A Avó está contente. Finalmente conseguirá juntar alguns netos no Natal. Preparam-se as comidas, enfeita-se a casa, trata-se dos presentes, ilumina-se a árvore, alimentam-se as expetativas. Toca o telefone. O neto do outro lado diz: “Avó, o teste deu positivo!”. “Ai sim, que bom. E quando vens?” lançou a avó, convencida que quando os testes são positivos, são mesmo uma coisa positiva. O neto complementa “Já não posso ir aí neste Natal. Parece que tenho o tal vírus.” A avó desliga o telefone e percebe que este será mais um Natal em solidão. O neto testou positivo, a filha testou negativo, os outros netos testaram negativo, mas todos deram negativo à possibilidade de se juntarem à festa de Natal em positivo convívio. Por uma questão de precaução, porque estiveram com alguém infetado. O Natal foi assim passado em pequeninos nichos familiares de 2 pessoas cada. A filha com a neta que testaram negativo; o neto com o genro que testaram positivo; o outro neto com a namorada que testaram negativo mas ficaram com medo de testar positivo. A Avó, essa não testou nada, e ficou com o outro filho que deixou a restante família na casa da outra avó, para que esta avó tivesse a companhia de alguém para além da TV a dar notícias sobre os casos de novas infeções. A avó que passou os 2 últimos anos enterrada na cama a ver televisão, não percebe bem como pode ser possível passar mais um Natal sem o afeto dos seus. A Avó está protegida; cumpriu de forma obediente as instruções do slogan dado por aquela senhora do cabelo com laca que aparece todos os dias na TV. “Protejam-se os idosos!” Dizia. E os idosos protegeram-se; fecharam-se em casa ou nos lares, viam os filhos com máscara na cara pelas frechas da porta e tomaram todas as doses das vacinas preconizadas. Mas isso não chegaria e até os netos de 8 anos levaram com a pica para protegerem os avós. E os avós protegidos continuaram a ficar sem ninguém neste Natal. O slogan que me apetece contrapor à senhora da laca no cabelo, será “Já parávamos com isto, não acha?”. Se quiser pode pedir opinião a todos os velhotes que foram lançados para a solidão do seu quarto, aspirando pelo momento de sentir de novo o abraço do filho ou do neto, mas as notícias que os acompanham todos os dias teimam em enviá-los de novo para os calabouços da sua cela. Uma especialista em saúde mental explicava o surgimento de muitos casos de depressão despoletados pelo isolamento e que se deveria desenvolver com os idosos competências nas novas tecnologias para poderem comunicar mais com os seus filhos à distância…???...Eihn?... Como medida profilática, esta especialista de saúde mental deveria fazer um teste antigénico à sua saúde mental a ver se dá positivo. Os velhotes não precisam de comunicação à distância, precisam de abraços, de beijos, de contacto de proximidade. A solidão mata mais do que o covid. O valor dos anos, de quem tem poucos para viver , é precioso para ser afogado em medo e isolamento. Protejam os idosos do vírus da solidão. Os casos de covid estão a aumentar. Claro que estão a aumentar porque o histerismo dos testes surgiu sem ninguém questionar. A corrida desenfreada à zaragatoa no nariz, rivaliza com a entrada nos saldos do El Corte Inglês. Tens de viajar? Testa!; Tens de ir ao restaurante? Testa!; tens de fazer desporto? Testa!; Tens de ir para um hotel? Testa!; Tens de ir visitar os avós? Testa!...Não tens nada de interessante para fazer? Testa…à cautela. Os isolamentos profiláticos irão continuar ad eternum porque todos os assintomáticos continuarão a testar desenfreadamente, porque os epidemiologistas continuam ativos em horário nobre sem sinal de fadiga e os governantes querem continuar em horário nobre porque a campanha eleitoral já começou para eles, os salvadores do povo. E o povo prossegue na sua rotina sem pestanejar, sem questionar porque raio já quase toda a malta levou com o líquido milagroso e o milagre da libertação ainda não apareceu. A hipnose coletiva entrou em velocidade cruzeiro, sem laivos de revolta ou contestação, com aceitação plena de todas as medidas estapafúrdias que os salvadores do povo se lembrem de inventar para proteger os idosos e os manter em frente da TV longe das ameaças exteriores e próximo dos amigos epidemiologistas. Chegará em breve o dia em que a avó morrerá sem se lembrar do nome do neto e das caras dos filhos sem aquela máscara azul a tapar a boca. Os filhos respirarão de alívio porque a sua mãe não morreu de covid uma vez que testaram todos negativo naquele dia em que a visitaram. Morreu apenas de solidão.
terça-feira, 28 de dezembro de 2021
O Natal dos Pequeninos
A Avó está contente. Finalmente conseguirá juntar alguns netos no Natal. Preparam-se as comidas, enfeita-se a casa, trata-se dos presentes, ilumina-se a árvore, alimentam-se as expetativas. Toca o telefone. O neto do outro lado diz: “Avó, o teste deu positivo!”. “Ai sim, que bom. E quando vens?” lançou a avó, convencida que quando os testes são positivos, são mesmo uma coisa positiva. O neto complementa “Já não posso ir aí neste Natal. Parece que tenho o tal vírus.” A avó desliga o telefone e percebe que este será mais um Natal em solidão. O neto testou positivo, a filha testou negativo, os outros netos testaram negativo, mas todos deram negativo à possibilidade de se juntarem à festa de Natal em positivo convívio. Por uma questão de precaução, porque estiveram com alguém infetado. O Natal foi assim passado em pequeninos nichos familiares de 2 pessoas cada. A filha com a neta que testaram negativo; o neto com o genro que testaram positivo; o outro neto com a namorada que testaram negativo mas ficaram com medo de testar positivo. A Avó, essa não testou nada, e ficou com o outro filho que deixou a restante família na casa da outra avó, para que esta avó tivesse a companhia de alguém para além da TV a dar notícias sobre os casos de novas infeções. A avó que passou os 2 últimos anos enterrada na cama a ver televisão, não percebe bem como pode ser possível passar mais um Natal sem o afeto dos seus. A Avó está protegida; cumpriu de forma obediente as instruções do slogan dado por aquela senhora do cabelo com laca que aparece todos os dias na TV. “Protejam-se os idosos!” Dizia. E os idosos protegeram-se; fecharam-se em casa ou nos lares, viam os filhos com máscara na cara pelas frechas da porta e tomaram todas as doses das vacinas preconizadas. Mas isso não chegaria e até os netos de 8 anos levaram com a pica para protegerem os avós. E os avós protegidos continuaram a ficar sem ninguém neste Natal. O slogan que me apetece contrapor à senhora da laca no cabelo, será “Já parávamos com isto, não acha?”. Se quiser pode pedir opinião a todos os velhotes que foram lançados para a solidão do seu quarto, aspirando pelo momento de sentir de novo o abraço do filho ou do neto, mas as notícias que os acompanham todos os dias teimam em enviá-los de novo para os calabouços da sua cela. Uma especialista em saúde mental explicava o surgimento de muitos casos de depressão despoletados pelo isolamento e que se deveria desenvolver com os idosos competências nas novas tecnologias para poderem comunicar mais com os seus filhos à distância…???...Eihn?... Como medida profilática, esta especialista de saúde mental deveria fazer um teste antigénico à sua saúde mental a ver se dá positivo. Os velhotes não precisam de comunicação à distância, precisam de abraços, de beijos, de contacto de proximidade. A solidão mata mais do que o covid. O valor dos anos, de quem tem poucos para viver , é precioso para ser afogado em medo e isolamento. Protejam os idosos do vírus da solidão. Os casos de covid estão a aumentar. Claro que estão a aumentar porque o histerismo dos testes surgiu sem ninguém questionar. A corrida desenfreada à zaragatoa no nariz, rivaliza com a entrada nos saldos do El Corte Inglês. Tens de viajar? Testa!; Tens de ir ao restaurante? Testa!; tens de fazer desporto? Testa!; Tens de ir para um hotel? Testa!; Tens de ir visitar os avós? Testa!...Não tens nada de interessante para fazer? Testa…à cautela. Os isolamentos profiláticos irão continuar ad eternum porque todos os assintomáticos continuarão a testar desenfreadamente, porque os epidemiologistas continuam ativos em horário nobre sem sinal de fadiga e os governantes querem continuar em horário nobre porque a campanha eleitoral já começou para eles, os salvadores do povo. E o povo prossegue na sua rotina sem pestanejar, sem questionar porque raio já quase toda a malta levou com o líquido milagroso e o milagre da libertação ainda não apareceu. A hipnose coletiva entrou em velocidade cruzeiro, sem laivos de revolta ou contestação, com aceitação plena de todas as medidas estapafúrdias que os salvadores do povo se lembrem de inventar para proteger os idosos e os manter em frente da TV longe das ameaças exteriores e próximo dos amigos epidemiologistas. Chegará em breve o dia em que a avó morrerá sem se lembrar do nome do neto e das caras dos filhos sem aquela máscara azul a tapar a boca. Os filhos respirarão de alívio porque a sua mãe não morreu de covid uma vez que testaram todos negativo naquele dia em que a visitaram. Morreu apenas de solidão.
domingo, 8 de agosto de 2021
Certificado "Al Prosciutto"
terça-feira, 13 de julho de 2021
Segregação Vacinal
O aparecimento de
novas e surpreendentes medidas anti-moléstia não nos deixa cair na monotonia. A
emoção surge a cada curva, com a incerteza permanente de que mais ideias
estapafúrdias os tipos se irão lembrar. Depois daquele golo do Éder no europeu
totalmente inesperado, o síndrome do “pontapé na erva e a coisa deve entrar”
ficou para ficar. Desta vez lembraram-se
de colocar o senhor Artur, gerente daquele hostel muito simpático, a avaliar a
nossa limpeza nasal. “Boa tarde. Para o check in preciso do seu cartão de
cidadão, do seu Visa e que escarafunche o seu septo nasal com essa zaragatoa e
coloque aqui a ranheta no teste da gravidez para ver se está a fecundar a tal
virose”. Ou isso, ou o certificado de vacinação,
uma espécie de carta de condução de veículos de matérias inflamáveis. Aquele
que permite o transporte e distribuição do vírus de forma quase segura. “Epá
que líquido é esse que está a escorrer daquela torneira da cisterna? Deixa lá! é
só um bocadinho do tal bicho, mas devidamente certificado”. Eu cá
antes quero apanhar o bicho através de um tipo que tenha as vacinas em dia. É
um vírus mais asseadinho; já vem com o banho e a vacina tomados. Um vírus
apanhado de um gajo sem certificação é sempre arriscado; é como comprar uma
Lacoste na candonga. O crocodilo pode desbotar na 1ª lavagem. A mulher de um
colega meu, devidamente certificada, transmitiu o vírus à filha e a coisa não
desbotou. Continuou a dar positivo ao fim de 10 dias. Era produto do bom. No
momento em que a maioria dos países europeus já está a desconfinar em grande,
nós os pequenos, continuamos a surpreender-nos em grande. A cada 5ª f surge uma nova finta, capaz de
partir os rins a qualquer Ruben Dias. Por vezes essas fintas são feitas em
direção à própria baliza, mas não deixam de ser inesperadas e de embelezar o
espetáculo. Os nossos epidemiologistas
são os melhores estrategas da europa. Enquanto toda a malta partiu para o
ataque, percebendo que chegar aos penáltis (leia-se falência económica
coletiva) seria um bocado arriscado, cá nós continuamos na retranca, fechados
lá atrás, à espera do tal golo milagroso do Éder. Esses franceses já nem
máscara usam na rua, está tudo ao molho, deixam a economia entrar pelas alas,
mas no final, quem vai levantar a taça, seremos nós! Na nossa filosofia do
“joga feio mas eficaz”, temos no entanto algumas lacunas que nem os melhores
epidemiologistas conseguiram prever. O avançado é mandrião , não recua, o lateral
esquerdo é fracote e todas as viroses entram por aquele lado. Quando é para
defender, temos de defender todos em bloco, colocar o autocarro lá atrás. Ou é
para todos levarem a vacina, ou são substituídos e vão para o balneário de
castigo voltados para a parede com umas orelhas de burro, ou então andam sempre
com o autoteste na carteira para escarafunchar a narigueta, que não queremos
que produtos contrafeitos andem por aí à solta.
Mas os nossos especialistas pensaram em tudo e
flexibilizaram a coisa. Na zona
defensiva(hotéis) não há margem para manobra, só entra quem é do bem; o resto
fica à porta. O ponta de lança adversário, antes de chegar à grande área, já
levou um biqueiro na canela q’é pra
aprender a não se armar em Lacoste que debota. Nas alas (restaurantes), poderemos
aliviar a pressão. A partir de 6ªf ao jantar, tudo na retranca, só entra com
certificado ou zaragatoa, que o vírus vem aí a fazer das suas com toda a força.
Durante a semana já toda a malta pode comer um arroz de marisco, que o bicho está
distraído a pressionar em outras paragens.
É a chamada segregação flexível. Segregas ao fim de semana, agregas
durante a semana. Comparar este regime de segregação ao praticado em Pretória
durante o regime do apartheid, até é ofensivo, uma vez que os nossos autocarros
para a Reboleira continuam apinhados e sem separação física para indivíduos de
pureza certificada. Este certificado de
vacinação está agora a chegar aos escalões de formação, para não se correr o
risco de vermos um cavalão da França fazer gato sapato do nosso lateral
iniciado, apesar do nosso iniciado não precisar de mais velocidade. Parece que
a vacinação nos jovens é importante por causa dos avós dos jovens que já foram
vacinados . Ficam assim ambos com o certificado e podem transmitir mutuamente
em completa segurança. Aquele casal que
tinha o restaurante de bairro que faliu coloca
a sua dúvida: “Olhe lá ó mister, acha já podemos passar ao ataque ou
continuamos aqui na retranca à espera de um milagre? É que eu já não consigo
pagar a renda da casa…”; “Mantém-te
firme, Samuel! Eu já mandei aquecer o Éder. Pode ser que ele consiga meter a
bola lá para dentro de novo. Deixa-me só perguntar se ele já tem o certificado de vacinação para poder entrar. Caso
não tenha, posso sempre mandar aquecer o massagista. Esse tem a devida certificação...”
quinta-feira, 17 de junho de 2021
O empurrãozinho
Venho assumir
O chato
recebe uma chamada da senhora do SNS a perguntar porque é que respondeu
negativamente à mensagem da toma da vacina. Minha senhora, mas o chato aqui sou
eu! Sou eu que questiono. Já agora pode-me informar porque é que a senhora
tomou a vacina? Aproveito e tenho aqui mais umas duvidazinhas que gostaria que
me esclarecesse, podemos começar por aquela do camuflado…..
Um amigo dizia-me no outro dia que era a favor da
liberdade de escolha individual, mas defendia que quem não quisesse tomar a
vacina, caso ficasse infetado, deveria pagar os custos do seu eventual
internamento. Tem olho para a resolução do problema de financiamento do SNS. Poderia
ter alargado a abrangência da medida e acabava com as despesas de internamento de toda a malta que toma opções duvidosas: do obeso por ter comido fast
food em barda, do fumador por não ter ligado às imagens dos maços de tabaco, do
velejador por não ter tido cuidado com o sol, do apreciador de gin por ter mergulhado de cabeça no
vodka, do ginasta por ter dado um salto mortal a mais no elemento gímnico.
Poderíamos assim canalizar os impostos afetos a essas despesas indevidas, para aquisição de mais vacinas e testes
anti-covid, em prol do bem comum.
Um estudo revelava hoje que Portugal é o país da
união europeia onde a população
tem mais confiança nas vacinas contra a Covid-19 , com 95% dos inquiridos a considerarem
as vacinas seguras. E os portugueses são também a população que mais suspeita que
as vacinas contra a Covid-19 poderão ter efeitos a longo prazo, perfazendo um
total de 77%....????... Somos claramente um povo que vive o hoje e que
se lixe o amanhã. Hoje sinto que é seguríssimo mandar 8 shots de seguida aqui
no bucho! Amanhã a ressaca? Logo se vê...mas penso que não augura nada de bom.
Eu ainda
estou no grupo dos 5% de chatos tresmalhados. Provavelmente poderei mudar de
opinião, como fui mudando ao longo de toda esta pandemia. Só não consigo pensar
bem com estas mãos coletivas a pressionarem a minha omoplata rumo ao plano de
água lá em baixo, enquanto decido se o que vejo a boiar é uma larva, uma
cagadela de pássaro ou um nenúfar. Quanto ao miúdo da prancha de 10 metros,
depois de ter mandado uma dolorosa chapa de costas naquela empedernida água e de
ter sentido os rins a sair pelo intestino, olhou para cima, com a larva ainda enfiada entre os dentes e, na
ponta da prancha espreitava o tipo que o empurrou, a gritar: É pró teu bem, miúdo!
domingo, 30 de maio de 2021
A Carraça
Nos meus passeios matinais em época primaveril, a
inspeção periódica das coxas em busca de carraça invasora, é uma das rotinas
que cumpro de forma repetida. Num destes dias verifiquei que tinha 4 desses
espécimes subindo desenfreadamente perna acima agarrados às minhas pilosidades
com o mesmo vigor do Tarzan agarrado às
lianas em busca da sua Jane. Tratei de as despachar com a rudeza de 4
implacáveis dedadas em direção ao solo, sem qualquer tipo de compaixão. Aquilo
pesou-me na consciência. A carraça é um ser enigmático e, de alguma forma,
admirável. Vive toda a sua vida agarrada à erva daninha na esperança de que,
naquele inóspito terreno, passe por breves instantes uma coxa peluda para lhe
lançar a unha. No entanto, algumas morrem sem sentir a sensação prazerosa para qualquer parasita de sugar um pouco da hemoglobina alheia.
Percebia-se que a última carraça que despachei vinha feliz na sua ascensão. A
longa espera ao sol, ao vento, à chuva, tinha finalmente compensado. Dentro de
momentos já teria a dentição a trabalhar na epiderme do humano e a ganhar corpo
de atleta. A minha unha retirou-lhe esse prazer, qual tampa da miúda mais gira do
liceu na época da adolescência. Não conseguiu sequer consumar um breve momento
parasitário, uma ténue gota de sangue, levou logo uma nega em direção ao pó. Há quem
ache que a carraça um ser repugnante, eu acho-a persistente e crente. Permanece
impávida convencida que a sua hora chegará. E as que veem a sua hora chegar,
não perdem tempo com preliminares, vão logo à ação. Poder-se-á achar que a
carraça, uma vez instalada, poderia ser um pouco mais lúcida e permanecer escondida
no anonimato, em vez de ostentar a sua barriga proeminente de leucócitos
sugados a jorro e rapidamente se denunciar. Depois de uma espera tão longa e
penosa, queriam o quê? Que a bicha deglutisse o banquete ao ritmo deprimente de
um restaurante gourmet? Claro que iria encher o bandulho à fartazana. Não podemos
pedir discernimento a uma carraça que passou por tanto para ali chegar. Não sei porquê mas lembrei-me agora do
fabuloso ministro Cabrita, o tal da administração (e)interna. Se me lembrei por
causa dos milhares de ingleses que encheram o bandulho de cerveja nas ruas do
Porto e se divertiram a partir tudo por onde passavam, depois de uma longa
espera em abstinência anti-covid, pendurados
nas suas lianas britânicas? Não. Lembrei-me do ministro Cabrita por continuar
agarrado à coxa peluda do ministério depois de tanta patetice. Tenho de lhe tirar o chapéu. O Tipo é
persistente. Mas percebe-se. Depois de tanto tempo a vaguear nas ervas daninhas
dos corredores partidários em busca da tal coxa salvadora, eis que chegou a sua
oportunidade que tratou de a agarrar com unhas, dentes e alguma falta de senso.
Depois da primeira gafe das golas inflamáveis que pegavam fogo, poder-se-ia ter
mantido quietinho no seu canto sem encher muito o bandulho, para não darem por
ele, mas não. Atacou à bruta o banquete de alarvidades. Desde o caso do SEF, a gafe dos vacinados com
80 mil anos, passando pelos imigrantes ilegais de Odemira , os festejos
espampanantes dos adeptos do sporting e culmina agora na invasão “controlada”
de holligans ingleses nas ruas do porto a partir tudo o que é cadeira e paz
social. Mas atenção que a proteção civil
tomou medidas eficazes no combate ao caos. Enviou SMS a todas as pessoas para
colocarem máscara, manterem distância social e não beberem álcool. Só falhou,
porque os ingleses deixaram os telefones em Manchester. A Dona Júlia, vendedora
de toalhas na ribeira, depois de assistir a umas murraças e cadeiras voadoras
soltou um clarividente sotaque nortenho “Eu
estou admirada com isto! Então nesta multidão ninguém usa máscara? Até
colocaram ecrãs gigantes para ver a bola e depois queriam o quê?”. Ó dona Júlia, eu próprio também estou
admirado, não só com as palermices do Cabrita, como de todos os outros palermas
que dizem governar isto e não têm qualquer plano estratégico lúcido, que não
seja mandar vir mais barris de cerveja e deixar as golas a arder. Mas nem tudo é descontrolado. Na semana
passada, vi a notícia do controlo do caos de 5 miúdas estudantes de Erasmus que foram multadas na
hora por estarem a beber um copo de vinho num dos miradouros da capital. Firmeza nisso Cabrita! É Disso que o país
precisa, pulso firme!
Agora percebi como ainda ninguém conseguiu mandar
uma dedada ao Cabrita em direção ao pó e remetê-lo de novo à erva daninha. Simplesmente
chegámos ao ponto em que as múltiplas carraças se apoderaram do próprio e
passivo pedaço de coxa. Estão todas bem nutridas e firmemente seguras,
esperando que não apareça a tal febre da carraça que acabe com todo este
regabofe. Até lá, venha daí uma cerveja e uma cadeirinha para o que der e vier.
domingo, 25 de abril de 2021
A liberdade da corrente
Esta imagem foi tirada há 32 anos. Eu sei que está
pouco nítida, mas é a única que assinala
a primeira vez que desci o desfiladeiro do rio Paiva, um dos mais majestosos e
bonitos rios do nosso país. Foi uma aventura fabulosa, num dia bem invernoso de
geada, chuva e muito frio. Essa entrada num rio caudaloso de águas bravas,
totalmente desconhecido para os três que se aventuraram nesse dia, pode ser um verdadeiro ensinamento de vida. Fui
usufruindo do rio Paiva ao longo dos
anos. O gozo do desafio, da comunhão com a natureza, do convívio, da
gastronomia local e da magnitude desse
fenómeno que nasce debaixo de umas pedras e desagua algures no mar. O facto de escrever estas linhas no dia 25 de
abril, o denominado dia da liberdade, não é inusitado. O rio Paiva, juntamente com todos os rios de águas bravas
que fui conhecendo dentro de um caiaque, simboliza a faceta da liberdade que eu
considero mais saudável: a liberdade natural. E a liberdade natural não está
isenta de condicionalismos. “Epá mas então o que é isso? Queres ver que um gajo não pode ter liberdade plena? “ Não.
Voltamos à ideia do rio de águas bravas. O rio dá-te a possibilidade do livre
arbítrio. Abre-te a porta e diz que podes usufruir do seu leito cristalino e
desafiante. Nas passagens mais turbulentas dá-te alguns sinais de opções que
podes tomar. “Estás a falar em opções, condicionalismos, perda de liberdades e
garantias? “ Não. O rio dá-te todas as liberdades, mas não te dá todas as
garantias. Dá-te a liberdade para avançares por aquela cascata limpa e gritares
de contentamento depois; dá-te a opção de escolheres a passagem do calhau duro
e gritares de dor depois; dá-te a possibilidade de não fazeres a passagem,
acartares com o caiaque de 20 quilos às costas e gritares de alívio depois;
dá-te a liberdade de entrares direito
naquele sifão e gritares debaixo de água depois. “Mas o 25 de abril deu-nos as
ferramentas para podermos fazer tudo o que nos dá na veneta, isso não tem nada
a ver com a imagem condicionada que passas do rio!” . Tem tudo a ver. Na
liberdade natural do rio também podes fazer tudo o que te dá na veneta, simplesmente
podes levar na corneta. Nas comemorações do 25 de abril, vi alguns
personagens envolvidos em escândalos de corrupção que continuam a sorrir com o
cravo de abril na lapela. Para eles, abril representou de facto esse sentimento
do fazer tudo o que lhes dá na veneta, sem olhar a meios. As suas ações
criminosas não acarretam consequência dolorosas. A pedagogia do rio não os
deixaria incólumes escondidos atrás de subterfúgios legais, recursos e prescrições.
Levariam umas chapadas valentes do duro granito. No rio, as pedras não
prescrevem, nem tão pouco as correntes rumo ao mar; estão lá à espera das
opções mais inusitadas. No rio, se se cair num sifão, fica-se numa espécie de
prisão. Os tipos dos cravos na lapela que eu vi a sorrir depois de terem caído
nos sifões das escutas, dos favores ocultos, do compadrio, do enriquecimento
ilícito, não sentiram sequer o cheiro das ervas daninhas dos arredores da
cadeia de Pinheiro da Cruz. E para não
haver espaço para se ouvir os ensinamentos dos rios de águas bravas sobre a
consequência de algumas das ações menos pensadas, alguns destes tipos,
aproveitaram o embalo para calar a voz do rio Tua erguendo a tal barragem que
encheu os bolsos de algumas empresas dos amigos e cujo ganho económico para o
país se resume… a 1 mês de produção energética(?). Todos os outros ganhos seguem no caudal “natural” para desaguar nos
bolsos dos amigos.
Neste
dia da liberdade, continuo a usufruir da imagem da liberdade natural do rio de
águas bravas. Sentir a água fria nas mãos, a corrente debaixo do caiaque, a passagem ruidosa entre os dois calhaus, a
sensação de desafio constante nas opções tomadas. Fatigado, aproveito a margem
para descansar e, quando me preparo para partilhar uma fila de chocolate com os
amigos, vislumbro ao longe um tipo muito parecido com aquele
político das opções extremamente duvidosas. Rema desenfreado rumo ao sifão do
lado esquerdo do rápido. Acenamos de forma vigorosa para o avisar que ali
existe perigo real, mas ele ignora o aviso e acelera cada vez mais para dentro
do buraco. A sua confiança de que nada o
pode parar, parece inabalável…
domingo, 28 de março de 2021
2,36 euros extra...ordinários
Num momento em que o sentimento generalizado sobre os
chineses é de alguma desconfiança, preparo-me aqui para contrapor e dar uma oportunidade aos tipos. Eu
sei que nos foram mandando com a peste bubónica, a gripe asiática, a gripe das
aves, o corona vírus. Além disso mandaram também pelo AliExpress um par de sapatilhas que demoraram 5 meses a chegar e 2 dias a romper. Mas neste momento sinto que
tenho de fazer essa catarse de sentimentos negativos e transformá-los em
palavras de compreensão e carinho . Deve
ter sido do isolamento que fiquei mais sensível ou então foi daquela carta que
recebi no correio que dizia “Apoio Social Extraordinário”. Vi uma
luz ao fundo do túnel no meio do nevoeiro com as 3 palavras de apreço, como que
a dizer: “Amigo, nós estamos contigo nesta luta difícil e enviamos esta ajuda
para mitigar de alguma forma esse desalento”. Abri o envelope da EDP com as
mãos trémulas de tanta emoção e lá bem em baixo vinha esse apoio social
extraordinário materializado em 2,36 euros…(?). Por momentos pensei que faltava
ali um zero, mas logo me penitenciei e retorqui “epá não sejas mal agradecido
perante esta prova de generosidade da EDP”. Eles tiveram a hombridade de
perceber que o facto de ficarmos sempre fechados por causa do vírus chinês,
aumentou um pouco o consumo elétrico e tiveram essa comovente atenção. Percebi
esse incremento pelos 160 euros de luz extraordinária que terei de pagar à EDP de
acerto anual. Mas temos de ser uns para os outros. Eles mandam-nos unidades e
nós mandamos centenas. Uma troca, mais do que meramente comercial, realmente
solidária. E é aqui que aparecem os chineses extraordinários, os maiores
acionistas da EDP, essa empresa quase irrelevante para o nosso quotidiano. Foi graças aos chineses que hoje tenho mais 2,36
euros a embelezar a minha conta bancária e estou grato por isso. Por isso e por
serem gestores a sério; gestores que agem de forma diferenciada em prole da
eficácia, aplicando um câmbio lógico: dão
apoio, utilizando a bitola do que pagam a um operário na China e recebem lucros,
de acordo com o que pagam a um CEO de uma das suas empresas europeias. Os
políticos portugueses que nos foram vendendo ao capital chinês foram
visionários. “Estes chinocas é que sabem
como se gere um país e ainda nos dão uns milhões para pagarmos as casas na
quinta da marinha e nos colocam em cargos de chefia para fazer número e mover
algumas influências.”
Existe uma dúvida que sempre me perseguiu, que se
prende com o facto de um país comunista se ter transformado no maior acionista
do capitalismo mundial(?). E percebi que esta coisa do comunismo capitalista funciona
com a mesma destreza do que uma finta do Ronaldo; simula que vai para a
esquerda e chuta um balázio com a
direita. Os tipos ergueram as bandeiras vermelhas com as foices e martelos,
acenaram com a ideologia da libertação do proletariado, da abolição da
propriedade privada e igualdade das classe sociais e depois mandaram o
proletariado trabalhar dia e noite a cozer bolas para o Ronaldo, ganhando 2,36
euros à hora, com os lucros milionários a serem guardados nos cofres dos
empresários ligados ao comité central do partido. Onde investiram eles esses lucros? Nas dívidas
externas que os chicos espertos europeus foram acumulando para importar as
bolas, os Rolex, os Lenovo, os Xiaomi, as sapatilhas do AliExpress, produzidos
pelo proletariado chinês. Utilizaram assim a filosofia do “Deix’ós poisar!”. Os
capitalistas pousaram seguros em solo comunista, esperando retornos faraónicos nas
mãos dos pobres chineses e depois tiveram de gramar com eles na gestão das suas
casas. E foi assim que recebi os 2,36 euros em minha casa. Eles
estão a tomar conta de nós com afeto, podemos ficar descansados. Depois da EDP,
da REN, da banca, da saúde privada, dos seguros, das telecomunicações, da imobiliária,
da agricultura, ainda falta a gestão da água, um dos outros bens pouco
essenciais, passar para as mãos dos filantropos chineses. Mas eles já controlam
as barragens?...então tu queres ver que a água… ?...
Tenho de tirar o chapéu a Marcelo na sua deslocação
recente à China, quando vestiu o fato de super-soberano e discursou de peito feito
“Queremos exportar mais aqui, queremos
investir mais aqui!”. Parece que um dos chineses soltou uma risada lá atrás,
mas eu acho que Marcelo esteve em grande. Decidiu finalmente equilibrar a
balança dos 354 milhões de importação/ 1,7 milhões de exportação. “Ó Xi
Jinping, dá lá mais um milhão ao homem e ele cala-se! Não podemos é pagar os
110 milhões de impostos na vendas das barragens, para a balança continuar
equilibrada”. Quanto ao querer “investir
mais aqui” é que é estranho. Investir o quê? O capital que recebemos pelas
vendas das empresas nacionais aos chineses. Jogada de mestre Marcelo! E
conseguiste tirar uma Selfie com o Jinping? Apanhaste o Lu Chun a rir-se lá
atrás?
Assumindo que a nossa soberania está bem entregue
aos gestores Chineses, enquanto espero para saber como os tipos irão gerir os
“nossos” bazucados milhões, já me sentei à mesa em frente a um belo prato de
shop suey com arroz chao-chao. Agora só me falta tirar a máscara importada da
china e comer aquilo com uns pauzinhos. Eu chego lá...
domingo, 21 de fevereiro de 2021
A Amona
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Encontro-me neste momento a tentar escrever num artigo de opinião sem grande opinião…(?). Esta constatação parece um claro contrassenso no contexto atual, uma vez que toda a malta consegue opinar sobre o covid 19, esse malfadado vírus que nos remeteu ao enclausuramento coletivo. Com a proliferação de tantas fontes de informação, a minha opinião tornou-se frouxa; foi perdendo pujança, até chegar a um estado pré-catatónico no qual mergulhou de forma quase irreversível. “Epá aquele virologista da TVI disse que agora é que é! Temos todos de nos fechar em casa porque as variantes britânica, brasileira e africana matam comó caneco!”. O Tipo parece saber do que fala. Vou já encomendar mais 30 pacotes de massa, 6 packs de papel higiénico e 40 latas de atum, para podermos ficar aqui no bunker enquanto essas estirpes andam por aí. Mas não ouviste a opinião daquele médico conceituado alertando que o covid é mais um vírus, que a vida tem de continuar, temos de proteger os mais vulneráveis e meter os hospitais privados ao barulho; que os casos da Suécia são os mesmos dos que confinaram e que tudo não passa de um interesse das farmacêuticas na produção milionária de vacinas? Mau, mau…então em que é que ficamos? Saímos ou entramos? Abrimos ou fechamos? Com máscara ou de boca ao léu? Escolarizamos ou fingimos ensinar? testamos ou ficamos com os narizes mais intactos? Libertamos ou enclausuramos? Vacinamos ou quinamos? E foi assim que a minha opinião se foi afogando num mar de outras opiniões, muitas vezes antagónicas. Quando se coloca a cabeça de fora para se começar a opinar, eis que se leva uma chapada de opinião abalizada pela boca dentro, faltando oxigenação para sobreviver. O que lixa a minha pretensão de opinar é que todas as opiniões aparentam ser devidamente fundamentadas. Foi então que decidi deixar a minha opinião em banho maria, ali quietinha, esperando que os catastrofistas e os negacionistas se juntassem e tentassem chegar a uma posição de algum equilíbrio. Esperei muito e percebi que as opiniões além de antagonicamente fundamentadas são também persistentes; não afrouxam com qualquer antibiótico; prolongam-se no tempo de forma ininterrupta sem perder fulgor. Todos os assuntos marginais são devorados pelo vírus. Mas também a quem é que interessa saber das nomeações feitas na Procuradoria Geral da República, no Banco de Portugal e no Tribunal de Contas para se receber condignamente a bazuca dos 58 mil milhões de euros com a “fiscalização” adequada? Fale-se dos vírus todos os dias, a todas as horas, a todos os minutos, que o espaço fica curto até para dedicar algum tempo àquele embaraço por que passou a ministra Van Dummen, depois do tal currículo forjado enviado para a união europeia. Mostram-se os gráficos, os doentes, os ventiladores, as filas das ambulâncias, as vacinas gamadas. Estava aqui a minha opinião muito sossegadinha, quando o meu organismo decidiu opinar por conta própria e abriu a porta ao covid. É verdade! Até um tipo com a opinião hibernada pode apanhar o tal vírus. E já que o tinha no corpo, tentei construir alguma opinião sobre o mesmo. É transmissível porque peguei à malta toda aqui de casa. Bate certo. Sintomas de gripe e não de uma gripezinha,…senão olham-me de lado e chamam-me Bolsonaro. Afortunadamente estivemos fora do circuito da febre alta, falta de ar, fila de ambulâncias, cuidados intensivos. Descobri no entanto um sintoma de que não ouvi nenhum opinante a falar: o sintoma da “reação ao tipo infetado pelo vírus”. Ao comentar com alguém que tive covid, senti um suster respiratório, um ligeiro deslocamento à retaguarda e um olhar de quem está prestes a ser placado por um avançado da Nova Zelândia (não vá o gajo ainda ter resquícios do covid e espilrar-me para as vias aéreas através dos buracos da máscara). Afinal eu faço parte daqueles números terríveis anunciados todos os dias no ecrã televisivo, antes das filas das ambulâncias, dos ventiladores e das vacinas da Pfeizer. Nesse momento a minha opinião sobre o vírus parece começar a despertar. Não sobre o vírus do covid, mas sobre o vírus do ecrã. O ecrã que nos bombardeia com o medo; um medo que se entranha no subconsciente e que está para ficar. O medo de pegar o vírus aos pais que se isolam cada vez mais; o medo do convívio com os amigos que se afastam cada vez mais; o medo cada vez maior de sair à rua sem respirar pela frecha do algodão. Já não tenho pachorra para tanto ecrã que alimenta este medo que tolhe o discernimento e acomoda a resignação. Decidi apagar o ecrã da TV na hora das notícias e desligar-me das publicações do Facebook . No silêncio, longe da bazuca opinante, talvez uma opinião lúcida sobre tudo isto consiga emergir de novo. E eis que surge o teletrabalho e o ensino à distância em frente ao… ecrã. Depois do surto de covid 19, os quatro cá de casa mergulharam de cabeça no vírus do outro ecrã. O cenário de 4 pessoas na crença do ensino à distância partilhando as 2 divisões da casa bafejadas pela net, cruzando matérias sonoras de Matemática, Educação Física, Inglês, Atelier de Narrativas e Linguagens Audiovisuais e vídeos no instagram, é claramente um teste às equações de equilíbrio familiar mais complexas para o qual ainda não há vacina no horizonte. Ainda bem que a minha opinião voltou a submergir e a esperar por melhores dias. Senão corria o risco de opinar à bruta neste espaço de opinião.