paleio). Para um amigo que estende mais a mão ou pede um autógrafo no caminho, a coisa pára por momentos, numa breve mensagem no Whats app ou no Snapchat, mas um bocado a contragosto por esta perda de tempo apenas com uma pessoa. Apesar das chapadas parecerem ser dadas ao acaso, perdidas na fúria veloz da progressão, existe uma selecção implícita nas mãos em que se toca, que tem por base o pensamento altruísta “Ai este foi o gajo que não colocou “gosto” na minha foto esplêndida a trincar o cachorro quente nas festas da Louriceira? Então não leva “gosto” q’é p’ra’prender!!!”
A busca incessante de exposição e imposição aos outros operou uma mudança de paradigma nas rotinas diárias. A alteração de critério é visível. Hoje escolhe-se a pastelaria, não por ter a melhor bola de berlim com creme, mas a que possuiu a melhor rede Wi-fi; Decide-se o momento de surf de acordo, não na qualidade e magnitude das ondas, mas com a hora do dia, em que a luz na máquina fotográfica melhor realça o glúteo metido no fato de banho da Rip Curl; a viagem à Índia não é escolhida pela procura de novas culturas, mas na concretização da foto junto daquela casa grande, branca, muito gira, uma tal de Taj...qualquer coisa, que liga muito bem com o tom do casaco vermelho comprado na Zara.
Mandei o meu filho apagar o telemóvel e ele respondeu-me com um “Só um momento, que vou enviar um Snap para manter a “chama” acesa”…?... É uma tal “chama” da amizade virtual, alimentada pela foto que todos os dias envia para os 280 “amigos”; uma coisa verdadeiramente personalizada. No caso das nossas rotinas domésticas, a “chama” da loiça suja mantém-se acesa sempre que a metemos na máquina, pressionamos o botão e ela aparece lavada. Como tal, o Snap chat que enviei célere ao meu descendente foi “Ou apagas já essa...coisa, ou a “chama” voará para junto do canil dos nossos cães!...” Pode ser que eles aproveitem para fazer um directo das suas rotinas intestinais...no relvado da Cláudia Sofia.  

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Cronologia da fivela

           
Dei um abraço caloroso a um primo que já não via há mais de um ano. Ele olhou-me com atenção e lançou um “Epá, estás muito mais gordo!”.  Fiquei extremamente sensibilizado; aliás não esperava frase mais fraternal do que esta para início de reencontro. Ainda bem que não perdeu tempo com lamechices do género “que saudades” ou “gosto muito de te rever” e passou logo para o plano da genuinidade sem filtros. Haverá adjectivação  mais adequada a um reencontro de primos? Poderá haver. Em vez do “muito mais gordo” , aparecer um “muito mais velho”, “muito mais careca”, “muito mais desdentado” , “muito mais surdo”, “muito mais senil”.  Tudo piropos da mais alta estirpe lançados a quem se nutre um carinho especial. Esqueci-me de dizer ao meu primo que também o achava “muito mais simpático” e que tinha ficado com vontade de o rever “muito mais tempo depois”.  Anda um tipo a remar contra as correntes cronológicas do metabolismo e depois leva com esta avaliação. As corridas matinais para queimar calorias, a ingestão de queijo fresco para reduzir  calorias, têm como resultado prático…a acumulação das calorias no diâmetro abdominal(?). Ainda por cima o “muito mais” aparece ali para não dar margem de erro e eliminar desde logo a dúvida “se calhar ele achou que eu estou apenas um pouco mais cheiinho”. Na realidade não preciso de primos para perceber que estou mais “composto”. O meu cinto trata de me lembrar. Tenho de trocar de cinto. O meu tem 20 anos.  Consigo ver de forma tristemente evidente as diversas marcas da fivela ao longo dos anos. E pensar que a fivela já espetou em 3 orifícios abaixo. Na verdade, com a idade também começamos a ficar mais sábios, aliás “muito mais sábios” (podias ter começado por aqui, primo…). E que mal têm as adiposidades? É sinal dos tempos, vividos numa sociedade moderna, onde felizmente existe paparoca da boa, para a confrontarmos com o metabolismo dos “entas”.  Dizia-me no outro dia um amigo: “sabes porque não engordo? Porque nunca paro, estou sempre a fazer coisas; nem tenho tempo de ver televisão...”. Mas ó amigo, eu cá quero parar! Quero embrenhar-me no ócio com todas as minhas forças. Quero não fazer coisas quando não me apetece e quando me permitem não fazê-las.  Quero sentar-me a ver um bom filme sem pensar em fazer coisas, quero dormir uma soneca sem pensar em fazer coisas, quero comer um bom prato de feijoada sem pensar em ouvir coisas sobre  o incremento do volume da minha barriga. E as evidências dos orifícios do meu cinto não me fazem confusão? Fazem, se não aceitar de forma ponderada o curso natural do envelhecimento. E o cinto?...O cinto cá está para nos lembrar, que nesta idade é natural termos uns quilos a mais dos que tínhamos com 20 anos. Como é natural termos menos cabelo, nos cansarmos mais a subir 5 lanços de escadas,  acordar com mais dores nos joelhos,  adormecermos no sofá antes de começarmos a ver o filme nocturno. As marcas da fivela no cinto são como as camadas cronológicas dos troncos das árvores, que servem para perceber a sua idade real.  O meu cinto está a cumprir a sua função na perfeição. A inexistência de barriga depois dos 40 significa que algo não está bem: ou padece de depressão, ou fuma, ou está com uma doença urinária, ou passa por um processo de divórcio, ou vive no Uganda, ou corre ultra-maratonas. A propósito, conheço um tipo de 50 anos que começou nas ultra-maratonas para não engordar e já troca de cinto com o filho adolescente. Se calhar também eu deveria começar nas ultra-maratonas. Estava todo o tempo livre a correr e quando não estivesse a correr estaria a fazer coisas, muitas coisas para enganar a fivela do meu cinto. Talvez assim, já pudesse encontrar o meu primo daqui a 5 anos, de forma totalmente relaxada, porque iria ouvir “Epá estás muito mais magro!  Parece que envelheceste 10 anos…”

sábado, 26 de dezembro de 2015

Um bitoque p'rá supervisão!


Ao quarto banco falido, já começo a ficar um bocadinho farto. Sobretudo, depois de saber  que cá em casa, teremos de desembolsar um subsídio que já não existe, não para comprar prendas de natal para os amigos, mas para enterrar num Banif enterrado .  Eu sei que no Natal deveria estar a falar no banco de madeira junto da lareira, a aquecer as mãos, a ajeitar as meias e a confraternizar com a família. Mas aquele banco, o outro, a arder, não me sai da cabeça.  No meio de toda esta penumbra de bancos falidos e governos pactuantes com o silêncio, existe um personagem que me inquieta o espírito pelo seu inabalável e permanente estado de letargia perante verdadeiros terramotos financeiros: um tal de governador do banco de Portugal. E qual a função desse personagem? Vejam bem: “Supervisionar o sistema bancário nacional”. E de que forma supervisionaram os 2 últimos governadores a saúde dos nossos bancos?... na paz da soneca. Penso mesmo que quem acompanha esses supervisores, deveria substituir a prescrição desenfreada de lorenin, por 4 cafés delta “selecção intensa” logo no pequeno almoço. Mantinha os tipos devidamente acordados, quase eufóricos, para que pudessem apanhar a falência antes dela chegar. Vítor Constâncio tinha assistido em impávido sonambulismo, à queda do BPP, BPN e BCP, e em vez de receber um tratamento intensivo numa clínica de recuperação do estado de vigília, entrou em apoteose no Banco Central Europeu, com direito a cafés fraquinhos tirados nos bares de Frankfurt.  Depois os europeus que não se queixem se o tipo ressonar durante o expediente. Ah, nós também somos europeus?... ninguém pode levar um cafezito a sério ao homem? O seu sucessor, Carlos Costa, iria fazer melhor. Encaminha-se a passos largos para esse difícil objectivo. Já vai nos dois bancos falidos. Parece que até nem toma grandes coisas para dormir em trabalho, porque não precisa; o sono surge-lhe naturalmente. É um dom hereditário. Depois acorda “arrelampado” e diz:    Eu avisei! Eu avisei! E ninguém me ouviu!?... É o chamado síndrome do voyeur da autoestrada: o tipo que se coloca em cima dos viadutos, assistindo aos carros a acelerar, em busca de acidentes e grita para a mulher: “viste aquele porsche, que passou aqui? devia ir a 200Km/h? Eu ainda gritei: ande mais devagar!  depois diga que eu não avisei quando se espetar contra um separador de betão…”  

Há muito que se fala da falta de auto-regulação dos poderes em Portugal.  Parece que o sistema de ignição da auto-regulação está sem sinal de arranque há algum tempo. A justiça não se consegue auto-regular, a banca não se consegue auto-regular, o sistema político não se consegue auto-regular e eu próprio não me consigo auto-regular e deixar de pensar em asneiredo sempre que me lembro da falta de auto-regulação. Encontrei finalmente a solução para o problema da auto-regulação, sem ter de recorrer a um novo lote de café delta mais enérgico. Trata-se do Bitoque, o meu cão.  Poderão pensar que estou aqui a entrar no domínio  ofensivo da condição humana, com a inusitada proposta de substituição do governador do Banco de Portugal, por um canídeo chamado Bitoque, ainda por cima sem ovo a cavalo.  Mas trata-se apenas de escolher as pessoas,…bem,…os seres certos, para os lugares certos. O Bitoque é um mestre da auto-regulação; uma máquina de supervisão actuante. A conta da água disparou em flecha com as regas de verão. O Bitoque roeu numa hora todos os tubos da rega. Passei a gastar menos água. Andava cansado de tanto correr. O Bitoque estraçalhou os ténis de corrida. Deixei de correr e de me cansar tanto.  A minha filha tinha de perder tempo a passar o cartão magnético para fazer qualquer coisa na escola. O Bitoque roeu o cartão. A minha filha…teve de comprar outro(?).  Uns tipos acordavam-me aos domingos de manhã para me falarem da origem da Terra. O Bitoque roeu o fio da campainha.  O que poderíamos desejar mais para supervisionar o sistema bancário em Portugal? O Bitoque ladra alto quando a coisa não lhe cheira bem; urina no seu território não deixando outros cães opinarem no seu espaço; rói  de forma veemente o que não lhe parece correcto; morde quem não perceber as suas abordagens menos agressivas e sobretudo consegue manter-se em vigília sem recurso a cafés intensos.  Acham que o Banif e o poder político  teriam escapado aos dentes aguçados do Bitoque? Ele está aqui ao lado a abanar a cauda e a querer abocanhar o computador. Não me parecer que seja um grande sinal…

domingo, 22 de março de 2015

O Eclipse


 
Fui assolado pela loucura do eclipse solar.  Um fenómeno único, que só daqui a 11 anos poderemos ver outra vez. “Então e onde vamos ver o tal eclipse?” ; “Disseste ver?...olhar para o acontecimento com atenção?... Não podes! Causa cegueira!”. Digam-me lá se faz algum nexo; publicita-se um acontecimento espectacular, deixa-se a malta em polvorosa, combinam-se festarolas, compram-se as moelas e as cervejas e depois dizem que não se pode olhar, que podemos ficar cegos. Ontem a minha mulher relatou-me que tinha feito um óptimo bolo de chocolate, dirigi-me à cozinha e trinquei 3 fatias de forma festiva e alarve. “Sabes o bolo era espectacular mas utilizei uns ovos que tinha aí guardados há uns meses…pode ser que te cause algum desarranjo intestinal”. “E cegueira, e cegueira???” ; “Fica descansado que a diarreia não chegará à retina”.  O que os tipos conseguiram com a notícia “é espectacular, mas não pode olhar”, é que passei toda a manhã de olhos no chão, com vontade de olhar, para onde não podia olhar, por causa da cegueira. Mais valia terem ficado caladinhos, até porque o fenómeno nem foi assim tão espectacular, digo eu, que só consegui olhar até ao rebordo superior do volante. Eu entendo o pobre do Sol. Também eu ficaria lixado se um insignificante satélite me impedisse de espalhar o brilho nas horas em que o espectáculo de luz é meu. Então tomem lá uma cegueirazita que é para aprenderem. Existem uns filtros que se compram e se colocam nos olhos. Mas o sol não é p’ra todos? Primeiro dão-me o fenómeno como acessível e espectacular, depois cobram entradas para nos salvarem das cataratas? Já agora expandam o negócio para a doçaria infantil e avancem nessa estratégia “Minha menina queres este fabuloso chupa-chupa às riscas amarelas e azuis? Então toma, querida! Quando a criança se prepara para colocar o dente na bola de açúcar, ouve as entrelinhas: “Mas  não te esqueças de dizer à tua mamã que vá ali comprar o antídoto para o cianeto.” Ao ver todos aqueles astrónomos de binóculos especiais, com filtros especiais apontando para o céu, em busca de um acontecimento espectacular, saiu-me um: “E então?”. A lua passou à frente do sol e ofuscou o seu brilho; e depois? Todos os dias nos deparamos com eclipses e não fazemos este regabofe todo. O eclipse da espectacular lista dos contribuintes Vip, perdão, os não contribuintes vip. A lista saiu a brilhar cá para fora e rapidamente alguém a empurrou com a barriga para os confins da decomposição. O eclipse na minha espectacular peúga nos dentes do meu obscuro cachorro novo. Mas o eclipse que me chateou hoje, foi o eclipse na nossa língua materna. Já tinha sido ofuscada pelo abjecto acordo ortográfico e agora  é assombrada pelo satélite anglo-saxónico de Cambridge. A minha filha teve de pagar um exame de certificação de Cambridge que chegou à escola pública. Porquê? Porque Cambridge saiu do seu cantinho, embrenhou-se nos institutos particulares de todo o mundo e agora chegou ao ensino público português.  Tens a certificação de Cambridge? És um tipo espectacular! Não conseguiste passar no exame de Cambridge?...coitado, estás perto do estado de sem-abrigo.  Disseram-me que os professores de inglês em Portugal, estão a esta hora, a testar os seus conhecimentos em frente aos computadores de Cambridge. “You need improvement” respondem as máquinas na sobranceria inglesa, sempre que o profe tecla na tecla errada. Os mesmos profes que todos os dias se fecham numa sala de aula com 28 alunos, tentando que os miúdos fiquem a saber, no meio da algazarra, que o “to be”  é um verbo e não o Tobias, o cão do vizinho. São esses alunos que terão agora acesso ao fabuloso exame de Cambridge e à tal certificação. O satélite Cambridge entra de rompante e vende ele próprio os óculos que impedem que se fique cego por se olhar para a estrela da língua portuguesa. Porque em todo o mundo se fala inglês…de Cambridge. Sem o inglês de Cambridge não entra em lado nenhum. Aliás pela dicção inglesa de José Mourinho, um dos portugueses de maior sucesso no mundo, percebe-se que Cambridge fez parte integrante do seu currículo na escola básica de Setúbal.  Agora afastem lá o rabo do Cambridge aí da frente e deixem-me espreitar para o brilho da minha língua portuguesa descansado. Estou tão farto de eclipses, que se me falarem novamente da lua ou de Cambridge, ainda vos mando com as espectaculares declarações de José Mourinho: Ai sink ai m a special one!...

domingo, 18 de janeiro de 2015

Pai Ambrósio




Hoje irei debruçar-me sobre a complexa temática do “Pai Ambrósio”, espécime antropológico esquecido de forma injusta em todos os manuais de taxonomia do reino animal. Já tinha aflorado este tema de forma superficial, baseado apenas na constatação da vida desenfreada de alguns amigos, na tentativa chegarem a tempo às aulas de violino, de equitação, de ténis e de inglês dos filhos. Como desejava comprovar a minha teoria do “Pai Ambrósio” com sustentação científica, nada melhor do que mergulhar de cabeça na loucura da experimentação. E tudo começa de uma forma muito singela, com uma frase também ela inofensiva: “Querida, não achas que os miúdos deviam fazer um desporto qualquer?...”.  Se a querida da esposa responde afirmativamente, a nossa vida sofre uma fabulosa alteração, que tinha dificuldade em classificar, até que a minha mãe tratou de facilitar a conceptualização da coisa, lançando a expressão: “Filho, já viste que tens os pneus do carro carecas!...”.  Armei-me em cientista e agora tenho de me aguentar à bronca. E a dimensão da bronca tem uma relação directa com a magnitude do mergulho em forma de bomba, que mandei da última prancha, rumo às exigentes actividades dos miúdos.  Moro longe da urbe, mas decidi levar em simultâneo a filha para o Basquetebol e o filho para o futebol. Como achei que, eventualmente, não experienciava  a tese de forma plena, aumentei o grau de dificuldade e de quilómetros, levando o miúdo para uma terra ainda mais distante. No final de 4 anos de experimentação como “Pai Ambrósio”, sinto-me com a propriedade académica para  tirar algumas das principais conclusões deste estudo. Em primeiro lugar, a certeza de que os accionistas da Galp  e da Michelin gostam mais de mim, do que Soares gostará de Sócrates. A quantidade de litros de gasóleo que entra no depósito do veículo de qualquer “Pai Ambrósio” por mês, rivaliza com a que enche os camiões TIR que transportam cebolas entre Sever do Vouga e Bruxelas. Em segundo lugar, a ligação entre o Pai Motorista e as instituições desportivas é similar à que  um trabalhador  estabelece com a segurança social;  à medida que o tempo passa, a esperança de que o trabalho vá diminuindo e a reforma chegando, afasta-se como uma miragem no deserto do Atacama. É um mergulho sem retorno a terra firme; quanto mais nadamos para a margem, mais ela se afasta. Avançamos nos anos e aumenta o número de treinos, o número de jogos e, os horários, são empurrados para horas próprias da entrada nas discotecas da Praia da Rocha. A hora de jantar em família vagueia ao sabor dos treinos nocturnos, quase sempre com o arroz empapado e frio. Mas o pai Ambrósio não baixa os braços; coloca-os no volante e acelera entre campos da bola e de basquete. Mete um às 18, a outra às 19.30, pega no primeiro e trá-lo às 20; vai buscar a outra às 21, chega a casa às 21.30. Levanta-se às 7 da matina de sábado para levar um ao Cartaxo, porque o jogo só começa às 9, mas o “mister” tem de dar uma palestra de meia hora antes da hora de aquecimento que antecede o jogo. A outra joga em Rio Maior às 15. Tem de sair de casa às 13 para chegar às 14. O jogo termina às 17.30. Chegamos a casa às 18.30. No domingo, outro jogo, porque é jornada dupla. Não queremos saber; queremos ficar na cama a descansar; “levanta-te pai que vou chegar atrasada!...” o “Pai Ambrósio” levanta e acelera…a um domingo (?).  O treinador diz que a miúda ganharia mais argumentos técnicos se não faltasse aos treinos das 20, mas o pai Ambrósio balbucia com algum embaraço que, apesar de ser multicelular não consegue dividir-se em 2 organismos distintos e estar em 2 locais à mesma hora. “Achas que podemos ir passar o fim de semana ao Alentejo?” pergunta a esposa em busca de um retiro em família. “Já te esqueceste que o miúdo tem jogo na Freixianda?”. O Pai Ambrósio acaba de poupar umas massas num Hotel alentejano. Os amigos telefonam para irem descer juntos um rio em Arouca. “No fim de semana do jogo com o Ouriense que decide o 3º lugar? Impossível…”. Também, o bife de vaca arouquesa está pela hora da morte. Ainda bem que desporto faz bem aos miúdos; desenvolve as competências físicas e sociais. Em compensação as competências sociais e físicas do “Pai Ambrósio” estão perto do vegetativo. E nas férias da Páscoa? Os treinos continuam? Ah, vai haver um torneio com equipas muito boas, como o Atalaiense e o Caxarias?...Então e os 4 dias que planeámos sair até ao Gerês???...Deixa lá que aquilo é só árvores, erva, chuva e burros selvagens!...
Numa das inúmeras viagens que fazem juntos, o filho tocou no ombro do pai e disse-lhe: “Ó Pai, apetece-me algo!…Que o Sporting me faça o tal convite. Íamos só 3 vezes por semana a Lisboa. O que te parece? ” O “Pai Ambrósio” respondeu: “Toma lá esta caixa de Ferrero Roché e já vais com sorte…”

domingo, 28 de dezembro de 2014

Meteorologia natalícia



Estava a minha dentição entretida a trucidar os coscorões e todas as iguarias que o metabolismo merece enfardar no dia de natal, quando alguém teve a genial ideia de ligar a televisão. Em uníssono, ouvimos um apelo colectivo: “Esse tipo é que não!...desliga isso, senão a fruta cristalizada não passa no esófago!!” Entre o ligar, o apelo e o desligar, sobraram alguns segundos, suficientes para ficar colada aos nossos coscorões a mítica frase “desde há muitos anos que os portugueses não terão a acumulação de nuvens negras no seu horizonte”.  Várias dúvidas me assaltaram e nenhuma tinha a ver com a carga calórica dos coscorões. A primeira questão prendia-se com o facto de, no dia em que comemoramos o nascimento do menino Jesus, aparecer o primeiro ministro a falar ao país. Não sei se a ideia seria colar-se ao  nascimento do salvador e ele próprio apanhar essa onda deixando no ar a imagem de que também nasceu o redentor económico “sabem, eu não tive uma vaquinha nem um burrinho para me aconchegar o berço, mas tive uns tipos do banco central europeu muito simpáticos que me deram aconchego nos momentos em que eu mais precisei; esses e os chineses que nos compraram a energia; esses e os brasileiros que nos compraram e venderam as comunicações aos franceses; esses e outros que não sabemos bem quem, a que entregámos os correios” . Nasce assim,  Passos como o salvador de todos os nossos pecados da gula, afastando o espectro do terror e da falência. Por falar em falência, “Ó Passos, então e aquela história do BES? Da solidez dos investimentos?” Da regulação fictícia do Banco de Portugal?...”  “Banco? Qual banco?...hoje vim aqui falar de prosperidade!!!...já de propósito, para evitar mal entendidos, troquei um banco de madeira por esta  cadeira vermelha igual à que o pai natal utiliza nos centros comerciais  para vender fotografias aos meninos que se conseguirem sentar ao seu colo.”.
Voltemos à frase meteorológica lançada pelo primeiro ministro sobre a acumulação de nuvens negras no horizonte.  Um claro sinal de que o tipo tem poderes maiores do que o malogrado Anthímio de Azevedo, que só conseguia prever as baixas pressões para um período de 5 dias com alguma segurança. Passos lança-se seguro para a certeza de uma baixa acumulação de nuvens negras nos próximos tempos, ou seja, entre o dia de Natal e as eleições legislativas. É d’homem! Ou antes, é d’homem poderoso! Ou melhor é d’homem poderoso a puxar para o milagroso!
Trincamos o peito do peru ao memo tempo que ouvimos a notícia de que a idade da reforma irá aumentar para os 66 anos e 2 meses. Lembramo-nos da nuvem negra na fase dos coscorões, engolimos o peru à pressa e começamos a fazer a nossa análise introspectiva: “Grande mentiroso!  Então que tudo iria ser melhor; que faria um sol radioso e dá-nos a perspectiva de gozar a reforma a trabalhar?” . “Disseste mentiroso? Não confundiste com poderoso e milagroso? Pensa bem no “oso” que colocas no final do adjectivo.” Na verdade Passos não mentiu, porque domina a metáfora meteorológica como ninguém. Lança a redução da acumulação nuvens negras como uma coisa boa, sabendo que, para um alentejano, assolado pela seca e falta de água, e ansioso por uma bela carrada de chuva e negridão no horizonte, a redução das nuvens revela-se como uma má notícia. A metáfora meteorológica não compromete; a nuvem pode ser má para um minhoto ou boa para um algarvio. “Quem disse que as coisas iriam melhorar?...eu só falei em nuvens negras, mais nada!”. Mais nada?...falou também que “Será o primeiro Natal desde há muitos anos em que temos o futuro aberto diante de nós.”. Aqui já ultrapassa a previsão meteorológica e entra no domínio do consideravelmente estúpido. Talvez por um erro de sintaxe. O nosso futuro sempre esteve aberto diante de nós; aberto e repleto de figuras, cujas competências deveriam estar ao dispor do Instituto do Mar e da Atmosfera e nunca aos comandos da complexa gestão de um país. Se tivesse dito “temos mais futuro aberto diante de nós”,  a coisa já faria algum sentido; de facto percebo que tenho cada vez mais futuro a trabalhar, mesmo que para isso tenha de levar comigo as artroses e o andarilho. 
Acabei agora de consultar a previsão meteorológica  para os próximos dias e fiquei a saber que não haverá nuvens no horizonte. Ufa, ainda bem.  Seremos brindados com um fabuloso frio glaciar para testar as nossas adiposidades. Enquanto a nuvem não vai e o frio não vem, vou continuar agarrado aos coscorões e ao peito de peru, com a certeza de que só abrirei a televisão para conferir os números do euromilhões, que desta vez me lembrei de fazer. Pode ser que o futuro se abra perante nós com a nebulosidade adequada.