
Enquanto esperava para levantar dinheiro numa caixa Multibanco, estava entretido a ver umas imagens de João Garcia no topo do pico de Kangchenjunga, a 3ª montanha mais alta do mundo, a agradecer o apoio do banco que lhe patrocinou tão relevante façanha. Levantei a massa, e, ao olhar para o talão do saldo disponível, fiquei a cismar no tipo lá em cima com a respiração ofegante e com cara de quem já respirava um arzito menos rarefeito. E pus-me a pensar na enorme aventura que representa, depois de olhar para o talão do saldo disponível, arranjar forma de chegar ao fim do mês respirando um ar minimamente oxigenado. Não menosprezando a difícil subida a picos míticos como Evereste, Annapurna, K2, Kangchenjunga, a montanha que a maioria dos portugueses tem de escalar entre dois vencimentos está bem ao nível das anteriores. Epá, não achas que estás a exagerar um bocadito? Então não viste que o nosso mais distinto escalador até congelou os dedos e o nariz ao subir o Evereste devido ao frio extremo! É verdade, sim senhor, mas também nós vimos congeladas as nossas…progressões e provisões, com a agravante de não percebermos bem as razões da mudança para um estado sólido mais inerte. Ao menos o alpinista sabe que foi do frio, agora a malta vê a massa congelada mais dois anos, porquê? porque o ministro acordou com um torcicolo? porque teve de nomear mais umas comissões para avaliar outro local para o outro aeroporto? porque alguém disse mais uma graçola sobre o diploma do primeiro ministro? Não sabendo as causas, não temos maneira de nos protegermos contra este tipo de congelamento; não há luva, casaco ou gorro que nos valha.
Estou agora a matutar sobre o acampamento base que os alpinistas utilizam para adaptação e aclimatização. Vão subindo e descendo até se adaptarem à falta de oxigénio na alta montanha. Os aventureiros da escalada quotidiana, assim que põem a vista no ordenado, começam logo a escalar rumo ao “entesamento” sem tempo para aclimatização. Parece que existem seres ocultos, esperando ansiosamente por esse dia, no campo base, para nos tirarem o oxigénio sem sequer termos tempo de chegar ao campo 1 de adaptação. Casa, luz, água, escolas, telefone, comida, e mais comida, ténis para o filho que jogou demais à bola e rebentou os que tinha semi-novos, o imposto, o outro imposto, o seguro,…já nos falta o ar e ainda não chegámos nem a metade da subida. Então e os riscos de avalanche, a queda em buracos ou a derrocada de pedras a que estão sujeitos os alpinistas? Haverá maior avalanche que um tipo, depois de já ter conseguido pagar muitas das contas a essas sugadoras entidades, partir a embraiagem do carro?...também nunca percebi porque é que as embraiagens se partem sempre na fase em que um indivíduo está quase teso. Cair num buraco?...será depois de ter pago a embraiagem ao mecânico aparecer-lhe uma dor insuportável no dente do siso e ter de ir a correr para o dentista. Derrocada de pedras? Que tal depois de pagar a conta no dentista, chegar a casa e verificar que o esquentador deu o berro?...depois do esquentador estar operacional e já dar chama, a nossa chama está nas últimas, pronta a sumir-se de vez. Ainda nos faltam 8 dias para receber e já começámos a comer as latas de feijão frade que tínhamos guardado para uma emergência. Andamos muito devagar de carro para não gastar gasolina e estamos fartos de ouvir o filho repetir a frase mais batida: “pai, quando tiveres dinheiro podes-me comprar aquela tartaruga ninja?...”
Ao contrário de muitos alpinistas que chegam aos grandes picos com a ajuda de oxigénio artificial, João Garcia continua a sofrer da sua privação para os alcançar, aliás, tal como nós. Existem momentos no mês em que gostaríamos de nos virar para a nossa companheira de escalada e pedir-lhe oxigénio, sem corrermos o risco dela nos responder: O quêêê?...Ah,ah,ah! Ela está ali, a 8 dias do final da escalada, tão ofegante quanto eu, em busca de um pouco de oxigénio. Quando chegamos finalmente ao cume, ao dia do vencimento, sabemos que não podemos baixar a guarda, apenas contamos com umas quantas bombadas de oxigénio regenerador para, logo ali, iniciar a próxima subida.
Fui levantar dinheiro no Multibanco e tinha gostado de ver ali, depois do João Garcia anunciar a sua aventura, o António Joaquim, operário fabril, que recebe 400 euros ao mês empunhar a bandeira portuguesa e dizer ofegante: Consegui sobreviver a mais uma aventura, das doze escaladas que me propus conquistar este ano! Agradeço ao banco que patrocinou esta minha sensação de falta de ar permanente com as suas taxas de juro bonificadas. Espero brevemente pela vossa próxima ajuda, olhem, podem começar por aquela de cobrar taxa por cada operação no Multibanco…a ver se consigo aguentar mais tempo sem oxigénio.