quinta-feira, 10 de julho de 2008

A ditadura do flash



Fui ao casamento de um amigo. Aliás, só um amigo consegue fazer com que suporte, de ânimo menos pesado, um casamento. Pensando bem, um amigo que se preze, não se casa, só para não ter que fazer os amigos gramar o frete da boda. Bom, mas lá fui, antecipando aquele longo dia sentado à mesa num obsceno exercício de gula, entre 4 pratos e múltiplas batidelas com os talheres nos copos à espera do beijo público dos noivos. Quando quis cumprimentar os noivos, dei de caras com um dos tipos de maior poder na sociedade portuguesa. Não, não falo do Américo Amorim ou do professor Marcelo, mas do fotógrafo do casamento. Barrou-me o caminho com as suas costas, dizendo: “Agora não, que tenho de fazer uma fotografia com o altar ali de fundo!” É, de facto, ele quem manda naquilo tudo; É ele que faz esperar o noivo no altar; é ele que diz ao padre onde se ajoelham os noivos; é ele que decide quando os convidados podem começar a trincar as iguarias. Mas vamos por partes. Primeiro a parte das fotografias da noiva em cima da cama, com o vestido sobre a colcha de renda. A noiva; a noiva com os pais; a noiva com os padrinhos; a noiva com o afilhado; a noiva com a irmã mais velha; a noiva agarrada ao urso de peluche. A noiva trinca um rissol, dá um gole no champanhe… “Isso! de perfil,...deixe os lábios no rebordo do copo!...que foto fantástica com a luz a bater no espumante!” reforça o artista. A noiva apressa-se a sair de casa dos pais. “Um momento! Alguém a segurar no vestido!...assim,… estica, isso mesmo,…agora estica mais para a direita,…isso, mantém,…agora o sorriso… o senhor agora não passa! ninguém passa no portão!…Isso! tudo quieto!.. pronto já está!” . Ao sinal do líder de máquina a tiracolo, toda a malta já pode correr para os carros. A noiva entra no carro. “Não entra ainda! …espera!...quem segura a porta?...tem de ser o pai!...onde está o pai?...agora entra devagar para eu conseguir apanhar todo o momento!”…o momento(?). Sim! O da entrada no veículo antes do enlace. O noivo já espera há meia hora, mas é da praxe a noiva não ser pontual. Porquê? Por causa do fotógrafo. Chega à igreja, o (outro) momento: a saída do carro. “O pai!...atenção ao vestido bem aberto,…bom,… a tapar bem a escadaria!...o pai do lado direito da noiva, isso!...mas com um sorriso senhor António,…afinal é a sua filha que se vai casar, homem!...”. O noivo olha para ela com ar de quem está farto de esperar e ela sorri: “sabes, …o fotógrafo”. O casamento decorre, sempre com a câmara entre o padre e os noivos num frenético alvoroço. A entrega da aliança é feita devagar para que não falte pitada à reportagem fotográfica e videográfica. A cerimónia decorre mais rápido do que previsto; o padre despachou-se; vamos ao que interessa!... ao petisco. Mas, e as fotografias dos noivos em frente ao altar? com os pais, padrinhos, amigos,… Toda a gente sai para a cena do arroz na cabeça e espera cá fora ao sol. Continua a espera…então os noivos? saem ou não saem? …está ali o fotógrafo a disparar mais umas poses “Isso, agora com um beijo na testa!...ali mais junto da sacristia!”. Parece que já vêm os noivos, é agora o arroz, vai ser agora que a malta vai mandar!…Atenção! “Pára!”...grita o homem da máquina… “Só lança o arroz quando os noivos passarem no segundo degrau!”. Então a malta já não pode mandar o arroz quando quer? O arremesso para ser lúdico, tem de ser espontâneo e com força, para se embrenhar no penteado da noiva; não pode obedecer a restrições. “Mas é por causa do efeito estético; a imagem fica mais conseguida”.
No restaurante dá-se a expressão máxima do poder do fotógrafo. Encosta os noivos a uma sebe, bem iluminada pelo sol, e vai disparando ininterruptamente, indiferente ao suor das vítimas e à fome dos convidados das vítimas. Ele domina claramente a situação. 200 pessoas à espera para trincar a vitela assada e os noivos ali com um sorriso nos lábios esperando por mais uns tiros do esquadrão de fuzilamento. Está tudo ali, com vontade de mandar um croquete à cabeça do ditador, mas quando ele se vira, ouve-se alguém: “Eu também quero uma com os noivos!”. Ao fim de duas horas à soleira com o permanente sorriso nos lábios, os noivos sobreviveram apenas com ténues sinais de desidratação e rigidez facial. Os convidados, esses, já tinham enfardado todos os croquetes e rissóis das entradas e nem sequer pensavam já na vitela e no bacalhau com natas. Quando o fotógrafo decide libertar os moribundos noivos à beira da insolação, já só nos apetece o cafezinho.
Ainda não foi desta que consegui chegar à sobremesa. Depois de tanto frito no bucho, fiquei-me pelo primeiro prato. Mas fui ao casamento do meu amigo e aguentei até onde pude. Ele vai perdoar a minha retirada mais cedo do combate; compreenderá as minhas limitações. Agora, no repouso do lar, temo que a qualquer momento surja a pergunta que não terei arcaboiço para responder afirmativamente : “Olha, não queres ver o vídeo do nosso casamento?”.

Um comentário:

Anônimo disse...

Olha Miguel,
ninguém fez uma descrição tão tenebrosa de um casamento, o que prova que a seguir à tempestade vem a bonança.
Já me esqueci como é que foi o meu, mas não foi tanto assim, pelo menos eu só tenho dez fotos do meu casamento... e ainda dizem que o casório está em vias de extinção...